Como enfrentar a altitude com seu carro

Texto: Pedro Hauck

Aqui no Gente de Montanha já demos a dica sobre a documentação necessária para você ir com seu próprio carro para a Argentina e Chile, países onde é necessário uma certa burocracia onde se você não estiver preparado poderá perder a viagem e ter uma desagradável dor de cabeça.

Agora neste artigo iremos dar dicas sobre os cuidados necessários para não ficar à pé se seu destino nestes países forem os Andes. Na Cordilheira iremos nos deparar com situações que no Brasil nunca ocorrerão, como altitude e frio extremo. Se não estivermos bem informados e não realizarmos os cuidados preventivos corretos, poderemos avariar seriamente nosso veículo e ao invés de você passar suas férias tão almejadas na montanha, vai acabar passando dentro de uma oficina imunda de veículos, sem falar que estar com o carro quebrado em um ambiente inóspito como uma montanha no meio do nada não é nada legal...

Altitude

No geral são poucos os lugares nos Andes onde você poderá chegar de carro em altitudes elevadas que farão diferença na maneira do seu carro funcionar, mas estes lugares existem.

No norte da Argentina e Chile existem os passos fronteiriços mais altos dos Andes, na região conhecida por Puna do Atacama. Os passos mais elevados da puna” são os passos de Sica, San Francisco e Jama, sendo o último completamente asfaltado, o que não ocorre nos outros que são mais "selvagens".

Nestes passos que tem entre 4000 a 4726 metros, a rarefação do ar irá ocasionar uma alteração na maneira que ocorre a queima do combustível de seu carro. Isto ocorre por que o oxigênio lá deficiente é necessário para que exista combustão. Como resultado o carro perde potência e o motor esquenta mais que o normal.

Quando estive no Incahuasi em 2006 com meu carro, senti a diferença que a altitude faz, pois eu tinha que acelerar mais para conseguir ter uma velocidade desejada. Aqui no nível do mar geralmente quando dirigimos à 100km/h na quinta marcha, o motor trabalha à 3000 RPM, próximo aos 5000 metros de altitude, para ter a mesma velocidade meu carro trabalhava a 4000 RPM, um aumento considerável.

Os chilenos e argentinos que estão mais acostumados com este ambiente me sugeriram tirar o filtro de ar do carro, para que entre mais oxigênio na combustão do motor. Não sei qual é o embasamento científico para esta prática, mas ela é amplamente adotada, entretanto tenha cuidado em adotar esta medida em estrada de terra, pois o filtro de ar não existe à toa, de qualquer forma fica aqui uma sugestão de teste, só não me mandem a conta do mecânico se esta dica tiver "efeitos colaterais"!”

Frio

O frio é o maior problema para os motoristas tupiniquins que desconhecem as temperaturas congelantes. Como as montadoras de carro sabem que no Brasil são poucos os lugares que faz frio de verdade, os equipamentos para o frio negativos não são nem se quer itens opcionais por aqui, e por isso temos que nos precaver antes de ir com um carro brasileiro para os Andes.

O primeiro cuidado que temos que ter é com a água, pois ela é o fluido utilizado no carro mais fácil de se congelar. A água nos carros é utilizada para refrigerar o motor. Se congelada ela irá se expandir e destruir o radiador e mangueiras de seu carro. Por isso existem aditivos anti-congelantes que são adicionados no radiador e que não permitem que esta "zica" aconteça quando você estiver a mais de 200 quilômetros do ponto de civilização mais próximo.

Estes fluídos de radiador anti-congelante são comuns nos postos de gasolina na Argentina e Chile e existem para vender no Brasil também. Outro lugar onde existe água é no reservatório de limpeza do pára-brisas. Não esqueça de esvazia-lo. Se você achar que limpar o pára-brisas é algo imprescindível, substitua a água por detergente com um pouco de álcool hidratado para não dar change ao congelamento.

Combustível

À não ser que você viaje no inverno é impossível que os combustíveis do carro congelem. Mas se você for realmente aventureiro e queira ir em Julho para Santiago com uma longa estadia nas montanhas é bom se informar nos postos de gasolina se o combustível que você está colocando em seu carro recebeu o aditivo anti-congelante. Na Europa este aditivo é adicionado automaticamente nas refinarias no inverno, mas na Argentina que tem sua economia quase toda concentrada numa cidade litorânea onde o frio não é extremo como nas montanhas, não sei se é automática a adição deste fluído.

Não se esqueça que na Argentina e no Chile os combustíveis têm nomes diferentes dos nossos, mas são a mesma coisa, preste atenção na tabela abaixo para não se confundir:

Brasil

Posto de Gasolina

Gasolina

Diesel

Argentina

Estación de servicio

Nafta

Gasoil

Chile

Benzinera

Benzina

Diesel

Nunca é bastante avisar que nestes países não existe álcool.

Óleos

Os óleos de motor, câmbio, direção hidráulica, etc, não congelam, mas ficam mais viscosos e não fluem tão bem como quando estão quentes. Em geral é bom deixar o motor do carro aquecer antes que você comece a acelerar, uma ação simples, mas que muita gente negligencia.

Há óleos de motor especiais para clima muito frio, eles são menos densos e fluem melhor, mas não são essenciais. Se o tempo nos Andes estiver muito frio, mas muito mesmo, ao ponto de ser necessário ter um óleo especial, você poderá até trocar seu óleo normal por um destes, mas pode ter certeza que não haverá estrada para você andar com seu carro, pois aqui na América Latina não temos os serviços nem as estradas da Europa, de forma que pode ter certeza elas estarão bem abaixo da superfície da neve...

Bateria

As baterias de carro não arriam ao frio como as pilhas de sua lanterna, à não ser que sua bateria esteja bem usada. Hoje elas estão em extinção, mas existem ainda aquelas baterias que precisam de água. Se você tem uma dessas pode ficar tranqüilo que a “"água" da sua bateria, que na realidade é um ácido, não congela.

Pneus

Dirigir com frio negativo é ter certeza que haverá gelo na pista, tanto por poças de água que congelaram à noite como neve prensada, isto é MUITO perigoso! Não é preciso ter andado no gelo para saber que ele escorrega. O mesmo acontecerá com seu carro. Levando em consideração que você está num terreno cheio de curvas e precipícios, não é nem bom pensar as conseqüências que escorregar no gelo podem acarretar. Em casos de nevascas é aconselhável ter correntes nos pneus. Correntes como as que os jipeiros usam para estradas enlameadas.

Entretanto esta prática tem sido abolida em muitos lugares, pois danifica o pavimento da estrada. Existem pneus especiais para neve, os pneus com cravos de aço. Eles custam caro, mais ainda se pensarmos que temos que multiplicar por 4. A não ser que você seja um colecionador de pneus não existe vantagem em investir uma fortuna adquirindo este item, até por que  nem sempre eles são muito eficientes, motivo o qual as correntes não foram ainda aposentadas em nenhum lugar. O melhor mesmo é ter um carro como o que o pai do Maximo usava para Trabalhar na Rússia.

Estes são os cuidados que devem ser tomados antes de ir para a montanha. Quando estiver dirigindo nela não esqueça que todos estes efeitos acontecem ao mesmo tempo de uma maneira não tão didática como explicada aqui. Fique sempre de olho na temperatura de seu motor. Mesmo estando em ambientes frios, não se esqueça que com a altitude o motor se aquece, ainda mais se estiver em uma longa subida e fizer muita força. Mesmo no frio negativo, você poderá ter seu motor fundido igual muita gente têm na subida da Serra de Santos no carnaval.... cuidado!

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Veja as fotos de nossa última expedição com carro: Argentina 2006


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