Tudo errado no Himalaya

Texto: Maximo Kausch

Jamais estive em contato direto com expedições comerciais, sempre tentei abolir essa história de ter um chefe na montanha, pois já é suficiente em ter chefes na vida rotineira. Sempre fiz questão de ir às montanhas por conta própria e ter mais autonomia possível...

Março de 2005: Por ironia, fui convidado para trabalhar numa daquelas grandes expedições já para o mês seguinte. Esta seria numa curiosa montanha de 8500 metros que sempre li a respeito. Na verdade, nunca tive planos de escalar o Lhotse e de repente me encontrava com apenas alguns dias para decidir em ir ou não. Com as economias de um simples mortal como eu, se demoram anos para juntar dinheiro para pagar a permissão e recursos para uma expedição a 8000 metros. Imaginei que se não fosse, ficaria roendo as unhas por 64 dias, aceitei a proposta.

Meticulosos planos de Dan

 
Daniel Lee Mazur

Após um breve telefonema, apenas 7 dias antes da expedição, Dan Mazur (o coordenador da expedição), me explicou detalhadamente o que ia acontecer:

- "... Você vai ter 1 dia para comprar o equipamento aqui em Kathmandu. Oh sim, antes que esqueça, aproveitando que o Everest é ali do lado, vou levar um grupinho ao cume. Também, um grupo de mais ou menos 10 pessoas, vai querer fazer o trekking até o acampamento-base... Te vejo em 7 dias...". Ante toda aquela meticulosa organização, só me restava cuidar da minha parte.

Dan é uma daquelas pessoas que escalam a tanto tempo, que se tornam totalmente indiferentes ante as situações mais bizarras. Qualquer questão que se pergunta a ele, ele responderá com outra pergunta. Mesmo tendo guiado expedições no Khumbu mais de 30 vezes, Dan sempre parece nunca ter estado ali. Em Kathmandu, tínhamos 4 toneladas de equipamento a ser transportadas por aviões até Lukla, por dzos (mistura de vaca indiana e yak) até Namche Bazar, e por yaks até o acampamento-base. Como haveriam aproximadamente 50 pessoas envolvidas diretamente na expedição, parte do equipamento e alguns suprimentos, chegariam semanas após todo mundo já estar no acampamento-base.

Além de Dan, éramos 4 encarregados no bem estar do clientes pagantes. Estes eram "uns 10" (de acordo com a informação que me foi passada por Dan). Reunir todo o equipamento em Kathmandu não foi fácil. Quase todos os detalhes foram de última hora. Uma hora antes de voarmos para Lukla, onde começa a caminhada, as passagens aéreas chegaram. A companhia aérea não é daquelas que estamos acostumados.

Os aviões são todos bimotores e carregam até 16 pessoas. Chegando ao aeroporto, alguém perdeu as passagens, e depois de meia hora de argumentação e discursos cívicos, conseguimos convencer o responsável pelas passagens do aeroporto de Kathmandu, que não havia problema em voar sem passagens. Lembrando da experiência que passara no ano anterior, na expedição ao Ama Dablam, achei melhor dormir. Os aviões voam o mais cheios possível de carga. Todos os compartimentos são cheios de cereais, malas e coisas do gênero. Uma hora e meia de vôo, e chegara o momento mais perigoso de toda a expedição: o pouso. A pista tem 20 graus de inclinação, e termina numa parede de rocha. Na última vez que estive ali, um avião colidiu porque o piloto esqueceu de abrir o trem de pouso. Digamos que a Yeti Airlines não é uma daquelas companhias que se preocupam ao extremo com segurança.

Ficamos em Lukla até o fim da tarde, esperando a carga chegar, mas nem 30% apareceu naquele dia. Segundo Dan:"algum dia a carga aparece". O problema é que tínhamos dezenas de milhares de dólares em equipamento meio à carga. Acabamos continuando o trekking em direção a Phakding naquele mesmo dia.

Não era fácil encontrar pensões que suportassem tantas pessoas de uma só vez, e na maioria das vezes, acabávamos acampando. Já no segundo dia de caminhada em direção à Namche Bazar, acabei ficando doente e fiquei para trás. Pelos sintomas, aquilo só podia ser Giardíase. Mesmo tomando antibióticos, fiquei fraco durante todo o segundo dia de caminhada.

Em Namche, a carga seria mudada de dzos para yaks (que agüentam melhor a altitude e o frio). Demoramos quase um dia inteiro para reunir o que tínhamos. Alguns yaks já estavam chegando ao acampamento-base para começar a preparar a estrutura para que todos se instalassem. Logo após passar o grande monastério de Tangboche, avistei o Ama Dablam. Sempre imponente, ele estava bem mais seco do que em outubro de 2004. Avistei o Lhotse, e por primeira vez, reparei no cume dele com outros olhos. Parei em Pangboche por um dia e fui visitar alguns amigos que fiz no ano anterior.

Carregando um Carregador

Em Dugla, uma pequena vila (são 3 casas na verdade) a 2 dias de caminhada do acampamento-base, todos resolvemos parar para dormir numa pequena pensão. Eram 4 da tarde quando alguém chamou Chris O'Brien (que é médico) para ajudar alguém que não se sentia bem. Um sherpa que nem sabíamos de que expedição era, estava passando mal. Chris o diagnosticou com edema pulmonar, lhe deu uma dose de Dexametazona, e mandou ele descer. Observei aquele pobre homem tentando caminhar, mas mal conseguia ficar de pé. Todos estavam cansados e ninguém tinha energia de sobra para descer o moribundo, pois estávamos a 5000 metros de altitude. Ele caminhou pouco mais de 100 metros, até que parou, sentou e parecia ter dormido. Me imaginei na situação dele, ali, sozinho, doente e a poucas horas do cair da noite.

Do pequeno grupo reunido em Dugla, poucos tinham energia para ajudar o homem, mas alguém tinha que ir com ele ao hospital de Pheriche, 2 horas mais abaixo. Todos olharam para Mike O'Brien, o irmão de Chris, que tem 2 metros de altura e poderia carregá-lo facilmente. Mike estava cansado depois de todo um dia de caminhada, e não poderia ir naquela mesma tarde. Como havia três sherpas no grupo dos candidatos para ajudar o homem, e eles não precisavam se aclimatar, me ofereci para descer com ele. Esperando que Sheera, Tenzing ou Nima Sherpa dissessem"não, eu vou", todos olharam para mim e desejaram boa sorte. Como demoro mais que o normal para aclimatar, aquele dia tinha sido muito duro para mim, mas já que me candidatei, tinha que ir.

Cheguei ao ponto onde o homem sentou, e sem falar nada, peguei a mochila de suas costas, lhe dei um dos meus bastões de trekking para começar a caminhar. Tive que ajudá-lo a se levantar. As poucas palavras que entendi do que ele disse, foram que ele estava trabalhando para uma expedição no Island Peak e passou o resto do caminho murmurando coisas em nepalês. Meia hora depois que sair, tínhamos pêgo um ritmo de caminha bem lento, mas constante. Ao entrar no longo vale que conduz a Pheriche, ele caiu no chão e ficou lá. O sol já não estava mais no céu, e era nas paradas para descanso que se sentia o quanto aquela tarde estava fria.

Com a mochila do sherpa no meu peito e ele nas minhas costas, continuei a caminhada. Coloquei os bastões de trekking por baixo dos joelhos dele, assim eu não tinha que fazer tanta força para carregá-lo. Lembrei daquelas longas aproximações às montanhas dos Andes, quando chegava a carregar 45 quilos.

Como a trilha até Pheriche é bem movimentada, eu estava confiante que alguém ia aparecer para ajudar, mas ninguém deu as caras naquela tarde fria. Parando para descansar a cada 2 minutos, finalmente chegamos à primeira casa em Pheriche. Já era noite, e apareceu mais gente para ajudar. Ao chegar ao hospital, de tão cansado que eu estava, praticamente joguei ele na porta do hospital. Não precisei nem bater na porta.
Uma médica suíça imediatamente me ajudou a carregar ele até uma cama, onde ligou ele no oxigênio. Em apenas 10 minutos, o sherpa recuperou consciência, e mediante um tradutor, a médica perguntou os detalhes do seu estado de saúde. Ela diagnosticou edema cerebral e pulmonar. A primeira pergunta que ela me fez foi:
_"Como é que este homem veio até aqui? Ele não consegue nem falar!"

Contei toda a história e ela mal acreditou. Fiquei tomando chá e comendo biscoitos no hospital, até as 7 da noite. Acabei com o estoque de biscoitos de chocolate do hospital. O sherpa teria que ser removido ao dia seguinte, talvez de helicóptero. Decidi que era hora de voltar à Dugla, pois meu saco de dormir e todos os pertences estavam lá. Percebi que tinha esquecido a minha lanterna de cabeça, e teria que subir no escuro. Cheguei a Dugla por volta das 8 da noite. Pelo menos tive a sorte de chegar antes da janta e comi quilos de Dal Bhat antes de dormir (comida nepalesa com arroz e lentilhas). Jamais soube o que aconteceu com o sherpa que ajudei.

Chegada ao Acampamento-base

Dois dias depois de Dugla, acabávamos de chegar ao acampamento-base, a 5300 metros de altitude. A base é montada bem na boca do vale formado entre o Nuptse e o pilar oeste do Everest. O acampamento está inteiramente montado sobre o glaciar Khumbu. A parte pouco inclinada da cachoeira de gelo, começa a poucos metros do acampamento-base. Há vistas para dezenas de montanhas dali.

Demoramos um dia inteiro até que terminamos de montar todas as barracas e arrumamos todos os suprimentos para os 55 dias que iríamos ficar ali. Outras 25 expedições se espalhavam pelo acampamento-base quando chegamos. Quando estava tudo pronto para começar, era hora dos edemas. Melissa Moore teve um edema cerebral no segundo dia. Ela teve que descer imediatamente. Por sorte, ela conseguiu descer nos próprios pés e não teve que ser resgatada.

O segundo e pior, foi o edema pulmonar de George Barlow. Sem aviso prévio ou dores no dia anterior, George foi dormir e acordou com edema pulmonar grave. Podíamos ouvir a sua respiração a 5 metros de distância. Seus pulmões começaram a encher de líquido e ele teria que descer imediatamente. George foi ligado no oxigênio e um helicóptero foi pedido. O problema foi que o tempo estava ruim como sempre e George teve que descer com oxigênio e um sherpa, até Lobuche, onde finalmente pôde voar até Kathmandu. Depois foi a vez de Gary Meyring, depois Ben Brioli e Will Thomas. Estes, pelo menos tiveram casos leves, mas mesmo assim, tiveram que descer.

Seja Bem vindo ao Khumbu!

Após 3 dias no acampamento-base, Eyal e eu decidimos começar com a aclimatação para podermos chegar logo ao acampamento-1. Subimos até o acampamento avançado do Pumori, partindo da base do Everest. Meio afiadas cristas e centenas de grandes monolitos, chegamos ao Pumori. De 5600 metros de altitude, tínhamos uma visão bem panorâmica do Lhotse e seus arredores. Foi a primeira vez que tive noção do que iria enfrentar dali a algumas semanas. A parede norte do Lhotse começa com pouca inclinação, mas é a 8000 metros que ele fica bem inclinada.

Com poucas horas de luz restantes, decidimos voltar para o acampamento-base para no dia seguinte e tentar a nossa primeira escalada ao acampamento-1. Lembrando das minhas difíceis aclimatações nos Andes, decidi seguir a estratégia que tínhamos com Pedro durante as longas aproximações. A idéia era levar todo o peso no começo, o que é um agravante para se aclimatar, mas no fim, o corpo acaba se acostumando melhor. Às 5 da manhã, Eyal Wigderson, Dan Mazur e eu começamos a longa e complicada subida. Com quase 30 Kg nas costas, fiquei para trás rapidamente. O começo da cachoeira é cheio de subidas e descidas, o que acabou me esgotando rapidamente. Como era a minha primeira vez ali, não sabia exatamente quanto ainda faltava para chegar ao topo do glaciar. O acampamento-base se tornava cada vez mais distante e o Pumori começou a dominar o horizonte a oeste. Seracs do tamanho de casas que estavam no flanco oeste do Everest, começaram a me preocupar, mas não se mexeram naquela ocasião. Já após ter percorrido o que eu acreditava ser 3/4 do caminho até o acampamento-1, parei para descansar e comer um chocolate num platô de gelo. Eu tinha o chocolate no bolso e estava esperando uma eternidade para achar um lugar plano, sentar e comê-lo.

Sem ter escutado alguém já fazia um tempo, ouvi um grito vindo detrás de um serac não muito longe dali. Novamente, o meu chocolate teria que esperar uma eternidade. Deixei minha mochila no local com o chocolate encima. Prometi ao chocolate que voltaria logo... Continuei a subida sem mochila para ver o que estava acontecendo. Entre um serac e uma grande greta, a 5800 metros de altitude, estava um casal. Ao chegar mais perto, percebi que algo estava errado. Pelos gritos e sua posição, parecia que o homem tinha fraturado a perna. Um sherpa veio da direção do acampamento-1 logo quando eu cheguei lá. A primeira atitude foi tirar o homem do perigo e colocá-lo encima de uma plataforma estável. A mulher que estava com ele e o sherpa, ajudaram. Depois foi a hora de imobilizar a fratura. Tive a idéia de usar as barras de alumínio de uma mochila (que não fosse a minha). A mochila do sherpa acabou sendo a vítima: colocamos uma barra de cada lado da perna e amarramos com fitas de escalada que estavam na minha cadeirinha. A fratura foi na altura da canela, e o pé ficou pendurado pela pele e músculos, parecia doer muito no pobre homem, mas não doía em mim, então continuei o processo de imobilização. Acabei usando o meu colchonete para isolar a perna do frio, afinal estávamos a quase 6000 metros de altitude.

Ao cortar o colchonete com uma faca, fiquei pensando nas noites frias que eu passaria no acampamento-1, mas pelo menos não ia sofrer tanto quanto aquele homem. Mais dois mosquetões e duas fitas de escalada, a perna estava pronta pra viagem. Teríamos que descer o homem até o acampamento-base.

Ao olhar para trás, ou melhor dizendo, para baixo, podia até ver o acampamento-base, mas ainda estávamos muito longe. Algumas outras pessoas apareceram para ajudar, eram todos sherpas. O ferido se apresentou como Ben Webster, líder de uma expedição canadense. Ele nos deu a idéia de construir uma cadeira para transportá-lo. Enquanto isso, sua companheira passou o pedido de auxílio por VHF ao acampamento-base. Willie Benegas, da Mountain Madness já houvera mandado 6 sherpas em nossa ajuda, além dele mesmo. Um dos sherpas tinha uma mochila de armação e acabou cedendo-a para a fabricação da cadeira. Mais algumas fitas e mosquetões e Ben na cadeira, estávamos prontos para carregá-lo. No começo, éramos apenas 4, e não haveria como fazer revezamento.

Descaso total

Mais um grupo vindo do acampamento-1 apareceu, eram coreanos e seus sherpas. Liderados por Young S. Park, eles não fizeram absolutamente nada para ajudar, e praticamente pularam Ben e seu novo assento, continuando o seu caminho ao acampamento-base. Nem sequer perguntaram se estava tudo bem! Quando chamei, pedindo qualquer coisa que fosse para ajudar, o famoso líder de expedição levantou a mão, com as costas viradas para mim, ascenando de uma maneira muito cínica. Jamais pensei que aquilo pudesse acontecer em montanhas e que pessoas tão experientes fossem responder de tal forma à situações como aquela, que na verdade, poderiam ter afetado qualquer um, inclusive o Sr. Park.

Começamos a carregá-lo. A primeira greta deu trabalho pois até então, minha experiência em carregar gente, era somente com mortos. Ao deixar a greta, lá estava minha mochila e o chocolate, mas eu deveria continuar e ajudar. Ao chegar na segunda greta, um grupo de sherpas vindos do acampamento-1 apareceu e sem questionar, pularam na nossa frente e continuaram a carregar a cadeira. Isso nos deu uma oportunidade de descansar e começar a revezar na traseira (que era a parte mais pesada). Ben não parava de reclamar de dor, mas isso iria acabar, pois os sherpas que se aproximavam vindos do acampamento-base, traziam morfina. Durante horas, prometíamos a Ben que a morfina estava chegando em 10 minutos... e assim foi por toda a descida. Isso acalmava Ben.

Cruzamos mais 6 gretas, 4 delas com escadas, até que Willie Benegas e seu time de fortes sherpas vindos do acampamento-base apareceu. Os sherpas que encontramos no caminho continuaram a ajudar, então seriam mais de 15 pessoas para descer um único homem. Começou a ficar tarde e lembrei que meu saco de dormir estava naquele mesmo lugar a 5800 metros (com o meu chocolate). Ainda teria que percorrer o resto do caminho até o acampamento-1 que eu nem sabia onde era, e mais cansado ainda. Expliquei para Shaunna, a companheira de Ben, que eles estariam melhor com todos aqueles fortes sherpas e comecei a voltar. Subindo o mais rápido que podia, demorei quase uma hora em chegar à minha mochila. Antes que acontecesse alguma outra coisa, comi meu chocolate sem nem sentir o gosto.

Algumas nuvens vindas do Pumori se acumulavam a horas e começou a nevar. Eram quase 5 da tarde quando avistei as barracas no acampamento-1. Dan e Eyal estavam para fora das barracas, esperando por mim:
_"O que aconteceu? Por quê demorou tanto???"
Exausto, respondi:
_ "Vocês não acreditariam no presente de boas vindas que o Khumbu me deu!!"

O tempo piorou naquela tarde e a noite foi horrível sem o meu colchonete. Ben foi resgatado por um helicóptero no dia seguinte ao acidente e de Kathmandu voou diretamente ao Canadá. Ele passou por algumas operações para salvar a perna, que acabou tudo bem.

Notícias tristes pelo rádio

Após 2 noites no acampamento-1, era hora da primeira subida ao acampamento-2. Naquela ocasião só tínhamos 1 barraca a 6500 metros e outra teria que ser montada para que eu pudesse passar a noite. Para mim, aquilo significou 4 Kg a mais na carga.

A 6200 metros de altitude, o caminho se converte num vale mais plano e praticamente não há gretas até o acampamento-2, a 6500 metros de altitude. Este imenso vale é chamado Western Cwm. É surpreendente caminhar ali entre paredes de gelo e rocha com quase um quilômetro e meio de altura. O vale começa na parte mais alta do Khumbu, e morre onde começa o Lhotse.

Na base de uma imensa linha de morena glaciária, fica o óbvio lugar onde é montado o acampamento-2. Como sempre, demoro muito mais em me aclimatar e as minhas primeiras noites nas grandes altitudes são horríveis. Desta vez não foi diferente e praticamente não dormi nas duas noites que passei a 6500 metros de altitude. Esperávamos chegar daquela mesma vez ao acampamento-3, para pelo menos montar uma barraca, mas o tempo não cooperou e tivemos que descer.

O dia que escolhemos para descer se apresentou péssimo. Neve e vento assolavam a cachoeira de gelo. Num grupo de 7 pessoas, todos descemos juntos em direção ao acampamento-base e paramos no acampamento-1 para descansar. Por causa da minha precável aclimatação, eu estava exausto após apenas 1 hora de descida. Lá mesmo, eu percebera que não teria forças para continuar até o acampamento-base naquele mesmo dia. Dan, Eyal, Blair, Arnold, Chris e Mike, continuaram em separados grupos meio à nevasca que ainda estava presente. Como eles não sabiam que eu ficara no acampamento-1, fiquei em standby o resto da tarde para tentar avisá-los.

Para economizar baterias, o líder da expedição decidiu em simplesmente não deixar rádios VHF em standby, e no lugar, decidiu usar os pequenos Motorolla UHF de 0.5 W. Para usar os VHF, teríamos que combinar horários para conversar, que sempre eram 8, 12, 15 e 18 horas. Eram aproximadamente 12 quando cheguei ao acampamento-1 e as poucas vezes que tentei uma mensagem meio os meus cochilos, não recebi resposta. Continuou a nevar durante a tarde toda. Mal sabia eu o que acontecia mais abaixo.

Fiquei esperando meus companheiros chegarem ao acampamento-base para que eu pudesse falar. Dan, Eyal, Blair, Arnold e Chris conseguiram, mas Mike jamais retornou ao acampamento-base. Enquanto eu estava ali tranqüilo dentro da minha barraca, Mike O'Brien caíra dentro de uma greta. Ele acreditava que o único dano que sofrera, teria sido uma perna quebrada, mas infelizmente, não era só isso. Ele jamais soube que aquela poucas horas que ficou no fundo da greta, seriam as suas últimas. Um sangramento interno, foi a provável causa de sua morte. O irmão dele, Chris O'Brien, esteve o tempo todo com ele. Blair Falahey e Chris, desceram na greta com ele onde passaram as últimas horas juntos. Mike faleceu aproximadamente às 4 da tarde do dia 1 de maio.
Mike O'Brien

Na chamada das 18 hs, fui informado da tragédia. Eu não sabia o que pensar. Todos já estavam no acampamento-base e a primeira coisa que pensei, foi descer para ajudar, mas não havia mais nada a se fazer. Mal comi ou dormi aquela noite. Ao descer na manhã seguinte, a 100 metros mais acima de onde Ben Webster tinha quebrado a perna, no fundo de uma greta, lá estava Mike. Naquele mesmo dia subiríamos para resgatar o corpo. Todos estavam arrasados quando cheguei ao acampamento-base. Chris estava sentado na frente de sua barraca olhando ao nada. Eu não sabia o que dizer para ele, acabei tentando fugir da situação. Acabei me sentindo culpado por não ter conseguido ter feito nada. Aquela sensação era horrível. Mesmo com os VHFs funcionando, não chegaríamos a tempo de levar Mike a um hospital.

Ainda exausto pelo tempo que fiquei na altitude dias atrás, comecei a comer e me hidratar para ter energia para a tarefa pela que passaria ainda naquele dia. A idéia era trazer o corpo ainda naquele dia para que Chris e seu irmão pudessem voltar logo para casa. Por rádio, Willie Benegas da Mountain Madness, nos chamou para uma reunião, pois eles e a Alpine Ascents, ajudariam a recuperar o corpo também. Como eu já tinha experiência prévia em carregar corpos, sugeri o "aconcágua style", mas esse tipo de resgate não é muito apropriado num lugar onde pessoas pagam até 65 mil dólares para escalar.

Com uma maca emprestada pela Alpine Ascents e 17 pessoas (na maioria sherpas), começamos a jornada de subida. Parecia gente demais, mas tínhamos que considerar que o corpo estava a quase 6000 metros de altitude, no fundo de uma greta, e acima de tudo, tínhamos que considerar que Mike pesava 120 Kg.

Obviamente, os sherpas chegaram antes ao corpo e fizeram sozinhos a parte mais importante do trabalho, que foi tirar Mike da greta. Quando cheguei, ele já tinha sido colocado no outro lado da greta onde ele caíra.
Mesmo após absurdas 6 horas de trabalhos, o corpo acabou não chegando ao acampamento-base e Chris teria que esperar mais um dia. Decepcionados, voltamos ao acampamento-base.

Normalmente, a educação vai aos ares num acampamento de 15 homens que estão juntos a 1 mês, mas aquela noite, todos ficamos quietos e só fizemos comentários que eram necessários. Sem muito mais o que dizer, fui dormir. Outra noite e outra manhã bizarra daquelas e novamente estávamos ao lado de Mike.
O corpo não estava muito longe do acampamento-base, mas desta vez, somente a nossa expedição iria ajudar no resgate. Com Jason Thomas coordenando o resgate, seguimos puxando, empurrando ou mesmo levantando a carga de acordo como era dito. Passamos por degraus verticais com 3 metros de altura, mas aquilo não se comparava ao que tínhamos passado com Mike no dia anterior. Como haviam pedras no acampamento-base, tínhamos que levantar o corpo, pois não poderíamos arrastá-lo como fazíamos no gelo. Uma secção de escada de alumínio foi pedida por rádio para quando chegássemos.

Finalmente entrávamos nos limites do acampamento-base. Enquanto as pessoas no acampamento comiam e outras descansavam, nós carregávamos o corpo de um homem de 120 Kg sobre uma escada. Em respeito, vários membros de outras expedições apareceram para nos cumprimentar e prestar condolências, outros, em contrapartida, filmavam todas atividades mostrando total desrespeito. Os sherpas, muito superticiosos, jogavam pedras nos cinegrafistas e nas câmeras, com medo que a alma de Mike fosse parar dentro das câmeras. Isso gerou vários atritos entre a nossa expedição e as outras 3 que estavam filmando e inclusive uma briga. Após uma briga, o líder de nossa expedição expulsou um dos integrantes da expedição ao Lhotse.
Brigas à parte, ainda tínhamos que chegar ao nosso acampamento. Avistei a nossa grande barraca vermelha, eu estava exausto, ainda tínhamos que tirar o corpo da escada e empacotá-lo para voar no dia seguinte.
O cozinheiro - que também é um Lama (sacerdote budista) - preparou uma cerimônia à noite, ao lado do corpo. Ao frio abaixo de zero do acampamento-base, acendemos uma fogueira em forma de despedida. Todos falaram alguma coisa a respeito de Mike diante do fogo. Eu estava tão cansado que não sabia o que dizer. Apenas mexi as brazas liberando faíscas ao céu frio. Aquilo foi muito bonito.

O fogo se acabara, era hora de uma merecida janta. Esta foi em silêncio por parte do irmão do falecido. Os restantes, tentávamos animá-lo, mas ele continuava sério e pensativo. Imaginava o quanto estava sendo difícil para Chris O'Brien, ter perdido o irmão na montanha. Ele mal tinha contado à família e a notícia já estava no Everestnews.com. Isso tudo graças aos nossos vizinhos que não podiam perder a oportunidade em publicar uma notícia tão quente como aquela.

Cambaleando de sono, entrei no meu saco de dormir. Aquela hora de pensamentos que eu tinha pouco antes de dormir, foi um dos poucos momentos de sanidade que eu tive naqueles dias cheios de tragédia. Imaginava se é que meus amigos e família imaginavam que eu tive um dia tão bizarro.

As avalanches chegadas com os primeiros raios de sol, me acordaram às 5:30 da manhã. Lembrei que tinha que ajudar a carregar Mike ao helicóptero, que chegaria às 6 da manhã. Vários dos meus companheiros de expedição e alguns curiosos já estavam de pé. Ao chegar na plataforma de pouso, reparei que alguém falava no rádio, próximo dali. Curioso em saber do que se tratava a conversa naquela hora da manhã, liguei o rádio. Um scan nas freqüências, revelou uma voz a 144.4 MHz:

_"...Uma avalanche acabou de varrer o acampamento-1 do mapa..." Paralisado, continuei a escutar o desfecho da tragédia. A pessoa no rádio começou a identificar de que expedição eram as vítimas:
- momentos de silêncio -
_"...parivar, parivar, parivar..." (parivar é a agência que cuidou das nossas permissões)

Do topo da colina onde eu estava, podia ver um grupo de integrantes da minha expedição reunidos ao redor de um rádio VHF, na frente da barraca-refeitório. Todos esperavam saber de que expedição eram os atingidos pela avalanche. A confirmação de que a nossa expedição foi a única atingida, mobilizou todo o nosso acampamento-base. Cozinheiros corriam com panelas quentes na mão. Alguns calçavam as botas e colocavam a cadeirinha enquanto comiam o mais que podiam antes de subir. Todos ajudaram no resgate, seja direta ou indiretamente. Os que não subiram, ajudaram os resgatantes a se equipar e organizar o equipamento. Enquanto me equipava, olhava as paredes de gelo da cachoeira de gelo e imaginava como é que iria subi-lo mais uma vez em menos de 24 horas. Aquela manhã fria se aqueceu rapidamente nas mentes dos que subiríamos para resgatar. Após tomar uma café da manhã de emergência que me foi preparado, me defrontei com a carga que me esperava, e que também me foi preparada: uma maca enrolada, uma garrafa de oxigênio de 4 litros, 3 litros de água e comida para os feridos (além do meu equipamento pessoal). Sem nem saber o que estava acontecendo, 5 sherpas e 4 estrangeiros, começamos a adentrar no Khumbu.

Após ter progredido apenas 500 metros no gelo, comecei a escutar o barulho de um helicóptero vindo do acampamento-base, era o resgate de Mike e Chris O'Brien. Surpreendemente, este era um helicóptero militar de 2 lugares e não um helicóptero de carga russo como esperávamos. O mau tempo fez com que o helicóptero subisse com tempo e combustível contados e este teria que ser pequeno. Chris teve que espremer e levar seu irmão congelado e morto sobre suas pernas. Durante uma parada para recuperar o fôlego, a aeronave sobrevoou o Khumbu, podia-se ver Chris acenando desde a janela do helicóptero, foi muito triste. Um mês mais tarde eu ficara sabendo que o vôo durou apenas 7 minutos e Chris teve que ficar esperando 2 dias por tempo bom e todo esse tempo sem refrigeração. A viagem lhe custou 9 mil dólares.

Com o VHF ligado, comecei a escutar as notícias contadas pelos escaladores que desceram do acampamento-2 para ajudar. No total, 4 expedições estavam envolvidas no resgate. A narrativa de um dos membros da Alpine Ascents Expedition, que desceu do acampamento-2, não era muito convidativa. Ele contou que um homem com sotaque francês teria sido lançado a 150 metros do acampamento. Supostamente, este seria Pierre Bordeau, um canadense que também estava na nossa expedição. Um sherpa chamado Durga teria que ser imobilizado e ser descido numa maca, pois suspeitava-se que sua coluna estivesse quebrada. Outra pessoa não identificada teria escoriações por todo o corpo e teria perdido as botas. Outros 2, também de nossa expedição, estavam desaparecidos.

Um misterioso escalador que supostamente seria tcheco, estaria descendo a cachoeira congelada sozinho e teria escoriações por toda a cara. Na metade do caminho, avistei aquele curioso escalador que ninguém sabia de que expedição era. O homem estava com a cara toda ensangüentada e negou qualquer ajuda. Achei melhor não insistir, pois ele era realmente grande e não parecia estar disposto a me explicar porquê. Sem entender nada, continuei.

Quanto mais altitude ganhávamos, mais notícias chegavam e ao adentrar nos limites do ex acampamento-1, tínhamos uma idéia muito mais clara do que aconteceu. Quando cheguei onde supostamente era o acampamento-1 não havia mais nada, 50 barracas desapareceram. Uma gigante "língua" de neve e rochas que não estava lá antes, cobria o exato local do acampamento-1. A única expedição que escapou da destruição, foi uma expedição iraniana, que ironicamente, tinha 4 barracas no meio de 2 seracs, o que seria considerado perigoso. Aproximadamente 10 expedições tinham barracas ali, mas somente a nossa teve o azar de ter gente ali no momento que a avalanche ocorreu. Toneladas de gelo se desprenderam do flanco oeste do Everest, causando a tragédia. Provavelmente, foi a mesma avalanche que ouvi na manhã que o helicóptero de Mike e Chris veio.

No total, perdemos 7 barracas com tudo o que estava dentro. As 2 primeiras barracas do lado oeste foram arrancadas pelo deslocamento de ar. O chão destas ainda estava enterrado ali. Outras permaneceram no local, mas todas amassadas e com as varetas quebradas. Ao atravessar uma greta a caminho do acampamento-base reparei numa das barracas no fundo da greta.

A ajuda da Alpine Ascents foi indispensável no resgate. Ellie Henke (a gerente do acampamento-base da Alpine Ascents) organizou o resgate pelo rádio de uma forma excepcional. A única coisa que tínhamos que fazer, além de escalar e carregar feridos, era passar a situação para Ellie e ela saberia quem ou que recursos direcionar de acordo com a necessidade. A montanha toda ficou disponível para ajudar. Foi uma das poucas vezes que vi tanto companheirismo no Himalaya.


Ouça a organização do resgate pelo rádio,
enquanto eu arrumava meu equipamento

Do topo de um serac onde se tem vista ao acampamento-base, comecei a passar a situação pelo rádio para Ellie, outros 3 sherpas estavam ali comigo descansando. Sem menos esperar, o serac todo começou a se mexer. Naturalmente, peguei a minha mochila e corri em direção ao acampamento-1. Apesar dos 6000 metros de altitude, não hesitei em correr várias dezenas de metros até que saí dos limites do bloco principal, os sherpas menos ainda. Para piorar, nevava do Khumbu para cima desde que amanheceu.

Finalmente, todos os 5 membros de nossa expedição que ficaram espalhados nas redondezas do acampamento-1, foram reunidos no topo dos grandes seracs e a descida ao acampamento-base foi iniciada. De fato, tivemos que descer 3 deles, 1 deles numa maca. Pierre Bordeau quebrou alguns ossos numa mão, mas ele Jason Barilla apesar de bastante machucados, conseguiam caminhar. Jowan Gauthier tinha sido atingido por uma pedra nas costas, aquilo danificara seu rim e além de causar uma dor tremenda, o fez urinar sangue. Ele teve que engatinhar a maioria do caminho. Improvisamos joelheiras para isso. James Bach foi atingido no rosto e no pé direito. O impacto esmigalhou vários ossos de seu pé, ele usava meias na hora da avalanche pois estava dormindo. Tivemos muito trabalho com James. Durga foi o pior de todos, ele não conseguia se mexer e descemos ele numa maca. A descida foi muito dolorosa para ele. Foram várias as vezes que quase tombamos a maca com o pobre Durga dentro. Tínhamos que fixar parafusos de gelo em determinados pontos onde as paredes eram muito inclinadas.

Ligamos ele no oxigênio o tempo todo e tivemos que ministrar-lhe fortes doses de remédios para dor. Acabamos demorando 5 horas em levar todos os 5 vivos ao hospital do acampamento-base.
Quando entrei dentro da grande barraca onde é montado o hospital, surpresa! Além dos 5 feridos da nossa expedição, estava aquele enorme tcheco, que na verdade era polonês. Parecia que ele tinha acabado de lutar com Mike Tyson. A sua cara estava bem inchada e cheia de escoriações. Ele apenas resmungava coisas em polonês. James e Jason me contaram que depois que a avalanche parou, eles perceberam que alguém pousou no topo de sua barraca. Ao conseguirem cortar a barraca e sair para fora, eles viram que era o tal polonês. A primeira reação dele, ante uma avalanche daquelas, foi reunir o máximo de equipamento que ele perdeu e começar a descer. As más línguas presentes no hospital, diziam que ele estava ilegalmente ali, mas ninguém queria perguntar a ele com medo de acabar também com a cara inchada.

A história foi confirmada pelo nosso oficial de ligação: O polonês estava escalando o Everest sem permissão. Seu passaporte foi pêgo e ele teria que pagar uma multa de até 75.000 dólares. Passamos o resto da tarde cogitando quais possibilidades teria o polonês em atravessar a fronteira da Índia por terra, sem ser preso, pois o Nepal nem tem consulado polonês. De certa forma, torcíamos para que ele conseguisse atravessar a fronteira. Nunca ninguém soube o que aconteceu.

Mais uma subida ao Khumbu

Havia que subir ao acampamento-1 para resgatar o equipamento perdido e reconstruir algumas barracas. Mais um dia pelo Khumbu, aquilo estava virando rotina. Jason Thomas, Kay e eu, gastamos todo um dia cavando e não conseguimos quase nada. Recuperamos alguns sacos de dormir, um pouco de equipamentos, estacas, piolets, mas isso não era nem metade do que perdemos na avalanche. Alguns acampamentos foram soterrados por 10 metros de neve! Milhares de dólares foram perdidos somente no nosso acampamento. Arrastamos tudo o que encontramos até um lugar mais protegido e montamos 2 barracas. Fui dormir cedo de tão exausto que estava. O acampamento agüentou firme e forte mesmo após os ventos noturnos. Jamais olhei para aqueles seracs no topo do pilar oeste do Everest do mesmo jeito. A maioria das expedições foi mais longe e nem montou mais barracas no ex-local do acampamento-1.
Oficial de ligação "doente"

O helicóptero que resgataria Durga, Jason, James, Jowan e Pierre, atrasou 2 dias por causa do mal tempo. O fato de um grande helicóptero russo pousar no acampamento-base era um grande acontecimento. Inúmeras pessoas não agüentavam mais o estilo de vida de lá e viam o helicóptero como uma oportunidade de acabar com aquilo. Nós, por outra parte, não agüentávamos mais o oficial de ligação, quem controlava tudo o que fazíamos. Combinamos entre todos os membros restantes da expedição, e acabamos convencendo o oficial de ligação de que ele estava doente e tinha que descer. Com 10 pessoas perguntando: "Você está bem? parece doente!!!...", ele acabou decidindo descer.

Geralmente, a principal arma das expedições contra os oficiais de ligação, são os cozinheiros. Somente eles conseguem preparar refeições com ingredientes especiais que façam os pobres se sentirem com o intestino um tanto solto demais, se é que me explico. Nem precisamos usar a arma secreta.

Greve, só o que faltava

Depois das avalanches e tragédias era hora de continuar com a expedição, afinal, tínhamos que instalar mais de 1100 metros de cordas fixas no Lhotse, começando na Faixa Amarela. Precisávamos começar a transportar cordas, estacas e parafusos aos acampamentos mais altos para realizar o trabalho.

Como se nada mais pudesse dar errado, alguns sherpas se negaram a subir o Lhotse, pois a expedição estaria amaldiçoada segundo eles. Os sherpas são extremamente superticiosos e se as coisas não andam bem com os deuses, é melhor não subir. Como o Everest é mais fácil e os sherpas ganhariam um summit bonus maior, vários outros sherpas pularam para a expedição ao Everest, apenas sobraram 2. Além disso, eles não teriam que trabalhar instalando cordas no Everest, pois além da nossa expedição, outras 28 dividiam os trabalhos de instalação de cordas. No Lhotse, em contrapartida, éramos só nós.

Virei sherpa!, tive que começar a subir as cargas para em 2 semanas iniciar os trabalhos com as cordas a 8000 metros e tentar o cume. De 15, éramos poucos os que decidimos subir com cargas absurdamente acima da média. Com mochilas de 30 Kg, começamos com a escalada no Khumbu. Demorei 4 horas em chegar ao acampamento-1, cheguei primeiro e esperei quase 2 horas pelo segundo que chegasse. Kay Thurley e Dan Mazur (o líder da expedição) foram atrasados por uma tempestade e demoraram bem mais em chegar. Seguindo a nossa linha de boa sorte, aquela tempestade tinha que ser forte e revelou-se uma das piores de toda a temporada. Nevou a noite e na manhã seguinte.

Após o amanhecer, continuamos até o acampamento-2. Não houve uma pessoa que não parou no caminho e comentou algo sobre a mochila, mesmo os sherpas. Numa situação normal, demoraríamos apenas 2 horas do acampamento-1 ao 2, mas com cargas adicionais, demoramos quase 4. Quase tudo o que precisávamos já estava no acampamento, e depois da terceira subida ao acampamento-2, já estava mais do que na hora de prosseguir e começar a montar o acampamento-3. Enquanto boa parte das expedições já tinha cargas depositadas no colo sul a 8000 metros, nós não tínhamos nem o acampamento-3 montado. Isso mudou a meados de maio, quando, heroicamente e também, inesperadamente, Phuri Sherpa e Gallu Sherpa, montaram uma barraca a 7100 metros de altitude.

A barraca foi usada como depósito por todos os que subimos depois. Centenas de metros de corda, sacos de dormir e equipamentos de escalada ocupavam quase a barraca toda. Depois de quase 1 mês e meio na montanha, a minha aclimatação estava quase chegando ao fim. Para isto, deveria subir e passar pelo menos uma noite a 7000 metros de altitude.

Numa simples subida de aclimatação, subi ao acampamento-3, juntamente com Blair Falahey. A subida foi castigada por ventos carregados de neve, que vinham direto do colo sul. Separados por uma hora de escalada, Blair e eu chegamos bem ao acampamento-3. Do acampamento-3, podia ver o cume do Pumori na mesma altitude, logo atrás, nitidamente, podia ver o Cho Oyu, com mais de 8000 metros de altitude.

Mesmo com tantos equipamentos estocados na barraca-depósito (que aliás era a única que tínhamos), consegui me espremer e criar um espaço para dormir. Blair continuou e dormiu 20 metros mais acima, onde haviam 2 barracas vazias de uma expedição da Mongólia.

A noite não foi tão horrível quanto esperava, mas os ventos se encarregaram de me acordar sempre que possível. De manhã desci ao acampamento-2 e depois ao base, quase que imediatamente. Na descida, encontrei 2 coreanos sentados perto de uma greta. Um deles parecia estar muito mal e ao reparar bem no rosto dele, lembrei que era aquele coreano que não me ajudou quando Ben Webster quebrou a perna. Com muito gosto, levantei a cabeça e continuei a minha descida até o acampamento-base sem ajudar.

Depois de 1 mês e meio acima de 5300 metros

Como teoricamente eu já estava aclimatado, decidi descer até pelo menos 4000 metros para descansar e me recuperar depois de tanto tempo na altitude. Pangboche, assim como o ano anterior, fora o lugar escolhido. Para não forçar muito a caminhada a Pangboche, 25 km distante, decidi por uma noite em Lobuche, a 5000 metros. Me deparei com dezenas de pessoas que também tiveram a mesma idéia. O dia de ataque ao cume estava se aproximando e ninguém sabia dizer quando partiria para o cume. Continuei descendo e cheguei a confortáveis 3900 metros de altitude, em Pangboche, onde encontrei a dupla portuguesa de escaladores que tentava o Lhotse. Blair Falahey da austrália, juntou-se a nós no final da tarde. João e Helder também decidiram dar um tempo com a escalada e se recuperar nas baixas altitudes. Era inacreditável ver arbustos, ou mesmo árvores depois de mais de 1 mês vendo gelo e pedras.

Gastamos 2 dias fazendo absolutamente nada que não seja beber chá com leite, comer e dormir. Por um milagre, me comuniquei com o acampamento-2, bem distante dali. Fazendo uma "ponte" com o acampamento-2, consegui descobrir a previsão do tempo de 8 mil dólares que chegava por computadores ao acampamento-base. Ninguém simplesmente sabia que dia sair para o cume. Aquela situação não era nada agradável. Ao contactar Dan no acampamento-2, descobri que sua previsão não era nada precisa. Segundo ele: "...parece que há um pouco de vento aqui encima, um dia desses, talvez, vamos para o cume". A 2 dias de caminhada do acampamento-base, as notícias mal chegavam. Achei melhor voltar à base e acompanhar de perto.

Por causa das mudanças na previsão do tempo, não havia mais nada a se fazer do que esperar. Como eu não tinha livros, gastava o tempo consertando coisas, lavando roupa e costurando. O gelo ao redor das barracas já derretera bastante. Debaixo das mesmas, a coisa era bem diferente. Plataformas de quase 1 metro de altura, se erguiam, com as barracas no topo (na verdade, era o chão que abaixava). Isso trazia muito trabalho, pois como o acampamento-base está sempre em movimento, havia que reposicionar pedras constantemente, caso contrário, seria difícil dormir.

O líder da expedição, tinha um computador por onde mantinha o seu website atualizado. E era na verdade, era um dos poucos meios razoavelmente baratos de nos comunicar com o mundo. Infortunadamente, este parou de funcionar e não pudemos mandar nem receber notícias por uma semana. O problema foi gerado pela baixa pressão do acampamento-base, que acabou danificando o disco rígido. Passei 2 dias tentando arrumar o computador, até que finalmente a meios totalmente decadentes, Dan e eu conseguimos arrumá-lo. Um dia depois de chegar ao acampamento-base, a giardíase se manifestou. A idéia de perder a chance do cume por causa de um protozoário me revoltou muito.

Mais desgraças

Semanas após o acidente com Ben Webster, fui procurar a expedição dele para saber um pouco mais sobre sua descida. Por indicações, acabei chegando num acampamento canadense, mas este não era o de Ben. O líder se apresentou como Sean, e era a quarta vez que ele guiava expedições ao Everest. A expedição de Sean era vizinha à de Ben. Ele contou que ele teve que descer do acampamento-2 porque teve início de edema pulmonar. Dois dias mais tarde, recebi a triste notícia de que o próprio Sean, teve um misterioso ataque cardíaco e faleceu durante a sua descida do acampamento-base. Sean Egan tinha 63 anos.

Acabei encontrando a outra expedição de canadenses, e estes me convidaram para um almoço. Eles tinham vários ítems no almoço que eu já não comia a mais de 1 mês, como por exemplo, suco de fruta em caixa! Tudo isso ali, a 5300 mt! Ficava pensando, a cada coisa que comia, quantos yaks foram necessários para trazer tudo aquilo até ali. As cadeiras tinham encosto, eles tinham aquecimento a gás e um forno! Boquiaberto, observava os eletrodomésticos, tinha até um DVD player! Os clientes da expedição, todos bem vestidos e cheirosos, vieram me cumprimentar. Mantive meus braços baixos para tampar as axilas, afinal, faziam 45 dias que não tomava banho...

O sirdar da expedição (sherpa chefe) me reconheceu e me apresentou ao resto como "o argentino que subiu o khumbu 5 vezes". Trocamos várias informações, geralmente sobre previsão do tempo e condições nos acampamentos. Durante a conversa, o sirdar citou uma barraca que teria sido soterrada no acampamento-3, a 7100 mts. Pela descrição, aquela barraca só podia ser da minha expedição. Um monte de fatos lógicos me vieram à cabeça: o gigante serac a 3 metros da barraca que ele descrevera, a entrada desprotegida... tudo fez sentido. Mas naquele momento, eu não queria admitir ali na frente de todos que escolhêramos um local péssimo para montar o acampamento-3. Para não propagar a idéia de que a minha expedição estivesse amaldiçoada, disse que estava tudo sob controle e disse que a barraca estava bem. Ao primeiro passo que dei pra fora do acampamento canadense, peguei o rádio e alertei a minha base imediatamente:
_"atenção acampamento-base, perdemos o nosso acampamento-3 também!"

Que desastre! Nem tínhamos completado a lista do equipamento perdido na avalanche no acampamento-1. Nossa expedição estava começando se tornar a ovelha negra do acampamento-base. Ninguém teve tanto azar como nós!

Até a monção conspirou

Todos os anos, antes que a monção chegue no Himalaya, é possível ter até uma semana de dias impecáveis, antes que comece a ventar e nevar forte. No entanto, como eu estava lá, as coisas tinham que ser diferentes. Em 2005, diferente dos 50 anos anteriores, a monção demorou 2 semanas a mais em chegar ao Himalaya. A notícia era de que a monção estava se formado no Golfo de Bengala no dia 15 de maio, mas isso deveria ter acontecido 2 semanas antes. Pouco antes da monção chegar ao Himalaya, os ventos fortes devem cessar por pelo menos 5 dias, até que finalmente esta chegue ali e fique muito difícil tentar qualquer cume de 8000 metros.

Já após 5 semanas de tempo ruim o final de maio se apresentou limpo, mas com muito vento. Seriam necessários 3 ou 4 dias para as expedições saíssem do acampamento-base e chegassem ao acampamento-4, antes que tentassem o cume. Por isso, a maioria das expedições contratam serviços de previsão de tempo com antecedência. Isso custava até 8 mil dólares.

Como a nossa expedição não tinha previsão do tempo por email como a maioria delas no acampamento-base, pegamos algumas previsões "emprestadas" das expedições mais ricas. Quando estas passavam a notícia por VHF aos acampamentos mais altos, lá estávamos nós escutando na mesma freqüência, com uma caneta na mão. Era curioso, mas cada expedição tinha sempre um dia diferente para o chamado "dia mágico".
Por maioria de opiniões mesmo, o primeiro veredito foi para o dia 21 de maio ser o dia que vários iriam tentar o cume do Everest, e nós, o Lhotse. Com o passar dos dias, a janela no tempo do dia 21 revelou-se muito curta e todos acabaram adiando.

O único a chegar ao cume

 
João Garcia

Os escaladores portugueses João Garcia e Helder Santos, seguindo a sua fiel previsão do tempo que lhes era mandada por telefone satelital, insistiram que a janela do dia 21 seria longa o suficiente para tentar o cume. Os dois partiram juntos no dia 18, para no dia 21 de maio de madrugada, finalmente tentar o cume. João e Helder teriam apenas 12 horas para tentar o cume, antes que os ventos começassem a soprar com mais de 80 km/h. Eles partiriam sem oxigênio desde o acampamento-3, para não sofrer com a extrema altitude do acampamento-4.

Por total azar, Helder contraiu uma estranha bactéria que o debilitou até o ponto de não poder subir ao acampamento-4. No acampamento-base, todos escutávamos as breves conversas entre e ele e João, que acabou subindo sozinho. Por várias horas, ficamos sem saber se João continuou em direção ao cume ou mesmo se desistiu.
Fin
almente, às 3 da tarde, recebemos uma mensagem toda quebrada, de que João conseguiu chegar ao cume. Ele se tornou a primeira pessoa a chegar a um cume de 8000 metros na temporada toda. Foi o sexto cume de 8000 metros de João Garcia.

Um helicóptero no cume do Everest?

3 dias depois, numa miserável manhã no acampamento-3, a 7100 metros, acordei com aquele incômodo som das avalanches mais abaixo. Com todo o lado direito, a traseira e a frente da barraca soterrados por neve, eu só percebi que era dia por causa da luz que entrava pela parede esquerda. Para sair e usar o banheiro, tive que cavar durante 10 minutos com as mãos mesmo, só para evitar que o interior da barraca fosse soterrado também. Ao sair e satisfazer a minha vontade, quase que imediatamente avistei um helicóptero vermelho e branco saindo detrás do cume do Nuptse. O Nuptse tem quase 8000 metros e helicópteros não voam a 8000 metros. Talvez por causa da hipóxia dos mais de 7000 metros, nem sequer notei que havia algo estranho naquele sobrevôo. Já cansado de ver helicópteros indo e vindo, dei as costas ao helicóptero e voltei ao meu buraco. Vi a mesma cena na manhã seguinte desde o acampamento-2, a 6500 metros de altitude. Mal sabia eu, mas ao voltar ao acampamento-base, 3 dias depois, o principal comentário era daquele suposto helicóptero que pousou no cume do Everest.

Uma empresa francesa chamada Eurocopter fabricou um novo modelo de helicóptero capaz não só de voar estável em extremas altitude, mas também pousar com relativa segurança em lugares como o cume do Everest. Revoltados com a história, guias e escaladores criticaram o fato por semanas. Agora não seriam mais necessários guias, equipamentos e 2 meses de expedição para chegar ao teto do mundo. "Apenas" seriam necessários 20 mil dólares para pagar o piloto e a permissão. Por outro lado, não seriam mais geradas toneladas de fezes e lixo e tampouco, sherpas morreriam instalando cordas na rota. Viagens de helicóptero ao cume do Everest trariam desemprego para os sherpas, o que mudaria dramaticamente o estilo de vida do vale do Khumbu. Resgates poderiam ser realizados com muito mais facilidade e os feridos não precisariam passar pelo que Durga passou ao se machucar numa avalanche a apenas 6000 metros de altitude. Infinitas são as contradições nas vantagens e desvantagens no caso de que este tipo de "escalada" ao cume do Everest se tornar um pacote turístico.

Começando bem o dia

Pela nona vez, eu subia a cachoeira de gelo do Khumbu, desta vez, para atacar o cume. Como não pretendia parar para dormir no acampamento-1 e também pela cachoeira de gelo estar tão instável, acordei às 4 da manhã e comecei a escalar. Cambaleando de sono, entrei nos limites da cachoeira de gelo. Dois sherpas que estavam logo à minha frente cruzavam uma plataforma de gelo logo que os avistei. Sem nem sequer pensar, segui o mesmo caminho que eles seguiram na plataforma. Ao chegar exatamente no meio, esta quebrou. Debaixo, não poderia haver algo pior naquela hora da manhã: água! E muito fria. Aquilo definitivamente me fez ficar bem acordado durante o resto do dia.

O calor da tarde anterior, represou grandes quantidades de água de gelo derretido e com o frio da noite, a superfície congelou. Num frio de pelo menos -15†C, afundei até as coxas e para sair dali, tive que quebrar o gelo, chegando à borda do pequeno lago.

Comecei o dia muito bem! Se voltasse ao acampamento-base, poderia perder a minha chance de chegar ao cume na janela no tempo do dia 31 de maio. Se continuasse, além do cume, também poderia perder alguns dedos do pé e talvez ter hipotermia. É claro, tomei a decisão mais "sensata e responsável": SUBIR!

A água nas minhas duas calças congelou quase que instantaneamente. Tirei as minhas botas plásticas e esvaziei o máximo que pude de água. Ao tirar as minhas meias e escorrer a água, estas também congelaram. Tive que colocá-las nos pés novamente, quase mudei de idéia.

Decidi forçar bastante o meu ritmo, assim eu entraria em calor. Percorri os primeiros 500 metros com muita dificuldade, mas depois disso, os meus joelhos tinham descongelado pelo menos. Meus pés continuaram com gelo até que cheguei ao acampamento-1, onde parei para descongelar a maioria do gelo. Torcendo para que não vente muito forte no caminho ao acampamento-2, continuei a subida por aquele familiar caminho.

Os sherpas conseguiram montar uma barraca de lona no acampamento-2, assim teríamos uma pequena cozinha e um depósito. O líder da expedição, tentando economizar alguns dólares, decidiu usar um daqueles fogareiros convencionais a gasolina, no acampamento-2. Éramos a única expedição com um fogareiro a gasolina acima de 6000 metros.

Como havia que bombear mais ar no fogareiro por este não estar projetado para aquela altitude, ele acabava quebrando. Dois fogareiros do mesmo tipo tiveram que ser desmontados no acampamento-base para ter repostos para arrumar o fogareiro no acampamento-2. Na terceira vez, o fogareiro não agüentou mais. Um cano rachou, e uma nuvem de combustível vaporizado vazou dentro da barraca. Alguns segundos depois, explodiu. A barraca pegou fogo, mas o vendaval do lado de fora e Phuri Sherpa, se encarregaram de apagar o fogo. O grande buraco na barraca ficou lá até o fim da expedição, e nós ficamos sem cozinha.

Odontologia ao Extremo

Pela terceira vez no acampamento-3, nos preparávamos para o que talvez seria o último dia de subidas daquela longa expedição de 2 meses. Tentava me preparar psicologicamente para o que iria enfrentar. Também tentava me hidratar e comer o mais que podia. Jason Thomas, por outro lado, com 2 noites mal dormidas por causa de uma dor de dente, já estava pensando em descer. A 7100 metros de altitude, com utensílios totalmente precários, tive que tampar o buraco aberto num molar de Jason, com cimento temporário. Lembrando dos ensinamentos de Fábio Dellalio (que é cirurgião dentista), improvisei ferramentas usando canetas e agulhas. Jason parou de reclamar de dor logo após a consulta. O cimento ficou tão bem preso, que caiu três dias depois.

Enquanto eu me divertia arrumando o dente de Jason, Phuri Sherpa e Shane Edmonds subiram para explorar o caminho ao acampamento-4 e depositar uma carga. Às 3 da tarde, Phuri conseguiu chegar à linha dos 8000 metros e achou um bom lugar na base de uma linha rochosa para montar o acampamento-4. Shane teve que voltar pouco antes do Esporão de Genebra, a 7800 metros, pois estava exausto. O esforço de Shane, acabou lhe custando a oportunidade de tentar o cume, e acabou não voltando mais lá. Soubemos que algumas expedições tentaram o Everest um dia antes, mas não conseguiram alcançar o cume. O vento soprava forte naqueles últimos dias de maio, não muito diferente das outras vezes que estive no acampamento 3. Na manhã do dia 30 de maio, deixamos o acampamento-3 para finalmente, subirmos o desconhecido caminho ao cume.

A vida a 8000 metros

Confesso que desde que saí do acampamento-base com a idéia de ir a 8000 metros pela primeira vez em minha vida, fiquei com medo da montanha. Após uma lesão cerebral ocasionada por um acidente em 2001, minha cabeça nunca voltou ao normal. Não só me tornou o doido que sou, mas também afetou o meu comportamento nas altitudes. Geralmente, fico delirando, falando e tendo espasmos durante a noite, mas de manhã tudo acaba bem e não lembro de nada. A pior parte, é para quem está comigo na barraca, afinal de contas, não é muito agradável ficar a meio metro de alguém que fica delirando a noite inteira. Como eu não sabia como o meu cérebro ia responder a 8000 metros, estava muito preocupado com meus companheiros que teriam que me ajudar a descer caso eu me sentisse mal. Sinceramente, não desejava para ninguém o que passei nos resgates semanas antes e isso trazia um peso na consciência antecipado.

Eu nem imaginava a possibilidade em levar oxigênio engarrafado ao Lhotse. O preço bem salgado, não me chamava a atenção nem um pouco. No último dia que estive no acampamento-base, alguns dos meus companheiros "mexeram uns pauzinhos" e decidiram me ajudar. Dan me emprestou um regulador reserva, Blair me emprestou uma garrafa de oxigênio que não seria necessária a ele e Jason me emprestou uma mangueira. Mesmo sendo um kit bem básico, eu teria pelo menos 10 horas de oxigênio, se precisasse. O sistema era um protótipo britânico, lançado pela primeira vez em 2004. Subi muito mais tranqüilo.

Ao sair do acampamento-3 e passar um grande serac que tampava a minha vista, pude ver a Faixa Amarela, que está bem próxima a 8000 metros de altitude. O chamado esporão de Genebra, apareceu à esquerda. Várias expedições que iam ao Everest, também escolheram aquele dia para chegar ao colo sul (o acampamento-4 do Everest). Nossa expedição tinha 4 membros restantes que queriam tentar o Everest, e a Faixa Amarela seria o ponto onde as duas expedições tomariam direções diferentes.

A Faixa Amarela parecia estar realmente perto, mas a 7400 metros, as coisas são diferentes. Demorei 1 hora para percorrer o que eu julgava como 10 minutos. Os 18 Kg que eu levava, pareciam 80. Demorei meia hora em cruzar a Faixa Amarela.

A cada parada para descansar, eu acabava cochilando e dormindo. Aquilo era muito estranho, mas me lembro que era extremamente confortável. A idéia de me levantar e continuar, não me despertava mais vontade alguma. Vontade mesmo, eu tinha de ficar ali e dormir. Eu estava a apenas 200 metros da imensa rampa que conduzia a um rochedo onde tínhamos o acampamento-4. Não sei de onde tirei forças para continuar, mas o resto da subida foi no "piloto-automático". Pouco depois de cruzar a linha dos 8000 metros, o tempo piorou.

A plataforma que Phuri havia mencionado era tão pequena, que mal cabia uma barraca. Naquela mesma barraca dormiríamos: Jason, Mark, Blair e eu. Uma das laterais e a frente da barraca, estavam literalmente suspensas no ar. Com aquelas partes suspensas, não havia chão suficiente para os 4 dormirem. Dezenas de equipamentos se espalhavam em todos os cantos, coisas eram facilmente perdidas. Na madrugada, a apenas algumas horas após haver chegado, partiríamos para o cume.

Presente de Grego

Fortes rajadas de vento começaram por volta das 10 da noite. A barraca que já era bem pequena, ficou mais encolhida ainda com a neve que se acumulava do lado de fora. O esforço para sair do lado de fora e cavar, era incrivelmente fatigante a 8000 metros de altitude, mas pelo menos, revesávamos fazendo isso. Na oportunidade que tive de sair da barraca para cavar, pude reparar no céu. Incontáveis estrelas que eu jamais havia visto antes, ocupavam partes do céu desconhecidas para mim. Pude resistir ao frio por alguns segundos só para observar aquela cena.

A cada saída, aproveitávamos para coletar neve, pois 4 pessoas, levando 2 litros cada um para o cume e adicionando a água que seria consumida ali no acampamento, seriam mais de 30 litros de neve que precisávamos. Essas contas demoravam muito tempo para serem concluídas naquela altitude. Comecei a não pensar e ver as coisas com clareza. Não sabia se aquilo era normal ou não. Decidi escutar as advertências de todos meus companheiros e usar o oxigênio que consegui emprestado. Independentemente do tempo que demorei para interpretar como o sistema de oxigênio funcionava, consegui colocar o cano no meu nariz, e respirar mais oxigênio. A mudança é absurda! Tudo fica mais claro, e se recupera muita agilidade com o oxigênio.

O sistema que eu usava, era revolucionário! Um regulador liberava apenas a quantidade de oxigênio que eu precisava. Um cano ficava na frente das narinas e preso à cabeça pelas orelhas, semelhante ao oxigênio ministrado nos hospitais. Na teoria, era perfeito, mas aquele sistema era apenas um protótipo. De fato, funcionou por algumas horas, até que apresentou os primeiros defeitos. O pequeno diafragma no regulador parou de identificar a queda de pressão dentro das narinas e o sistema simplesmente parou de liberar oxigênio. Mesmo naquela miserável situação a 8000 metros de altitude, a algumas dezenas de graus negativos, tive que ver o que estava errado com o sistema. Com luvas e luz de lanterna, Blair e eu tentávamos entender o que estava errado. Concluímos que o diafragma contraía muito com o frio e causava a falha. Mesmo com aquela pobre oxigenação cerebral, observamos outros 3 defeitos na construção do equipamento. Ao esquentar o regulador e o manômetro, este passava a liberar oxigênio aleatoriamente. Passamos o resto da noite criticando a Summit Oxygen, que é a empresa que fabrica o sistema. Até com aquilo tivemos azar!

A hora do cume chegara, mas o vento não deu trégua. Jason e Mark decidiram descer de manhã. Milagrosamente consegui dormir e quando acordei, meus companheiros de barraca me contaram como foi a minha noite com convulsões e tudo mais, mas eu não lembrava de nada. Estava extremamente cansado e sem vontade alguma de me mexer, comer ou beber. Tive que ajudar a fechar as mochilas de Jason e Mark. Acho que aquela foi a tarefa mais fatigante que já realizei em uma montanha. Vegetando, eu observava como meus amigos faziam aquelas exaustivas atividades antes de começar a descer.

Com a subtração de 2 pessoas, a barraca começou a se tornar habitável. Tive um sentimento um tanto quanto egoísta quando meus companheiros abandonaram, pois me senti aliviado em poder esticar as pernas, e só ter que derreter água para 2 pessoas. Com Blair de um lado e eu do outro, dormimos como nunca, mesmo não tendo feito absolutamente nada naquele dia. No fim da tarde, começamos a derreter neve e fechar a mochila para ir ao cume de madrugada. A cada intervalo entre as atividades, eu parava para dormir. Acordei com a minha própria fala nos sonhos por inúmeras vezes e Blair parecia nem ligar. Ele ficou bem mais consciente do que eu no tempo que estivemos ali, mas no segundo dia, ele me revelou que estava extremamente cansado. Trazíamos muitas lembranças das vidas de cada um e as comentávamos mesmo que o outro estivesse dormindo. O dia passou absurdamente rápido.

A noite seria decisiva para o que iríamos fazer no dia seguinte. Por volta das 11 da noite, acordamos e começamos os preparativos para subir. O ventos de 70 Km/h, ainda continuavam sem dar trégua. De acordo com o que escutamos no rádio, foram previstos -37†C para aquela noite, mas o vento era 50 km/h a mais do previsto. Às 2 da manhã tirei o primeiro pé para fora da barraca.

Os ventos brancos já assolavam as encostas do Lhotse logo na madrugada. Podia ver luzes a caminho do cume do Everest, 10 expedições tentavam o cume naquela manhã. Foi ali que tive a primeira noção de que talvez não pudesse chegar ao cume. Talvez por ter me fechado aos evidentes sinais, acabei não querendo ver isso. Blair pensava o mesmo. Não era por menos, os ventos que sopravam de todas as direções se afunilavam na canaleta final do Lhotse, fazendo com que aquele corredor que ofereceria proteção, se tornasse em um verdadeiro túnel de vento.

Depois de 2 dias a 8000 metros de altitude, sabíamos que não teríamos chance de tentar de novo. Na verdade, aquela já era a segunda tentativa, pois não deveríamos exceder o período de permanência de acima de 12 horas a 8000 metros de altitude. Sabíamos que mal tínhamos energia para continuar naquele dia e mais um dia naquela altitude, seria suicídio. A monção chegaria dali a alguns dias e a grande intensidade do sol no Khumbu, o tornou muito perigoso.

Com certeza, se continuássemos iríamos trocar alguns dedos pelo cume. Foi uma decisão um tanto que difícil, mas passou tão rápido quanto o vento que varria as encostas do Lhotse. Não havia o que pensar, aquele era apenas o dia errado. Ao mesmo tempo que estava com um peso imenso na consciência, sentia um alívio em não ter que tomar mais decisões de vida ou morte. Comunicamos Dan, que estava no acampamento-2 faziam quase 3 semanas. Dan aceitou a decisão como se fosse uma daquelas notícias que contamos no café da manhã. Se conheço Dan, só faltou ele perguntar: "Em que montanha vocês estão mesmo?". Sem sermões ou discursos, começamos a fechar as mochilas e descer. Ironicamente, o meu regulador de oxigênio começou a funcionar bem.

Notícias de café-da-manhã


Na manhã que começamos a descida, cheguei ao acampamento-3 e recebi uma estranha notícia do acampamento-base. Num tom muito calmo, entre as notícias sobre geléia e pão no café da manhã, Mark me contou que um helicóptero russo caiu no acampamento-base. Pelo tom de tranqüilidade de Mark, não levei aquele comentário a sério.

Eu estava extremamente cansado, e segundo Blair, tive até convulsões nas noites que dormimos na mesma barraca a 8000 metros. Dan, que coordenava a expedição desde o acampamento-2, ficou muito preocupado com minha saúde pois estava lento demais. Demorei horas para empacotar os equipamentos e acabou ficando tarde demais para descer. Passei mais uma noite no acampamento-3.

Desci diretamente ao acampamento-base, passando pelo acampamentos 2 e 1. Chegando ao acampamento-2, minha energia estava quase que totalmente drenada. A descida à base foi uma odisséia à parte. No caminho, lá longe, pude reparar um grande objeto branco e azul a apenas 50 metros imensa barraca-refeitório. A palavra helicóptero nem se passou pela minha cabeça... até que cheguei mais perto e lembrei do tranqüilo relato de Mark. Era verdade, um helicóptero russo caiu perto de nossas barracas.

Um frio na barriga me veio quando lembrei que também ajudei na construção da plataforma de pouso. Ao ver o primeiro helicóptero pousando ali naquela plataforma, durante o resgate dos atingidos pela avalanche, pensei comigo mesmo: "que suicídio pousar um helicóptero ali !". Pois é, era mesmo. Por sorte, não morreu ninguém. Dois anos antes, durante a comemoração dos 50 anos da primeira escalada ao Everest, um helicóptero do mesmo modelo caiu no mesmo local e 3 pessoas morreram. Os restos de ambos helicópteros permanecem e permanecerão ali mesmo.

Chega de Khumbu !

Mesmo sem o cume, me senti bem em deixar toda aquela responsabilidade de lado. Percebi que pouco adiantava tudo que aprendi sobre montanhismo diante de tanta imprevisão. Montanhas de 8000 metros são muito traiçoeiras. Demoramos meses para montar o acampamento de ataque ao cume, e se o tempo estiver ruim, são poucas as chances de tentar de novo. Em montanhas de 6000 metros podemos, pelo menos, esperar pelo mau tempo sem nos desgastar tanto.

Mesmo que lutemos e batamos o pé para não voltarmos à certas montanhas, algumas semanas depois, lá estamos nós novamente como crianças sonhando. As tragédias nunca são suficientes para manter escaladores longe das montanhas. Quanto mais se escala, mais habilidade se ganha em esquecer das coisas ruins e sempre querer voltar...

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