Tecnologia nos tecidos

Texto: Maximo Kausch

Coragem nunca faltou aos primeiros escaladores de alta montanha, no entanto, os equipamentos totalmente inadequados do começo do século XX foram uma grande barreira para a conquista de lugares inacessíveis. Roupas de lã e algodão foram por muito tempo as únicas proteções utilizadas pelos primeiros alpinistas. Estas roupas também foram a causa da morte de vários deles, por hipotermia e congelamentos.

Tecidos impermeáveis como nylon se apresentaram como solução para os problemas que os montanhistas tinham com o acúmulo de neve no corpo, porém foi muito depois do nylon que se concluiu que a saída não é isolar o corpo humano do ambiente, mas deixá-lo interagir.

As pesquisas começaram na década de 30, mas foi somente em 1978 que uma empresa chamada Gore lançou uma membrana à prova de umidade externa, mas que também permite ao corpo respirar. O recém nascido Goretex® foi um grande passo na evolução dos tecidos para climas extremos. Seu biocomponente consiste em dois materiais únicos: um repelente aquático e outro repelente à óleos. O primeiro é puramente Poli Tetra Fluoro Etileno (PTFE) expandido. PTFE tem várias propriedades interessantes que são perfeitas para o montanhismo: tem resistência química, não é alterado por fricção, é um isolante térmico, além da repelência à água. No entanto, as primeiras roupas feitas com PTFE expandido acabaram perdendo suas propriedades ao entrar em contato com óleos presentes na pele humana. Para evitar o problema, poliuretano foi adicionado na superfície da membrana que fica em contato com o corpo.

Com resistência a óleos, a membrana deixa vapor d'água passar, mas passa a ser uma barreira física a óleos, cosméticos, etc, que podem alterar a performance da membrana como um todo. Cada centímetro quadrado de Goretex® contém 3,6 milhões de microporos. Cada um é 20 mil vezes menor que uma gotícula de água e 700 vezes maior que uma molécula de vapor. Isso permite que a membrana tenha incrível capacidade de repelência à água, mas permita o vapor de transpiração escapar.

Mas como é na prática?

As jaquetas e calças de hoje em dia são na verdade um conjunto de sistemas complexos que funcionam cooperativamente na difícil tarefa de manter o corpo humano seco sob condições adversas.

O Goretex® é aquela camada de tecido branco que pode ser vista entre as demais camada de tecido de sua jaqueta, calça, luva, etc. As costuras devem ser fortalecidas para que a membrana não perca força e também para que água ou vapor não escapem de seu controle. Para que esta funcione com eficiência, é necessário que ela seja protegida por uma camada exterior, cuja função é manter as camadas interiores longe da ação de chuva, vento, neve, ou qualquer outra coisa que a mãe natureza decidir inventar. Além disso, a camada exterior é a que sofre os maiores abusos em relação a desgastes. Nós escaladores sabemos bem disso. Nylon com Rip-stop® (feito com costuras quadriculadas) evita com que rasgos no tecido exterior tome proporções maiores.

Escolhendo o seu tecido

Na maioria das vezes, a maioria dos consumidores são inocentemente induzidos à comprar tecidos famosos como o Goretex®. Porém, primeiramente devemos analisar qual é a nossa atividade e não a marca da roupa. Por exemplo, não é viável você comprar uma jaqueta Arc'teryx de Goretex, que custa 700 dólares, se você vai escalar rochas no Brasil e precisa se proteger da chuva.

Enquanto Goretex® e produtos similares tem a incrível capacidade de manter água e chuva fora do corpo e ainda permitir que a pele respire e transpire, esqueça da idéia de que você está dentro de uma cúpula à prova d'água. Há 3 fatores importantes que devemos ter em mente ao escolher um tecido: resistência ao vento, resistência à água e respiração no tecido. Quanto maior a resistência à água e ao vento, menor será a capacidade de respiração do tecido e vice-versa. Nós montanhistas, procuramos a harmonia entre os 3 fatores. Nossas roupas devem poder se adaptar à grande variedade de climas que enfrentaremos no caminho ao cume: aproximações poeirentas, com vento; caminhadas longas onde transpiramos, mas sentimos frio nas paradas de descanso; ataques noturnos sob dezenas de graus abaixo de zero; tempestades de neve; escaladas verticais em rocha abrasiva... e isso usando a mesma roupa em todas essas situações.

Dependendo da atividade, podemos escolher entre tecidos:

Que tem grande resistência ao vento, ótima respirabilidade, mas pouca resistência à água: Tecidos como Super Microft®, Activent® e outros têm a vantagem de ser muito leves. Por isso, são indicados para corrida ou outras atividades altamente energéticas em montanha, que fazem com que o corpo transpire muito.

Que são absolutamente à prova d'água, 100% à prova de vento, mas não respiram: São roupas especializadas para as atividades que tem constante contato com água. Vários tipos de nylon de grande durabilidade geralmente são utilizados neste tipo de roupas. Bolsos, colar e braços são totalmente protegidos por partes feitas de látex ou neoprene. Se você é pescador de caranguejos no Alaska, ou se gosta de escalar na Inglaterra durante o inverno, esta é a sua melhor opção!

Que são o meio termo entre resistência ao vento, à água e respirabilidade: É neste tipo que nós escaladores estamos interessados! Goretex®, Ultrex®, H2No® e outros se caracterizam nesta categoria que tem grande aceitação em qualquer tipo de terreno. Dois diferentes ramos de roupas se subdividem desta categorias:

De 2 camadas: Na verdade, são 3 camadas de tecido, mas 1 delas (a membrana) está aderida à camada externa. Roupas de "2 camadas" foram as primeiras a aparecer. A idéia é que a camada interna fique isolada às demais para que os óleos corporais não atrapalhem com o funcionamento da membrana e também para que o ar existente entre as camadas cumpra a função de isolante térmico. Estas roupas geralmente são mais maleáveis que as de "3 camadas", porém são mais pesadas, menos resistentes e respiram menos.

De 3 camadas: Estas sim são 3 camadas juntas que têm uma performance excepcional. Em teoria, a inexistência de espaços de ar entre as camadas faz com que o vapor se condense na parte de fora da roupa. Além de economizar peso e espaço, esta é a melhor forma de aproveitamento para membranas como Goretex®.

Além do tipo de tecido, deveríamos ter em mente que tipos de acessórios precisamos para nossas roupas. Por exemplo, para escaladores é uma mão na roda ter bolsos altos nas jaquetas já que a cadeirinha acaba tampando o acesso à bolsos baixos. Calças com zípers laterais são vantajosas para que usa botas plásticas, pois além do acesso mais rápido às botas, podemos abrir a lateral da calça no caso de descidas (ou subidas) quentes demais.

O Polartec®

Escalada em gelo com blusa de Polartec®

Este interessante isolante térmico, é altamente transpirável (até 30% a mais que o Goretex®). É um dos poucos tecidos transpiráveis que são confortáveis em contato com a pele. Por capilaridade, o Polartec® consegue transportar qualquer líquido (não somente vapor) à superfície externa do tecido e evaporá-lo. Líquidos evaporam 2 vezes mais rápido na superfície deste tecido do que na superfície de um tecido comum. Além de tudo isso, o Polartec® tem grande resistência ao vento. A grande desvantagem dele, é em relação à prova d'água, que é quase ausente.

O Sistema de vestimenta ideal

A camada base - é a que fica em contato com o corpo. Até a camiseta que você usa deveria fazer parte do sistema. Não adianta nada você estar usando uma jaqueta com membrana de Goretex® e vestir uma camiseta de algodão por baixo. Primeiramente, esta deve transportar a transpiração e o vapor presente na pele, para fora de contato de corpo. Uma boa vestimenta técnica que fica em contato com o corpo, vai – além da primeira função – adicionar isolamento térmico ao seu corpo, especialmente as de mangas e pescoço longo. Para esta primeira camada esqueça do algodão e tecidos que retenham água.

A camada externa - por cima da camada base, você pode usar um isolante que não retenha transpiração, como o Polartec®, ou uma jaqueta com membrana transpirável como as mencionadas acima. Mas não pode usar as duas juntas. Se a parte externa do material isolante não estiver em contato com o frio externo, acabará fazendo com que a transpiração se condense antes de atingir a membrana transpirável da jaqueta externa, e em conseqüência, vai acumular água.

O que podemos concluir?

Depois de toda a informação lida aqui, concluímos que as vestimentas técnicas são essenciais na montanha e se você não ter uma, corre sério risco de vida. Porém, a vida real não é bem assim.

Não podemos esquecer dos pioneiros que escalavam montanhas com algo que nem podemos chamar de roupas hoje em dia. Algodão e lã, eram a base de tudo. Assim como na foto do lado, numa escalada ao Matterhorn pela arista Lion em 1910, podemos observar que ambos escaladores usam sapatos de couro, chapéu e paletó. Uma grossa corda com um visível nó cego é usada na escalada.

Tenha em mente que para que você esteja quentinho e sequinho na montanha, não deveria se refugiar somente na sua roupa, mas no seu conhecimento. Nunca é demais saber como se virar usando as velhas técnicas que os rapazes da foto estão usando, pois nunca se sabe o que pode acontecer durante os imprevistos.

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