|
Expedição
Bolívia 2002
Texto: Pedro Hauck
Quando
estivemos na Bolívia
em 2001, descobrimos inúmeras montanhas e montanhistas. Estivemos
tentamos escalar o Huayna Potosi e ainda conhecemos o lendário
alpinista francês Alain Mesili, conquistador de inúmeros
gigantes dos Andes e autor do mais importante livro de escalada da Bolívia,
que abriu nossos horizonte para novas conquistas em montanhas acessíveis,
mas que sempre representarão um grande desafio.
Escalar
na Bolívia não requer grandes custos, uma vez que a moeda
nacional é bastante desvalorizada. Porém, a economia que
fazemos acaba sendo compensada pelo precário sistema de transporte
do país e todos os desconfortos que uma viagem realizada por um
dos países mais pobres do mundo pode vir a desencadear.
Assim
como em 2001, chegamos à Bolívia via Corumbá no Mato
Grosso do Sul, Brasil, e logo na entrada somos recepcionados com um triste
incidente que infelizmente é comum na América do Sul, a
corrupção. Já entrando no país somos obrigados
a pagar uma propina para o guarda aduaneiro boliviano para carimbar nosso
passaporte.
 Uma
vez dentro da Bolívia, nosso único meio de transporte para
prosseguir viagem, é o terrível e famoso Trem da Morte,
com ele viajamos até Santa Cruz de La Sierra, 22 horas de puro
sofrimento. Em seguida pegamos um ônibus para Cochabamba e de lá
para La Paz, a capital de país mais alta do mundo, a 3600 metros
de altitude. La
Paz fica encravada em um canyon entre o altiplano e a Cordilheira Real,
um maciço montanhoso com aproximadamente 400 Km de extensão
e com mais de dez picos com mais de 6 mil metros de altitude. Entre eles,
haviam duas montanhas que planejávamos escalar, o Huayna Potosi
(uma revanche
do ano anterior) e o Illimani (que é o ponto culminante desta cordilheira).
Este último, pode ser visto de toda La Paz, o que lhe confere o
titulo de guardiã da cidade.
Nosso
primeiro desafio foi o Huayna Potosi, uma montanha de grande beleza estrutural
e muito popular entre os montanhistas devido seu fácil acesso e
proximidade com La Paz. Como ainda não estávamos aclimatados
o suficiente para fazer uma ascensão à uma montanha de 6
mil metros, decidimos montar acampamento na base de um glaciar, à
4000 metros de altitude. Nossa medida preventiva não adiantou para
todos os integrantes e Maximo, com fortes dores de cabeça teve
que permanecer neste local enquanto dias mais tarde, eu, Leo e Fábio,
subimos para o acampamento-base para fazer ataque ao cume.
O
tempo não estava bom, o que não era comum naquela época
do ano, e acabamos fazendo um ataque ao cume com condições
adversas. Para piorar. ainda nos atrasamos demais durante a ascensão,
e quase nos perdemos no meio de uma tempestade que se formara quando alcancei
o cume.
De
volta a La Paz nos recuperamos do cansaço da escalada, e nos preparamos
para outra. O tempo melhorou muito durante este tempo de descanso e preparo
para o Illimani, mas isso não duraria para sempre. No Illimani
fizemos uma aproximação tranqüila, porém no
dia em que partimos para o acampamento avançado, Leo sofreu uma
séria torção no joelho e teve que deixar a escalada.
Fabio voltou para La Paz com ele, enquanto que eu e Maximo seguimos para
o cume.
O
tempo que até então estava ótimo resolveu virar justamente
na noite de nosso ataque ao cume. Aquela foi uma das piores tempestades
de 2002, e nevou até La Paz. Acabamos abandonando a escalada a
400 metros do ponto mais alto da montanha. Naquele mesmo dia, descemos
dos 6000 metros de altitude até La Paz, em uma odisséia
de 18 horas de fuga de uma tempestade, e que resultou em uma estranha,
porém fortíssima tosse que nos atrapalhou o resto da viagem.
Depois
da aventura na guardiã de La Paz, o grupo se separou. Fabio partiu
sozinho para o salar de Uyuni e Argentina. Leo, que contraíra uma
forte virose acabou voltando para o Brasil enquanto eu e Maximo nos dirigimos
para a fronteira com o Chile para ainda escalar mais montanhas: os vulcões
gêmeos Parinacota e Pomerata e o Sajama, a maior montanha da Bolívia.
Estas montanhas ficam situadas em um parque nacional em que a paisagem
marca uma transição entre o deserto do Atacama e o altiplano,
uma paisagem hostil e bela ao mesmo tempo.
Decidimos
escalar os vulcões gêmeos primeiro. Para chegar até
a base dos Payachatas, como são conhecidos, tivemos que percorrer
dezenas de quilômetros a pé, pelo meio de um deserto formado
por areia vulcânica. Levamos dois dias para cruzar fazer este trecho
e chegar aos pés do Pomerata (o da direita) e mais baixo dos vulcões,
com 6220 metros. Pela
proximidade, escolhemos escalar o irmão menor dos Payachatas primeiro.
Parecia uma ascensão fácil e monótona de vulcão,
porém, ao contrário do que esperávamos, este vulcão
extinto apresentava muitos trechos difíceis com paredes de gelo,
rocha, escaladas mixtas e travessias bastante expostas. Embora não
estivéssemos preparados para esta surpresa, acabamos escalando
muito bem e nos divertimos muito. Chegamos ao cume por uma rota e regressamos
por outra, num total de 12 horas de escalada.
Retornando
do Pomerata, já não tínhamos forças suficientes
para encarar novos desafios e tivemos que abandonar as tentativas de cume
de outras montanhas e retornar para Villa Sajama, aos pés da maior
montanha boliviana, um vilarejo pitoresco em que as pessoas constróem
suas casas e vivem como a 500 anos atrás.
Voltando
a La Paz iniciamos nossa viagem de volta. De ônibus vamos até
Uyuni para conhecer o maior e mais alto deserto de sal do mundo.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, a origem Salar de Uyuni
não é o substrato de um antigo mar, embora realmente a região
tenha sido um, muito antes do erguimento dos Andes. O Salar é na
verdade uma bacia onde se acumulou durante milhares de anos os sedimentos
das montanhas adjacentes aliada a ao clima desértico, que é
um dos mais poderosos agentes intempéricos.
Saindo
das paisagens lunáticas do Salar, pegamos um trem até Villazón,
na fronteira com a Argentina. Deixando a Bolívia para trás,
chegamos à província de Jujuy, que não se parece
nada com aquilo que conhecia antes da Argentina, muita pobreza sujeira
e um povo quase que totalmente índio. Ali, essa população
chola atravessava a fronteira todo dia, levando e trazendo mercadorias
das mais diversas, como se fossem saúvas no meio de um mixordial
formigueiro.
Viajamos
até Salta. No caminho, 5 vezes somos parados pelos policiais argentinos,
fiscalização contra Bolivianos. Em Salta me separei de Maximo,
que ficou mais um tempo na cidade e depois parte para Córdoba,
sua terra natal, enquanto que eu atravessei toda Argentina para chegar
em Foz do Iguaçu, e de lá pegar um ônibus para Campinas,
voltando para casa.
Leia
também: Relato
Aventura online: A Travessia do Pomerata
Leia
também: Relato
Aventura online: A Odisséia do Illimani
Leia
também: Piores
momentos - O Regresso do Illimani
Leia
também: Relato
Aventura online: A Conquista do Huayna Potosi
Leia
também: Relato
Aventura online: Notícias da Bolívia
|