Protegendo a sua visão na montanha

Texto: Maximo Kausch

Uma das primeiras coisas que lembro quando escalei uma montanha gelada, foi o reflexo da neve que quase me deixou cego. Lembro que eu não tinha dinheiro para comprar óculos de sol de verdade e peguei emprestado do meu pai um daqueles usados para soldar. Não era a coisa mais prática e estética do mundo, mas salvou minha retina e hoje em dia ainda enxergo bem.

É incrível como um simples acessório desses, pode acabar com a sua expedição se quebrar ou for de qualidade ruim. Veja alguns conselhos que irão ajudar a proteger a sua vista na montanha.

Pessoas com problemas na vista

Há várias opções para aqueles que usam lentes de grau e querem ir à montanha. Se você tem uma fortuna para gastar, peça lentes com proteção UV, feitas sob medida para você. Agora, se você não tiver uma fortuna, compre uma viseira de ski de 30 dólares, que tenha um buraco nas extremidades para usá-la com óculos de grau.

Óculos de grau

Não há problema algum em levar óculos de grau nas altitudes. No entanto, ouvi rumores de que alguns materiais acrílicos não agüentam a expansão/contração devido à variação térmica nas montanhas e acabam rachando. Sempre tenha um óculos reserva na mochila, pois você não vai estar assistindo uma peça de teatro bebendo chocolate quente, você vai estar escalando uma montanha e qualquer coisa pode acontecer.

Lentes de contato

Já com as lentes de contato, devemos tomar cuidado pois o ar nas montanhas é muito mais seco que qualquer outro ambiente. Disponha de alguma forma de hidratar os seus olhos e faça-o pelo menos 4 ou 5 vezes ao dia. Além da baixa umidade do ar, devemos tomar cuidado com a poeira excessiva. É comum passarmos por tempestades de poeira e ter a cara jateada por areia durante as aproximações e escaladas. Uma viseira cobrindo os olhos sempre que possível, é uma boa opção.

De forma geral, escaladores não deveriam usar lentes de contato por períodos prolongados (como uma noite de sono). Mesmo as lentes mais finas, vão limitar a quantidade de oxigênio disponível na córnea. Pior ainda, eu não recomendaria a ninguém guardar lentes de contato dentro de um pote com uma solução líquida e descobrir que elas estão congeladas de manhã. Lentes de contato são um desafio a mais para os que escalam. Em outras palavras, sinto muito! Volte a usar óculos...

Pessoas com operações corretivas na vista

Graças ao sensacionalismo de Jon Krakauer, em seu livro No Ar Rarefeito, uma dúvida surgiu entre montanhistas: "Quem já passou por cirurgia corretiva na vista, pode ou não pode escalar em altitudes?". Krakauer descreve um triste acontecimento com Beck Weathers, que havia passado por uma cirurgia na vista, e quase morreu por causa de uma falha em sua visão. Infelizmente, o sensacionalismo de Krakauer acabou dando certo, e o livro foi um sucesso de vendas. Eu mesmo li o livro alguns anos atrás e inocentemente ficava imaginando como seria escalar naquelas montanhas em que todo mundo morre ou fica cego. Anos depois descobri que não era bem por aí. Weathers passou por um procedimento cirúrgico chamado Queratomia Radial, onde pequenos cortes são feitos na córnea. Pequenas cicatrizes permanecem na córnea do paciente, que mais tarde pode ter complicações devido à baixa pressão atmosférica das grandes altitudes. Hoje em dia, operações são feitas com raios Laser. LASIK e P.R.K. são os principais métodos de correção de miopia e as chances de complicações nas altitudes são as mesmas de pessoas que não passaram pela cirurgia.

As Opções

Centenas são os óculos e viseiras que você pode escolher. Os requisitos são:

1 - A proteção UV

Prefira os de 99-100% absorção UV. Lembre-se que em grandes altitudes, a incidência de raios ultra violetas é muito maior do que altitudes normais, isto deve-se ao fato da atmosfera lá em cima ser muito mais fina, conseqüentemente, o filtro de luz solar é menor. Além disso, neve e gelo refletem raios solares, aumentando ainda mais a incidência na pele e nos olhos.

Uma sobre-exposição dos olhos à raios UV, pode danificar a sua córnea, e em conseqüência, há maior risco do desenvolvimento de uma catarata. Além dela, outra grande ameaçada na altitude é a retina. A maioria dos tipos de danos na retina, é irreversível.

É muito comum encontrar montanhistas que conheçam alguém que já teve cegueira temporária em montanhas. É imprescindível ter alguma forma de proteção UV nas montanhas. Sejam óculos, viseiras de ski, ou pelo menos óculos feitos de ossos, como os esquimós faziam.

2 - Área de proteção

A vista deve ser protegida por inteiro, incluindo a parte entre os olhos e as laterais. Alguns óculos tem acessórios laterais, outros se moldam no rosto e viseiras tampam as laterais.

3 - Durabilidade

Perdi a conta das vezes que enrolei a minha barraca com óculos esquecidos dentro dela. Também foram muitas as vezes que esqueci os óculos no bolso da minha calça e rolei várias vezes encima deles ao dormir... Prefira os óculos feitos de materias resistentes e flexíveis como o policarbonato. Viseiras são quase todas flexíveis.

Óculos para montanha

Estes óculos se diversificam dos demais pela sua construção, materiais e as proteções adicionais que cobrem as áreas ao redor dos olhos que não são cobertas pelos óculos propriamente ditos. Por conta do custo dos materiais usados, estes óculos são muito mais caros que os comuns.

Ainda existem aqueles que se fundem ao rosto e não necessitam proteções adicionais para cobri-lo. Muitos óculos de praia são usados em montanhas hoje em dia. Não há problema com estes, desde que possuam proteção UV.

Viseiras de Ski

As viseiras de ski são uma opção para escaladores de gelo. Desfrutamos das viseiras por que estas sempre estão presas à cabeça e também pela extra proteção que elas oferecem ante pedaços de gelo que caem constantemente no rosto.
Viseira com holograma

Também é uma "mão na roda" para os que vão para montanhas muito frias. As viseiras criam um "microclima" frente aos olhos devido à forma que elas são construídas. Os olhos sempre estarão protegidos durante tempestades de neve, o que não acontece com óculos.

Muitas viseiras oferecem lentes de policarbonato duplas e sistemas de ventilação para evitar condensação de vapor dentro delas, tornando-as a melhor opção para escaladas em lugares gelados.

Viseiras são muito mais baratas que óculos para montanhas, no geral 1/3 ou 1/4 do preço. Acho que o único problema que tive com viseiras foi durante aproximações, que as vezes se tornam muito quentes.

Problemas com a vista em montanhas

Derrames retinais

É comum que pequenos capilares no interior do globo ocular simplesmente se rompam durante permanência em altitudes elevadas. Quase todos os escaladores passam por este processo. Em alguns, os derrames se manifestam mais, em outros menos. Alguns derrames podem se manifestar mais e ser visíveis no globo ocular. O processo é indolor e pode resultar na obstrução temporária em áreas da visão. Os derrames serão absorvidos pelo corpo, mesmo durante a sua estadia em altitudes. O problema é chamado Retinopatia de Altitude.

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Cegueira por excesso de luminosidade e tratamento

Exposição exagerada à raios ultra-violetas pode resultar na queima da superfície da córnea, conseqüentemente, cegueira temporária. A intensidade da luz ultra-violeta aumenta cerca de 18% a cada 1000 metros adicionados na altitude. Além disso, a neve contribui bastante no processo por causa de suas propriedades reflexivas (reflete cerca de 85% da luz UV). Num lindo dia de sol numa montanha nevada, a intensidade da luz aumenta entre 10 e 15 vezes!! Se não protegida, uma córnea normal pode ser queimada em apenas 1 hora exposta em condições normais em uma montanha nevada de altitude média. O problema é que, dependendo da condição, os sintomas somente vão aparecer de 6 a 12 horas depois.

Em montanhas extremamente frias, geralmente tampamos a região da boca de alguma forma, seja com uma máscara ou a própria jaqueta. De uma forma ou de outra, a respiração sempre acaba condensando na viseira e isso sempre nos faz querer tirá-la, especialmente na descida. Resista à tentação!

Os sintomas da queima da córnea são similares aos que temos quando riscamos os olhos com areia, etc: olhos lacrimejando, dor, vermelhidão, inchaço, dor ao olhar a qualquer foco de luz, perda na qualidade da visão e perda total da visão, dependendo da gravidade.

Trate os olhos da vítima com qualquer antibiótico de uso oftamológico. Remova qualquer traço de poeira. Feche os olhos da vítima e mantenha-os tampados. Geralmente o corpo demora de 24 a 48 horas em regenerar a superfície queimada da córnea. Inspecione a cada 24 horas. Se o globo ocular parecer infeccionado, mantenha-o destampado e aplique o antibiótico pelo menos 4 vezes ao dia. Procure um oftamologista depois da expedição, mesmo que a vítima esteja enxergando bem.

Após a recuperação da visão, nem pense em expôr a vítima novamente ao excesso de luminosidade. A recuperação total geralmente demora 4 dias.

Fique de olho!

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