Diário da Expedição Kollasuyo

Texto: Pedro Hauck

Terça-feira, 07 de Agosto, 2007

Expresso Huayna Potosi

Amanhecer durante a escalada

Sair de La Paz às 15:00 de sábado, chegar ao refúgio Huayna Potosi, à 4700 metros em Zongo, Bolívia às 17:00 horas. Acordar 1:47 da madrugada, começar a caminhar às 3 horas. Chegar ao cume de uma montanha de 6088 metros às 13:00 horas no domingo e regressar onde tudo começou às 19:00 para às 21:00 horas estar em um Hotel no centro da cidade... Este é um fim de semana montanhístico boliviano!
 
Um dos trechos inclinados

Nunca havia escalado uma montanha andina tão rápido! Esta ascensão expressa no Huayna Potosi até me pareceu um programa de fim de semana na Serra do Mar no Paraná, ou uma escaladinha expressa na Pedra do Baú em São Paulo. De fato, isto só foi possível por que estávamos super aclimatados e por que o Huayna Potosi não era novidade tanto para mim quanto para o Marcio.

Marcio escalou esta montanha em 1999 com uma expedição de agência. Um ano mais tarde, ele esteve com seu amigo Mad denovo na Bolívia, mas não chegou ao cume do Huayna. Eu estive na montanha com o Maximo e o Fábio no verão de 2001, com neve até a cintura e sem equipamentos para pelo menos tentar o cume. Voltei para a região em 2002 e fiz o cume do Huayna Potosi na época correta, mas com condições de tempo desfavoráveis.
O afiado cume do Huayna Potosi

Desta vez, não era para tentarmos este cume, pois já estamos no limite do tempo para voltar ao Brasil. Entretanto, era impossível resistir a esta escalada tão linda. Foi por isso que decidimos fazer uma escalada expressa, sem acampamentos, fazendo o ataque ao cume da base da montanha.
Marcio no cume do Huayna Potosi

Foi uma odisseia de 16 horas! Esforço até o limite do corpo. Marcio que já correu dezenas de maratonas, já pedalou do Rio até Natal, Belém e Buenos Aires, chegou a ficar sem energia no corpo e apelar ao velho e calórico chocolate para se ¨abastecer¨. Deu certo e enfim escalamos uma montanha juntos!
Pés de Pedro, mostrando a inclinação da rota

Escalar o Huayna Potosi não é grande coisa. Esta montanha é a mais popular da Cordilheira Real na Bolívia, tanto que ela é a única a ter refúgios. Mesmo assim, ela não é tecnicamente a mais fácil. Montanhas como o Illimani, Parinacota e até mesmo o Sajama, tem rotas normais que são meramente trekking de altitude. Diferentemente o Huayna Potosi tem dois trechos bastante inclinados, sendo que o último, que leva até o cume, tem 200 metros de altura e uma inclinação de aproximadamente 45 graus, que faz necessário o uso de piolets e corda, pois um erro pode resultar numa queda grande em direçao à uma enorme greta.
Caminho ao cume

Nesta última parede, escalamos em estilo francês, ou seja, fomos encordados mas sem bater proteçoes e sem fazer reuniões, apenas escalando simultaneamente. Como eu estava com meus piolets técnicos, se o Marcio caísse, eu iria segurar sua queda. Neste tipo de escalada, o guia (eu) não pode cair!

Assim fomos e rapidamente chegamos ao afiado cume do Huayna. enfim, eu pude ter a maravilhosa vista do topo desta montanha para o resto da Cordilheira Real, privilégio que não tive quando escalei esta montanha a 5 anos atrás. Do cume, avistamos todas as outras montanhas mais o lago Titikaka, o altiplano e a cidade de El Alto.
Auto-foto de Pedro no cume

A descida foi tranquila e sem segredos. Montei um rapel com uma estaca de neve para o Marcio descer. Depois, quando ele já estava na fim da corda, me dava uma segurança, recolhendo-a enquanto eu desescalava a parede. Fizemos isso rapidamente e enfim já estávamos na base, restando somente regressar caminhando (e quanto caminhar!) até a estrada, para pegarmos o carro e voltar para a cidade depois de nosso fim de semana boliviano.

Estamos agora de volta à estrada. Serão alguns milhares de quilometros até o Brasil.

Aguarde noticias!

Quinta-feira, 02 de Agosto, 2007


Escalando o Pequeño Alpamayo

 
Lago Chiar Khota

O Alpamayo é uma montanha de 5950 metros localizada na Cordilheira Blanca no Peru. Tornou-se famosa por ter sido considerada a montanha mais bonita do mundo por algum tempo. Antes de vir para a Bolívia, minha intenção era escalar esta montanha peruana com o Maximo e o Fabinho. Os planos, no entanto, não deram certo e por acaso deu certo de eu vir para cá com o Marcio.

O (pequeno) Alpamayo boliviano fica localizado na Cordilheira Real, que é a cadeia de montanha oriental deste país, erguendo-se entre o altiplano e a baixada amazônica. É uma região formada por montanhas não vulcânicas, ou seja, são montanhas dobradas, falhadas e soerguidas, muitas das quais tem altitudes superiores à 6.000 metros, como o Illimani, Ancohuna, Illampu, Huayna Potosi, Chachacomani e Chearoko.

Dentro da Cordilheira Real, o Pequeno Alpamayo fica localizado no grupo Condoriri, que são montanhas de baixa altitude (para os padrões bolivianos!) muito delas rochosas, porém circulada por geleiras, que faz que alguns cumes desta região sejam de grande dificuldade para a escalada.

Escolhemos escalar no grupo Condoriri pela facilidade de acesso e pelo conforto do acampamento base, que fica ao lado do lago Chiar Khota, num lugar muito agradável com gramado e bem protegido do vento, embora numa altitude de 4600 metros.
 
A farte inclidada no caminho ao cume do Pequeño Alpamayo

O acesso ao acampamento base se faz por Tuni, que é um vilarejo de índios Aymará ao lado de uma represa que abastece La Paz de água. Lá negociamos uma mula para carregar nosso equipamento e começamos nossa caminhada rumo ao lago Chiar Khota. São apenas 10 quilômetros que separa a vila do acampamento, uma distância curta para o montanhismo.

Uma vez no acampamento base, fizemos uma caminhada de reconhecimento da rota para o Pequeno Alpamayo, que não é inteiramente avistado desde a base, pois ele fica atrás do Nevado Tarija. A intenção era na verdade fazer um treino de escalada em gelo, mas as paredes de gelo estavam tão longe que não pudemos fazer nada a não ser vê-las à distância.

No dia 1 de Agosto acordei por volta das 5 horas da manhã e esquentei o resto do jantar da noite anterior. Não fazia muito frio para o padrão das montanhas bolivianas e assim pude me preparar sem maiores problemas fora da barraca. Cansado e sem dormir a alguns dias. Marcio ficou no acampamento, enquanto que eu fui a caminho da geleira do Nevado Tarija.

Em pouco tempo cheguei à base do Nevado Tarija e comecei a subir sua encosta, que em alguns pontos chega a ter uma inclinação razoável e grandes gretas, fácilmente reconhecidas. Em pouco tempo, já estava no cume desta montanha, a 5340 metros, o primeiro lugar de onde se avista o Pequeno Alpamayo por inteiro.
Auto-foto de Pedro no cume

A visão era espetacular, a montanha é um espigão elevado extremamente escarpado por todos os lados e todo nevado. A visão que não agradava muito era a o caminho que me levava do Tarija à esta montanha. Eu teria que descer uma escarpa rochosa para chegar à um colo, subir um morrote e depois escalar uma crista afiada para chegar ao cume do Pequeno Alpamayo.

Haviam dois grupos em minha frente escalando a montanha, ambos com guias e com cordas, eu, sozinho, não tinha ninguém para me dar segurança, ou seja, cair era impensável.

Rapidamente desci a encosta do Tarija e comecei a subir a crista do Pequeno Alpamayo. Cruzei com uma das equipes que desciam a montanha bem no momento em que eu escalava a parede mais inclinada, com cerca de 55 graus de inclinação, tive que esperar alguns minutos numa situação delicada, porém nada demais.

Subir uma parede como esta requer atenção, principalmente quanto se está com apenas um piolet de travessia, é preciso fixar bem os pés no gelo e depois fixar bem o piolet e prosseguir vagarosamente. Assim, de pouco em pouco cheguei ao cume da montanha, que é um platozinho bem pequeno e afiado, de lá pude ver várias montanhas que eu já estive, como o Illimani e o Huayna, foi maravilhoso... as fotos podem contar a história melhor do que eu.

Sábado, 28 de Julho, 2007

Sajama
Caminhada de aproximação ao acampamento base do Sajama com estranhas formações vegetais chamadas de Yareta.
Depois de voltar do Parinacota, descansei um dia e na segunda 23 voltei para outra montanha, o Sajama, a mais alta de toda a Bolívia.

Novamente infligi a tradiÁão "gentedemontanha" e fui para a montanha com mulas. Entretanto tive que voltar no dia seguinte para Vila Sajama, pois para economizar "peso" na mochila, eu peguei uma barraca pequena do Marcio que se transformou num transtorno, e assim voltei continuarmos a ascensão com uma maior.

O tempo havia melhorado muito, os ventos haviam acalmado e o cÈu estava azul, sem nuvens.

Toda a facilidade de acesso ao acampamento base do Sajama È inversamente proporcional à dificuldade de acesso ao acampamento avanÁado. Do base ao avanÁado são cerca de 1400 metros de desnível, tendo que andar em um terreno pedregoso o qual vocÍ dá dois passos e desce um. Infligindo totalmente as tradiÁão (que vergonha!) um porteador carregou minha mochila atÈ o próximo acampamento.

Nosso acampamento base e a vista para o Sajama.
Estávamos com o cume na mão, era uma combinaÁão de fatores que nos deixava extremamente à vontade: Estávamos descansados, o tempo estava bom e o cume ficava apenas 800 metros verticais de nosso acampamento.

Como montanhismo È uma caixinha de surpresas, no dia seguinte quando saímos para fazer ataque ao cume, fez muito frio e ao contrário do que parecia, a rota normal estava exaustivamente difícil de ser escalada devido ao derretimento do gelo que esculpiu da mesma forma que o Parinacota um mar de penitentes.

Ao regressar ao acampamento, a calmaria dos ventos tinha acabado e nossa chance de ir ao cume tambÈm, pelo menos pelos próximos dias... Por isso acabamos descendo.

Foi um tanto quanto sofrível caminhar com aqueles ventos, pois no Sajama havia uma poeira muito fina no chão e nosso corpo ficou empanado depois de algum tempo. Havia uns 10 dias que eu não tomava banho com toda a poeira que acumulou em meu corpo, meu estado estava deplorável.

Foi triste para mim perder a chance de escalar o Sajama. Há muito tempo tinha vontade de escalá-la. Mas acho que minha sina mesmo È ser um "gentedemontanha". Pela primeira vez na minha vida fui escalar num "estilo gringo", e não deu certo.


Sexta-feira, 27 de Julho, 2007


Escalando o Parinacota

Auto retrato no cume do Parinacota sob fortes ventos!
Depois de um longo tempo sem postagens, vamos atualizando as notícias, após nosso regresso à civilização.

Após dormirmos uma noite no nível do mar em Arica no Chile voltamos à Cordilheira subindo atÈ a Bolívia pelo passo internacional de Chungara. Esta fronteira È excepcionalmente bonita, pois muitos vulcões da Cordilheira Ocidental são o limite natural entre os dois países.

Na lista das montanhas da região, figuram o Sajama, Pomerape e Parinacota. Os dois óltimos muito próximos de si são conhecidos como Payachatas e o outro È simplesmente a montanha mais alta da Bolívia. Estas montanhas tem respectivamente 6542, 6282 e 6342 metros de altitude!

Eu já conhecia a região de outra viagem que realizei pela Bolívia em 2002, quando junto com o Maximo escalamos o Pomerape. Nesta ocasião realizamos uma verdadeira travessia, escalando por um lado e descendo por outro. Foram dias exaustivos, já que estávamos há bastante tempo escalando montanhas bolivianas e fizemos tudo no melhor estilo "gentedemontanha", ou seja, se ferrando bastante.

Desta vez com o Marcio, estávamos mais equipados e com um grande diferencial, com carro. Assim chegamos no dia 17 em Vila Sajama, um vilarejo muito pitoresco, sem energia elÈtrica. De lá se faz o acesso ao Parque Nacional Sajama que abriga todas estas montanhas.

Chegamos tarde, mas logo conseguimos um lugar para dormir, um pequeno chalÈ muito agradável, o Hostel Sajama, que pertence à um casal boliviano, a Ana e o Eliseo.

O vilarejo pouco havia mudado desde que estive na região há 5 anos atrás, com a diferenÁa que várias casinhas de adobe agora tinham pintado em sua fachada "Hostal", "Hotel" ou "Hosteria". Uma dessas casinhas era agora o "Hostel Oásis", que em minha óltima visita era um restaurante em formaÁão, sua dona era uma "Cholita" simpática que nos deixou dormir no chão em nosso regresso do Pomerape, quando estávamos exaustos depois da escalada.

Hoje, essa cholita usa roupas ocidentais, tem dois carros 4x4 e um hotel para 20 pessoas. Tudo isso graÁas ao turismo de escalada, que se desenvolveu muito nesta meia dÈcada dando origem a todos estes hotÈizinhos e a várias facilidades, como guias, mulas e porteadores.

Enquanto combinávamos as facilidades para nossa escalada no Parinacota, o Payachata que eu ainda não havia escalado, conhecemos um americano que tinha o mesmo interesse que nós, Keith, com quem combinamos em ir juntos.

No dia seguinte lá estávamos nós trÍs na trilha para montanha. Para mim, aquela paisagem era bastante nostálgica, já que em minha óltima viagem pela Bolívia foi quando eu conheci minha namorada, a Vivian.

ComeÁamos o dia devagar, acompanhando a mula que carregava nossas mochilas, menos Marcio, que andando mais rápido, sumiu na frente de todos. O arriero que conduzia os animais, ao invÈs de fazer o caminho que eu havia feito meia dÈcada antes, foi a outro acampamento mudando completamente de direÁão, de forma que não vimos mais o Marcio pelo resto do dia.

Fizemos a opÁão de continuar o caminho, uma vez que se nosso amigo seguisse atÈ o acampamento e ficasse nos esperando sem sua mochila e barraca, iria ter uma noite muito desagradável.

Chegamos ao acampamento e o Marcio não estava lá. Somente no dia seguinte, atravÈs de guias ficamos sabendo que o Marcio estava bem, embora com uma bolha no pÈ, o que o deixaria fora da empreitada no Parinacota, assim, eu e Keith combinamos em atacar o cume desde aquele acampamento, aos 4700 metros de altitude na madrugada do dia seguinte. A amplitude atÈ o cume cerca de 1600 metros era grande, mas não tínhamos outra opÁão, pois o retrocesso do gelo na região È tão grande que não existe neve no acampamento mais alto e já que tínhamos levado 10 litros de água com as mulas, era mais prático ficar no mesmo lugar do que ter que carregar toda a água nas costas.

Assim, acordamos ás 4 da manhã no dia 21 e fomos lentamente montanha acima. De princípio atravessamos um vale seco atÈ um filo que liga o Parinacota ao Pomerape.

Keith andava muito mais devagar que eu. Em uma das paradas que fiz para esperá-lo minha mão ficou muito fria, pois o sol ainda não tinha nascido. Percebendo que nosso ritmo era bem diferente, Keith concordou que era melhor para ambos andarmos em nosso próprio ritmo e assim nos afastamos.

Vista do Pomerape desde o cume do Parinacota.
De fato a montanha era muito fácil, com pouca inclinaÁão e nada de perigo. O fácil entretanto, se tornou exaustivo, quando o vento comeÁou a mostrar sua cara.

Vento e rocha solta, essas eram as dificuldade no comeÁo. Logo, após alcanÁar os 5800 metros comeÁaram os penitentes que são agulhas de gelo formadas por ventos que È a forma final de destruiÁão de uma geleira.

Atravessar os penitentes com os ventos se tornou em um exercício penoso, pois as rajadas de vento quase me jogava ao chão. Foi assim que lentamente cheguei ao cume, ou melhor ao topo da enorme cratera deste vulcão gigante.

Minha ónica vontade no momento era fugir dos ventos que vinham do oeste. Assim, decidi voltar por outro caminho pelo leste e ficar abrigado dos ventos fustigantes. De fato deu certo, entretanto, ao invÈs de descer pelo vale mais fácil, acabei entrando em um vale mais estreito e rochoso que acabava em uma cachoeira de gelo a qual tive que desescalá-la, que foi algo difícil somente devido meu cansaÁo.

Acabei chegando ao acampamento por volta das 17:00 horas. Foram cerca de 13 horas de jornada, estava exausto! Por sorte, ao regressar, encontrei-me com Keith, que não havia ido atÈ o cume. Ele estava negociando com um jeep 4x4 que acabava de deixar um grupo de montanhistas no acampamento. Acabamos voltando com o jeep para Vila Sajama, onde pude descansar para encarar uma outra montanha, a mais alta da região, o Sajama.

A escalada no Parinacota foi fácil tÈcnicamente. Mas as condições atuais da montanha dificultaram muito esta ascensão. Muita gente não acredita nas mudanças climáticas globais, mas nas montanhas andinas isso È uma realidade. O retrocesso das geleiras È um indicador destas mudanças.


TerÁa-feira, 17 Julho, 2007


Deserto

Eu com uma duna de Areia ao fundo
"O Chile não È um país, È um meridiano".

Essa frase do Marcio expressa bem a configuraÁão territorial chilena. Este estreito e longo paisinho sul-americano È dividido politicamente em doze região, sendo que a primeira fica ao norte logo na divisa com o Peru e a óltima fica no extremo sul, englobando a região de Punta Arenas e a Terra do Fogo.

A cidade de San Pedro do Atacama fica na II região. Apesar de muito conhecida pelos brasileiros por causa do turismo, È uma cidade muito pequena e inexpressiva no contexto chileno. No norte do país, as principais cidade são Calama, Antofagasta, Iquique e Arica. Estas cidades tÍm porte e populaÁão consideráveis e são quase que oásis no meio do deserto, pois mesmo importantes, não existe quase nada humano entre entre elas.

A I e a II região do Chile já pertenceram ao Peru e à Bolívia respectivamente. Foram roubadas durante a guerra do pacífico no sÈculo XIX, quando estes dois países se aliaram contra o Chile que tinha interesses em tomar as preciosas minas de salitre da região, matÈria prima para a fabricaÁão de pólvora e de fertilizantes agrícolas.

O Chile conseguiu o que queria. Ficou com as minas de salitre e deixou a Bolívia sem mar, num momento da história que È atÈ hoje martirizado pelos bolivianos. As vantagens econômicas da guerra, no entanto, não duraram muito, pois anos mais tarde os alemães iam descobrir um salitre artificial e o mundo deixou de comprar este insumo do Chile, transformando as cidades mineiras em verdadeiras cidades fantasmas, das quais a cidade de Humberstone, no meio do deserto, È um grande símbolo.

A Guerra do Pacífico só não foi um fracasso por que sem querer o Chile ficou com uma região riquíssima em Cobre, que na Època não era tão valioso, mas que em nosso mundo movido à eletricidade transformou-se na maior fonte de renda do país. Esta mina chama-se Chuquicamata, e fica na cidade de Calama.

Chuquicamata È a maior mina de Cobre do mundo! São trÍs mega crateras que foram abertas para extrair o precioso metal, das quais eu copiei uma imagem do Google Earth só para que tenham uma ideia da dimensão da maior delas.

Esta mega mina foi palco de intrigas e motivo de revoluÁão. Ela pertencia a companhia Anaconda de mineraÁão, empresa multinacional americana, bem retratada no filme diários de motocicleta. Ela foi nacionalizada durante o governo socialista de Salvador Allende e entregue novamente quando Pinochet assumiu o poder depois daquele fatídico 11 de Setembro de 1973, a data do golpe militar que atÈ hoje está presente no Chile.

O Golpe militar que pôs no poder o general Augusto Pinochet foi sem dóvida o mais violento da AmÈrica latina. Nele foram mortos mais de 200 mil pessoas, um nómero enorme para um país que na Època tinha por volta de 10 milhões de habitantes. Desse tanto, foram eliminados os pensadores críticos e os artistas. O ato que representou a limpeza do pensamento chileno foi a morte do cantor e poeta Victor Jara em pleno Estádio Nacional de Santiago, que teve suas mãos decepadas para nunca mais tocar violão.

Dizem que a violÍncia do golpe valeu a pena pelo "progresso" que o Chile vive desde a dÈcada de 1990. Entretanto viajando pelo interior do país não encontramos tal "progresso modelo" para a AmÈrica latina, pelo contrário, vemos um país onde a riqueza se concentra numa minoria e pior, se concentra no espaÁo, pois fora a cidade de Santiago o Chile È um país rural e atrasado.

Isto se verifica aqui no norte. Para se ter uma ideia, a estrada que liga Iquique à Arica que tem cerca de 250 quilômetros, não tem um posto de gasolina se quer! A cidade onde fica a maior mina de cobre do mundo È feia e cheia de pobreza e desigualdade. Há ainda outra coisa sobre o Chile contida na frase cÈlebre de meu companheiro de viagem que eu negligenciei no principio. "O Chile não È um país, È um meridiano e metido a besta".

Odeio generalizar pois isto sempre cai em redundância e achismos perigosos. No entanto, já conheci o Chile suficientemente bem, nestas 4 viagens que fiz por aqui, em meses de contato com o povo e por todo o país. Em minhas experiÍncias pude constatar que o chileno È um povo racista, machista, prÈ-conceituoso arrogante de pouquíssima educaÁão, nada de simpatia e acarismático.

"Hola" e "gracias" talvez tenham sido as palavras que eu mais escutei durante minhas viagens pelos Andes, mas no Chile tenho certeza que as palavras que mais ouvir foram na verdade frases: "Hay que pagar!" e "Es prohibido!" Sempre que um chileno se dirige a vocÍ, pode ter certeza que ele vem ou para te cobrar ou para te punir.

Em nossa viagem, não ficará marcado o Atacama que atravessamos ontem, saindo de San Pedro, passando por Calama e Iquique e chegando em Arica, na fronteira com o Peru na porta do Pacífico, ficará marcado este Chile deserto de humanidade e que ainda gosta do Pinochet.

Estamos deixando o Chile hoje. Daqui iremos novamente aos Andes. Serão quase 200 quilômetros atÈ a fronteira com a Bolívia, onde iremos escalar o Sajama e Parinacota.

Ficaremos bastante tempo sem nos comunicar, mas não se preocupem.

Assim que pudermos, provavelmente em La Paz, estaremos postando novas noticias, quem sabe boas!

AbraÁos a todos


Segunda-feira, Julho 16, 2007


De Cachi a San Pedro de Atacama

Chegando no ponto mais alto da ruta 40, a Abra del Acay
Ao saírmos de Cachi, fomos em direÁão ao norte pela remota Ruta 40, que está toda sem calÁamento. A estrada sobe o vale do rio Calchaqui atÈ chegar na Abra del Acay alcanÁando 4900 metros sobre o nivel do mar, numa altitude que nenhuma estrada da AmÈrica chega. A estrada tem uma inclinaÁão pequena atÈ o povoado de La Poma, depois ela comeÁa a subir mais bruscamente zig-zagueando as vertentes do vale fazendo curvas muito fechadas e perigosas, que ficam ainda mais se houver gelo na pista, que para nossa sorte, não havia.

O carro ia perdendo potÍncia conforme a altitude aumentava, ao mesmo tempo em que o motor se aquecia. A pouca concentraÁão de oxigÍnio no ar de altitude dificulta a combustão do motor resultando nisto. A subida ia tudo bem, atÈ que um pneu do carro furou.

Foi aí que comeÁamos a ter problemas.

Logo quando paramos o carro, ouvimos um barulho vindo do motor e logo vimos a água do radiador se esparramar no chão, o carro havia fervido. Quando tentamos abrir o capô do carro para ver o que havia acontecido, a alavanca que se usa para isto quebrou e não pudemos fazer nada, a não ser continuar a viagem com o que restava de água no radiador, e assim subimos o pouco que faltava para se chegar no Abra del Acay e comeÁar a descer.

Marcio e seu carro: " El poderoso"
Foram cerca de 40 quilômetros em estrada de terra com o carro fervendo atÈ chegar em San Antonio de Los Cobres, um milagre não ter fundido o motor. No dia seguinte fui procurar um mecânico para ver o que havia acontecido. Descobri que havia estourado uma mangueira do radiador. A ónica oficina aberta na cidade era horrível, nunca vi lugar tão sujo e cheio de de sucata, quer dizer, "peÁas".

Os mecânicos, que deviam ter uma ascendencia direta de Manco Capac, fizeram uma gambiarra para podermos voltar à Salta e assim fomos, tendo que completar o nivel de água do radiador de 20 em 20 quilômetros. Nossa arriscada tentativa valeu a pena e conseguimos chegar na cidade a tempo de poder arrumar o carro. Lá, descobrimos que foram trÍs mangueiras quebradas e não somente uma!

Depois de finalmente consertar o carro, pegamos a estrada novamente em direÁão à San Salvador de Jujuy, para adiantar nossa viagem. Sem informaÁão, fomos por uma estrada secundário horrorosa, em que a maior parte do tempo tem apenas uma faixa de carro. Para piorar, o motor esquentou denovo e tivemos que completar o nivel de água outras tantas vezes.

Em Jujuy, dormimos em um hotel super luxuoso, novidade para mim. Mesmo assim não pude dormir direito de tanta preocupaÁão com o carro. Acordamos cedo e fomos a busca de outra oficina e assim conseguimos arrumar o carro por definitivo, o mecânico anterior simplesmente não tinha apertado direito as mangueiras.

Sedentos por estrada fomos logo deixando San Salvador para trás indo em direÁão aos Andes novamente. Subimos pela estrada internacional que cruza o passo de Jama, esta, inteiramente asfaltada, ainda bem!

Dormimos nosso óltima noite na Argentina na óltima cidade deste país e lá encontramos uma família paranaense viajando de Fusca! Sorte deles, pois com um carro que refrigera o motor com o ar, eles nunca iam ter problemas com as mangueiras. Atravessamos a fronteira no dia seguinte, ontÈm. A divisa entre os dois países fica numa altitude de 4100 metros, entretanto, quando se chega ao Chile, a estrada sobe ainda mais chegando a incriveis 4800 metros de altitude, num lugar onde a paisagem estava coberta de neve. Lá havia algum perigo, por isso a estrada fica fechada das 16:00 ás 10:00.

Vulcao Licancahur nevado!
Não tivemos mais problemas com aquecimento do motor e foi uma agradável viagem pela Puna do Atacama, atravessando salares e paisagens interessantes , como a região de Tara, onde existe uma sÈrie de relevos ruiniformes numa altitude de aproximadamente 4700 metros, que È altitude do altiplano da região, provavelmente o mais alto dos Andes.

São mais de 100 quilômetros em que percorremos o altiplano da Puna, atÈ que chegamos à base do vulcão Licancahur. Lá, a estrada mergulha e desce mais de 2000 metros sem ter quase nenhuma curva. A paisagem nevada fica para trás e aos poucos vamos chegando no deserto do Atacama, quase sem cobertura vegetal numa paisagem não muito favorável a habitação humana, a não ser nos Oásis, onde existem rios ou lagoas e a umidade permite a existÍncia de árvores e outras vegetações, um desses oásis È San Pedro de Atacama.

San Pedro È uma cidade muito turística. Ela preserva sua arquitetura típica atacameña, com casas de adobe e chão de terra poerenta. É um lugar bonito com muitos gringos mochileiros. Mas está no Chile, e aqui as coisas são muito caras e os chilenos não sabem tratar bem os turistas, sabem apenas explarar os mesmos. É por este motivo que estamos indo embora daqui.

Já estamos a mais de dez dias de viagem e ainda estamos longe das montanhas que queremos escalar. Vamos apenas conhecer alguns lugares mais famosos e depois vamos pegar a estrada novamente. O objetivo agora È ir atÈ Arica e de lá subir os Andes novamente atÈ chegarmos na Bolívia. Nossa processo de aclimataÁão não está concluído.

Tínhamos a intensão de aclimatarmos no vulcão Láscar aqui perto, entretanto a estrada para lá está ruim, então por isso já vamos direto à Bolívia que È o que nos interessa.

AbraÁo a todos e assim que pudermos mandamos notícias.


Domingo, Julho 15, 2007


San Pedro de Atacama

Estamos em San Pedro de Atacama, norte do Chile, uma das regioes mais áridas do mundo.

Aconteceram muitas coisas desde que postei no blog na óltima vez, dentre elas a maior " zica" da viagem atÈ agora, o carro quebrou! Nao foi nada demais, tivemos problemas com as mangueiras do radiador, tudo consertado.

Fomos ao Abra del Acay, a 4900 metros de altitude e lá tivemos este problema. Por conta disso, nao escalamos esta montanha.

Para nao perder mais tempo viemos direto ao Chile, que continua igual, tendo que pagar caro para ouvir a prepotÍncia e arrogância dos chilenos. Nao vou postar foto pois a internet aqui È o olho da cara e a conexao È horrível.

Prometo que assim que achar um lugar melhor atualizo o blog decentemente.

Estamos muito bem mas sedentos de montanha.

Abraco a todos.


La Poma, 12 de julho (atrasado!)


Puna de Atacama

O Cerro Cachi, de 6300 metros, a maior montanha da regiao do vale do Calchaqui
No Noroeste da Argentina, a Cordilheira dos Andes faz parte de um geossistema paisagístico chamado Puna de Atacama, que È a região mais alta e seca da AmÈrica do Sul, onde existem centenas de montanhas que se elevam a uma altitude superior a seis mil metros, a maioria delas sem neve permanente. Com exceção do Aconcágua, do Huascarán e do Mercedário, as outras sete das dez montanhas mais altas das AmÈricas ficam na Puna de Atacama, e são todas vulcões: Ojos del Salado, Llullallaico, Pissis, Bonete Chico, Tres Cruces, El Muerto e Sajama.

AlÈm destas, há muitas outras com menos de 6.500 metros, como Incahuasi, Cachi, Antofalla, Mulas Muertas e outras de cujos nomes já não lembro o nome. Como o nome sugere, a Puna quer dizer altura, ou seja, È a região mais alta do deserto do Atacama. A razão para a existÍncia deste deserto está na influÍncia da corrente fria de Humboldt, na costa do Chile, e da zona de alta pressão existente nesta latitude próxima ao Trópico de Capricórnio, aliado com a elevaÁão dos Andes, que se comporta como uma eficiente barreira orográfica.

Todos estes fatores fazem da Puna do Atacama a região mais seca do mundo!

O relevo daqui È muito influenciado por eventos vulcânicos, alÈm, claro, do tectonismo, que fez muitas placas se romperem, soerguerem-se ou dobrar-se formando relevos de cristas anticlinais e sinclinais, que veremos mais para frente. Muitas destas dobras deram origem a depressões onde existem lagos periódicos. Na Època das chuvas, as águas são drenadas para o interior destas zonas arqueadas e junto com elas são transportados tambÈm sais de origem vulcânica. Na Època de seca, como agora, o nível freático destes lagos baixam significativamente e deixam aflorar seu substrato, constituído por sal, formando as chamadas salinas, ou salares, muito comuns por aqui. Apesar da paisagem inóspita, esta região È fácilmente acessível para veículos, isto porque em sua maior extensão a Puna È um grande altiplano, com poucas rupturas do relevo que desenham as chamadas "cuestas" , estas sim bastante escarpadas, como a Cuesta del Obispo, no caminho entre Salta e Cachi, e a Cuesta del Acay, que È a cabeceira do vale do Calchaqui, onde Cachi está situada e que conforma uma paisagem de prÈ-Puna, pois ali a altitude È mais baixa.

Apesar de toda esta configuração natural, a prÈ-Puna È habitada pelo homem há quase 10.ooo anos, com povos nômades primitivos que eram caçadores e coletores. AtÈ aproximadamente o ano 800 DC, pouco houve de evolução tÈcnica, entretanto, depois do ano 1.000 DC, a região foi habitada por outros povos sedentarizados que já haviam domesticado o milho e a batata (aqui existem centenas de tipos), assim como tambÈm já domesticaram a lhama, utilizada tanto para transporte como para a produção de lã. No vale de Calchaqui, estes povos falavam a língua kankan, mas, por volta do ano 1460, eles foram conquistados pelos incas e seu território foi incorporado ao Collasuyo, a região sul do impÈrio inca. Os Incas do Collasuyo foram os primeiros a subir as montanhas da Puna. Estes escaladores prÈ-colombianos tinham motivações religiosas para as ascenções.

No cume de montanhas da região, como o Llullallaico e o Licancabur, foram encontrados muitas mómias incas que indicam rituais de funerais em montanha e deixam claro a motivaÁão não esportiva para sua ascenÁão. Quase no cume do Llullallaico, que È a sÈtima montanha mais alta da AmÈrica, existe o sítio arqueológico mais alto do mundo, de onde foram retiradas trÍs mómias de crianÁas, que estão hoje no Museu de Arqueología de Alta Montaña, em Salta. O kankan foi logo suprimido pelo quÈchua, a língua dos incas, deixando um vácuo para a compreensão das toponímias regionais mais antigas, como, por exemplo, o sufixo "gasta" , existente em diversos nomes de cidades, como Antofagasta, Aimogasta, Nonogasta e Payagasta.

Entretanto, muitas das toponímias regionais são em quÈchua, que È um idioma de origem peruana. O próprio nome Cachi È quÈchua e significa "sal" . A curiosidade da origem deste nome È que os incas achavam que a neve do cume do nevado Cachi, a montanha mais alta do vale de Calchaqui, na prÈ-Puna, com 6.300 metros, era sal. Isso mostra que montanhas nevadas por aquí são raridade, enquanto que sal aflorando em grande quantidade È muito comum. Os incas estiveram por cerca de 100 anos na região, tempo suficiente para trazer e introduzir aqui a infraestrutura e tÈcnicas de Cuzco, a capital do impÈrio inca. Com isso, construíram muitas estradas, canais de irrigaÁão e terraÁas para plantio de batata e milho.

Entretanto, esta economia entrou em declínio com chegada dos conquistadores espanhóis, por volta de 1540. Depois disso, a região sofreu uma substituição de sua economia tradicional para a criação e engorda de mulas, que eram usadas no trabalho e no transporte de prata da mina de Potosí, na Bolívia. O vale do Calchaqui tornou-se rota de tropas de mulas vindas das fazendas de Córdoba, Mendoza e San Juan, ao sul, em direção às regiões de extração de prata, na Bolívia e Peru, ao norte. Assim, o vale funcionava como entreposto e a Puna, como passagem.

Por incrível que pareÁa, a economia arriera, ou seja, da criaÁão e engorda de mulas, foi a atividade principal atÈ a dÈcada de 1940, quando o vale do Calchaqui foi pela primeira vez ligado à capital, Salta, por uma estrada. A partir daí, pouco a pouco a mula foi sendo substituído pelo caminhão. Hoje, esta região vive uma fase incipiente de exploraÁão turística, onde o tradicional contrasta com o moderno, e o povo local com o turista internacional.

Mesmo em uma região aparentemente tão remota È possível dormir em um hotel confortável em povoados pitorescos, como La Poma (3.015m), San Antonio de los Cobres (3.775m) e ainda poder acessar internet por banda larga via satÈlite, alÈm de tomar Coca-Cola e ainda comer uma tradicional salteña, pastelzinho assado típico daqui. Outra coisa que achei muito curiosa por estas bandas, e que traduz bem estas influÍncias naturais no povoamento humano tradicional da região, È que na prÈ-Puna uma das matÈrias primas mais usadas na confecÁão de móveis e construÁão das casas È a madeira de um cacto, o cardon, que È a espÈcie vegetal mais abundante da região. Os cardones são cactos enormes e milenares, com indivíduos que chegam a seis metros de altura. Os povos locais cortam estes cactos e os secam, serrando em formato de tábuas, que depois de prontas adquirem um formato peculiar, com furos onde ficavam os espinhos. AlÈm dos cardones, ainda existe um outro cacto, semelhante à palma nordestina, que se chama tunilla.

A família das cactaceas existe apenas no continente americano e está presente em todas as regiões áridas e semi-áridas do continente. O estudo desta família poderá responder questões sobre como os mosaicos vegetais americanos evoluíram. Em um estudo de Guillermo Sarmiento, da dÈcada de 1970, botânico argentino que mora na Venezuela, existe uma comparação das cactaceas existentes nas diversas coberturas vegetais secas da AmÈrica. Ele concluiu que muitos cactos, apesar da proximidade e da semelhança, não guardam parentesco em grau de gÍnero, ou seja, que estas coberturas vegetais evoluíram paralelamente, mas sem trocas genÈticas entre si.

Um exemplo disso È que as cactaceas da província fitogeográfica do Monte e da prÈ-Puna, ao lado oriental da cordilheira dos Andes, nada tÍm a ver com as cactaceas do Atacama, no lado ocidental. Da mesma forma, a vegetaÁão seca do Chaco nada tem a ver com a caatinga no Nordeste brasileiro, apesar de suas fisionomias serem semelhantes.

Este estudo revelou tambÈm que ambas as formações secas guardam parentesco com as formações secas da Venezuela. Ou seja, lá teria sido a área fonte para a expansão dos cactos pela AmÈrica do Sul, e provavelmente os desertos de Chihuahua e Sonora, no MÈxico e EUA, foram os locais onde surgiram a família das cactaceas.

Aproveitando as ambiguidades do tradicional com o global, usando a internet via satÈlite que existe aqui no povoado de La Poma, em pleno vale do Calchaqui, na região fitogeográfica da prÈ-Puna, coalhada de cardones e circundada por vulcões, iremos amanhã dar continuidade ao nosso processo de aclimatação.

Faremos uma rápida ascenção a um vulcão adormecido, em verdade dois pequenos vulcões, conhecidos como Los Gemelos (Os GÍmeos). Depois, vamos subir de carro uma das grandes quebras de relevo existentes na região, a cuesta del Acay, que fica no sopÈ do vulcão homônimo, de 5.770m, que devemos escalar nos próximos dias. Todos nossos passos serão registrados aqui no Gente de Montanha. Não percam os próximos relatos, com muitas curiosidades e aulas de geografia.


Quinta-feira, Julho 12, 2007


Estrada da minha vida

A ruta 40 ao lado do rio Limay na provincia de NeuquÈm próximo a Bariloche
Ontem saímos de Cachi e viemos dormir em La Poma, um vilarejo esquecido no meio do vale do Calchaqui.

A estrada serpentea as orilhas do rio, um lugar fantástico com muitas montanhas, muitas delas vulcoes, como os Gemelos (Gemeos) um dos quais pretendemos escalar hoje.

Infelizmente nao consegui transferir minhas fotos para este computador para mostrar este lugar tao bonito e pitoresco. Mas tudo bem, fica para a próxima postagem.

Ontem, quando eu olhava o mapa do vale, me dei conta de que esta estradinha de terra pela qual estávamos andando era a famosa ruta 40, a qual já conheco de longes temps.

A ruta 40 È a maior estrada da Argentina, com 5.000 km de extensao. Ela sempre beira o sopÈ da cordilheira dos Andes, indo desde a fronteira com a Bolívia atÈ o estreito de Magalhaes. Esta estrada foi construida em 1935 È bate vários recordes, entre eles ela È a estrada mais alta da AmÈrica, atingindo os 4900 metros aqui perto, na abra del Acay. De acordo com a vialidad nacional (estatal responsável pelas estradas federais argentinas), la tem 236 pontes, toca 13 grandes lagos, dá acesso a 27 passos fronteiricos, 20 parques nacionais e cruza 18 importantes rios.

Esta estrada entrou para minha vida em 2000, durante a OdissÈia Austral, quando cruzamos a 40 na Província de Santa Cruz de carona. Nesta oportunidade, ficamos 3 dias esperando um carro passar, vimos uma pegada de Puma e numa certa noite vimos a estepe patagonica virar tundra!

Na segunda vez que andei por esta estrada, em 2002, eu estava voltando da Bolívia e fui de onibus de La Quiaca (fronteira) atÈ a quebrada de Humahuaca. Nao foi nada dramático, a nao ser que eu estava super cansado depois de ter escalado um mes e perder 6 kg nas montanhas.

Depois em 2006 estive de carro pela 40, na Província de Catamarca indo para o Passo San Francisco escalar o Incahuasi e depois em La Rioja passando em Chilecito indo ao sul em direcao a Mendoza.

Passei por esta estrada em várias etapas de minha vida como andinista. Por aqui vivi grandes aventuras, passei por enormes roubadas, aprendi muito e cresci bastante, brincando como adulto com responsabilidade de crianca.


Quarta Feira, Julho 11, 2007


De Salta a Cachi (província de Salta), Argentina.
Por Marcio Carrilho

Estrada para a Cachi, em um lugar chamado Cuesta del Obispo, onde comeca a subida da cordilheira
Promessa È dívida, eu sei, e não se preocupem que vou passar aqui um pouco do que o Pedro me ensinou sobre a araucária enquanto viajávamos pelas estradas do Paraná e de Santa Catarina. Mas, antes, farei um breve resumo do nosso dia de hoje.

O cÈu amanheceu lindo em Salta (1.187m), sem uma nuvem e muito azul é "despejado" , como se diz aqui. Visitamos pela manhã o Museu Arqueologico de Alta Montaña, que fica bem na praÁa central da cidade, a Nueve de Julio. Muito bacana e bem arrumado, o museu tem como ponto alto do seu acervo trÍs mómias de crianÁas incas encontradas em urnas funerárias no topo do Llullaillaco, um vulcão adormecido de 6.739m, localizado na fronteira Chile-Argentina, na província de Salta - e que um dia a gente vai escalar, podem escrever.

Os incas não eram alpinistas, como nosotros, mas curtiam umas oferendas a Pachamama (a Deusa Mãe da Terra) no topo das montanhas andinas, onde eventualmente tambÈm eram deixados corpos de filhos da nobreza é atÈ porque È mais fácil carregar o corpinho de uma crianÁa morro acima do que o corpão de um adulto. Os incas podiam ser devotos, mas não eram bobos... Há registro de mais de 200 ruínas incas em alta montanha, muitas delas com mómias, desde o Equador atÈ o Chile e Argentina, passando por Peru e Bolívia.

Depois, já de carro, fomos ao Cerro San Bernardo (1.434m), ponto turístico de onde se descortina uma vista panorâmica de Salta é tambÈm acessível a pÈ, por uma trilha em escadas, ou por telefÈrico. Saindo da cidade, passamos num hipermercado para comprar os mantimentos que levaremos para a montanha é aliás, para as montanhas, que as nossas pretensões são vastas, acreditem. Muita massa, sopas, molhos, atum, biscoito, enfim, essas coisas industrializadas e sem graça que se come quando se está acampado numa barraca apertada, com o nariz entupido e ressecado, enjoado, morrendo de frio e com dor de cabeça, a mais de quatro ou cinco mil metros de altitude, e ainda com um marmanjo fedorento ao seu lado padecendo dos mesmos males. Isso È conhecido aí no Brasil como "programa de índio" , e no Nordeste, mais espeficicamente, como "programa de corno" . Aqui, eu chamaria de "programa de inca" . Mas, vai entender a cabeça de quem È louco por montanha...

Rumo a Cachi, rodamos 160km por uma estrada muito bonita, parte asfaltada, parte de terra, que serpenteia por vales e depois sobe atÈ 3.200m, já dentro do Parque Nacional Los Cardones. O visual lá em cima È lindo e inóspito, um planalto muito largo com florestas de cactos enormes, altos e cilíndricos, alguns com ramificações que parecem braços, que são os tais cardones que emprestam o nome ao parque, e morros dos dois lados, cujas cimas estavam iluminadas pelos óltimos raios de sol de fim de tarde. Cachi, já fora do parque e a 2.350m (segundo o super GPS "McGiver" do Pedro, mamãe, eu quero um igual!), È pequena e charmosa, um vilarejo colonial perdido nos Andes com construções de mais de 200 anos, que lembram aquelas cidades mexicanas de filme de faroeste da Sessão da Tarde.

Restaurante Luna Cautiva, boa refeicao!
Estamos numa pousada bem confortável, El Cortijo (que de cortiÁo não tem nada, muito pelo contrário), e comemos muito bem no restaurante Luna Cautiva. Para completar, assistimos numa birosca à emocionante vitória do Brasil sobre o Uruguai na semifinal da Copa AmÈrica, com todos os argentinos presentes secando a nossa SeleÁão. Pior para eles, que agora vão ter que passar pelo MÈxico se quiserem ter o prazer de jogar com a gente é e perder, claro, como há trÍs anos. Se passarem, menos mal, pois no próximo domingo, dia da final, já estaremos no Chile...

ARAUCÁRIA, AFINAL!

Agora sim, vamos falar um pouco da araucária brasileira (Araucaria angustipholia), esta simpática árvore tão característica do Sul do Brasil, especialmente do Estado do Paraná. Como o próprio nome indica, ela È uma espÈcie predominante no geossistema do Planalto das Araucárias, que vai do Rio Grande do Sul ao Paraná, passando por Santa Catarina. AlÈm disso, ela tambÈm aparece em alguns redutos mais altos da região Sudeste, como nas serras da Mantiqueira (SP, MG, RJ) e Caparaó (MG, ES).

Quando a gente vÍ aquela árvore estranha e imponente, que pode chegar a 40 metros de altura e viver por mais de 150 anos, com seus galhos lá no alto apontando para cima, como braços querendo segurar alguma coisa, nem imagina que trata-se de um verdadeiro dinossauro vegetal vivo. Assim como as samambaias, a araucária tem a mesma cara há 200 milhões de anos! Ou seja, são bem mais antigas do que os próprios dinossauros, pois surgiram dois períodos geológicos antes, no Carbonífero, quando apareceram as primeiras formações vegetais florestais no planeta (incrível È que o Pedro fala tudo isso assim, na maior naturalidade, como quem comenta o último jogo do Corinthians, time pelo qual torce, aliás o viram?, ele sabe muito, mas não È perfeito!).

A araucária, assim como os pinheiros, seus primos modernos, são gimnospermas, ou seja, espÈcies vegetais (se eu disser “plantas" o professor me mata!) que pouco evoluíram desde o seu surgimento na superfície da Terra. Não lembram das aulas de biologia? Eu tambÈm não lembrava, então vamos lá, tecla SAP: gemnospermas são plantas (agora foi...) sem flor, o que indica que tÍm um sistema reprodutivo mais simples, porÈm extremamente eficaz para a sua perpetuação. Tanto isso È verdade que a araucária está aí há 200 milhões de anos, e com pouquíssimas adaptações evolutivas atÈ aqui. AlÈm da brasileira, há espÈcies de araucária no sul do Chile e Argentina (Araucaria araucana), na região dos lagos e vulcões, próximo a Temuco, no Chile, e San Martín de Los Andes, na província de NeuquÈn, ao norte de Bariloche, no lado argentino. Inclusive os índios chilenos desta região são conhecidos como Araucanos. Assim como a sua prima brasileira, a madeira desta araucária È excelente para a produção de móveis e acabamento em construções, sendo considerada de lei.

As outras duas espÈcies conhecidas de araucária (bem, pelo menos as que o nosso oráculo aqui ao lado conhece, então eu duvido que haja outras), são da Austrália, sendo que na praça central de Salta, a já citada Nueve de Julio, há alguns exemplares de uma delas, a Araucaria bedwillii e a outra chama-se Araucaria columnaris. AlÈm de ser muito bonita e oferecer ótima madeira, a araucária tambÈm È fonte de alimento. Sua semente, o pinhão, È bastante apreciada nas regiões onde ocorre, podendo ser cozida e comida pura ou na preparação de pratos.

Gostaram? Bueno, entonces despuÈs a gente fala do Chaco.




Segunda-feira, Julho 09, 2007


Salta, noroeste da Argentina.

A cidade de Salta
Chegamos em Salta, no noroeste da Argentina, ontem pela noite. A cidade È conhecida como a mais espanhola das cidades argentinas com uma arquitetura bastante peculiar.

Aqui estamos no sopÈ da Cordilheira dos Andes, entretanto em uma altitude baixa, cerca de 1200 metros. Salta nao È uma cidade muito fria. No verao as temperaturas sao elevadas e no inverno È bem fresco, pelo menos era quando estive aqui a cinco anos atrás.

Hoje o tempo está bem diferente daquele que conheci a meia dÈcada. Ontem uma massa de ar fria avanÁou pela Argentina e a temperatura despencou. O cÈu está nublado e bem feio, a temperatura está perto dos 3 graus. No sul está nevando bastante, em NeuquÈn fez -13 graus e um peao de roÁa morreu de frio! Em Buenos Aires está nevando e chovendo, assim como tambÈm está na província de Cordoba e San Luis, o que nao acontecia a muito tempo.

Hoje È um dos feriados mais importantes da Argentina, a data de independencia. Saí pela rua e pude ver uns festejos com musica e danÁas típicas daqui. É engraÁado que o argentino fala mal o tempo todo de seu país, sempre fazendo um super drama, entretanto, quando tem um feriado nacional, ou a seleÁao ganha alguma coisa, todo mundo pega um bandeira e fica todo orgulhoso.

Em alguns dias estaremos indo para a zona montanhosa da provincia. Vamos ficar muito tempo sem comunicaÁao, pois vamos estar nos aclimatando na montanha.




Sexta-feira, Julho 06, 2007


Na Fronteira!

Chegamos à fronteira da Argentina. Lugar muito estranho...

São trÍs cidade em uma, mas cada delas em uma unidade politica diferente. Barracão È Estado do Paraná, Dionísio Cerqueira È Santa Catarina e Bernardo de Yrigoyen, Misiones, Argentina. Acordei cedo e enquanto o Marcio ficou cochilando, saí com o carro para agilizar o seguro carta verde que È obrigatório para entrar na Argentina. Foi muito engraÁado, pois enquanto eu procurava uma seguradora, de repente, saí de uma avenida chamada 7 de setembro e entrei numa avenida chamada San Martin. Lá já era Argentina.

Acabei comprando o seguro em Santa Catarina e depois voltei para o Paraná para pegar o Marcio e dar inicio a mais um dia de viagem. Tudo caminha tranquilamente. As estradas atÈ agora estavam boas, mesmo dentro da região do Contestado que segundo o que eu havia lido, era a região mais pobre do sul do Brasil. Não vi muita pobreza pelo caminho, pelo contrário, muitas paisagens bonitas onde ainda se preservam muitas Araucárias que são as árvores que dominam as paisagens do Planalto do Paraná e Santa Catarina. Achei interessante que 100 anos atrás estes lugares por onde passamos foram palco de uma das maiores guerras do Brasil, a Guerra do Contestado, onde alÈm de haver uma batalha de territórios entre Santa Catarina e Paraná, houve tambÈm uma disputa entre colonos caboclos e uma companhia de estrada de ferro americana. Como resultado desta batalha, algumas cidades foram divididas ao meio e uma metade ficou para o Paraná e outra para Santa Catarina, como foi o caso de União da Vitória e Porto União, que carregam um nome bastante irônico para suas origens.

Daqui para frente vamos cruzar paisagens totalmente diferentes destas que conhecemos. As florestas ficarão para trás... entretanto isto ainda está por vir. Hoje pretendemos ir atÈ Posadas, capital da Provincia de Misiones. Talvez a gente durma lá, ou em Encarnación, que fica do outro lado do rio Paraná no Paraguai. Vamos cruzar a fronteira novamente para comprar umas coisinhas para a viagem. Ontem fizemos o seguinte caminho (se quiser pegue o mapa e acompanhe):

* Curitiba x Mafra
* Mafra x União da Vitória
* União da Vitória x Palmas
* Palmas x Barracão




Quinta-feira, Julho 05, 2007


Na Estrada

Carro arrumado, equipo embalado.... Daqui quinze minutos estarei na estrada. Antes de comeÁar a viagem vou fazer os agradecimentos às pessoas que me ajudaram:
Botas Nomade, pelo apoio
Eportateis, apoio
Tacio Phillip, pela mãozona!
Ernst Mé ssembock, pelo emprestimo!
Turma do AltaMontanha.com, pela forÁa (Hilton, Beto e Mikael).
Bom, comeÁa mais uma odisseia....


Veja mais detalhes da expediÁão no Blog do Pedro!

 

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