Como as montanhas são afetadas pelo aquecimento global

Texto: Maximo Kausch
Comentários científicos: Pedro Hauck

Ultimamente ouvimos muito falar em aquecimento global. Na primeira vez que ouvi, eu mesmo imaginava "...pobre geração futura que vai sofrer com isso, pelo menos eu vou aproveitar e escalar bastante agora!..."

Cansei de ir a montanhas e descobrir que aquele verão ou inverno é o mais frio ou quente de tantas dezenas ou centenas de anos. Além disso, muitos fenômenos que parecem estar isolados estão ocorrendo nos últimos anos pela primeira vez, em centenas de anos. Lendo um pouco, descobri que na verdade, aquela história da geração futura, já vem afetando as montanhas bem antes de eu ter nascido (em 81).

Não é preciso procurar muito, todo mundo que escala, ou já esteve em montanhas, conhece alguma história de fenômenos climáticos atípicos:

Veja alguns exemplos aqui mesmo no GentedeMontanha.com

Deserto do Atacama, Chile, fevereiro de 2001, primeira chuva em 300 anos:
"...seguindo a linha de sorte que eu levava desde então, a nuvem continuou até o continente e literalmente, começou a chover no deserto. As pessoas que estavam na região, agradeciam a deus pelo feito e eu, após um mês seguido de chuvas, não sabia em quem botar a culpa..."
O aquecimento da água do oceano pacífico (fenômeno que foi chamado de "El Niño"), permitiu que grandes quantidades de umidade se condensasse no continente e não no oceano, como acontecia até então.

Cervino, Itália, junho de 2003:
"...Uma grande avalanche rochosa faz com que um grande bloco com centenas de toneladas se desprenda e leve consigo parte da arista Lion...".
O calor excessivo do verão de 2003 fez com que o permafrost de muitas montanhas dos Alpes derreta em 2003. Estruturas de rocha que estavam presas apenas por gelo há milhões de anos, acabaram desabando.

Cerro Rincón, Argentina, janeiro de 2004
"...Um barulho de cachoeira vinha da direção da Supercanaleta e não era água, mas sim, as pedras que caíam sem cessar, tornando a rota impossível de ser escalada..."

Nos Andes Centrais, o processo do derretimento do permafrost é catastrófico. Centenas de toneladas de rochas desabam a cada dia em faces montanhosas que são mais expostas ao sol.
2004 foi um dos anos em que se registraram mais casos de quebra de barreiras e retrocedimento glaciar.

Lhotse/Everest, Nepal, abril de 2005
"...2005, diferente dos 50 anos anteriores, a monção demorou 2 semanas a mais em chegar ao Himalaya. A notícia era de que a monção estava se formado no Golfo de Bengala no dia 15 de maio, mas isso deveria ter acontecido 2 semanas antes..."
Ainda não se sabe o que exatamente atrasou o atraso na monção de 2005. Cogita-se a possibilidade da perca de força de ventos de grandes altitudes, por aquecimento de correntes umas marítimas ou mesmo excesso de água doce (proveniente das calotas polares derretendo).

Aconcágua, Argentina, Fevereiro de 2004
"...O glaciar na base ficou tão exposto que para se unir ao primeiro glaciar da parede, havia uma imensa cachoeira congelada com trechos em escalada mixta. Numa época normal, esta junção seria apenas um degrau de 5 metros de gelo. Na junção do glaciar mediano com o superior, surgiu uma imensa língua rochosa que não teria que estar ali... Mais tarde ficaríamos sabendo que o inverno anterior foi o mais seco dos últimos 15 anos..."
A face leste do Aconcágua recebe muita quantidade de sol. A falta de acúmulo de neve no inverno anterior prejudicou a reconstituição do Glaciar Leste.

Áreas afetadas: Glaciares

Glaciares se formam em lugares onde o acúmulo de neve é maior do que o derretimento no verão. Seu tamanho, forma e espessura, vão depender da sua altitude e latitude onde estão localizados.

Clique aqui para saber mais sobre glaciares

Seja por excesso de calor no verão, ou mesmo falta de neve no inverno, milhões de glaciares na terra estão em processo de derretimento durante o último século. Eis alguns exemplos:
O glaciar Upsala na Patagônia Argentina, em 1928

©Greenpeace
O resto do glaciar Upsala em 2004


© Gary Braasch

© Gary Braasch
O glaciar Portage em 1914, na região de Fairbanks, Alaska, EUA
... e o que sobrou dele hoje em dia

1856
1870
1932
1998
© Gary Braasch
Um dos mais dramáticos, é a foz do Glaciar Rhone, em Gletsch, na Suíza.
Ele encolheu 2.5 km em 150 anos!

A inscrição na placa diz qual era a distância ao glaciar, desde que ele começou a retrogredir, em 1970. A foto é de 1972.
O mesmo glaciar na Suíça, em 2002. A foto foi tirada na mesma época do ano que a de 1972. O aumento da temperatura tornou a vegetação muito mais presente hoje em dia.

© Gary Braasch
O glaciar Pasterze em 1875, na Áustria
... o Pasterze após ter desaparecido de vista

O Tronador (Argentina) em 1968 e em 2002. Pequenas diferenças na espessura são muito significativas nas geleiras originadas nas montanhas

A mudança no Mt. Hood (EUA), em 18 anos

1993
2000
2004
© NASA
Tristes versões do monte Kilimanjaro na Tanzânia. O domo de gelo de 11 mil anos derreterá completamente nos próximos anos
Acompanhe o derretimento por satÈlite

Cerro Rincón em 2001. Foto tirada no mês de janeiro (assim como a foto de 2004)
Cerro Rincón em 2004. Os glaciares estão visivelmente menores, os bergschrunds mais fundos, muito mais detrito está depositado na superfície dos glaciares e algumas rochas desapareceram
O vulcão Sajama em 2002

O mesmo em 2007 na mesma época do ano. Repare na quantidade de neve eterna

Maximo e Pedro à caminho dos vulcões Payachatas em 2002

Pedro á caminho dos Payachatas em 2007. A neve esterna está significamente reduzida


 

O Nevado Illimani em 2002

O mesmo ângulo em 2005

Repare na profundidade dos bergschrunds, diferença nas cornisas, tamanho de manchões de neve e profundidade dos glaciares de circo

Áreas afetadas: O Permafrost

Além do derretimento dos glaciares em geral, o maior afetado pelo aquecimento global nas montanhas, é esta sensível camada chamada permafrost. Em regiões polares ou qualquer tipo de terreno onde a temperatura é negativa na maior parte do ano (como montanhas altas ou de grande latitude), uma camada de gelo foma-se sob a superfície do solo. Esta camada permanece congelada durante o ano todo. Rochas e qualquer tipo de material solto, ficam presos à montanha devido ao permafrost. Se estipula que o permafrost presente em montanhas de hoje em dia está lá desde o começo da última era glaciar (até 30 mil anos atrás).

Durante os últimos 30 anos, por alguma razão, o permafrost de várias montanhas começou a derreter. Em conseqüência, todas as peças soltas presas a este, começaram a cair. Paredes e torres inteiras estão literalmente desmanchando. Veja alguns exemplos:

 
A chamada Chaminé Whymper no Cervino, Itália, sendo escalada no começo do século XX.
 
Maximo escalando a chaminé Whymper em 2003. O bloco de rochoso da esquerda simplesmente não existe mais hoje em dia.

Aiguille du Dru como sempre foi

Aiguille du Dru depois da avalanche. A área marcada contém rochas recém expostas

©RockClimbing.com

Aiguille du Dru, na França, durante uma avalanche de rochas em 2005.

Mas afinal, o que está acontecendo?

Fenômenos climáticos atípicos sempre aconteceram durante história humana, mas não com tanta freqüência. Há pessoas que digam que a culpa é do homem, outros dizem que é culpa de um ciclo natural terrestre.

Ninguém ainda conseguiu provar qual das versões é a correta. No entanto, é provado que a terra já passou por mudanças climáticas graves quando já existiam humanos e essa não foi a primeira vez. Para explicar isso, seria melhor pedir a ajuda de um geógrafo, que pudesse entrar melhor em detalhes. Coincidentemente, Pedro Hauck é geógrafo:

Glaciações e aquecimento global:
As alterações da cobertura das geleiras no globo

Texto: Pedro Hauck

Apesar de ausente no Brasil, o gelo é um agente geológico e geomorfológico muito importante, pois 10% do total da superfície terrestre é recoberta por gelo, ou seja, por volta de 15 milhões de quilômetros quadrados são geleiras no mundo. No passado, o gelo ocupava uma área três vezes maior que a de hoje, isto porque o planeta terra esteve por diversas vezes sob o efeito de glaciações. Veja como era a terra há 21 mil anos atrás:



passe o ponteiro do mouse sobre a época desejada...

Existem centenas de teorias sobre as glaciações, mas nenhuma ainda é tida como o paradigma mais certo de sua existência. O que não há dúvidas é a existência de tais períodos. São quatro os argumentos que podem explicar a origem de tal fenômeno.

Argumento Geográfico: Estes invocam fenômenos atmosféricos e oceânicos para explicar a glaciação, advogando as mudanças dos continentes em relação aos oceanos, assim como mudanças das correntes aéreas ou marítimas, ocasionadas pelas variações na forma das bacias oceânicas ou nos levantamentos orogenéticos. Entretanto, se forem analisadas as condições paleogeográficas do Pleistoceno, a era geológica em que ocorreu a última grande glaciação, observa-se que quase não existe uma mudança com configuração atual dos continentes. Há quem defenda que as glaciações tiveram origem nas poeiras de erupções vulcânicas, que teriam barrado a entrada de energia solar ocasionando um resfriamento global.

Argumento Geofísico: Estes procuram explicar as grandes glaciações na suposição da mudança na posição dos continentes. Segundo esta teoria, os continentes formavam até o fim do Paleozóico uma única massa, situando-se o pólo sul próximo ao extremo meridional deste continente. Isto explica a existência de rochas sedimentares originadas em ambientes glaciais no sul da América do Sul, África, Índia e Austrália. Entretanto estes materiais citados, como por exemplo, o Varvito e rochas Moutoneé de Itu (SP), são de idades muito antigas, assim esta teoria não explica a glaciação pleistocênica, por exemplo.

Argumentos Astronômicos: Este referem-se às variações no movimento da Terra em relação ao Sol. Entretanto, se apenas este argumento estivesse correto, os períodos glaciais deveriam ser simétricos, pois o movimento da terra é uniforme e sincrônico e a geologia comprova que as glaciações não apresentaram uma periodicidade.

Argumentos cósmicos: Estes explicam que nosso sistema planetário atravessa regiões frias em sua caminhada celeste. Outros admitem a existência de nuvens cósmicas ocasionais que dispensariam os raios solares, determinando com isto a queda na temperatura.

A última grande glaciação, a de Würm-Wisconsin, ocorreu no final do período Pleistoceno para o início do Quaternário, ou seja, entre 18.000 a 10.000 anos. Neste período, a temperatura da terra foi muito mais fria que a atual. De lá para cá, a temperatura oscilou até 5.000 anos, esteve mais ou menos estável até aproximadamente 1.000 anos atrás, quando ela caiu, havendo na idade média uma pequena idade do gelo. De lá para cá, a temperatura subiu e hoje vivemos um período de aquecimento global:

Último 1.000.000 de anos


Últimos 1.000 anos

São nítidos os argumentos deste aquecimento. Quantitativamente temos os registros de temperatura que nos evidenciam um aquecimento médio de mais de 1 grau. Qualitativamente observamos um grande recuo de gelo nos pólos e nas montanhas, muitas avalanches de dimensões catastróficas, diminuição do permafrost em ambientes glaciais e periglaciais, auxiliando nas montanhas as avalanches de rocha e destruição por desmoronamento das vertentes.

No mar, é evidenciado um aumento de nível na escala de alguns centímetros, que em se tratando de um oceano, calcula-se uma adição gigantesca de água de degelo. As temperaturas mais elevadas da água ainda contribuem para a formação de furacões e tufões, além de secas em alguns lugares e chuvas em outros, ou seja, numa alteração climática devido às mudanças de intensidade das correntes.

Um dos argumentos mais aceitos para explicar o aumento das temperaturas globais é o efeito estufa. Este fenômeno teria como origem a destruição da camada de ozônio pela emissão de gases poluentes, como o gás carbônico resultado da queima de combustíveis fósseis. As geleiras são um registro natural do aumento destes gases na atmosfera. Quando há precipitação de neve e acumulação dela nas montanhas, é também acumulado o material em suspensão presente na atmosfera. Observou-se no gelo perfurado na Antártida que o carbono aumentava drásticamente a partir do período da revolução industrial, portanto deixa claro a influência do homem na mudança atmosférica global, e isto é uma prova sólida à favor deste argumento.

Entretanto, também há quem acredite que o aumento de temperatura é algo inevitável, pois o planeta Terra estaria em um período interglacial, ou seja, um período entre duas glaciações, com temperaturas mais elevadas. Esta teoria tem sustentado a continuidade da emissão de gás carbônico na atmosfera, argumentando uma não necessidade de reduzir a poluição planetária e assim uma não desaceleração das atividades industriais e consumistas que alimentam a economia de países ricos e poderosos, como os Estados Unidos que se negam em assinar o protocolo de Kioto e assim reduzir sua produção de gases poluentes.

Enquanto ainda não existe uma explicação para a origem do aquecimento global e também não há um esforço para se provar empiricamente a teoria do efeito estufa, vivemos a situação do degelo, que em algumas montanhas é muito evidente. O caso mais famoso e noticiado de recuo de gelo em montanha é o do Kilimanjaro, a montanha mais alta da África. Entretanto isto não se limita apenas às montanhas de baixas latitudes, sendo também visíveis em montanhas mais próximas aos pólos.

Cerro Rincón em 2001
Cerro Rincón em 2004

Como exemplo deste acontecimento, pudemos acompanhar um caso interessante de mudança de comportamento de gelo em período curto de tempo, apenas três anos em uma geleira de penhasco situada no Cerro Rincón, no oeste da Argentina. Como observado na foto, nota-se uma acentuada diminuição da presença dos nevés na porção superior da montanha, além de um aumento de detritos oriundos de avalanches sobre o gelo nas porções inferiores. O que a foto não diz é que no ano anterior à fotografia o inverno foi pouco rigoroso, assim como os anteriores. Isto contribuiu com a baixa acumulação de neve. O verão também foi atípico, havendo uma média de temperaturas mais elevadas e maior derretimento que na baixada resultou em aumento do nível dos rios com destruição de pontes e margens.

Esta situação tem-se tornado comum na Argentina e ao longo da cordilheira dos Andes. Desta forma, com um permafrost mais suave, acentua o desmoronamento das rochas das vertentes das montanhas, contribuindo com o aumento de detritos sobre o gelo, como pode ser visto na fotografia. Para os escaladores isto significa perigo, pois há aumento de avalanches, principalmente de rochas. Outra observação que pode servir para mostrar a pouca acumulação e acentuada ablação é o nítido aumento do bergschrund da montanha verificado na foto.

Esta ilustração mostra apenas um pouco dos efeitos das mudanças ambientais que estão ocorrendo no mundo. É evidente que o homem tem sua culpa neste fenômeno, pois desde que existe civilização transformamos a natureza para favorecer nossa existência. Porém, estas alterações, que durante séculos favoreceram o homem das adversidades naturais têm agora posto em cheque nossa lutada existência. Enfrentamos um grande dilema que é proteger nossa economia ou proteger nossa natureza, uma escolha que sem ter a certeza das causas pode levar para um econômicos ou ecologismo suicida. A experiência tem mostrado que a primeira opção é a que tem prevalecido.

Leia também: Água dura - Uma revisão sobre geleiras em montanhas
Leia também: Avalanches


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