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Piores
Momentos - Carregando 2 cadáveres montanha abaixo
Texto: Maximo Kausch
Aconcágua,
fevereiro de 2004, após uma longa aclimatação de
2 semanas, várias escaladas verticais e 4 longos dias com 45 kg
nas costas, achávamos que nada mais de ruim poderia acontecer.
De todos
os piores momentos que passamos, acho que o mais bizarro, foi aquele episódio
dos cadáveres.
Naquela ocasião, nos
encontrávamos no acampamento-base do lado leste do Aconcágua,
quando recebemos um chamado de ajuda para ajudar a descer 2 alemães
que faleceram no glaciar polonês. Depois de uma longa caminhada
ao local, com cautela, me aproximei e a primeira coisa que vi foi a mão
de um homem que estava de bruços sobre outro, obviamente congelado.
Os dois ainda usavam suas roupas e equipamentos e um deles tinha as botas
iguais às minhas. Todos os homens do grupo do resgate estavam descansando
quando chegamos, assim, ajudei-os a recolocá-los encima de um tambor
plástico cortado pela metade na vertical.
A idéia era que o
tambor escorregasse melhor e não teríamos tantos problemas
para descê-los montanha abaixo. Usamos as cordas deles mesmos para
descê-los. No começo, ficamos todos cautelosos para não
danificar os braços e o rosto dos pobres companheiros. Cada pedra
que pudesse representar uma superfície cortante, era removida.
A cada pedra grande, tínhamos que levantar os 160 kg do chão
e passar por cima desta sem danificar muito os cadáveres.
À
medida que íamos perdendo altitude e o cansaço ia aumentando,
o descaso ia também aumentando. Era impossível mantêr
tanto cuidado com a carga naquela altitude. Algumas horas depois que nos
juntamos ao grupo, começou entardecer e ainda estávamos
longe do acampamento. O braço de um deles estava dobrado para a
frente protegendo o rosto e acabou atrapalhando muito na descida. Decidimos
quebrar esse braço e acabar com a tortura para todos os que descíamos
os corpos. Em vão, tentamos forçar o braço congelado
para dentro, mas não conseguimos nem mesmo dobrá-lo. As
pernas do cadáver debaixo também atrapalharam muito por
estarem separadas demais, mas tampouco houve jeito de quebrá-las.
Tentei forçá-las entre o meu peito e coxas, mas aquilo parecia
aço. Qualquer pedra era motivo para parar e soltar as pernas do
pobre homem.
Por
volta das 6 da tarde, ao olhar para trás, eu podia ver uma grande
pluma de neve carregada pelo vento que se erguia a centenas de metros
acima do glaciar polonês. O sol estava se pondo próximo dali
e os ventos brancos receberam um contorno alaranjado. A crista do glaciar
leste, a 6200 mt, onde pretendíamos acampar, ficou iluminada, foi
lindo! Foi uma merecida cerimônia para aqueles dois que carregávamos.
Todos estavam cansados, alguns
exaustos, alguns simplesmente queriam jogar os corpos morro abaixo, mas
todos nós sabíamos o que tínhamos que fazer. Naquela
mesma silhueta glaciária avistamos dois pequenos pontos que sem
explicação estavam se mexendo montanha acima. Eram dois
escaladores que mesmo às 6 da tarde, a 6500 metros de altitude
e com aqueles fortes ventos, insistiam em chegar ao cume.
Ao
ver aquilo, todos sabíamos que eles não teriam chance de
chegar ao cume e iriam ter que passar a noite ali mesmo, mas com o que
já tínhamos que fazer não havia chance de subir aos
6500 naquele mesmo dia. O problema ficou a cargo dos próprios alpinistas
e ninguém sabia ao certo se eles iam passar vivos daquela noite.
Mais tarde, ficamos sabendo que eles estiveram à beira da morte
e tiveram várias amputações
nos dedos dos pés. Obra do acaso ou da irresponsabilidade, o mesmo
aconteceu com os alemães, só que estes não tiveram
tanta sorte.
O
céu se tornou escuro e além do cansaço e altitude,
tivemos que descer os corpos no escuro. Num ponto, perto do glaciar que
conduz ao acampamento-base, o homem que estava à minha frente,
escorregou para trás e esmagou o meu dedo com a piqueta que estava
presa à sua mochila. Aquilo espalhou sangue encima dos mortos e
complicou mais ainda a situação. Ninguém agüentava
mais. A todo momento, alguém deixava escapar palavras de raiva,
mas não havia o que fazer. Por rádio, pedimos ao posto central
de guardaparques a 2800 mt, para que mandem um helicóptero, mas
estes, sem preocupação alguma, nos davam a resposta negativa,
alegando que havia muito vento para voar a 4000 naquele dia. Segui na
frente, me revesando com um integrante do grupo de resgate. Eram 8:30
e já podíamos ver as lanternas do acampamento-base.
Por
volta das 9 da noite, entramos nos limites do acampamento-base exaustos.
Um dos guardaparques soltou a corda e simplesmente caiu de tão
cansado, ficou lá alguns instantes como se estivesse comemorando
a chegada. Haviam poucas pessoas para fora de suas barracas. Evidentemente,
todos sabiam o que estava acontecendo, mas não queriam abalar a
instável situação
psicológica vendo aqueles corpos. Por dias, aquele foi o comentário
dos acampamentos do Aconcágua. Guias de expedições
grandes, proibiram os integrantes de ficarem olhando os corpos e quase
todos tinham ido dormir mais cedo. Dos 4200 mt, ficaria mais fácil
para o helicóptero resgatar os corpos na manhã seguinte,
então fomos todos descansar.
Uma panela comunitária
de sopa de lentilhas com salsichas foi preparada pelos guias e guardaparques
que permaneceram no acampamento. Todos estavam famintos e ninguém
falou nada por alguns minutos, mas isso não era só por causa
da comida que estava boa, mas todos estavam imaginando pelo que tinham
acabado de passar. A primeira observação que o médico
do acampamento fez quando trouxemos os corpos, foi que estes estavam bastante
mutilados e com escoriações: "...A queda foi feia...",
disse ele, observando a situação lastimável dos corpos.
Cínicos, todos nós concordamos, mas obviamente que fomos
nós quem pioramos bastante a aparência dos cadáveres.
Depois da merecida janta,
chegara hora de dormir, pois no dia seguinte tínhamos uma longa
ascensão. Nem Pedro, nem eu, sabíamos o que pensar sobre
a situação que acabáramos de passar. Até que
a noite foi boa para um dia tão bizarro.
Antes
mesmo de amanhecer, já começamos a escutar o helicóptero
se aproximando para resgatar os cadáveres. Imaginava eu como eles
iam fazer para encaixar os corpos naquele pequeno helicóptero,
decidi ir lá fora para ver. Ao sair, reparei que tínhamos
deixado os corpos bem na frente da barraca de uma australiana que acampava
ali. Mal sabia ela o presente que ia encontrar na porta da barraca ao
acordar. Depois de pousar o helicóptero, o piloto decidiu empacotar
os cadáveres e amarrá-los do lado de fora com fitas. O braço
de um deles continuava esticado e tiveram que amarrá-lo com fita
adesiva à fuselagem. O
helicóptero foi embora, e com ele, metade do acampamento-base.
Achando que também iríamos embora por estarmos abalados
pelo ocorrido, todos nos perguntavam quando é que íamos
tentar novamente:
_"Hoje mesmo",
respondemos.
Ainda ficamos mais
8 dias na montanha...
Veja também:
Fotos
Aconcágua 2004
Leia também:
Relato
Aconcágua 2004
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