Fim do sonho

Texto: Maximo Kausch

"...Com neve até a cintura, a 6400 mts, tivemos que desistir..."

A expedição toda foi baseada em uma único mapa desenhado na década de 80. As últimas notícias de pessoas que chegaram ao cume da rota vêm de 1986, e ninguém soube informar direito quantos chegaram ao cume desde que a rota do Glaciar Leste foi escalada por primeira vez em 1978 por argentinos. Desde que saímos do Brasil e nos unimos à equipe de filmagem em Mendoza, não tínhamos certeza do que iríamos enfrentar exatamente.

Os primeiros sinais de como iria ser o tempo, vieram quando avistamos as rotas técnicas do Cordón del Plata pela primeira vez. Mas mesmo assim não desistimos do sonho e por 13 dias continuamos pelas encostas pouco exploradas do Aconcágua até que tivemos que desistir a 6400 mt. Mas me deixem contar a história desde o começo...

Aclimatando


Eram meados de janeiro e já estávamos todos reunidos em Mendoza: Jefferson de Taubaté, que iria fazer a aclimatação conosco e escalar o Aconcágua pela rota normal; Nicolás e Morza de Buenos Aires que iriam se encarregar de toda a filmagem e escalar o Plata conosco, além de claro, como sempre, Pedro e eu.

Lá mesmo em Mendoza, encontramos uma porção de escaladores que haviam descido dos Andes advertindo-nos que o tempo estava muito bom, mas os glaciares haviam retrocedido muito. Sinceramente, eu não estava interessado nem um pouco naquilo e nem dei ouvidos. Sem tempo para descansar da viagem de 3 dias de ônibus, fomos direto ao Cordón del Plata, assim teríamos mais tempo para nos aclimatar. Já havíamos estado ali 4 anos antes e cada vale que percorríamos fazia lembrar daquela época de dúvidas e descobertas no montanhismo em que ainda nem havíamos estado a 4000 metros. Pelo fato de estarmos indo escalar com cinegrafistas profissionais e, também por estarmos ali apenas para aclimatar e mais tarde ir à montanha de verdade, fez tudo parecer mais fácil do que a primeira vez.

A idéia era ficar no Cordón del Plata por pelo menos 2 semanas e é claro, escalar o máximo possível. Diferente de qualquer outro 6 mil que já escalei, o Plata é extremamente fácil e com aproximação curta. Também, diferente dos outros, existe lá um microclima que faz com que o tempo feche a partir do meio dia na maioria dos dias.

Já durante a curta aproximação, fomos percebendo como tudo havia mudado nos últimos 4 anos, desde a última vez que estivemos lá. Praticamente não havia neve nos cumes de 5000 metros e poucos glaciares permaneciam. Quanto mais subíamos, mais eu lembrava de todos aqueles gringos me advertindo sobre o derretimento do gelo. Além de fazer uma boa aclimatação e boas imagens, nosso objetivo mesmo, era o de escalar alguma rota bem técnica que pelo menos chegasse ao pé do que iríamos enfrentar no Aconcágua. A primeira sugestão, foi uma rota técnica chamada "Supercanaleta", localizada no Cerro Rincón, com 5200 mt.

Por motivos de boa aclimatação e também por nossa resistência "não estar muito boa" naquela ocasião, fizemos a aproximação em 2 dias. Apesar de sentir a altitude já nos primeiros acampamentos, eu não via a hora de ver a cara das rotas técnicas do Rincón e Vallecitos e isso, de certa forma, me ajudou muito a levar os 50 kg de equipamento e comida montanha acima.

Nicolás e Morza são profissionais em filmagens, mas nunca haviam estado tão alto. Em algumas partes era muito difícil parar e voltar o que havíamos caminhado para que eles filmassem melhor a cena. Mas isso valeu muito a pena, pois aprendemos muitos macetes de filmagem em montanhas. Até então, eu achava que iria ser fácil levar a minha câmera para a altitude e simplesmente filmar, mas lá descobri que não era tão simples assim. Não é algo muito fácil estar a 5000 mt e desistir do ritmo que você demorou meia hora em conquistar, somente para fazer uma imagem. E pior que isso, parar, tirar as luvas, tirar a câmera da malinha, ligá-la, escolher o white-balance e finalmente filmar. Era algo que eu não estava acostumado e achei muito fatigante.

Às vezes, pensava: "Para que filmar?". Acabei descobrindo porque é que há poucas imagens de expedições nas grandes alturas. Tudo isso é um grande problema na verdade. Foi exatamente nisso que Nicolás e Morza nos ajudaram muito. Três dias após deixarmos Mendoza, chegamos ao acampamento-base do Cordón del Plata, num lugar chamado Salto de Agua, a 4200 metros de altitude. Dali podíamos ver a maioria das rotas técnicas nas paredes do Rincón e Vallecitos, e com isso também, várias avalanches rochosas que de certa forma, anunciavam que não era possível escalar rotas muito técnicas. Além dos sinais da natureza, todos os que estavam ao redor também advertiam-nos a respeito disso. Li sobre rotas que ninguém escalava faziam 20 anos e o mais comum era encontrar rotas intocadas por vários anos, aquilo era realmente um paraíso!

A maioria das pessoas que vai até o Cordón del Plata, nem lhes passa pela cabeça em escalar uma rota técnica ou pelo menos tentar uma. Quase todos vão com a intenção de chegar ao cume do Plata ou Vallecitos pela rota normal e só. Muitos vão para se aclimatar para caminhar pela rota normal do Aconcágua e assim não gastar tanto tempo no Parque do Aconcágua (onde o acesso é mais difícil).

As coisas haviam realmente mudado desde a primeira vez. Durante uma simples caminhada de aclimatação no terceiro dia, decidimos atingir 5000 mt e voltar ao acampamento. Acabamos mudando de idéia e decidimos "puxar" o ritmo até os 5700 mt, e chegar ao cume do Vallecitos. Psicologicamente, não foi algo tão árduo como seria 4 anos atrás. Talvez a nossa interpretação do que era longo havia mudado e psicologicamente estávamos mais preparados para fazer aquilo. Quando voltamos, ninguém acreditou direito que havíamos chegado ao cume de um 5700, sendo que estávamos somente nos aclimatando. É claro que cansei bastante, mas não fiquei tão abalado quanto ficaria antes.

Fizemos belas imagens nas encostas do Vallecitos, pouco depois de passar dos 5500 mt. Podíamos ver o Plata por inteiro e também o Tupungato, onde já havíamos estado em outra ocasião. Os dias andavam perfeitos, praticamente não havia vento e as poucas nuvens se mantinham dentro do vale onde acampávamos. Um imenso colchão de nuvens se formou por volta das 3 da tarde e permaneceu lá, sendo esculpido de vez em quando pelos fracos ventos do sul. Fiquei parado, observando Pedro, Jefferson e uma terceira pessoa chegando ao cume do Vallecitos. Suas silhuetas escuras contrastavam com o branco das nuvens armazenadas no fundo. Era o primeiro cume de Jefferson, e imaginava se ele se sentia do jeito que me sentia quando cheguei ao meu primeiro cume 4 anos atrás. O primeiro talvez seja o melhor de todos os cumes. Ao chegar no cume, encontrei com meus amigos e fiquei surpreso ao descobrir que a terceira pessoa era na verdade, um guia suíço que havíamos conhecido uns dias antes, quando chegávamos ao Cordón del Plata.

Decidimos elevar o acampamento-base para 4600 mt para que a subida até o cume do Plata não se torne tão longa. Foi muito duro subir até os 4600 mt com todo aquele peso, mal pude observar o caminho, mas reparei de relance nas avalanches de rocha que caíam a todo momento nas encostas do Rincón. No fim da tarde daquele mesmo dia, chegamos aos 4600 mt, num lugar chamado Oyada. Como o nome diz, o lugar era um imenso buraco (oyo=buraco), e isso fazia com que o vento extraísse muito ar da região, criando uma grande zona de baixa pressão. Às vezes, dentro da barraca, o altímetro barométrico pulava de 4600 a 5000 em poucos segundos.

Assim como a coluna de mercúrio do barômetro do altímetro, o meu cérebro também variava e me fazia delirar à noite. Devido a um dano cerebral ocasionado por um acidente que tive alguns anos atrás, minhas noites nas grandes altitudes se tornaram um inferno. Meus amigos sempre me contam que deliro e digo coisas à noite, mas nunca me lembro. Na maioria das vezes acordo com a metade esquerda da cabeça doendo.

Pelo que me lembro do dia do cume, acordei com um barulho do lado de fora da barraca e percebi que já estava sozinho. Reparei na silhueta de todos os meus companheiros chegando ao topo de uma crista, já bem longe do acampamento. Não entendi direito o que aconteceu, mas achei melhor me levantar e começar andar logo. Reparei que Jefferson estava voltando para o acampamento, vindo da direção oposta. Um rolo de papel higiênico na sua mão explicou toda aquela aventura matinal e seu atraso. Partimos juntos, Jefferson e eu em direção àquela crista. Talvez, pelo fato de estarmos com mais de uma hora de atraso, começamos a andar à toda força para emparelhar com os demais. Mais tarde eu descobriria que eles falaram comigo e até me filmaram, mas eu não lembro de nada.

Todos pareciam estar bem e o dia estava perfeito sem vento algum. Como sempre, um colchão de nuvens se mantinha na parte baixa das montanhas na linha dos 2000 metros. Demoramos pouco menos de 6 horas para chegar no cume quase que todos juntos. Reparei quando Nicolás e Morza chegavam ao cume. A emoção deles era tanta que eles mal filmaram ao redor, afinal, era o primeiro seis mil deles! Jefferson parecia não entender direito o que tinha acontecia e lá eu tive certeza que ele chegaria sozinho ao cume do Aconcágua. De todos, foi ele quem sofreu menos e quem levou melhor seu ritmo, apesar de nunca haver estado em altitudes. Permanecemos apenas meia hora no cume, antes de descermos todos juntos de volta às barracas, 1500 metros mais abaixo. No caminho, Jefferson e eu nos distanciamos bastante de todo mundo, mal sabíamos que Nicolás estava passando por dificuldades por causa da altitude e estava sendo ajudado por Pedro, mas nada aconteceu. Por volta das 2 da tarde estávamos todos juntos no acampamento rindo e bebendo suco, delirando e sonhando com o futuro. Ao amanhecer chegara a hora de nossos amigos descerem e voltarem para Buenos Aires. Nós queríamos lá permanecer e forçar a aclimatação ao máximo e já que estávamos lá, escalar algo mais substancioso.

Novamente, montamos nossas barracas no acampamento-base de verdade, a 4200 mt, onde estão todas as outras expedições. De lá mesmo, no dia seguinte planejávamos escalar algo técnico, mas não sabíamos o quê. Acordamos por volta das 7 horas e acabamos saindo bem tarde para escalar. Na base do Rincón, a nem um quilômetro de distância do acampamento-base já haviam rotas para escolher. Decidimos escalar todo o glaciar Stepanek que é relativamente fácil, e de lá escolher o caminho que íamos seguir.

Um barulho de cachoeira vinha da direção da Supercanaleta (à esquerda) e não era água, mas sim, as pedras que caíam sem cessar, tornando a rota impossível de ser escalada. Optamos pela "ampulheta", continuando o glaciar Stepanek. A rota recebe este nome por causa de sua forma. Contém 2 triângulos unidos por uma estreita passagem. Naquele momento, a rota parecia bastante segura.

Começamos escalar o primeiro e mais difícil triângulo já com o tempo fechando e decidimos continuar mesmo assim. Depois de enfrentar um pequeno pedaço de gelo coberto com centenas de torres de gelo mole chamadas "penitentes", chegamos à rota propriamente dita. Uma longa língua de gelo surgiu atrás dos penitentes e ao fincar a primeira piqueta, percebi se tratar de verglass, o pior tipo de gelo existente por ser o mais duro.

Pedro se encarregou de fazer segurança lá embaixo. Além disso, fez umas boas imagens com a filmadora e se ocupou de esquivar das pedras que eu derrubava sem querer. Esquecendo do mau tempo, do gelo duríssimo e da altitude, começamos a nos preocupar com as pedras que caíam. Estas vinham de todos os lados. Às vezes, as pequenas avalanches de rochas eram causadas pela neve que a tempestade que se formara horas atrás, depositava nas encostas mais altas. Cada piquetada que eu dava no gelo duro, começou a se tornar um trabalho à parte. O mais difícil era parar naquela encosta de 70 graus de gelo duro e colocar parafusos no gelo.

Nos refugiamos no meio de uma pequena canaleta onde ficava a junção dos dois triângulos, ou seja, no pescoço do ampulheta. Ali começaram os trechos de escalada mixta, onde tínhamos que nos contorcer para vencer trechos de rocha com o equipamento de gelo. Comecei usar camalots, mas era muito difícil achar uma fenda que não estivesse solta e tudo caísse. No segundo piton que coloquei na rocha, eu me encontrava a 20 metros acima de Pedro e o tempo já estava bastante ruim. Uma leve garoa começou e com ela, os barulhos de fortes avalanches rochosas. Uma delas passou muito perto, tangenciando nossa corda, quase me acertou e também a Pedro, que estava fazendo segurança de dentro da canaleta. No momento que vi aquelas imensas pedras do tamanho de bolas de basquete, passando bem diante dos meus olhos, tive certeza que elas haviam acertado Pedro.

Numa reação expontânea, gritei a palavra PEDRA! e fiquei o mais junto possível da parede, me aproveitando da proteção do capacete. Não recebi resposta àquele grito e imaginei o pior. Mais tarde fiquei sabendo que Pedro também gritou, mas o barulho da chuva e das pedras não nos permitiu comunicar. Depois de uma rápida troca de palavras para saber se estava tudo bem, percebemos que tínhamos que andar logo. Ganhamos um pouco de altitude e a chuva ficou para trás, mas veio a neve. O terreno se tornou horrível! Tivemos que fazer pequenas escaladas sem possibilidade alguma de colocar equipamento na rocha.

Às vezes, através das nuvens, conseguíamos enxergar o alto do glaciar e tentávamos pegar a direção certa. Depois de 5 horas de escaladas, por primeira vez, começávamos escalar terreno estável, algo muito estranho para nós. Dali, foram mais ou menos 4 cordadas longas até o topo do glaciar, onde conseguimos progredir com rapidez pelo topo da crista. Iniciamos a descida até o acampamento pela rota normal do Rincón para não enfrentar toda aquela mistura de gelo e rocha novamente. Logo após uma longa confusão para escolher o caminho por cima da crista ou por cima do glaciar, acabamos indo pelo meio dos dois. Em partes, fomos escorregando pelo gelo duro enquanto descíamos o glaciar Stepanek e em outras, nos atolávamos até a canela tentando pegar um terreno mais estável. Rochas caíam a todo momento e o absurdo veio quando numa ocasião, Pedro abaixou para tirar os crampons das botas e nesse mesmo momento, uma pedra passou por cima de suas costas.

Estávamos de mãos bem dadas com a boa sorte naquela escalada, apesar dos apertos. Chegamos sãos e salvos ao acampamento, 9 horas depois de havê-lo deixado. Passamos o resto do dia contemplando nosso feito e pensando nas coisas que poderiam ter acontecido. Já há duas semanas na altitude, achamos que aquilo era tempo suficiente para uma aclimatação e decidimos descer e descansar em Mendoza antes de tentar o Aconcágua.

A caminho de uma rota há 15 anos sem tentativas

Após 5 dias de descanso e de espera de pessoas descendo do Aconcágua dizendo que o tempo não estava bom, decidimos ir mesmo assim. Pouco antes de sair, reecontramos um velho amigo chamado Marcelo. Conhecemos Marcelo quando percorremos a Patagônia em 2000, por coincidência, ele também ia escalar o Aconcágua e acompanhou Jefferson pela rota normal. De ônibus mesmo, fomos para Punta de Vacas, onde nos despedimos de nossos amigos e descemos no meio da estrada. A primeira vista que tivemos, foi uma vasta planície e um profundo vale, por onde seguiríamos 3 dias.

Andávamos deprimidos! Não sabíamos coisa alguma sobre a rota para onde íamos, não sabíamos se levávamos o necessário ou se levávamos equipamento em excesso. O pior era que ainda tínhamos 5 dias de andanças até chegar à escalada propriamente dita e ficaríamos todo esse tempo pensando nisso. A única informação concreta que tínhamos, era um xerox de um desenho feito a mão na década de 80 além de uma foto tirada de longe.

Nos primeiros 3 dias dormimos no chão mesmo, assim não teríamos trabalho para montar e desmontar a barraca. Nossos dias eram bem longos naqueles vastos vales. Acordávamos cedo, comíamos alguns pacotes de comida liofilizada, caminhávamos o resto do dia até acharmos um lugar para acampar e comíamos mais alguns liofilizados. Durante as poucas horas de lucidez que tínhamos antes de dormirmos de tão cansados, olhávamos para as estrelas e refletíamos sobre as nossas possibilidades naquela escalada. Era duro não saber nada sobre o que iríamos enfrentar e isso trazia muita ansiedade.

No caminho, cruzamos com várias expedições que desciam e estas, na maioria, nem sabiam de que rota se tratava quando falávamos. Nenhum deles carregava peso e todos ficavam impressionados ao ver aqueles dois garotos carregando tanto peso montanha acima. Por todos os postos de controle que passamos, ficamos sabendo que éramos os primeiros no ano a subir por ali com todo o peso. Cruzamos comboios de mulas em várias oportunidades e não deixávamos de notar mesas, cadeiras e outros móveis nas cargas pesadas. A diferença entre as expedições convencionais e a nossa era evidente. Estas levavam uma série de utensílios como fogão, gás de cozinha e até mesmo cozinheiros, para ter conforto no acampamento-base. Mas este conforto ainda estava muito longe do conforto que nós tínhamos dormindo no chão, olhando para as estrelas.

No fim do terceiro dia, uma tempestade grande se formou sobre o maciço do Aconcágua. Aos 3200 mt, onde nos encontrávamos, a precipitação foi em forma de chuva, mas ficamos sabendo pelo rádio do guardaparque que a coisa nos acampamentos superiores foi feia. Na manhã seguinte, notamos que tudo o que estava acima da linha dos 4700, ficou branco. Ali mesmo, ficamos sabendo da morte de dois alemães no glaciar polonês. Ainda havia um terceiro corpo, mas a tempestade trouxe tanta confusão, que ninguém sabia direito quem era, ou onde estava o corpo. Ao mesmo tempo que ficamos curiosos, achamos aquilo um tanto que bizarro. Ficamos imaginando como é que o grupo de resgate iria fazer para decê-los, mal sabíamos o que estávamos por experienciar.

Tínhamos um dia mais longo que o normal pela frente. Logo adiante, havia um rio para atravessar e depois um vale de 1000 metros de desnível para percorrer no mesmo dia. O caminho era muito acidentado, mas o GPS marcava 10 km exatos até o nosso destino. De cueca, meio àquelas montanhas geladas, iniciamos a travessia do rio Vacas, que pelo menos estava mais debilitado do que vimos nos três primeiros dias. O rio se dividia em 5 braços e havíamos de atravessá-los um a um. Já no terceiro braço, eu não sentia minhas pernas, mas aquilo foi um bom começo para o dia.

Bruscamente, começamos a ganhar altitude ao entrar no vale do Rio Relinchos. Eu sabia que naquele mesmo dia iríamos avistar a face leste do Aconcágua pela primeira vez. Mal víamos a hora, afinal, esperávamos por aquilo nas últimas 3 semanas. A longa trilha serpenteava o vale, subindo e descendo colinas que terminavam em abismos ao encontrar o rio. Colocávamos a esperança de ver nosso destino atrás de cada colina, mas sempre surgia um vale novo no horizonte que tampava a visão. Ao superar a linha dos 3700 metros, a inclinação se tornou mais amena e uma imensa mancha cinza com contornos brancos começou a surgir ao oeste. Era ele! Finalmente! Depois de 11 horas de vôo, 3 dias de ônibus, 2 semanas de aclimatação e 4 dias de caminhadas, o Aconcágua estava diante de nossos olhos. O glaciar polonês veio primeiro, na crista que conduzia ao cume. Depois de uma longa análise cirúrgica à face leste, Pedro e eu destrinchamos as rotas e separamos 3 possíveis lugares para acampar na Rota do Glaciar Leste.

Após um rápido almoço, sem tirar os olhos da rota, continuamos pelo longo vale de Relinchos, que perdera bastante a inclinação. Dali em diante, o caminho se tornou apenas tedioso e interminável. Chegamos bem cansados ao acampamento-base já quase ao anoitecer. Imensas barracas de expedições comerciais se espalhavam entre barracas-refeitório das mesmas. Ao contrário da nossa expedição, que era uma só barraca, estas tinham cada uma a sua barraca central e várias barracas menores para os integrantes das expedições dormirem. Todos os equipamentos chegavam ali no lombo de mulas e ficava claro que ninguém tinha sofrido tanto como nós durante a aproximação.

O plaza argentina fica na base de um glaciar que se forma com parte dos gelos originados no Glaciar Leste. A entrada da rota ficava relativamente perto do acampamento e decidi ir checar a rota na manhã seguinte. Fomos convocados para um questionário pelos guardaparques do acampamento-base. Todos ficaram apreensivos pelo fato de termos dito que tínhamos a intenção de escalar a rota do Glaciar Leste. No começo, todos ficaram desconfiados da nossa experiência pois em caso de acidentes, seriam eles quem teriam que nos resgatar. Eles não sabiam dizer quando foi a última vez que alguém tinha pelo menos tentado a rota.

No dia seguinte, enquanto os guardaparques subiram para resgatar os corpos dos alemães, eu subi até a base da rota do Glaciar Leste para tirar algumas conclusões e também fotos. Podia ver todo o mar de gelo escuro gerado pela queda de blocos de gelo dos glaciares leste e o polonês, 800 metros mais alto. A aproximação com todo aquele monte de equipamentos técnicos, através daquela cidade de gelo iria demorar mais do que eu imaginava, mas meu interesse mesmo estava no que ia ver lá no alto. Depois de apenas 45 minutos de caminhada, a rota leste começou surgir no flanco esquerdo do Aconcágua. Primeiro, o glaciar superior, depois o do meio e logo o inferior, em poucos minutos, eu pude ver a rota por inteiro! Lá estava ela, quem nos trazia tantas dúvidas e ao mesmo tempo despertava tanto interesse. Fiquei alguns minutos boquiaberto, visualizando aquilo que eu só conhecia através de um desenho feito a mão. O crux (a parte mais difícil) a 6200 mt, era mais longo do que eu pensava. Também, uma longa linha de rochas a pelo menos 5500 metros, fugiu de minha previsão, mas numa análise total e fria, o glaciar estava lá. Com ajuda do zoom da filmadora, analisei melhor as partes de gelo para ver se era mesmo possível fazer a passagem de 5500 mt até os 6200, em um só dia. Essa foi a parte mais triste.

Descobri que o branco na superfície do glaciar não era gelo sólido, mas sim, penitentes, milhões deles! Mas de longe, tudo era branco mesmo. Aquela notícia me fez refletir muito sobre a escalada na qual tive que adicionar pelo menos mais 3 dias, além dos outros 4 que planejávamos. Pelo menos, confirmei a hipótese de que era possível terraplanar um lugar suficiente para encaixar uma barraca de 2 x 2 mt, entre umas torres rochosas distribuídas entre 5500 e 5700 mt. Isso nos daria uma boa oportunidade de proteção e assim não precisaríamos dormir pendurados naquela altitude.

Comecei a descer rapidamente para contar logo as fofocas. Cheguei logo ao acampamento, onde Pedro e o médico do acampamento conversavam. Após contar passo a passo tudo o que vi, Pedro achou melhor repensarmos o assunto já que havia passado pouco tempo depois da última nevasca e o que eu achava ser gelo, poderia ser neve recente. Decidimos subir no dia seguinte e estudar juntos a rota olhando de baixo.

Pouco tempo depois, junto ao médico do acampamento-base, escutamos um chamado de rádio dizendo que o grupo de resgate precisava de ajuda para descer os corpos dos alemães. Pegamos alguns chocolates, um pouco d'água e subimos o mais rápido possível ao glaciar. Não sabíamos quanto teríamos que andar, nem quanto tempo mais íamos demorar sem comer. Pensei algumas vezes sobre os mortos e como é que eu iria reagir àquilo tudo. Imaginava que iríamos arrastar dois sacos pretos montanha abaixo. Fui com essa imagem na minha cabeça durante todo o caminho, mas não era exatamente o que eu ia ver. As paredes geladas do Glaciar Leste se ergueram à esquerda pela segunda vez naquele dia e eu já tinha até esquecido o por quê estava ali. Pedro, pela primeira vez, conseguiu ver o Glaciar Leste e sua expressão paralisada deixou claro que ele entendeu exatamente o que eu tinha dito na manhã daquele dia a respeito da rota.

Sem menos esperar, atrás de uma longa colina, avistei um grupo de pessoas vestindo jaquetas vermelhas descansando. Uma grande carga escura no meio de todos, tornou evidente quem eram e o que vinha na carga. Com cautela, me aproximei e a primeira coisa que vi foi a mão de um homem que estava de bruços sobre outro, obviamente congelado. Os dois ainda usavam suas roupas e equipamentos e um deles tinha as botas iguais às minhas. Todos estavam descansando quando chegamos, assim, ajudei-os a recolocá-los encima de um tambor plástico cortado pela metade, que foi usado como caixão. A idéia era que o tambor escorregasse melhor e não teríamos tantos problemas para descê-los montanha abaixo. Usamos as cordas deles mesmos para descê-los. No começo, ficamos todos cautelosos para não danificar os braços e o rosto dos pobres companheiros. Cada pedra que pudesse representar uma superfície cortante, era removida. A cada pedra grande, tínhamos que levantar os 160 kg do chão e passar por cima desta sem danificar muito os cadáveres.

A medida que íamos perdendo altitude e o cansaço ia aumentando, o descaso ia também aumentando. Era impossível mantêr tanto cuidado com a carga naquela altitude. Algumas horas depois que nos juntamos ao grupo, começou entardecer e ainda estávamos longe do acampamento-base. O braço de um deles estava dobrado para a frente protegendo o rosto e acabou atrapalhando muito na descida. Decidimos quebrar esse braço e acabar com a tortura para todos os que descíamos os corpos. Em vão, tentamos forçar o braço congelado para dentro, mas não conseguimos nem mesmo dobrá-lo. As pernas do cadáver debaixo também atrapalharam muito por estarem separadas demais, mas tampouco houve jeito de quebrá-las. Tentei forçá-las entre o meu peito e coxas, mas aquilo parecia aço. Qualquer obstáculo era motivo para parar e soltar as pernas do pobre homem.

Por volta das 6 da tarde, ao olhar para trás, eu podia ver uma grande pluma de neve carregada pelo vento que se erguia a centenas de metros acima do glaciar polonês. O sol estava se pondo próximo dali e os ventos brancos receberam um contorno alaranjado. A crista do glaciar leste, a 6200 mt, onde pretendíamos acampar, ficou iluminada, foi lindo! Foi uma merecida cerimônia para aqueles dois que carregávamos. Todos estavam cansados, alguns exaustos, alguns simplesmente queriam jogar os corpos morro abaixo, mas todos nós sabíamos o que tínhamos que fazer.

Naquela mesma silhueta glaciária avistamos dois pequenos pontos que sem explicação estavam se mexendo montanha acima. Eram dois escaladores poloneses que mesmo às 6 da tarde, a 6500 metros de altitude e com aqueles fortes ventos, insistiam em chegar ao cume. Ao ver aquilo, todos sabíamos que eles não teriam chance de chegar ao cume e iriam ter que passar a noite ali mesmo, mas com o que já tínhamos que fazer não havia chance de subir aos 6500 naquele mesmo dia. O problema ficou a cargo dos próprios alpinistas e ninguém sabia ao certo se eles iam passar vivos daquela noite. Mais tarde ficamos sabendo que eles estiveram à beira da morte e tiveram várias amputações nos dedos dos pés. Obra do acaso ou da irresponsabilidade, o mesmo aconteceu com os alemães, só que estes não tiveram tanta sorte.

O céu se tornou escuro e além do cansaço e altitude, tivemos que descer os corpos no escuro. Num ponto, perto do glaciar que conduz ao acampamento-base, o homem que estava à minha frente, escorregou para trás e esmagou o meu dedo com a piqueta que estava presa à sua mochila. Aquilo espalhou sangue encima dos mortos e complicou mais ainda a situação. Ninguém aguentava mais, a todo momento, alguém deixava escapar palavras de raiva, mas não havia o que fazer. Por rádio, pedimos ao posto central de guardaparques a 2800 mt, para que mandem um helicóptero, mas estes, sem preocupação alguma, nos davam a resposta negativa, alegando que havia muito vento para voar a 4000 naquele dia. Segui na frente, me revesando com um integrante do grupo de resgate. Eram 8:30 e já podíamos ver as lanternas do acampamento-base.

Por volta das 9 da noite, entramos nos limites do acampamento-base exaustos. Um dos guardaparques soltou a corda e simplesmente caiu de tão cansado, ficou lá alguns instantes como se estivesse comemorando a chegada. Haviam poucas pessoas para fora de suas barracas. Evidentemente, todos sabiam o que estava acontecendo, mas não queriam abalar a instável situação psicológica vendo aqueles corpos. Por dias, aquele foi o comentário dos acampamentos do Aconcágua. Guias de expedições grandes, proibiram os integrantes de ficarem olhando os corpos e quase todos tinham ido dormir mais cedo. Dos 4200 mt, ficaria mais fácil para o helicóptero resgatar os corpos na manhã seguinte, então fomos todos descansar.

Uma panela comunitária de sopa de lentilhas com salsichas foi preparada pelos guias e guardaparques que permaneceram no acampamento. Todos estavam famintos e ninguém falou nada por alguns minutos, mas isso não era só por causa da comida que estava boa, mas todos estavam imaginando pelo que tinham acabado de passar. A primeira observação que o médico do acampamento fez quando trouxemos os corpos, foi que estes estavam bastante mutilados e com escoriações:

"...A queda foi feia!...", disse ele, abalado com a situação que entregamos os cadáveres. Cínicos, todos nós concordamos, mas obviamente, fomos nós quem pioramos bastante a aparência dos cadáveres. Depois da merecida janta, chegara hora de dormir, pois no dia seguinte tínhamos uma longa ascensão. Nem Pedro, nem eu, sabíamos o que pensar sobre a situação que acabáramos de passar. Até que a noite foi boa para um dia tão bizarro.

Antes mesmo de amanhecer, já começamos a escutar o helicóptero se aproximando para resgatar os cadáveres. Imaginava eu como eles iam fazer para encaixar os corpos naquele pequeno helicóptero, decidi ir lá fora para ver. Ao sair, reparei que tínhamos deixado os corpos bem na frente da barraca de uma australiana que acampava ali. Mal sabia ela o presente que ia encontrar na porta da barraca ao acordar. Depois de pousar o helicóptero, o piloto decidiu empacotar os cadáveres e amarrá-los do lado de fora com fitas. O braço de um deles continuava esticado e tiveram que amarrá-lo com fita adesiva à fuselagem do helicóptero.

O helicóptero foi embora e com ele, metade do acampamento-base. Achando que também iríamos embora por estarmos abalados pelo ocorrido, todos nos perguntavam quando é que íamos tentar novamente:
_"Hoje mesmo", respondemos.

Duas horas mais tarde, lá estávamos nós novamente carregando as imensas mochilas montanha acima. Por volta dos 4500 metros de altitude, paramos e observamos a rota leste por algum tempo. Era incrível como a aparência desta havia mudado em poucos dias de sol. A neve que se acumulou na tempestade de 3 dias antes, enganou as minhas observações, pois a maioria das manchas brancas tinham derretido. Desta vez, uma grande mancha negra surgiu no meio da rota. O glaciar na base ficou tão exposto que para se unir ao primeiro glaciar da parede, havia uma imensa cachoeira congelada, com trechos em escalada mixta. Numa época normal, esta junção seria apenas um degrau de 5 metros de gelo. Na junção do glaciar mediano com o superior, surgiu uma imensa língua rochosa que não teria que estar ali. E ao contrário do que eu achava, não só o glaciar inferior, mas também o mediano e o superior estavam cobertos de penitentes. Apenas a aproximação por ali já seria suicídio. Mais tarde, ficaríamos sabendo que o inverno anterior foi o mais seco dos últimos 15 anos, mas naquele momento, ainda pensávamos em insistir e tentar. Ficou claro naquelas observações, que 2004, definitivamente não era o ano para escalar a rota do Glaciar Leste, aliás, era o pior.

Glaciar Polonês

Decidimos continuar naquele mesmo dia para chegar ao acampamento 1 da rota polonesa, a 5000 mt. Queríamos chegar ao cume que fosse pela rota polonesa mesmo, que é bem mais fácil e cômoda que a rota do Glaciar Leste. No caminho, eu estava muito arrependido, mas toda hora que eu olhava a rota do Glaciar Leste, entendia porque estava desistindo. Demos as últimas olhadas na rota por volta das 5 da tarde e continuamos por uma longa e inclinada colina. Um campo de penitentes e várias cachoeiras de gelo penduradas nas encostas do Monte Ameghino, começaram aparecer à direita. Chegamos no fim da tarde, com todo o peso, aos 5000 mt.

Estávamos tão confiantes e despreocupados que decidimos dormir ao relento mesmo, como vínhamos fazendo durante a longa aproximação. Para nós era normal, mas todos os que estavam nas proximidades ficaram olhando, tentando entender porque aqueles dois garotos de mochilas grandes estavam jogando os sacos de dormir no chão. Um deles se aproximou e começou a conversar. Se tratava de John Muir, um famoso aventureiro australiano que atravessou os dois pólos sozinho e já tinha escalado várias montanhas de 8 mil metros.

Montamos uma pequena mureta de pedras ao redor das mochilas e sacos de dormir para segurar o vento e preparamos uma gelatina antes de dormir. Aproveitamos os últimos raios de sol sentados, dentro dos sacos de dormir, bebendo suco e olhando àquele belo horizonte ao leste, de onde tínhamos vindo. Com o pôr do sol veio o frio e com o frio o vento. A leve brisa que começou por volta das 8:30, se transformou em um vento forte e durou até a manhã seguinte. O vento foi um pouco incômodo à noite, mas não passamos por aperto algum.

O fato de estarmos totalmente enfiados dentro do saco de dormir, somente com o nariz para fora, não nos permitiu ver a luz do dia e acabamos acordando bem tarde. A maioria das expedições tinham acordado bem cedo e decidiram transportar alguns suprimentos para os 6000 metros e voltar, porque segundo eles, levavam muito peso (o que não chegava a 2/3 do que levávamos). Depois de um pesado café da manhã, levantamos tudo e começamos andar ao meio dia. Igualmente ao dia anterior, tínhamos 1000 metros de desnível para vencer naquele dia e a maioria das pessoas que encontramos, levava de 4 a 5 dias para chegar da base ao acampamento 2, nós levamos dois dias. Logo na saída, já se podia ver o glaciar polonês por inteiro. Igual aos outros dias, o vento começou a soprar forte lá no alto do glaciar e as longas plumas de neve suspensa no ar começaram a aparecer. Após haver vencido a linha dos 5400 metros de altitude, consegui ver o outro lado do Aconcágua e o Monte Mercedário, com 6700 mt, no horizonte.

Enterrados no próprio pensamento e separados por meia hora de caminhada, continuamos por longas horas até que esperei Pedro já perto dos 6 mil metros. Não era nada fácil subir aquelas acentuadas encostas com todo aquele peso. Chegamos à linha dos 6000 metros por volta das 5 da tarde. Havia muito vento e estávamos muito cansados, mas havíamos vencido 2000 metros em dois dias. Não estávamos em condições em atacar o cume no dia seguinte mesmo, então decidimos descansar mais um dia antes de subir. Montamos a barraca sem muita vontade, sempre contemplando aquele imenso glaciar que emergia à leste.

Não tínhamos tido notícias de alguém que tinha escalado a rota direta do Glaciar Polonês naquele ano, então não havia chance de uma previsão de quanto tempo demoraríamos na rota. O que sabíamos, era o que podíamos ver, estava tudo branco. Levando em conta a experiência anterior, aquilo poderia ser qualquer coisa: neve fofa, gelo duro ou mesmo, penitentes se o gelo estivesse velho demais. Apesar disso, e do fato dos alemães mortos terem sido encontrados perto da nossa barraca, estávamos muito confiantes. Talvez todo o preparo psicológico que passamos para escalar a rota do glaciar leste, tivesse ajudado.

A primeira noite a 6000 mt, foi muito estranha e mal conseguimos dormir. Como sempre, eu tive dores de cabeça fortes à noite, mas ao acordar de manhã, Pedro me contou que não dormiu bem. Derretemos muita neve durante o dia e relembramos muitas das aventuras passadas. Não tínhamos o que ler, então ficamos contando histórias que já sabíamos um ao outro. Para reduzir o peso, não levamos livros nem os diários que geralmente poderiam nos entreter nessas horas. Ficávamos lendo as embalagens das comidas liofilizadas várias vezes. Viramos especialistas.

Gastamos o resto do tempo arrumando o equipamento para a escalada que teríamos no dia seguinte. À noite, assim como os dias anteriores, o vento começou a soprar e não parou até a tarde do próximo dia. Acordamos às 5 da manhã ara atacar o cume, mas os ventos estavam tão fortes, que envergavam a armação da barraca como se fosse de papel. Obviamente, dormimos muito mal, e não parávamos de pensar o que seria da nossa tentativa ao cume se o vento continuasse daquele jeito. Eu já estava acordado quando o relógio de Pedro tocou e ele me empurrou para eu acordar. Sem quase dizer palavras, apenas olhando um para o outro, já sabíamos que iríamos ter que "ficar de molho" naquele dia. Tentamos dormir novamente, mas era quase impossível. Acordei com dores de cabeça horríveis, talvez por causa do vento. Cada uma das fortes rajadas de vento fazia com que o altímetro variasse e minha cabeça explodisse.

Pedro ficou impaciente e começou a construir uma mureta de pedras ao redor da barraca. Definitivamente, com aquela mureta, não teríamos mais problemas com os fortes ventos. O dia inteiro foi improdutivo. Derretemos muita neve e pensamos muito em nossas vidas e pessoas queridas. A depressão tomou conta do acampamento. Não só pela tempestade, mas pelo fato de estarmos ali enclausurados já faziam 2 dias.

O vento trouxe muitas nuvens, mas mesmo assim, queríamos tentar o cume no dia seguinte. Ainda acreditávamos que teríamos uma chance. Mas ainda tínhamos que ficar ali dentro, esperando. Às vezes, só pelo fato de olharmos pela pequena janela da barraca e ver o cume, ficávamos mais confiantes. Mas isso era só por alguns momentos, pois se ficássemos observando um pouco mais, notaríamos as imensas plumas de neve carregada pelos ventos. Tínhamos levado um mp3 player, e o usávamos toda vez que estávamos deprimidos. Pink Floyd foi muito apreciado nas noites a 6000 mt, a trinta graus baixo zero.

Sem vontade alguma, entramos nos sacos de dormir e tentamos dormir por algumas horas antes de tentar o cume. O vento soprou forte durante a noite e a mureta de Pedro manteve a barraca no chão. Algumas barracas nas imediações tinham voado com o vento na noite anterior, então ficamos atentos para não acontecer o mesmo conosco.

A noite passou incrivelmente rápido e até conseguimos dormir e sonhar. Talvez pela ansiedade, acordamos antes do alarme do relógio de Pedro tocar. Ainda estava escuro mas não havia vento como houve nas noites anteriores. Começamos a cozinhar e tentamos comer um pacote de ovos liofilizados. Não víamos a hora de sair lá fora e ir direto ao assunto, pois já não agüentávamos mais aquela espera. Trás malabarismos que fizemos no vento, do lado de fora da barraca, conseguimos nos equipar e partir. Já era dia e podíamos avistar claramente, a rota inteira. Pretendíamos chegar ao cume dali a 10 ou 12 horas e levávamos o fogareiro caso tivéssemos que bivaquear na descida. Por volta das 7 horas da manhã, já estávamos subindo as primeiras plataformas de gelo do glaciar polonês.

Infortunadamente, começaram aparecer alguns buracos no gelo que estavam cobertos de neve e isso nos fez perder muito tempo. Eu esperava que aquilo fosse só o começo do glaciar e nas partes mais inclinadas encontraríamos apenas gelo de qualidade. Mas aconteceu totalmente o contrário. Foram poucos os trechos onde encontramos gelo de verdade. Na maioria das encostas, encontrávamos apenas neve e acabávamos afundando até o joelho em partes. Para piorar, um forte vento vindo do cume começou a soprar e carregar toda a neve acumulada no caminho. Já era difícil se manter de pé naquelas encostas nevadas. Com a neve que nos era jateada no rosto, aquilo se tornou quase impossível. Os dias nos quais observávamos os ventos brancos de longe eram passado, ali estávamos dentro deles. Muitas vezes, o barulho do vento era ensurdecedor e tínhamos que ficar de cara para a parede, para esperar que estes passassem.

Aos 6300 mt, parei de sentir minhas mãos e achava que talvez voltasse a senti-las se avançássemos mais rápido. Tentei ir pelo centro do glaciar, enquanto Pedro insistia à direita. Encontrei neve demais e tive que voltar à direita. A cada 3 passos, eu tinha que parar e descansar. As rajadas carregadas de neve começaram a chegar em tempos uniformes e tentávamos sincronizar o tempo que parávamos para descansar, com o tempo que nos escondíamos das rajadas. O ritmo continuou assim por horas...

O interior da minha jaqueta começou a se encher de neve que entrava pelo buraco das mangas e pela frente do capuz. Era difícil até parar para descansar, pois não conseguíamos mantêr nossos corpos no mesmo lugar, sem que escorregássemos. Não bebíamos líquido algum já faziam muitas horas e a escalada começou a se tornar algo insuportável. Era meio dia e mal havíamos passado da metade do glaciar. Ainda faltava chegar ao fim deste e vencer os últimos 300 metros de desnível para chegar ao cume (e ainda descer). Esses detalhes começaram a se passar pela minha cabeça e imaginava que também pela de Pedro. Era deprimente estar ali no meio do vento, enterrado na neve há várias horas, tentando subir algo sem sustentação alguma. A situação se tornou ridícula. Mais neve começou a ser carregada pelo vento e mais profundas começaram a se tornar as nossas pegadas.

O vento se encarregava de tampá-las, alguns segundos depois que as deixávamos para trás. Numa ocasião, olhei para cima e vi Pedro, enterrado até a cintura, lutando para subir numa pequena elevação rochosa. Parecia que seus movimentos fossem inúteis diante daquela imensa massa de neve. Ele tinha que respirar fundo após cada metro que conquistava naquele instável terreno e já parecia ter ignorado o fato do vento branco estar soprando mais forte. Após uma rápida troca de palavras, ele me disse que tampouco sentia as mãos, nada estranho para alguém que não as desenterrava da neve depois de tanto tempo. Nos aproximamos um do outro e começamos analisar as pequenas possibilidades de chegar ao cume ainda naquele dia. Teríamos, provavelmente, que trocar o cume por alguns dedos das mãos, pois estes estariam congelados em algumas horas.

Optamos por salvar os dedos e decidimos descer. É claro que a decisão não foi fácil. Ficamos alguns minutos pensando no que estávamos fazendo e no que tínhamos passado e planejado para chegar ali. Não era justo, afinal, estávamos bem aclimatados e tínhamos experiência mais do que suficiente para completar aquela escalada. Mas o tempo não estava bom, não havia o que fazer. A rota seria até que fácil se não estivesse com tanto acúmulo de neve. Após fazermos algumas cenas para mostrar como estava a situação, começamos a descer. Sem encanto algum para aquela bela paisagem, eu descia escorregando e tropeçando, como se estivesse também, desistindo de minha vida. Nada mais me animava. O único que me vinha à cabeça, era o meu saco de dormir e minha barraca.

No caminho, algumas idéias absurdas sobre chegar ao cume pela rota normal, para tentar salvar o cume, começaram aparecer na cabeça. Se fizéssemos aquilo, não estaríamos fazendo por nós mesmos. Afinal, todo aquele equipamento e preparamento de nada serviria na rota normal, além disso já havíamos escalado a rota normal há alguns anos atrás. Decidimos finalmente abandonar a montanha e esquecer daquele verão que tanto nos trouxe problemas.

Chegamos às barracas por volta das 3 da tarde exaustos. Pedro, talvez tentando fugir do fato de que não havíamos chegado ao cume, decidiu ir até o outro lado da montanha, no acampamento de altitude chamado Berlim, a também 6000 mt. Pedro tentava localizar Jefferson, que segundo o que achávamos, já estaria no acampamento Berlim. Acompanhei a sua trajetória pelo rádio. Pedro demorou aproximadamente uma hora só para chegar lá e mais outra hora para voltar ao acampamento 2, onde eu estava, mas sem notícias de Jefferon. Passamos o resto da tarde derretendo neve e enquanto isso, vários escaladores vinham nos perguntar a respeito de nossa escalada. Mesmo sem ter feito o cume estávamos orgulhosos e contávamos os fatos da difícil escalada, como se fosse uma verdadeira conquista. Já havíamos esquecido da idéia de tentar o cume pela rota normal. Decidimos iniciar a longa jornada de 4 dias de descida na manhã seguinte. A noite veio rápido, e nos refugiamos na música do Mp3 player. Pink Floyd nos salvou novamente e evitamos pensar muito no que tinha acontecido naquele dia.

O fato de sabermos que iríamos descer e pôr fim àquele dias conturbados de andanças, caminhadas e escaladas, nos deu certa tranqüilidade. Sabíamos que o dia seguinte seria duro, pois teríamos que fazer uma travessia a 6000 mt, de alguns quilômetros e com todo o peso. Mas pelo menos, naquele dia estaríamos num lugar que já conhecíamos.

Ao acordar na manhã seguinte e olhar para a rota, reparamos que não haviam linhas de ventos brancos no céu do Aconcágua. Vimos também, 3 pontinhos seguindo as leves pegadas que deixamos na base do glaciar. Descobrimos que era um grupo de chilenos que tinha iniciado a escalada às 5 da manhã, mas não conseguiram chegar nem na metade do glaciar.

Lentamente, arrumamos nossas coisas e começamos a atravessar um pequeno glaciar, seguindo a direção noroeste. Foi incrivelmente fatigante percorrer aquelas encostas geladas a 6000 mt com aquelas pesadas mochilas. Diminuímos muito o nosso ritmo e cada obstáculo era motivo para parar para descansar. Demoramos quase 4 horas para chegar à Berlim, onde realmente começaríamos descer.

Repentinamente, pessoas começaram a aparecer e já faziam vários dias que não víamos tantas pessoas juntas. Só em Berlim, que é o acampamento mais alto da rota normal, encontramos mais gente do que encontramos na face leste inteira. Alguns eram turistas mesmo, sem experiência alguma e era evidente que aquela era sua primeira montanha. Outros eram idosos e eu não imaginava como é que eles haviam chegado ali. Aquilo explicava o porquê de tantas mortes no Aconcágua. O fato de termos equipamentos técnicos nas mochilas, atraía a atenção de todos e muitos se aproximavam para perguntar como ia o outro lado da montanha. Muitos tiravam-nos fotos por causa das mochilas tão grandes... Foi absurdo!

Não encontramos sinal algum de nossos amigos ali naquele acampamento e achávamos que eles estariam mais abaixo. Nido de Condores, o acampamento inferior, a 5500 mt, parecia mais um bairro. Haviam mais de 50 barracas ali e ficou muito difícil encontrar 2 pessoas específicas ali. Decidimos descer e tentar encontrá-los na base da montanha. No caminho, encontrávamos pessoas que não tinham idéia alguma do que estavam fazendo, alguns nem sabiam montar uma barraca! Queríamos sair logo dali.

Ao cruzar uma colina na descida em direção à Plaza de Mulas, avistei uma grande cidade de barracas. Bairros azuis, laranjas e amarelos destacavam-se aos cantos da cidade. Imensas barracas-refeitório eram posicionadas no meio dos bairros. Havia de tudo, desde ducha quente por 15 dólares, até internet, telefone e um Pub!! Plaza de mulas se transformou em atração turística. Imaginávamos se as longas trilhas que passavam no meio das barracas tinham ou não nome, de tão movimentadas.

Fui procurar meus amigos, mas nem sinal daquela barraca verde-escuro de Jefferson. Aleatoriamente, fui perguntar onde eu conseguiria água a um homem que estava do lado de fora de sua barraca. Incrível coincidência! Aquela era a barraca vizinha à de Marcelo, que descansava depois de sua tentativa frustrada ao cume. Recebi a triste notícia de que Jefferson ficou doente logo nos primeiros dias a 3200 mt e teve que descer. Mesmo sozinho, Marcelo continuou, mas teve problemas com a altitude e tampouco chegou ao cume.

Nos acampamentos baixos encontramos expedições muito bem equipadas, às vezes com guias, que nem tentavam o cume, que seja pela rota normal. A 4900 mt, num acampamento chamado Canada, encontramos um grupo de brasileiros de Belo Horizonte, que tentavam a rota normal. Eles tinham barracas de uma expedição paga, tinham guia, chegaram até ali com a ajuda de mulas, era a segunda vez que iam ao Aconcágua e mesmo assim, pela rota normal, desistiram do cume. Aquilo era inconcebível! Me senti muito mal daquele lado da montanha. Assim como fez Pedro, prometi a mim mesmo que não voltaria à rota normal da Aconcágua.

Mesmo do lado normal, várias desgraças aconteciam. Várias pessoas chegavam cegas por terem queimado a retina com a claridade da neve, outros com problemas nos pulmões, outros com congelamentos. Do lado de fora da barraca do médico do acampamento-base, reencontramos um austríaco após alguns dias. Ele tinha subido o vale do rio Vacas, mas tentou a rota normal e congelou vários dedos. O austríaco jamais havia estado tão alto e teve necroses em várias falanges, segundo ele: "A experiência foi suficiente"

Marcelo se juntou a nós durante a longa descida pelo vale do rio Horcones. Colocamos toda a carga nas costas e começamos a disputar um espaço na trilha com as mulas. Estas vinham em comboios que às vezes, chegavam a 15. Haviam pessoas que contratavam os serviços de mulas para descer seu equipamento, como se já não bastasse subí-lo no lombo de mulas. Comparados com os quase 100 km que já havíamos percorrido do lado leste da montanha, a descida de 40 km não foi tão difícil, nem os rios eram tão fundos quanto os do outro lado. Eram poucos os pontos no vale do rio Horcones onde chegávamos a lugares que não enxergávamos alguém. Era fim de tarde quando chegamos à Confluência, para passar nossa última noite na montanha.

Dias depois, comendo num restaurante self-service, brindávamos por termos aprendido tanto, junto a Marcelo. Obviamente, queríamos ter chegado ao cume, mas não houve o que fazer. Comparada às expedições anteriores, esta foi a que mais nos saímos bem. Apesar de tantas adversidades, não perdemos muito peso e tampouco ficamos com a estima tão baixa quanto ficávamos antes. Sinto que mudamos muito desde o começo, mas ainda tenho saudades dos velhos tempos. Sempre que leio nossos antigos relatos de escalada, parece que estou lendo relatos dos pioneiros, onde tudo era uma grande descoberta...

 

Veja: Fotos Aconcágua 2004
Veja: Fotos Cordón del Plata 2004
Veja também: Primeira escalada ao Aconcágua em 2002
Leia também: Aclimatação, remédios e tudo sobre altitude

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