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Tupungato: Solidão na Montanha Texto: Pedro Hauck A história do Tupungato sempre se viu atrelada à do Aconcágua. Numa das primeiras vezes em que a montanha foi documentada, o naturalista inglês Charles Darwin a confundiu com o teto dos Andes. Esta confusão ficou gravada no diário do jovem cientista e até hoje há pessoas que acham que o Aconcágua seja um vulcão devido a este mal intendido. O alpinista que chegou em seu cume pela primeira vez foi o mesmo que escalou o Aconcágua pela primeira vez. Em 1897, apenas 1 mês depois de escalar o Aconcágua, Mathias Zubbringen conquistou o Tupungato. O fato do Tupungato ser menor que o Aconcagua, no entanto, lhe reservou um destino bem diferente de seu imponente vizinho. Enquanto no Aconcagua milhares de pessoas do mundo todo tentam de alguma forma chegar ao cume, e de fazer seu marketing pessoal, o Tupungato é uma montanha esquecida. Ele é freqüentado por poucos montanhistas à busca aventuras em um espaço ainda livre das interações do homem, assim como fizemos eu e meu amigo argentino Maximo Kausch no verão de 2003. Nossa chegada à montanha, no entanto, não poderia ter sido pior. Poucos dias antes, ventos brancos e tempestades violentas haviam desolado as montanhas da região, destruindo barracas no Aconcágua e impedindo que montanhistas chegassem aos principais cumes. Quem regressava para a cidade nos contava dos maus momentos que haviam passado lá em cima. Para piorar, fiquei sabendo que no Tupungato havia morrido um alemão, e que ninguém naquele ano havia chegado no topo da montanha. Ainda assim, estávamos dispostos a arriscar.
Os dias seguintes foram uma verdadeira tortura. Com as mochilas carregadas com todas as provisões para mais de 20 dias de escalada, estávamos carregando mais de 40 quilos cada um. Em todas nossas expedições até hoje, procuramos sempre estabelecer um estilo "limpo" de escalada, fazendo tudo por nossa conta e sem contratar animais para carregar nossas mochilas. Muitas pessoas não entendem por quê preferimos sofrer tanto e nos criticam por nos arriscarmos tanto. No entanto, eu e Maximo compartilhamos a idéia de que uma escalada só é válida se for empreendida pelos próprios esforços e que a montanha deve ser preservada no seu estado natural, inóspita e livre das alterações humanas. Obviamente o estrume das mulas e a destruição que elas causam a estes ambientes tão frágeis também são impactos causados pelo homem e cabem à nós evitá-los.
Daquele lugar, podíamos ver a tal parede pela primeira vez, ao vivo. Planejamos então fazer uma caminhada de reconhecimento ao nosso objetivo. Para tanto, subimos a encosta do vulcão Tupungatito e observar melhor o acesso, além da extensão inteira da parede. Fizemos esta primeira excursão pelo Tupungatito subindo por uma grande língua de rocha vulcânica resultante da última erupção do vulcão.
Após estabelecer o acampamento no contraforte do Tupungatito, planejamos uma ascensão até o cume do vulcão pelo meio de uma língua de gelo que levava diretamente até o topo. Começamos a escalada pela manhã e depois de uma árdua ascensão pelo meio de morenas, chegamos até a língua de gelo, que na verdade era uma língua de penitentes, uma estranha e bela formação de gelo esculpida pelos ventos que formam inúmeras agulhas de até 1 metro e meio de altura.
Mais dois dias e estávamos de volta à Piedra Azul. Apesar de termos voltado quase todo o caminho, ainda estávamos contentes, pois tínhamos grandes chances de chegar no cume. Uma conferida em nossos estoques de comida, porém, mudou completamente nosso ânimo. Depois de dez dias na montanha, havia menos de uma semana de comida disponível, o que era ineficiente para se chegar ao cume e voltar. Contudo, não nos demos por vencidos e acreditando em nossa boa resposta fisiológica no ataque ao cume do Tupungatito. Achamos que racionando comida e fazendo uma ascensão rápida, poderíamos fazer o cume e voltar com a comida que tínhamos. O problema maior era se o tempo, que até então estava perfeito, resolvesse mudar e uma tempestade nos encurralasse lá em cima. Uma vez com comida contada, não podíamos dar ao luxo de perder um dia sequer. Se, de repente, uma tempestade, como nos dias anteriores à nossa chegada na montanha, se formasse, as consequências poderiam ser catastróficas.
Afortunadamente, havíamos solucionado nosso problema de falta de comida, mas ainda assim, faltava muito para chegarmos ao cume e o tempo dava sinal de piora. Depois da despedida de nossos amigos galegos, subimos com os alemães até os cinco mil metros, na crista que separa a Argentina do Chile. A crista não separava somente os dois países, mas também duas massas de ar. No Chile o tempo estava limpo e ventava pouco, na Argentina o contrário, ventava um absurdo e com o vento vinham nuvens carregadas que tentavam vencer uma outra barreira orográfica mais à leste, o Cordón del Plata. Desta maneira, ficávamos no fio da navalha assistindo angustiadamente a formação de uma tempestade que poderia se formar nos dias seguintes. No dia que avançamos até os 5500 metros, para fixar nosso último acampamento, os alemães que tiveram dificuldades em se aclimatar, desistiram e desceram. Acampados em uma altitude mais elevada que o cume do vulcão Tupungatito, chegou a nossa vez de sofrer com o chamado "mal da montanha". Maximo, que até então havia tido um desempenho fenomenal, carregando mais peso nas costas e andando muito mais rápido que eu, sofria com as dores de cabeça. Estas aumentavam enquanto os ventos fortíssimos castigavam a lona da barraca fazendo com que ele delirasse de dor. Estávamos isolados e sozinhos, com os ventos anunciando um provável isolamento ainda maior! Perdemos mais um dia com a indecisão entre descer para a segurança e atacar o cume, que estava há um passo de ser alcançado. Com tudo que havíamos passado para chegar lá, era uma decisão cruel. Porém, ao amanhecer de outra péssima noite para Maximo, eu já estava arrumando as coisas para descer quando de repente ele se levantou e começou a vestir as roupas para atacar o cume. Mesmo se sentindo péssimo, Maximo não quis desistir sem antes tentar. Assim então, nos apressamos em sair, para chegar logo lá em cima e voltar rápido para aliviar nosso sofrimento, uma vez que não víamos a hora de tomar banho e comer algo decente em Santiago.
O sol chegou quando começamos a subir uma parede de gelo. Em pouco tempo, fizemos uma escalaminhada em uma parede com uns 15 metros e entramos em uma estreita caneta, que ocultou o sol. Esta canaleta, embora fosse fácil tecnicamente, apresentava muitas cascalheiras de morena e a neve tornava a progressão mais cansativa e difícil. Os espanhóis haviam desistido de escalar naquele mesmo ponto e deixaram para trás alguns pedaços de corda fixa que ajudou um pouco a subida. A canaleta acabava em um platô coberto por rochas vulcânicas. Na elevação formada por estas rochas, provavelmente ficava o ponto mais alto da montanha. Embora fácil, demoramos bastante para vencer este último trecho, porém no topo descobrimos que ainda havia uma elevação maior, em um outro monte à nossa frente.
No final, aquilo que achávamos que iria ser nossa principal dificuldade (a falta de comida e o mal tempo) acabaram não atrapalhando nossos planos. Porém, nossa suposta boa aclimatação, que achamos que seria nosso "ponto forte" mostrou ter sido insuficiente. Concluímos que em expedições para estes lugares mais isolados na cordilheira dos Andes, o planejamento nem sempre sai como queremos e é alta a chance de algo der errado. Por sorte nossa, nosso planejamento errado acabou dando certo. Empolgados pela visão maravilhosa e toda a adrenalina descarregada depois de toda aquela odisséia, nem nos demos conta que naquele verão fomos os primeiros à chegar no cume da montanha. Veja também:
Fotos
Tupungato
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