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Texto: Maximo Kausch O fator psicológico na escalada de Montanhas
Após ter ido mais que uma vez às montanhas, posso dizer que um pequeno detalhe, no qual normalmente desconsideramos, é decisivo nas nossas chances de chegar aos cumes: o fator psicológico. Quando falamos sobre preparo para escalar grandes montanhas, sempre mencionamos os fatores físicos ou mesmo a parte da aclimatação, mas esquecemos deste fator, que é o mais importante (muito mais do que pensamos). É impossível equacionar exatamente o quanto o psicológico vai influenciar nas chances de sucesso, mas funciona mais ou menos assim: Fatores decisivos nas chances de chegar ao cume de uma montanha
Com a adição de altitude numa escalada, as coisas ficam diferentes. Dores, cansaço, desidratação e outras coisas que não estamos acostumados, entram na equação. Lidar com estes, faz o psicológico valer muito mais que o físico. Obviamente, os novos elementos na equação vão influir na forma que o seu corpo responde, mudando portanto, a sua auto-confiança. Particularmente, odeio livros de auto-ajuda, pois nenhum destes se aplica em montanhas. Entretanto, o conselho que posso dar é que a auto-confiança é a chave para um bom estado psicológico e finalmente, o sucesso numa expedição. O único remédio contra a falta de confiança é conhecer os próprios limites, o que portanto é definido pela sua experiência prévia em montanhas. Quanto maior a sua experiência, melhor você lidará com contratempos e melhores serão as suas chances de sucesso. Geralmente, quando planejamos uma escalada, tomamos as decisões sobre posição de acampamentos, dias de ataque ao cume e tempo de estadia na montanha, etc, enquanto ainda estamos em altitudes baixas e não temos idéia de como o nosso estado psicológico vai estar no momento que as coisas irão realmente acontecer... Todos nós subestimamos montanha, e sobre-estimamos nós mesmos, seja a montanha tecnicamente fácil ou não. Sempre tenha em conta que você simplesmente pode não se sentir com vontade de seguir o planejado. Um exemplo clássico disso, é quando planejamos várias escaladas numa mesma expedição. Após a primeira delas, geralmente estamos tão exaustos que nem queremos ouvir falar em montanhas. Eu sempre acabo planejando muito mais do que realmente consigo escalar. A dica é esperar. Um longo descanso de algumas jornadas, geralmente é suficiente para trazer aquela vontade de escalar de volta. Poucos conseguem expressar palavras para essa "vontade". Somente os que já estiveram numa montanha, conseguem descrever esse pensamento. Mas o que será que nos move? Por quê escalar? - Psicologia do escalador A psicologia do escalador é algo muito simples. Na minha opinião ela se resume num sentimento que todos temos desde que somos crianças, mas que na escalada é decisivo: "Quanto mais alto você sobe, mais longe você enxerga! ". Por quê vocês escalam? - Psicologia do leigo
"Você
leva uma bandeira para fincar lá encima?"
"Onde
vocês levam tanta água?" "E
vocês levam barracas?" "E
quando vai escalar o Everest?" "Faz
muito frio lá encima?" "Como
vocês fazem para ir ao banheiro?" Existe mais que um caminho ao cume
Escaladas por rotas diferentes das convencionais, ou expedições que escalam no chamado Estilo Alpino, forçam ainda mais os limites do psicológico. O Estilo Alpino, consiste em escalar uma montanha sem qualquer tipo de ajuda e num puxão só. A rota não é previamente escalada e cargas não são previamente depositadas nos acampamentos. Em outras palavras, Estilo Alpino é a essência da escalada; é escalar uma montanha da base ao cume só descendo uma vez. Obviamente, a carga psicológica numa expedição dessas é muito maior que uma convencional. Neste caso não há segundas opiniões e o escalador deve ter experiência prévia em lidar com tais situações. Ao saber o que vamos enfrentar através de dicas que nos foram passadas faz com que tenhamos "controle" sobre o que iremos enfrentar, o que torna a escalada muito mais fácil. Os traumas com a comida
É comum que você ganhe repugnância a certos tipos de comida ao se alimentar na montanha. Após algumas expedições comendo a mesma coisa, acabamos nem conseguindo olhar para estes tipos de comida nos quais adquirimos repugnância. Acho que isto se deve às lembranças de mau estar que estes alimentos nos trazem. Mais uma vez, a idéia é se aclimatar melhor para não se sentir mal e não adquirir traumas e não deixar o seu psicológico trabalhar. Além disso, é importante diversificar a sua dieta na montanha. Lembro de uma ocasião em que eu achava que podia viver de pacotes de liofilizados, do mesmo sabor. De fato, sobrevivi, mas hoje em dia não consigo nem chegar perto daquele pacote laranja da Drytech sabor frango com curry, ARGH! Ainda tenho eles e sei que mais cedo ou mais tarde vou ter que enfrentar o meu trauma de frango com curry... Leia mais sobre liofilizados e outros tipos de comida para montanha As Responsabilidades Já são suficientes as responsabilidades que se tem na montanha propriamente dita. No entanto, se você trouxer certas responsabilidades de fora da montanha, elas somente vão lhe trazer inquietude. Escalar uma montanha sem contar alguns dias extras como margem de erro, devido à compromissos, é um exemplo destas inquietudes. Um simples dia de mau tempo pode acabar com os seus planos e você pode ter que ficar muito mais do que planejou na montanha. A pressa para se emparelhar com o planejamento, pode tornar a sua expedição um inferno! Confie em mim, a última coisa que você quer é ter pressa ao se aclimatar numa montanha! Outro exemplo muito comum, é a necessidade de chegar ao cume que alguns tem, devido à pressão da mídia ou patrocinadores. O comprometimento com o sucesso acaba com muitas vidas. Pessoas acabam fazendo coisas que não querem fazer, mas tem que fazer. Se a sua idéia é ficar famoso, mude de esporte, o futebol é uma boa opção... Como já me falaram mais que uma vez, sempre tenha em mente que: "...o cume é somente um bônus e estar ali é um presente...". Responsabilidades como as citadas são muito desfavoráveis para o seu estado psicológico. Como eu já disse, já são suficientes as responsabilidades que você tem na montanha propriamente dita. É claro, este é apenas o meu ponto de vista. Muitos escaladores ainda insistem em escalam pela fama e prestígio. Leia também: Aclimatação de verdade
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