Piores Momentos - Quando torci o pé no Peru

Texto: Maximo Kausch

No Peru já não fora a primeira vez que eu enfrentei o mesmo problema, a falta de parceiro. Assim como eu já tinha feito no Nepal, no Atacama e algumas vezes nos Alpes, achei que o Peru não seria diferente, e decidi embarcar assim mesmo, sem parceiro algum.

Quando me deparei por primeira vez com as montanhas da Cordilheira Branca, a primeira decepção que tive por não ter parceiro, foi a de não poder escalar grandes quantidades de cumes e decidi, inicialmente, me limitar ao vale de Santa Cruz.

Sem nem saber exatamente que montanha escalar, ou estar aclimatado, peguei um ônibus para Caraz e outro a Cashapampa, para assim adentrar o vale. Com apenas um livro que descreve inúmeras rotas de escalada, escrito por Brad Johnson, eu me guiava e tentava uma decisão do que fazer.

Como muitos que vão para a Cordilheira Branca, decidi começar pelo que eu conhecia, o famoso Alpamayo. O trekking descrito no livro como a mais longa aproximação na região, era de apenas 2 dias. Logo no começo, encontrei um grupo de 8 australianos que procuravam um guia e já vinham, sem sucesso, procurando se comunicar com alguém em inglês. No começo achei ridículo quando um deles me propôs guiar o grupo todo, mas depois de pensar que, de qualquer forma, aquilo era caminho para mim, aceitei. 300 euros não foram nada mal para ter que fazer o trekking um pouco mais devagar e esticar a caminhada em apenas 3 horas para chegar até Punta Unión, que foi o combinado.

Encontrei um grupo de vascos que também tinham um livro com dezenas de rotas descritas, entre elas, uma curiosa montanha, logo à frente do Alpamayo, chamada Quitaraju. Dois dias através de lagos e belas paisagens, e eu estava sozinho novamente.

Ignorando totalmente a minha baixa tolerância com altitudes e os longos períodos que meu corpo exige para se aclimatar, adentrei ao vale de Arhueycocha, e em apenas 1 dia eu já estava a 5000 metros, com todo o peso. Obviamente, as dores de cabeça e a falta de apetite vieram tão rápido quanto subi. Como eu não tinha ninguém quem conversar, eu perguntava à mim mesmo por que sempre sou tão impaciente com a aclimatação. Não me prestei atenção para o que eu ia responder, pois eu estava ocupado olhando para duas montanhas bem carregadas de neve que supostamente eram o Alpamayo e o Quitaraju.

Durante a noite a 5000 metros, notei a falta de algumas coisas: colher, papel-higiênico e minha lanterna. Os israelenses com quem eu dividia um quarto de albergue em Huaraz, provavelmente foram os culpados. Tive que improvisar uma colher com pitons, usar apenas a lanterna de leds no lugar da que foi roubada e o papel higiênico... Bem, a neve se encarregou disso.

Sempre acabo sub-julgando as rotas que vou escalar. Esta não foi diferente, e nem coloquei a corda para fora da mochila quando me aproximei ao colo entre o Alpamayo e Quitaraju. Por meio a instáveis seracs e pontes de gelo duvidosas, abri o meu caminho até o colo a 5500 metros de altitude. Tive que usar a corda e as piquetas, para progredir com a minha pesada mochila.

Ao entrar no colo, a primeira coisa que olhei, foi o Alpamayo e sua rota normal, a chamada Ferrari. Ao olhar para a esquerda, vi aquele tal de Quitaraju, que tinha uma rota convidativa para alguém que acabara de chegar a 5500 metros de altitude.

Até parecia que houvesse uma voz na minha cabeça me contando uma professia "Maximo, seu idiota, você teria que se aclimatar melhor!". Desta vez decidi ouvir a voz e passei um dia inteiro a 5500 metros de altitude, derretendo neve, comendo e lamentando as minhas decisões.

A noite se apresentou impecável, e o dia seguinte teria que ser o de ataque ao cume. Decidi seguir aquela rota descrita no livro dos vascos e saí do acampamento às 2 da manhã. A noite foi realmente impecável e nem sequer ventou muito.

Fiz uma longa travessia em direção ao Quitaraju e enquanto a luminosidade do amanhecer chegava aos cumes mais altos, eu já chegara à base da parede. Posso dizer que o Quitaraju foi uma das escaladas em que mais me diverti. Pela esquerda de uma linha rochosa existente na montanha, as paredes chegavam a 75 graus de inclinação, mas o gelo estava em perfeitas condições. O fato do gelo estar em perfeitas condições e do tempo estar realmente bom e sem vento foi realmente uma "mão na roda" para um sem-noção sozinho como eu. Caso o tempo estivesse ruim, ou se o gelo fosse duro demais, eu acabaria pagando um preço caro.

Tive que progredir por longos trechos sem colocar estacas ou parafusos, pois eu não queria chegar tão tarde ao cume. Ainda eram 2 da tarde enquanto eu me contorcia na vertente superior, logo abaixo do cume, o que não foi tão divertido assim. Sem perceber, eu estava exausto, mas às 4 da tarde eu chegara ao cume. Contemplei a vista de parte do vale Santa Cruz, e dezenas de outros cumes, nos quais eu queria pisar. Entre eles estava ali o Artesonraju, que era um dos meus objetivos. Ainda tinha toda a descida pela frente e não havia muitos motivos para comemorar uma chegada a um cume daqueles, às 4 da tarde.

Com poucas horas de luz, comecei a descida, que demorou uma eternidade, por causa dos abalakovs que tive que montar. Foram 15 abalakovs no total, e 4 metros de cordeletes que deixei na montanha. Cheguei na base da montanha, onde se pode descer sem o auxílio de uma corda por volta das 9 da noite. Eu estava completamente exausto e desorientado, tive que recorrer ao GPS para chegar ao meu acampamento.

Eu já tinha bebido toda minha água ainda na parede e estava sem comer a mais de 10 horas. A única coisa que eu queria naquele momento, era chegar à minha barraca e dormir. Era quase meia noite quando a minha fraca lanterna de leds finalmente iluminou o platô onde minha barraca estava. Me esforçando para enxergar as minhas pegadas da madrugada anterior, eu cheguei ao espaço que cavei para montar a minha barraca, mas esta não estava lá. Os bastões de trekking, aparentemente, não foram suficientemente fortes para segurar a barraca com vento que soprou ali embaixo, e ela voou. Eu estava tão cansado que até cheguei a pensar em deitar ali mesmo, mas aquela voz novamente me chamou de idiota e me fez procurar pela barraca.

Mesmo sabendo das minhas vagas chances de encontrar uma barraca voadora num colo de 5500 metros, à noite, sozinho e exausto, comecei a perambular pelo colo. Um barulho de lona me guiou às proximidades, onde encontrei minha barraca virada de cabeça para baixo, que por um milagre, ficou no chão devido ao peso do saco de dormir, roupas e um pouco de comida que eu não tinha levado comigo ao cume.

Usando a lei do mínimo esforço, desvirei a barraca e entrei para dormir ali mesmo, onde a encontrei. A noite não foi a das melhores da minha vida, e a desidratação se manifestou nos meus sonhos com torneiras, rios e fontes de água. De manhã, me forcei a derreter neve e consegui a incrível quantidade de 1/2 litro. Nada mal considerando o meu estado lastimável. Decidi descer para aquele acampamento a 5000 metros, para descansar. Ali, pelo menos, eu não precisaria derreter neve e me preocupar com que a minha barraca saísse voando.

Desmontei o meu acampamento, empacotei os equipamentos com o maior descaso possível e comecei a descer pelo colo. Os primeiros 3 rapéis foram em abalakovs de fitas previamente instaladas por alguma expedição. No quarto rappel, eu precisei passar por uma daquelas instáveis pontes de gelo, que por causa dos longos dias de calor, elas estavam mais instáveis ainda. Tomei uma das únicas decisões sensatas naquela escalada e decidi atravessar a ponte sem mochila, para instalar um parafuso do outro lado. Depois, eu teria que atravessar a ponte novamente, com a minha mochila nas costas.

Esta decisão salvou a minha vida, pois a ponte de gelo se rompeu durante a minha passagem com a mochila. Instalar um parafuso do outro lado da ponte foi um daqueles atos rotineiros e eu realmente não esperava que a ponte quebrasse. Para explicar melhor, a ponte era na verdade um bloco de gelo entalado numa fenda de 5 metros.

Como eu estava cansado quando acordei naquele dia, separei somente o equipamento básico para descer e somente tinha algumas fitas, um ascensor e 2 parafusos na cadeirinha. Ao cair, eu fui projetado para o outro lado da fenda a recebi a parede com o meu pé direito. Um forte barulho abafado veio logo em seguida. Este era da neve e do gelo encontrando o fundo da greta. Já ouvi muitas vezes barulhos deste tipo em montanha, porém, é bem diferente quando um destes vêm debaixo de você.

Com o meu peso e o da mochila, ele virou para cima de uma forma, digamos, não muito rotineira. Como eu não usava nenhuma fita nas alças da mochila, fui puxado pela cintura e virei de cabeça para baixo. Depois que passei por aquele processo em que a vida toda é mostrada como um filme durante frações de segundos, voltei a mim mesmo e minha inesperada situação: Sozinho, pendurado de cabeça para baixo, com uma mochila nas costas, às 4 da tarde, a 5300 metros de altitude... que situação! Aquele realmente foi um dos meus piores momentos e só não foi pior porque eu não continuei caindo ao fundo da greta.

Malditos vascos! segundo o livro deles, aquele colo não oferecia nenhum risco, no entanto, foi escrito há 2 décadas, e o aquecimento global se encarregou de mudar a paisagem glaciar.

Eu realmente não estava em condições de empunhar o meu ascensor e subir pela corda, com a mochila. A minha piqueta, que estava presa a um dos loops da cadeirinha, se soltou e quase caiu ao fundo da greta. Mais um daqueles milagres fez com que eu conseguisse segurar a piqueta e não a deixasse cair. "Que sorte!" Pensei comigo mesmo: "O que mais pode dar errado?".

Aquela voz que sempre me faz comentários arbitrários, não se manifestou no momento. Acho que talvez não houvesse nada mais ridículo que aquilo, e realmente não havia nada que se dizer.

Era hora de lembrar do meu pé. Em situações similares, o corpo nos faz esquecer da dor e nos concentrar em salvar as nossas próprias vidas. Eu tinha certeza absoluta que o meu pé estava quebrado, e me lembrei da ocasião em que Ben Webster quebrou a perna no Everest. Ao contrário de Ben, eu só tinha meus braços e minha outra perna para descer.

Mais uma daquelas decisões cruciais e inconscientes, e decidi colocar um parafuso de gelo, na parede, que estava nas minhas costas. Foi um drama à parte encontrar um parafuso naquela bagunça, que era a minha cadeirinha, empunhá-lo, e começar a parafusar uma parede de verglass, de costas, e cabeça para baixo. Acabada a tarefa, tive que fazer muita força para me desvirar, colocar a minha fita solteira no parafuso, tirar a mochila, e ancorá-la na parede.

Estimulado pela adrenalina, nem reparei, mas usei o meu pé, que supostamente estava quebrado, e este não doeu muito. Cogitei a possibilidade de que os pés pudessem passar por maltratos como aqueles e decidi usar o meu na parede, para me apoiar. Uhhh! que dor! Aquela coisa que parecia mais um choque elétrico, subiu pelo meu corpo inteiro. Que idéia péssima!!

A poucos metros do topo da greta, mancando com um pé só, desancorei a mochila, a prendi em um nó na corda, soltei o parafuso e comecei a subir com o ascensor. Passei por sérios apuros para subir aquela greta. Chamei a greta e a ponte de gelo de vários nomes.

Finalmente, depois daquela odisséia de 4 metros, cheguei ao topo e sentei. Foi como chegar a um novo cume, só que este tinha 4000 milímetros. Me senti profundamente cansado e com uma dor no peito, talvez por causa do meu coração que bateu tão rápido durante o tempo que estive ali. Depois de me acalmar e comer um pouco de neve, decidi avaliar a situação do meu pé. Com muito temor, tirei o casco plástico da bota e constatei que meu pé não estava quebrado, mas talvez torcido. Eu sentia uma profunda dor na junta, porém esta era menos pior quando o pé não estava apoiado.

O meu mundo, naquele momento, era constituído por uma greta, uma mochila, uma corda e um pé. Ao sair da greta eu comecei a reparar que o mundo não era somente aquilo, e que dezenas de gretas ainda estavam entre o meu pequeno mundo e o lugar que eu sonhava em acampar.

Com ajuda dos bastões de trekking, comecei a me mover e me espremer entre as finas passagens, caminho à baixo. Já estava começando a escurecer, quando eu avistei a parte em que o glaciar acaba em morenas frontais. Minha energia estava quase que totalmente drenada. Eu não tinha forças para me continuar movendo e decidi acampar.

Não encontrei um lugar plano o suficiente para acampar e tive que montar a barraca no topo de um serac com 10 graus de inclinação. Usei parafusos de gelo para manter a barraca no lugar. Tive que deixar a preguiça de lado e me forcei a derreter neve para ter o que beber. Comi alguns chocolates, tirei as botas e praticamente desmaiei de sono.

A inclinação do chão me depositou no fundo da barraca, mas eu nem percebera. Acordei com a minha meia grossa me encomodando. Lembrei de onde eu estava, e do que aconteceu. Também lembrei que eu não tinha meias grossas. O meu pé inchou tanto que eu achava estar usando uma meia a mais. De fato, tive que colocar uma meia a mais no pé, no lugar da parte interna da bota.

Desmontei o meu acampamento, empacotei tudo e ainda comi um pacote de liofilizado antes de sair. Agora bem nutrido, pude avaliar que eu não estava tão longe do lugar que eu sonhava em acampar (que na verdade era uma pedra) e decidi passar por ele e continuar até o topo do vale de Arhueycocha, onde eu encontraria abrigo e ajuda.

Demorei horas para descer o que eu subi em apenas 2 horas dias antes. Parei para o almoço (liofilizados novamente), só que desta vez não tive que derreter neve. Cheguei nas proximidades do topo de Arhueycocha, por volta das 3 da tarde. Eu já estava a 4500 metros de altitude e fazia muito calor.

Do pouco que lembro daquela peregrinação perneta, foi estar descansando numa pedra, bebendo litros e litros de água que consegui num córrego. Eu estava numa daquelas pedras perfeitas, nas quais não se precisa tirar a mochila para sentar. Ouvi um barulho diferente vindo detrás, mas estava tão cansado e indiferente, que continuei bebendo água.

Um peruano apareceu do meu lado! Fiquei com vontade de dar-lhe um abraço, mas o cheiro não era convidativo... A primeira coisa que ele falou, foi:

_"Burro"

Ao que imediatamente eu respondi:

_"Sim, sim, eu sei"

Sem entender muito ele reforçou:

_"Não. Você quer um burro para carregar as suas coisas?"

Aquela não era uma má idéia. Pela primeira vez, numa expedição autônoma, aceitei a ajuda de algum animal para carregar as minhas coisas. Não era por mais, o caminho de descida tinha mais que 20 km, antes de chegar a Cashapampa, que por sua vez, fica a 40 km de Caraz, que não tem mais que 5000 habitantes.

Combinei em começar a jornada de descida logo cedo. A minha intenção era a de descer até Cashapampa até que o meu pé melhore e depois voltar até o Alpamayo e ainda tentar o Artesonraju... Que idéia ingênua!

Ainda fiquei por mais de 1 mês mancando. Tive uma lesão no tendão do calcanhar. Como não se pode brincar com lesões, fui descansar no Brasil, e fiquei escalando rochas por 1 semana juntamente com Pedro.

Escalar sozinho é um grande comprometimento com a auto-confiança. Pelo menos, é o que todo mundo fala... Pessoalmente, acho que o comprometimento maior é com a montanha que você escolheu. Fora a parte da escalada, que é muito mais exaustiva, temos que nos virar em casos de acidentes. No caso de você quebrar um osso, é muito provável que você não consiga rastejar embora da montanha como Joe Simpson descreveu na épica Touching the Void.

Como não temos uma segunda opinião, as suas decisões poderão seguir um dos dois caminhos: ou você será extremamente cauteloso com os seus atos e talvez pela desmotivação, não vai se arriscar tanto; ou você será extremista nas suas escaladas e pela falta de opiniões, irá se arriscar demais.

Mas a pior coisa de escalar sozinho, certamente, é que você não tem em quem pôr a culpa quando as coisas saem erradas.

Veja também: Fotos Peru 2005

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