Gigantes dos Alpes

Texto: Maximo Kausch
A chaminé Whymper sendo
escalada no começo do século XX. (repare na pedra circulada nas duas fotos)
Maximo conquistando a ex-chaminé Whymper, que passou a ser uma parede

O verão alpino de 2003 foi marcado por duas grandes avalanches históricas que mudarão para sempre a silhueta do Matterhorn (chamado Cervino do lado italiano). Uma em julho, na arista Hörnli no lado suíço e outra em junho, sobre a arista Lion, do lado italiano. Esta montanha tornou-se famosa através da história da escalada do inglês Edward Whymper, em 1865. Até então, o Matterhorn era o único dos cumes da região central dos alpes que ainda não havia sido alcançado. Em sua dramática história, Whymper menciona uma chaminé muito longa e técnica onde morreram 4 de seus companheiros durante a descida (esquerda, acima). Após a grande avalanche de junho, grandes blocos de pedra se desprenderam levando consigo até mesmo a própria chaminé Whymper. No lugar, ficou apenas, uma parede lisa que conduz a outro bloco maior ainda (esquerda, abaixo). O terreno mixto, com rochas soltas e gelo se desprendendo a todos os momentos, tornaram tudo muito difícil. Os guias da região declararam a rota como sendo muito perigosa e começaram advertir os escaladores através de cartazes espalhados por todo o vale D’Aosta, para não continuar viagem se a sua intenção era escalar o Matterhorn.

Minha chegada ao Matterhorn foi antecipada por uma sequência de fatos sinistros:

Meados de junho: Uma grande avalanche faz com que um grande bloco com centenas de toneladas se desprenda e leve consigo parte da arista Lion.
Fim de junho: A sociedade de guias da Itália declara a rota fechada às expedições guiadas por ser muito perigosa.
Início de julho: Uma outra avalanche de rochas se precipita na parte norte, levando consigo toda a terceira torre rochosa. A arista Hörnli torna-se inacessível.
Fim de julho: A gota d’agua veio quando um guia italiano tenta reabrir a rota e morre devido às “exigentes condições da rocha”, assim como declara a sociedade de guias (para não dizer que caiu 950 mts durante toda a parte norte da arista Tyndall).
Agosto: O fim da estação e marcado por 2 grandes tempestades e apenas 2 expedições tentam a montanha. Nenhuma chega ao cume e o corpo do guia italiano é encontrado 150 metros abaixo da ex-chaminé Whymper.
Fins de agosto: O Refúgio Carrel (do lado italiano) é fechado por ter sua estrutura afetada. Metade de sua base, fica literalmente suspensa no ar.
Meados de setembro: Diante de tantas notícias, chego finalmente à base da montanha. Com dezenas de guias falando na minha orelha para não ir, fujo da cidade e monto uma base em um campo de golf. Aí começa toda a epopéia de um andinista escalando nos Alpes.

Após voltar do Mont Blanc e ter vivido na pele o que são as tempestades e altitudes alpinas (nem se comparam com as dos Andes), acabei subestimando o Matterhorn e cheguei à sua base com a absurda idéia de subir pelo lado italiano e descer pela Suíça carregando todo o peso e para pior, sozinho. Este último fato mudou quando inesperadamente conheci 3 equatorianos que tinham o mesmo destino que eu. Aquilo foi realmente estranho porque não havia uma alma viva sequer na montanha. Desinformados assim como eu, eles decidiram continuar para não perder a viagem.

Nas ruas de Breuil-Cervinia (cidade no pé da montanha), todos ficavam surpresos ao ver aqueles escaladores com mochilas gigantes e totalmente fora de temporada. No fim da tarde de 14 de setembro, montamos um acampamento ao lado de um campo de golf.

Na manhã do dia seguinte voltamos à cidade e fomos nos informar na Sociedade de Guias da Itália, a respeito das condições da rota. Os guias declararam que a rota está fechada e começaram descrever os fatos citados acima, começando em junho. Após terminar toda a história, o guia, esperando ouvir algo como "é melhor a gente não ir", ou mesmo "vamos desistir", comentamos:

_"...legal, vamos ter que abrir via! ..."

Segurando a cabeça, o homem não podia fazer nada para nos impedir. Acho que piorei a situação quando falei que eu só tinha 3 pitons (peça metálica martelada em pequenas fissuras) e 2 nuts (peças de forma cônica encaixadas em fissuras). Germán, um dos equatorianos, disse que tinha muitas fitas. Diante daquele planejamento todo, o guia nos deu boa sorte e fomos embora.

Depois de uma leve caminhada de 2 horas, chegamos a um refúgio chamado Abruzzi, fechado desde agosto. Acampamos na beira de um lago, próximo a Abruzzi. Incontáveis avalanches se desprendia a todo momento na região, algumas de blocos de gelo, outras de rochas das encostas do Cervino. Algumas delas levantavam tanta poeira, que esta ficava suspensa durante horas no ar!

Partimos às 7 da manhã do dia seguinte para subir toda a Cabeça do Leão (localizada na frente do Cervino) e quem sabe, chegar aos 3800 metros no mesmo dia. Com excessão de uma parte, a Cabeça do Leão não era muito técnica e progredimos rapidamente até uma travessia horizontal que tivemos que fazer para chegar ao colo que une ao Cervino. A travessia consistia basicamente em fechar os olhos para não enjoar com a possível queda de 700 metros ao sul, esquecer todos os conceitos físicos e também as regras de possibilidades. Ao olhar por primeira vez para a travessia, não consegui achar uma rota, mas ao estar lá, descobri que a regra mesmo, era não cair. Demoramos 45 minutos para andar 200 metros horizontais!!

Após o assustador episódio que passamos na horizontal, era vez de se falar no vertical. As paredes da arista Lion começaram a erguer-se à direita e novamente eu não fazia idéia como enfrentar aquilo. É incrível, mas quando se escala, tudo é sempre pior do que se espera. Todos os escaladores sabemos disso, mas sempre temos a esperança de que não seja. Uma simples linha branca que apareceu no fim da travessia, na parte direita, mais tarde se converteu numa aula de caminhar em corda bamba. À esquerda ficava a Suíça e a direita a Itália. Jamais vi um limite tão bem marcado! A familiar queda de 700 metros continuava à direita e na esquerda surgiu outra de pelo menos 1000, onde mais tarde descobri que lá foi onde o guia italiano caiu. Sem qualquer possibilidade de armar qualquer tipo de segurança, paramos e sentamos na crista, literalmente cavalgando. Até me apoiei e tirei uma foto do lado suíço...

Dali à frente o terreno ficava vertical e já conseguíamos identificar as paredes que iríamos ter problemas mais tarde. Mais duas horas de escaladas perigosas e já estávamos a 3700 metros. Até lá, a média das escaladas foi de quarto grau brasileiro, mas sem proteção alguma. Dava pra ver claramente a rocha mais nova exposta a pouco tempo devido as avalanches. A medida que nos aproximávamos de um grande maciço a 3700 metros, percebíamos o quanto iria ser difícil. Assim como eu disse, quando se escala, tudo é pior do que se acha que é. Após passar um trecho de equilíbrio muito exposto, cheguei à base do maciço e percebi estar no que restou da famosa chaminé Whymper, que se converteu numa parede lisa. À primeira vista, graduei a parede em um quinto grau brasileiro, mas relembrando - quando se escala, tudo é pior do que se acha que é - A parede era um sexto grau brasileiro, e sofri um bocado para passar os lances mais técnicos.

O fato de eu estar desde a minha casa usando uma espécie de papete, dificultou um pouquinho as coisas. A saída da parede foi um pouco estranha, pois eu não estava ancorado em lugar algum e ao lado da pequena plataforma de neve de 2 metros, onde eu estava, havia um abismo para o lado suíço (aquele que fotografei). Coloquei o primeiro piton após 3 metros da neve, justamente na parte que meus pés estavam molhados. Usei a minha piqueta para martelar o piton... Martelei-o tão bem que podia ver ele se mexendo quando o deixei para trás. Encontrei uma pedra entalada na parede e tive a oportunidade de colocar uma fita ao redor dela, e foi lá, a 7 metros da minúscula plataforma de neve, que por sua vez estava a 1000 metros do chão, que coloquei um ponto de apoio de verdade e se caísse, ficaria pendurado. Acreditando que dali à frente tudo ficava fácil, progredi rápido e dei uma esticada de 4 metros sem colocar um piton sequer. Ao tentar colocar o meu próximo piton constatei que a rocha não suportaria nem o meu peso. A segurança se resumiu à uma pequena fita entalada numa fenda ao lado de um nut de 4mm. Antes mesmo de eu pensar em pegar a corda pra clipar no mosquetão que coloquei na parede, algo errado aconteceu. Algo que continuo pensando o porquê até agora.

Os escaladores usamos um termo para descrever essa situação: "tomei uma vaca", ou seja, uma queda. Pela razão da fita que coloquei naquela rocha entalada estar 4 metros e pouco abaixo de mim, a altura da queda foi de 2 vezes essa distância, ou seja uns 9 metros. Fiquei pendurado a 50 cm da plataforma de neve, exatamente ao lado de José, que retesava a corda. Constatei, após realmente perceber que eu tinha caído e ainda estar vivo, que a pequena saliência onde eu estava apoiado com meus pés, desapareceu. Foi uma odisséia a parte retomar a escalada e parar de tremer. Desta vez fui mais rápido e cheguei logo ao mosquetão que ficou para trás, quero dizer, para cima. Subi uma longa canaleta de uns 10 metros de comprimento enfiando apenas 1 nut de 1,5 cm no caminho. Cheguei numa plataforma HORIZONTAL!!! aquela palavra soou em minha mente como sinônimo de salvação, horizontal!! Ao dar um passo, tomei um tranco e percebi que a corda esticou. Montei uma ancorangem a prova de terremotos com todas as fitas, freios e mosquetões que eu tinha.

Após 2 horas de jumares e puxando equipamentos, todos os quatro estávamos lá, a 1/3 da subida no meio do nada. Já era noite e era hora de montar nossa base. Ao escalar poucos metros ao redor de um bloco, surpresa, encontramos o refúgio Carrel, com sua metade suspensa no ar. Ao entrar constatamos o luxo dos alpes europeus: camas, mesas, estantes e tudo mais. Foi uma maravilha passar por tudo aquilo que passamos e dormir numa cama no mesmo dia. Ao mesmo tempo que aquilo me incomodava, dormi muito bem!! Aquele refúgio construído por helicópteros nem se mexeu durante a noite e agüentou todo o tempo que estivemos lá. Acordamos às 5 da manhã para continuar a escalada até o cume.

Ao abrir a porta do refúgio e andar 3 metros, já se dá de cara com uma parede de 20 metros que tem até trecho negativo. Ainda bem que se está com energia naquela parte negativa. Aquelas horas frias da manhã passaram rápido e o sol veio às 7 horas. Justamente nessa hora, me encontrava espremido entre duas pedras guiando a terceira cordada. Com as mãos sem luvas e as costas molhadas por causa da neve, contemplei aquela cena espetacular se desenvolvendo a leste. Tudo era cortado quase que exatamente no meio pela arista Zmutt.

Continuamos por uma gigantesca canaleta que conduzia ao pico Tyndall, o nosso próximo desafio. Ao fim da canaleta, subimos uma parede de uma cordada e meia que levava à crista. A parede não era difícil, era de noventa graus, mas tinha muitas agarras, e bem seguras. O problema é que era muito exposta e a todo o momento achávamos placas dizendo: "Aqui morreu fulano", "Aqui mengano perdeu a vida", achei umas 4 placas de falecidos. Justamente ao lado delas eu enfiava o meu equipamento para evitar acidentes fatais. Ao escalar, tentava não imaginar as razões das mortes deles e cuidar da minha vida.

Ao chegar no topo da parede, começamos a percorrer o topo de toda a crista até chegar ao cume do pico Tyndall. Do Tyndall é só onde se tem noção do tamanho daquilo tudo, e de onde realmente se pode ver o Cervino. As pequenas imperfeições que eu observava naquela crista quase plana desde a cidade, tinham o tamanho de edifícios e davam um trabalhão para serem vencidas. Uma dessas pequenas imperfeições particularmente, tinha 18 metros e precisou ser escalada de um lado e rapelada pelo outro. Já no fim da crista, a encontro com o próprio Cervino, havia uma daquelas caminhadas em corda bamba sem segurança alguma. Era impossível não olhar para baixo e ver as avalanches causadas pelas pedrinhas que meus pés derrubavam, foi inacreditável.

Ao meio dia estávamos no pé do Cervino, mas desta vez, no verdadeiro pé. Ainda haviam 200 metros verticais até o cume, verticais mesmo! Já havia guiado mais de 10 cordadas até ali e as restantes não nos deteriam. Mesmo sabendo que chegaríamos ao acampamento de noite, continuamos. Por volta das 14:00 estávamos no pé da última parede onde guiei a última e talvez a mais assustadora de todas as cordadas. A parede sul deixou de ser abismo e passou a ser o próprio chão, e à minha esquerda surgiu a arista Zmutt e a famosa parede norte como abismo para me receber caso eu caísse. Após evitar uma parede difícil, contornei-a pela esquerda e cheguei a um diedro de quinto grau que levava direto à pequena plataforma que continha o cume. Foi emocionante subir aqueles últimos metros e ver que não havia lugar mais alto.

Novamente, montei uma ancoragem a prova de terremotos e comecei a retesar a corda para meus amigos subirem. No momento em que eu me equilibrava no estreito cume para amarrar uma fita numa saliência rochosa, uma grande explosão veio de trás de mim. Perdi o equilíbrio e quase caí... Não entendi o que estava acontecendo e a primeira coisa em que pensei foi numa avalanche. Ao olhar para a frente me deparei com um imenso avião caça que acabara de emergir do cume norte e produzira um estrondo por estar à velocidade do som. Fiquei irado, mas não havia o que fazer contra aquele avião que quase causou um acidente.

Era inacreditável! após 9 horas e 1/2 e umas vinte cordadas, haver chegado ali e quase cair por causa do barulho de um avião. Estávamos exaustos e ainda tínhamos pelo menos 8 horas para chegar ao acampamento. Comemos e bebemos o pouco que tínhamos, tiramos fotos e 1/2 hora depois decidimos descer. Sofremos o dobro para passar cada uma daquelas torres e chegar ao pico Tyndall. Contemplamos o por do sol todos juntos, ancorados em uma parede, a 40 metros do chão. Com sede e com fome, todo mundo ficou ali, alguns momentos, observando a cena se desenrolando. Mesmo sabendo que ainda tínhamos pelo menos 5 horas de rapéis e desescaladas no escuro, insistimos em perder tempo ali no topo daquela parede.

Passávamos as cordas ao redor de saliências das rochas e às vezes tínhamos que abandonar fitas de escalada ali mesmo. Depois de uma sequência de 3 rapéis com cordas duplas, chegamos à base daquela parede cheia de placas de falecidos. Tivemos que percorrer um imenso vale meio ao silêncio e escuridão, para em vão, tentar achar o caminho que percorrermos durante a manhã. Com lanternas na cabeça vagamos por horas entre os imensos blocos rochosos até achar uma pequena ponte formada por um bloco caído e conseguirmos montar mais 5 rapéis e chegar aos 3800 mts já quase à 1:00 AM.

Acordamos tarde e decidimos aproveitar o dia para rapelar e desescalar os 1000 metros restantes até o lago. Ninguém comentou muito sobre a nossa escalada de 19 horas. Não "cantaríamos a vitória" até chegarmos aos 2800, onde realmente se caminha no chão. Ao cair da noite, novamente lá estávamos nós ligando as lanternas para vencer o terço do caminho que nos faltava até os 2800 mt O GPS foi muito útil naqueles momentos e nos permitiu prosseguir rapidamente.

Desta vez, comemoramos muito, com direito a fogueira na beira do lago. Foi incrível olhar para trás, e ver aquela imensa massa de rocha e gelo sem ainda poder entender como a subimos e descemos.

Veja: Fotos Cervino 2003

 

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