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Todo mundo sempre pergunta: "...Como é que vocês conseguem?..." Texto: Maximo Kausch É muito difícil dizer o que é que fazemos antes de ir às montanhas que nos faz resistir a tantos contratempos e ainda voltar com vontade de escalar mais ainda.
Todos sempre mencionam a palavra treinamento imaginando que vamos treinar numa academia ou escalamos montanhas pequenas no resto do ano pra manter a forma. De fato, é o que fazemos, mas não é isso o que determina o treinamento. Desde o começo, sempre omitimos para todo mundo a respeito do treinamento. Fazemos tudo o contrário que os atletas normais fazem. Nos dias que antecedem as expedições geralmente damos um churrasco com a galera para engordar. Chegamos a ir barrigudos mesmo para a montanha, com o objetivo de perder o peso depois. Acho que o fator que mais pesa em expedições à alta montanha, é o psicológico. Estar bem com você mesmo lá encima, é o que vai ser decisivo no final. Afinal de contas, não é nada fácil passar por tantas adversidades por tanto tempo e ainda estar preparado, para no final, alcançar o cume. Tempestades de vários dias que te internam na barraca normalmente fazem tudo virar de pernas para o alto e onde boa parte das expedições toma a decisão de desistir. O estado físico, vamos dizer, abrange um 30% e o resto vai depender do seu estado psicológico. Não vamos esquecer que as chances de sucesso na montanha, vão diminuir drásticamente se o tempo estiver ruim, às vezes, não há o que fazer. Já vi marmanjo musculoso desistindo por não estar preparado em lidar com tantas desgraças. Voltando à terra firme, há sim, algumas coisas que você pode fazer para se preparar:
- Acostume ao frio: Banhos de
água fria, andar de camiseta no inverno, são coisas que
fazem você sentir a diferença, principalmente na hora de
dormir em lugares que faz frio negativo 24 Hs/dia. Ser escalador de alta montanha é algo muito complexo. O próprio termo "escalada" é um algo muito abrangente. Imagine que para essa palavra, existem pelo menos, 9 esportes ou modalidades: Bouldering: Escalada em pequenos (ou não tão pequenos assim) blocos de rocha onde o escalador usa somente as mãos untadas com pó de magnésio, e sapatilhas de escalada no pé (o queixo também, às vezes). Esta modalidade atinge os mais elevados graus técnicos e o escalador geralmente "mata o lance" em poucos movimentos. Ao cair, é sempre bom que o escalador esteja acompanhado por mais alguém para que esse alguém freie a queda e evite que o escalador bata a cabeça ou outra parte vital, mas isso geralmente acaba dando besteira. É uma atividade geralmente barata, mas tem o porém de causar uma síndrome na qual o escalador enxerga igrejas, faixadas e colunas como boulders. Escalada Esportiva: Escalada totalmente segura onde o escalador dispõe (além do equipamento que usa no bouldering) de uma corda, cadeirinha e mais toda a parafernália que é usada para guiar uma via e que não vem ao caso. A escalada é realizada em paredes que não excedem 30 metros, mas há alguns que abusam desta última característica. Geralmente o escalador é protegido pela corda que vem de cima e se ele cair, vai ficar pendurado no lugar que caiu. Neste tipo de escalada é normal encontrar chapeletas, bolts ou outros tipos de grampos que já foram presos por alguém na parede. A escalada de paredes artificiais ou escalada indoor pode ser associada à esta modalidade, pois a técnica é quase a mesma. A esportiva é a modalidade mais popular no Brasil. Escalada Livre ou Clássica: Nesta modalidade o escalador é quem coloca o equipamento na rocha e se sustenta nele em caso de queda. Geralmente, os graus de dificuldade não são tão extremos como no bouldering e escalada esportiva, mas o fator psicológico pesa muito mais. As rotas são geralmente mais longas e se precisa muito mais experiência e equipamentos que nas duas modalidades acima. Escalada Artificial: Pode se dizer que esta modalidade é também a clássica. Neste caso, o equipamento é usado para sustentar o peso do próprio escalador, ou seja, o equipamento não é usado mais somente em caso de queda. O escalador acaba ganhando altura segurando no equipamento, o que não seria permitido de forma alguma na escalada esportiva. Problemas técnicos impossíveis ou mesmo muito difíceis para serem conquistados em livre são conquistados em artificial. Escalada em Gelo: O equipamento é totalmente diferente aos demais. Neste caso, são usadas botas rígidas com crampons nas solas e piquetas específicas para gelo. Parafusos são usados como proteções e as técnicas variam de acordo com as condições e inclinação do gelo. Escalada em cachoeiras congeladas também poderia ser considerada outra modalidade, pois existem escaladores que só ascendem neste tipo de "terreno". Escalada Mixta: Decidi mencionar este tipo de escalada depois de observar pessoas escalando paredes de rocha, com algumas manchas de gelo, usando apenas equipamento de gelo. O escalador acaba se contorcendo muito para progredir e as proteções são geralmente muito pobres nos graus mais elevados. Escaladas mixtas são tidas como as mais perigosas de todas devido ao terreno, que é instável na maioria das vezes. Big Wall: Imagine uma escalada livre de várias jornadas onde o escalador acaba tendo que dormir na pedra. Um tipo de "barraca colgante" chamado de porta ledges são usados nesta modalidade. Os níveis técnicos variam de fáceis a extremos, mas temos que imaginar todo o processo de içar o equipamento parede acima e ha quantos dias o escalador dorme e acorda pendurado. Escalada em Alta Montanha: É a mistura de todas as modalidades acima. É claro que você jamais vai achar uma chapeleta fixada em uma montanha de 6000 metros, ou usar uma camiseta e um shorts para escalar, mas talvez você atinja altos graus técnicos em rocha, só que nas grandes altitudes. Considero esta modalidade uma das mais exigentes. O escalador é submetido à intempérie da alta montanha, tem que lidar com doenças de altitude, vestir roupas pesadas, carregar muito peso, dor de barriga, saudade da mamãe e tudo mais. Estas escaladas chegam a demorar meses e acaba se tornando meio que normal ao que escalador que outros escaladores ao seu redor morram. A escalada passa a depender não só da técnica do escalador, mas também das condições em que a montanha se apresenta. Alguns podem imaginar que esta seja a mais desumana de todas, mas ainda têm uma pior! Escalada em Alta Montanha em ESTILO ALPINO LIVRE: Não há mais o que inventar! Já não basta escalar paredes de 3 km de desnível, com neve, trechos mixtos, frio de 40 baixo zero e tudo mais... é preciso inovar. Este estilo começou no final da década de 70 e a ética no montanhismo acabou entrando em jogo. O escalador não recebe mais ajuda de animais para carregar o peso, nem de carregadores, nem oxigênio suplementar e nem mesmo de cordas!! Isso mesmo, alguns consideram o uso da corda uma frescura e a descartam. É muito difícil que um escalador praticante desta modalidade chegue à velhice, no entanto, há excessões (que na verdade podem se contar nos dedos). Ainda pior que isso é quando alguém realiza Escalada em Alta Montanha em Estilo Alpino Livre SOLO. Já não basta escalar montanhas sem cordas, sem oxigênio ou ajuda de carregadores, há de subi-las sozinho! Porque ir acompanhado é frescura! Rappel: Cabe aqui uma explicação para esta atividade mesquinha que alguns consideram como esporte, mas é na verdade apenas PARTE da escalada técnica. Muitos acham que é interessante descer paredes por uma corda, usando um freio e depois subir de novo por uma trilha, para repetir a façanha. Para piorar, muitos descem estilizados, com calças rajadas e rádios de comunicação. Geralmente, os chamados "rapeleiros", são cegos à ética que existe entre escaladores. É normal que você esteja guiando uma escalada numa parede e receba um bolo de corda na cabeça porque alguém achou interessante descer aquela parede com uma corda, mas esqueceu de pelo menos gritar: "..CORDA!!..". Deixo aqui o meu parabéns aos que não praticam esta atividade!
Não acho possível que algum tipo de treinamento físico seja decisivo para o sucesso em alta montanha. É claro que correr ou andar de bicicleta nunca acaba sendo demais. Mas imagine que só pelo fato do seu corpo estar na altitude, você já vai estar gastando pelo menos o triplo de calorias do normal. Imagine que para dormir 2 horas a 6000 metros, você gasta a mesma quantidade de calorias que você gasta para correr uma maratona ao nível do mar. Imagine que acima de 6000 (em média) o seu corpo sintetiza menos de 1/4 de proteínas e enzimas do que você sintetiza ao nível do mar. Chamam essa altitude (entre 5500 e 8900 metros) de zona da morte exatamente por isso. O corpo já não se acostuma mais quando você passa dessa faixa e só tende a se auto-consumir. Cada vez que vamos à montanha, perdemos pelo menos 8 kg cada um. Já cheguei a perder 10kg em uma só viagem. Cheguei à conclusão que o melhor treinamento mesmo, é se empanturrar de comida antes de ir à alta montanha. Leia também:
O
que comer nas Montanhas?
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