Piores Momentos - O Regresso do Illimani

Texto: Pedro Hauck


O Nevado Illimani é a maior montanha da Cordilheira Real da Bolívia, com 6400 metros. É uma ascensão rápida com apenas dois acampamentos. Para chegar lá, não encontramos transportes públicos, então contratamos um serviço particular de van alternativo, pois o que as agências cobravam demais.

Havíamos recém retornado do Huayna Potosi, o tempo estava bom, mas sabíamos que não iria continuar assim por muito tempo. Acabamos desperdiçando nosso primeiro dia de aproximação para descansar e pior, o nosso maldito transporte alternativo nos deixou 12 Km antes do local onde se inicia a trilha para a montanha.

No segundo dia começamos a aproximação. Eu e Leo ainda estávamos um pouco abalados pela com o esforço no Huayna Potosi, Fabio Fontana e Maximo desapareceram na frente. Pinaya, que é o lugarejo onde se inicia a trilha, é totalmente perdido no tempo. Apenas cholas e o koyas moram lá. As casas são feitas de tijolos de barro, o teto era de palha. Deve ser triste quando há tempestades de neve.

Não é natural existirem árvores por lá, embora existam alguns eucaliptos introduzidos. Para se aquecerem, os índios queimam estrumes de lhamas e de ovelhas, que eles criam extensivamente. O acampamento-base do Illimani é um grande platô gramado e cortado por rios, um lugar excelente para montar a barraca, só não é melhor devido às ovelhas e os porcos das cholas que ficam pastando por lá.

No terceiro dia partimos para o acampamento alto, que lá também é chamado de Nido de Cóndores. Logo no início, Leo teve um problema para atravessar uma cachoeira congelada e torceu o joelho, ele ainda tentou continuar, mas teve que abandonar a escalada, Fabio Fontana desceu com ele. Chegando em Nido de Condores, Maximo me deu a noticia de que estávamos sozinhos. Como pressentíamos que o tempo iria piorar, resolvemos atacar o cume naquela madrugada.

Acordamos às 3 horas da madrugada e comemos um macarrão forçosamente, lá fora haviam muitas nuvens e vento, o que nos preocupou muito, mas que não foi suficiente para nos fazer desistir ou esperar um tempo mais seguro, saímos assim mesmo. Maximo foi guiando a cordada. A rota era simples, porém a existência de gretas nos exigia ir encordoado. Íamos progredindo ao mesmo tempo que as nuvens e o vento iam fechando. Minha esperança era que o tempo limpasse quando o sol nascesse, mas isso não aconteceu e começamos a voltar.

Uma tempestade havia se formado no cume, e começou a descer a montanha junto conosco. Ao chegar no acampamento, uma janela no tempo se abriu. Isso nos fez pensar muito em nossa decisão em abandonar a montanha. Porém, alguns minutos mais tarde o tempo fechou completamente e nos deu o veredito de que teríamos que descer. Começamos a desmontar a barraca, pois sabíamos que não iríamos ter uma segunda chance, aquele mal tempo já estava previsto, porém não tão cedo.

A janela não durou muito tempo, e durante a descida pegamos a tempestade, que parecia nos perseguir. Quando conseguíamos descer rápido, nos afastávamos da nuvem de tormenta, mas não eram todos os lugares que podíamos descer rápido, especialmente na crista rochosa um pouco antes de Nido de Condores. O terreno ali é muito irregular, com pedras soltas e rochas fraturadas de uma maneira que a passagem por ali ficava muito escorregadia. Tivemos que descer escalaminhando, carregando as mochilas.

Nesses momentos éramos pegos pelas nuvens, e o perigo se multiplicava, com um precipício de cada lado, qualquer erro poderia ser fatal. Depois de vencer esta parte difícil, achamos que estaríamos tranqüilos, mas uma névoa encobriu todo o platô onde fica o acampamento-base e nos perdemos. Ficamos 1 hora tentando encontrar o acampamento, mas não conseguíamos enxergar nada, o que era desesperador.

Por sorte, encontramos uns cavalos de cholas que pastavam por lá e acabamos avistando a cúpula de uma barraca. Já era meio dia, e estávamos famintos! A caminhada do acampamento-base até Pinaya não tinha segredo algum e chegamos lá depois de duas horas. Estávamos cambaleando de cansaço, não estávamos com botas de trekking, de modo que percorremos todo o caminho com as botas duplas, o que resultou em inúmeras bolhas. A tempestade continuou descendo a montanha e quando chegamos em Pinaya começou a chover. Naquele momento eu só pensava em ter o meu esforço compensado chegando em La Paz, comendo comida de verdade e dormindo numa cama. Para isso, não precisávamos nos esforçar muito, pois eu acreditava que todos os dias às 5 da tarde, partia um ônibus para a capital boliviana... Errado!

Em Pinaya, fomos procurar informações sobre aquele ônibus e como se fazia para chegar à tal cidade, que se chama Quillahuaya. Ao perguntar a um koya na localidade, ele me disse que o ônibus sairia às oito da noite! Tudo bem, ainda era cedo para descobrir se era verdade, de modo que fomos caminhando para Unna, o vilarejo onde haviam nos deixado na ida. Unna é vizinha da tal Quillahuaya, que eu nem me recordava se havia passado por ela ou não. No meio do caminho, perguntamos para muitas cholas à respeito deste ônibus, queríamos uma informação precisa, mas cada pessoa respondia algo diferente, havia quem dissesse que saía às 5, outros às 6, outros às 8, e assim por diante. Inclusive, me disseram que não existia ônibus nenhum e que teríamos que ir para outro lugar. Estávamos cansadíssimos, e só queríamos ter a certeza que quando chegássemos a Quillahuaya, teríamos uma chance de voltar para La Paz.

Não sabíamos quanto tempo sequer iríamos demorar para chegar lá, até para isso as informações divergiam. Neste momento, já estávamos desesperados, pois chovia e precisávamos sair de lá antes que a estrada que já era ruim, se tornasse intransitável e fosse impossível de sair daquele lugar, o que não queríamos de jeito nenhum. Nosso desespero aumentou quando conseguimos avistar Quillahuaya do topo de uma colina, eram 4:30 e provavelmente nos restaria meia hora para chegar lá, o que era improvável no estado que estávamos. Nos esforçando muito e chegamos na praça de Quillahuaya às cinco em ponto. O ônibus ainda estava lá, que sorte!

Amarramos as mochilas no teto do ônibus "pau-de-arara" e ficamos esperando mais uma hora pelo motorista, que apareceu bêbado e atrasado. Para recuperar o atraso, ele decidiu andar mais rápido na estrada, para nosso maior desespero.

Conseguimos 2 lugares: eu sentei encima da caixa de marchas do ônibus, ao lado do motorista. Maximo sentou-se atrás da porta e tinha que se encolher a cada vez que o motorista abria a porta. Isso provocou a revolta das cholas, pis estávamos nos melhores lugares segundo elas. O ônibus parou muitas vezes antes de deixar as ruas sujas e barrentas de Quillahuaya, de modo que todo o espaço físico no interior do ônibus foi preenchido por cholas, bagagens e crianças.

Depois de ter sobrevivido à mais uma tempestade na montanha, achei que não fosse sobreviver à viagem. Além do desconforto, várias vezes passávamos ao lado de precipícios imensos, em uma estrada onde só cabia um veiculo, tudo isso à mais de 100 km/h em uma estrada de terra e chovendo!!

Fomos chegar em La Paz às 9 da noite. Fomos direto para o hotel onde Leo e Fabio Fontana nos esperavam. Nem tiramos as botas duplas ou tomamos banho. Estávamos famintos e fomos logo para um restaurante. Foi apenas pôr os pés para fora do hotel que começou a chover. A tempestade que começara no Illimani chegou em La Paz, e como eu nunca havia vista antes, começou a nevar na cidade. Foram 18 horas correndo da tempestade, nunca sofremos tanto!

Veja: Fotos Huayna Potosi e Illimani 2002


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