Piores Momentos - O Ataque ao cume do Huayna Potosi

Texto: Pedro Hauck

O Huayna Potosi é uma montanha de 6088 metros localizada muito próxima de La Paz na Bolívia. É uma das montanhas mais freqüentadas e escaladas naquele país justamente devido à sua proximidade com a capital e sua característica de montanha de rápida ascensão. Por isso, ela é muito explorada por agências de escalada.

Quando estivemos no Huayna Potosi, em Julho de 2002, enfrentamos uma entediante tempestade logo de início. Isso atrasou nossa progressão, para piorar, Maximo teve uma grande dificuldade em se aclimatar.

Quando o sol clareou e tivemos a chance de subir para o acampamento avançado fizemos o mais rápido possível. Maximo que ainda não se acostumara com as condição de altitude, pediu que subíssemos sem ele. Eu e Leo fomos os primeiros a chegar ao acampamento alto naquele dia. Além de nós, muitos outros escaladores também aproveitaram a janela do tempo para tentar o cume. Fábio Fontana chegou no acampamento horas mais tarde, estava muito abatido e cansado.

Nossa idéia era atacar o cume naquela madrugada mesmo, acordar às duas horas para preparar algo para comer, arrumar os equipamentos e partir às 3 horas para estar chegando ao cume por volta das 10 horas da manhã e retornar com segurança. Ainda queríamos ter tempo de descermos todo o caminho de volta para pegar uma van que estaria nos esperando na estrada às 17 horas.

Nos Andes é muito importante estar chegando ao cume pela manhã, mesmo tendo que encarar o frio da madrugada para isso. Normalmente quando chega às 12 horas o tempo muda bruscamente sem avisar e as tardes costumam ser instáveis, com ventos e muitas vezes tempestades, por isso acordar cedo não era uma opção, mas sim uma necessidade.

Porém, ao contrário do planejado nos atrasamos na saída, e só fomos definitivamente atacar o cume uma hora mais tarde. Quando acordamos, fazia muito frio e nevava um pouco mas não ventava, o que dava uma segurança psicológica.

Montamos uma cordada de três e eu fui guiando. Estávamos com pressa devido o atraso, mas logo no início Fábio Fontana tem um problema com sua cadeirinha e pára para ajustes. Reiniciando, Fábio Fontana não conseguia manter o ritmo que eu e Leo mantínhamos. A aproximação do acampamento horas antes lhe havia cansado, e mesmo diminuindo o ritmo ele parava várias vezes para descansar, esticando a corda e me puxando muitas vezes para baixo. Enquanto isso, nos aproximávamos da primeira parede e os primeiros raios de sol começavam a despontar no horizonte, num formidável espetáculo da natureza. 

A primeira parede estava muito insegura, a neve das tempestades dos dias anteriores estava ainda fofa e não conseguíamos fazer uma segurança satisfatória, de modo que acabei subindo os aproximados 60 metros verticais solando. Mesmo não sendo a opção mais segura, aquela parede não apresentava dificuldades técnicas. Uma vez no alto da crista bati uma estaca e montei uma segurança para que Fábio Fontana e Leo pudessem subir sem precisar se arriscar.

Eram 9 da manhã quando chegamos ao topo da parede, e ainda havia muito o que subir. Por sorte, não havia nenhuma nuvem no céu o que não nos desmotivou em subir, apesar do grande atraso. Retomando a cordada, novamente temos problemas com Fábio Fontana, que já não conseguia dar 3 passos sem parar para respirar e descansar. Eram 10 horas da manhã e já havia gente descendo do cume. Insisti que Fábio Fontana desistisse do cume e voltasse com um americano com quem havíamos tido uma conversa amistosa no dia anterior e que aceitara em levar ele já debilitado para o acampamento, mas Fábio se negou.

Neste momento, nos aproximávamos da parede final do cume. Eram 11 da manhã e em sua base estava reunida a última expedição que havia recém retornado do cume, que nos alertou do atraso e dos perigos que isso poderia acarretar. Novamente insisti que Fábio Fontana voltasse para o acampamento com este grupo, mas ele queria muito chegar no cume, da forma que me concentrei na parede e deixei ele para trás.

Nesta hora, o tempo já começara a mudar e dava um sinal violento de piora. O céu estava negro e uma neblina cobriu todo o topo do Huayna Potosi. Eu já não enxergava e ouvia ninguém, nem mesmo Leo que estava apenas alguns metros verticais de distância abaixo. As vertentes desta segunda parede estavam igualmente cobertas com neve, fofa demais para uma segurança. Solar naquela ocasião se tornou uma opção mais segura que buscar outra maneira de subir pois agora a segurança era a rapidez pois nosso inimigo era o tempo. Pendurado em uma parede com 200 metros de altura e sem corda, definitivamente não foi uma ação inteligente, mas o cume estava perto demais para desistir. Já a quase 40 minutos na parede, meus músculos cansados de horas de ascensão pareciam que não iam mais agüentar, era grande o desespero pela solidão em um momento tão inoportuno, mas a adrenalina corria pelo sangue.

De repente, uma pequena avalanche rolou sobre mim. De princípio tive a impressão que estava prestes a ser levado por algo maior que poderia estar por vir, porém do meio da neblina surgiu um vulto e aquele pequeno deslizamento não passava de um outro escalador atrasado descendo do cume, era um Italiano e descia a parede de esquis. Perguntei ao Italiano se faltava muito para o cume, realmente eu estava quase lá, ele tentou me convencer a descer, mas preferi seguir meus instintos e me arriscar um pouco mais e chegar dali a 10 minutos no cume.

Eu estava no meio de uma tempestade, sozinho e sem ter idéia de onde estaria meus amigos. Estava sem maquina fotográfica para documentar a conquista, porém a filmadora estava na minha mochila e pude me filmar lá em cima usando o tripé.

Fiquei apenas 5 minutos no cume e logo comecei a descer. Neste momento, já estava no meio de uma tempestade forte, não dava para enxergar mais que 5 metros, de tanto vento branco que havia. Inesperadamente, ouvi um barulho e conseguir distinguir no meio da névoa o anorak vermelho do Leo. Leo estava pendurado no meio da parede, ele havia chegado em um pequeno platô, o tempo estava tão ruim que ele não enxergou o cume à 15 metros verticais mais acima, de modo que ele pensava que havia chegado no cume. O crampon de Leo havia se soltado em uma queda, assim, ele apenas tinha dois apoios na parede, um pé e o piolet nas mãos, de forma que ficava difícil descer.

Estávamos desesperados, o tempo fechara completamente e temíamos congelar com o frio e o vento, mas ao mesmo tempo não conseguia encaixar o crampon de Leo e nem ele conseguia descer, até que em uma tentativa ele levou um queda cinematográfica, girando duas vezes o corpo antes de cravar o piolet a poucos metros de uma greta. O susto foi grande, mas pelo menos assim conseguimos descer a parede.

Mesmo em terreno horizontal, nossos problemas ainda não estavam solucionados. Para voltar o resto do caminho teríamos que atravessar um campo de gretas, o que seria muito perigoso sem conseguir enxergar nada. Além das gretas, também poderíamos ir parar em outro lugar e nos perder, assim como cair em um precipício. Também não podíamos esperar a tempestade passar, ficar parado ali sob aquelas condição poderíamos congelar, e nenhum sinal do Fábio Fontana.

Estávamos até rezando quando por um segundo o vento carregou consigo uma névoa e eu pude enxergar um pouco da neve pisoteada, mesmo durando apenas um segundo, pude pelo menos ter uma noção de onde ficava a rota, assim, conseguimos encontrar o caminho e seguí-lo, até um lugar mais seguro.

Enquanto isso, todos no acampamento-base estavam desesperados, pois já faziam 10 horas que havíamos saído de lá, e só o Fábio, que descera com o Italiano, havia voltado. Fábio trouxera com ele, o rádio portátil, de modo que nós não tínhamos nenhuma forma de nos comunicar com o acampamento-base. Havia muita névoa e vento branco, e só conseguia visualizar o caminho quando estava pisando em cima dele. A rota estava coberta com a neve recém caída e arrastada pelo vento, a diferença da rota antes pisada com o terreno virgem era que a primeira apresentava uma pequena ondulação, e assim conseguíamos continuar, era difícil, mas conseguimos.

Por sorte descemos sem nenhum arranhão e não foi necessário um resgate. Viramos notícia na montanha e depois deste susto aprendi muito sobre o que não deve se fazer numa escalada.

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