|
A
Odisséia Austral
Texto: Pedro Hauck
A
idéia de fazer uma grande viagem nessas condições
já não era novidade, desde antes de nos conhecermos, já
sonhávamos em algum dia estar no topo de alguma montanha ou caminhando
livremente por paisagens desérticas e selvagens.
Nos conhecemos
em 99, acampando em Minas Gerais, Brasil. Saber que Maximo era argentino,
foi o estopim para uma longa conversa e projetos sobre essa região
que tanto nos fascinou por tanto tempo, este foi o início de nosso
grande sonho. Durante
1 ano, nos preparamos para este grande projeto. O roteiro não era
nem um pouco modesto: percorrer 10.000 quilômetros, de carona e
a pé dando a volta por todo o cone sul, passando pela Argentina
e Chile, e escalando suas mais famosas montanhas. Ninguém acreditou
que conseguiríamos. Só conseguimos juntar 800 dólares
cada um, mal tínhamos equipamentos adequados, além da pouca
idade (apenas 18 anos), que para muitos, significava pouca experiência.
Saímos
dia 18 de janeiro de 2000, cheios de expectativas e medo. Fomos para V.
Gral. Belgrano (próximo à Córdoba, Argentina), cidade
natal de Maximo, onde nossa viagem estava programada para começar.
Nosso primeiro desafio foi cruzar a Sierra Grande de Córdoba,
uma serra do tamanho da Mantiqueira no Brasil Cruzamos a serra a pé,
passando pelo seu ponto mais alto, que é o Cerro Los Linderos,
com 2800 mt. Já parecia que estar naquela altitude, era uma grande
coisa. Mal sabíamos o que estava por vir.
Nosso
primeiro contato com os Andes, foi em Mendoza. Cruzando a pampa árida
daquela região, nos deparamos com uma enorme muralha nevada no
horizonte, cujos cumes se confundiam com as nuvens. Tudo parecia inalcançável,
aliás, aquela região, é a região mais alta
desta cadela montanhosa, onde fica o seu ponto mais alto, o Aconcágua,
o qual pretendíamos escalar. Acabamos não conseguindo autorização
para escalar o Aconcágua, tão pouco, tínhamos dinheiro
para isso. Mesmo assim, nossos anseios não foram frustrados, pois
acabamos indo em direção a outra montanha, o Cerro Plata,
vizinho do Aconcágua, com 6340 metros de altitude (500 metros a
menos que o topo do hemisfério sul).Jamais
havíamos tido qualquer contato com alta montanha e neve antes de
escalar o Plata, o resultado, foi mais do que positivo, pois mesmo sem
equipamentos, fomos os únicos presentes na montanha daquela vez,
que chegou ao cume.
Trocando as
trilhas pela estrada, chegamos ao Chile. Após uma breve estada
em sua capital, Santiago, rumamos ao sul, e logo após, escalamos
nosso primeiro vulcão, o vulcão ChilIán, com 3200
metros de altitude. Foi apenas uma introdução, o melhor
ainda estava por vir, logo após, escalamos o vulcão mais
impressionante de toda nossa odisséia, o vulcão Villarica.
Este é um cone perfeito, apesar da baixa altitude, 2880 mt, possui
uma grande amplitude, pois se eleva desde os 200 metros de altitude. Dentre
as particularidades que o tornou o mais bonito de toda nossa viagem ,
a principal foi que ele estava ativo!
Chegamos lá
durante a noite, enquanto preparávamos nosso "delicioso"
jantar, ficamos surpresos ao ouvir ruídos, como se estivesse havendo
um tremor. Mais tarde, olhando para o cume, tivemos a surpresa de descobrir
que o Villarica era um pouco nervoso, pois a fumaça que ele próprio
soltava, era iluminada pela matéria incandescente dentro de sua
cratera. Chegamos ao cume sem maiores dificuldades, de lá pudemos
ver sua lava no interior da cratera e todas as montanhas ao redor do vulcão,
inclusive, um outro vulcão, o Lanin, que é o mais alto da
Patagônia e que decidimos escalar também.
0
Lanin faz a divisa da Argentina e Chile. A estrada internacional, mais
parecia uma estrada rural, era de terra e em certos lugares, mal poderiam
passar 2 carros ao mesmo tempo. No Lanin, conseguimos pela primeira vez
equipamentos que foram emprestados pelo guardaparque. Chegamos ao cume
com o dia fechado, onde mal podíamos enxergar um ao outro devido
à neblina. O vulcão estava extinto e no lugar do cume, havia
um grande glaciar. Abaixo do glaciar haviam várias cavernas de
gelo, onde nos abrigamos do frio e do vento. Lá dentro, desfrutamos
de um agradável calor de - 7†C.
Descendo
o vulcão, voltamos à civilização, depois de
percorrer vários quilômetros pelos meio da estepe e de bosques,
até chegar em Bariloche. Cidade que se orgulha de ser, a porta
de entrada da Patagônia. O lugar tão esperado, no qual havíamos
acabado de chegar. Em Bariloche, tentamos sem sucesso escalar o Monte
Tronador. Detidos pelos grandes glaciares dessa montanha e pelo mau tempo,
voltamos às trilhas, por onde caminhamos mais de 3 dias até
chegar ao Chile e nos deparar com o 4† vulcão de nossa viagem,
o famoso Vulcão Osorno. Ele é o símbolo do sul do
Chile e assim como o Villarica, mantêm sua forma cônica perfeita
e nevada. Dessa maneira, achávamos que iria ser fácil alcançar
o seu cume. Pura ilusão! No Osorno, quase perdemos nossas vidas
em sua pendentes de gelo com mais de 60† de inclinação.
Com poucos equipamentos, tivemos que desistir no falso cume a poucos metros
de seu ponto mais alto. Mesmo não chegando ao cume, foi uma grande
conquista, pois ficamos sabendo que aquele vulcão apresenta grandes
dificuldades, e que matou mais de 100 pessoas que tentaram vencê-lo,
dentre eles, 2 brasileiros.
Logo após,
trocamos as montanhas pelo mar e cruzamos todos os canais do sul do Chile,
atravessando também, a lendária ilha de Chiloé. Chegando
na XI região chilena, a realidade era outra. O isolamento geográfico,
dificulta o povoamento daquele lugar. As cidades são pequenas e
quase não existe movimento nas estradas, que em geral, são
todas de terra. Pela primeira vez, fora das montanhas, tivemos a sensação
de estar sozinhos, mas isso foi apenas o começo, logo após,
quando cruzamos a fronteira da Argentina de novo, nos deparamos com o
grande deserto da Patagônia. Lá, não estávamos
apenas sozinhos, mas isolados numa região selvagem e completamente
desabitada.
Na
Argentina, cruzamos a ruta 40, uma lendária estrada que liga o
nada ao nada. Ter andado de carona nessa estrada, foi muito mais difícil
que ter escalado todas nossas montanhas. O tráfego por lá
era nulo, ao ponto de ter dias que não passava nenhum carro por
lá. Ficamos vários dias no meio do deserto. As pessoas que
nos davam carona, às vezes, paravam para caçar guanacos
e ñandus que pastavam livremente pela estrada. Numa noite,
um puma, esteve a menos de 5 metros do nossa barraca.
Voltamos
à civilização numa manhã em que a estepe havia
virado tundra, devido a uma nevasca. A cidade à qual chegamos,
tinha menos de 500 habitantes. Em Chaltén também fica o
imponente Fitz Roy, montanha que já foi considerada a mais difícil
do mundo em ser escalada e que levou a vida de metade das pessoas que
tentaram vencer suas paredes de rocha de mais de 1000 metros de altura.
Na base do Fitz Roy, tivemos contato com o clima ferrenho da Patagónia,
com neve e ventos de mais de 100 km/h. Às vezes, em um só
dia, podia fazer sol, chover e nevar, e a noite, gear. Próximo
Chaltén, fica El Calafate, com suas geleiras gigantes, por onde
também estivemos. Visitamos o Glaciar Perito Moreno e testemunhamos
várias quedas de barreiras de gelo com mais de 30 metros de altura.
Atravessamos
a pé, pelo meto do deserto, nosso sexto limite internacional. Assim
chegamos ao parque nacional Torres del Paine, no Chile, que com suas montanhas,
lagos e bosques, é considerado o parque mais bonito da Patagônia.
Cruzamos o estreito de Magalhães por Punta Arenas e assim chegamos
à Terra do Fogo, que de quente, tem apenas o nome. Novamente, havíamos
chegado à Argentina e ao Atlântico. Os dias na terra do fogo,
no fim do outono, são curtos. O dia nascia às 10 da manhã,
e às 16:00 já estava escurecendo novamente. O sol apenas
passava pelo horizonte. Foi nessas condições, numa noite
em que caíam flocos de neve do tamanho de bolas de ping-pong, que
chegamos à Ushuaia, a cidade mais austral do mundo.
Vinte
quilômetros após Ushuaia, a estrada, a terra e o mundo acabavam.
Uma placa anunciava o fim do mundo. De lá, se podia ver a ilha
de Navarino. Após esta ilha, fica a ilha de Hornos, que é
a última porção de terra da América e do mundo.
Lá começa a passagem de Drake, onde o mar faz a curva e
o Atlântico encontra o Pacífico. Estávamos abaixo
do paralelo de 55†. Havíamos chegado ao incontestável fim
do mundo. A própria placa que nos indicava isso, já nos
indicava o quanto havia que percorrer para voltar para casa: " Buenos
Aires 3020 kms".
Já havíamos
chegado à metade do nosso roteiro, ainda faltava subir todo o frio
litoral atlântico argentino. A volta pelo litoral foi mais rápida.
Em alguns lugares, conseguíamos grandes caronas que nos levavam
por mais de 500 quilômetros. Conhecemos muitas das grandes cidades
da Patagônia no caminho, que são verdadeiros oásis
no meio da estepe patagônica. Passamos também, pela península
VaIdéz, onde se encontram várias colônias de pingüins,
lobos marinhos, elefantes marinhos e grupos de baleias. Naquela altura
do litoral, já não fazia mais frio negativo e a água
não congelava mais à noite.
Nossa aventura
terminou em Buenos Aires, onde reencontramos vários amigos que
conhecemos durante nosso percurso. Quando voltamos para casa, tudo havia
mudado, mas sem dúvida, o que mais havia mudado, fomos nós
mesmos.
|