900 gramas de Parofes

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Texto Maximo Kausch / Fotos Maximo Kausch e Pedro Hauck

(Reportagem publicada originalmente na Go Outside de junho de 2015)

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A INCRÍVEL HISTÓRIA DE DOIS ALPINISTAS BRASILEIROS QUE DECIDIRAM ESPALHAR PELO MUNDO AS CINZAS DE UM GRANDE AMIGO QUE MORREU DE LEUCEMIA HÁ UM ANO. COM ELAS, A DUPLA JÁ VISITOU 16 MONTANHAS E VIVEU MOMENTOS DE EMOÇÃO, E TAMBÉM DE BOAS RISADAS

OK, EU CONCORDO: NOSSA HISTÓRIA parece um tanto bizarra. Ou, no mínimo, excêntrica. Como era um pouco, de certa forma, nosso amigo Paulo Roberto Felipe Schmidt, o Parofes, companheiro de aventuras outdoor que eu e o montanhista Pedro Hauck conhecemos em 2007.

Nunca fui religioso ou acreditei em fatos além da ciência. Mas a saga na qual me envolvi, ao lado de Pedro, foi diferente: após a morte de Parofes, decidimos levar suas cinzas para diversas montanhas, deixando em cada uma delas um pouco do que restou de seu corpo material. Lá no alto, imaginamos o que nosso colega nos diria, alimentando em nós a memória daquele que um dia esteve conosco em tantas situações inesquecíveis.

Antes de mais nada, é preciso dizer que Parofes era uma pessoa extremamente carismática. O alpinista descobriu que estava com um tipo de alteração medular durante uma viagem com a esposa, Liliane Schmidt, ao Chile, em 2012. Ele tinha 34 anos. Mais tarde, foi diagnosticada nele uma doença chamada aplasia medular, e o tratamento começou naquele mesmo ano. Havia então esperança de se encontrar um doador de medula. Isso não aconteceu, e Parofes faleceu 18 meses depois, deixando a família e os amigos arrasados.

Ele escalou dezenas de montanhas de grandes altitudes nos Andes e nos Alpes durante cinco anos. Contribuía absurdamente com esse esporte no Brasil escrevendo dicas e roteiros de grande valor para os que estão começando. Tratava-se de um cara muito brincalhão e inteligente, formado em história e que descobrira a paixão pelas montanhas havia oito anos. Parofes tinha um extenso currículo no montanhismo e iria eventualmente ganhar a vida como guia de montanha se a doença não tivesse se manifestado.

Mesmo diante de tanta dor e sofrimento, ele conseguiu enxergar a morte exatamente como encarava a vida: com muito humor. Parofes tinha total consciência sobre a doença. Ele não a romantizou em nenhum momento e sabia tudo o que estava acontecendo em seu corpo. Durante os últimos meses de tratamento, nos tempos em que ainda estava relativamente livre da dor para poder se concentrar e ler, aprendia sobre o resultado de seus mielogramas e tudo o que aquele monte de siglas nos exames significava. Mantinha um rigoroso controle da evolução de seu quadro – quando os médicos chegavam para relatar seu caso, Parofes já tinha o resultado na ponta da língua.

Ele era uma figura única no hospital, por isso as enfermeiras gostavam de levar aquele careca hilário para visitar outros pacientes com doenças similares, na tentativa de lhes dar algum grau de esperança para enfrentar a dor. Parofes foi um sucesso enquanto esteve internado!

Durante o progresso da doença, ele sempre atualizava seu blog e sua coluna no site altamontanha.com, criado por mim e pelo Pedro. Mantinha suspense e descrevia cada etapa como se estivesse em uma expedição a uma grande montanha. Os amigos que acompanharam tudo de perto ficavam na torcida para que Parofes conquistasse o próximo cume. Em uma das colunas, ele apelidou a doença de “o meu Everest”. Nada mais legal do que isso para descrever sua história.

Além da dor, ele precisou enfrentar outro obstáculo: a falta de doadores compatíveis em sua família. Iniciou-se aí uma novela trágica, em que o descaso e a burocracia dos órgãos do governo criados para ajudar a encontrar doadores falharam absurdamente.

Em 12 de maio de 2014, um dia após Parofes falecer, foi ao ar uma coluna sua que começava assim: “Se estão lendo este documento, significa que eu recebi o golpe final da leucemia e estou morto”. O título do artigo era “Minha última coluna”, e ele foi lido por milhares de brasileiros. Emocionou e ao mesmo tempo enfureceu muita gente. Nela, Parofes deixa claro que as prováveis causas de sua morte foram a incompetência e a burocracia desses institutos do governo.
Mas, mesmo com tantos perrengues, ele manteve o humor até seus últimos dias. Em certa ocasião, ao voltar para casa para passar um tempo longe do hospital, atendeu ao telefonema de uma moça tentando vender um plano de celular. “Um ano? Eu não tenho tudo isso! Acho que vou morrer daqui uns meses, não vai dar, não!”, brincou.

POUCO ANTES DE FALECER, Parofes fez um pedido a Pedro: “Jogue minhas cinzas no Pico das Agulhas Negras, caso contrário vou puxar sua perna para debaixo da cama”. Essa montanha de 2.791 metros é a mais alta do maciço do Itatiaia, na Serra da Mantiqueira, e se localiza na fronteira de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Era a favorita do Parofes.

No entanto, quando Liliane deu para Pedro a caixa com as cinzas do marido para que fossem jogadas no Agulhas Negras, bateu aquela decepção: “Poxa, Parofes iria querer subir mais montanhas!”. Ele tinha muitos planos de escalar conosco, por isso naquela hora nos pareceu óbvio que seria necessário levar seus restos mortais para alguns lugares mais “apimentados”, antes de atender o desejo final de nosso amigo. De montanha em montanha, acabamos depositando um pouco de Parofes em 16 lugares diferentes.

Desde 2014, já levamos suas cinzas para o Capurata (6.015 metros, entre Bolívia e Chile), Acotango (6.052 metros, na Bolívia), Chachacomani (6.074 metros, na Bolívia), Chearoko (6.125 metros, na Bolívia), Uturunco (6.010 metros, na Bolívia), Tres Cruces (6.630 metros, no Chile), Ojos del Salado (6.898 metros, entre Chile e Argentina), Vicuñas (6.083 metros, no Chile), Camapuã (1.711 metros, em Minas Gerais), Dedo de Deus (1.692 metros, no Rio de Janeiro), campo-base do Annapurna (4.100 metros, no Nepal), Chaupi Orko (6.140 metros, entre Peru e Bolívia), Macón (5.520 metros, na Argentina), Quewar (6.162 metros, na Argentina), Socompa (6.051 metros, entre Chile e Argentina) e Nevado Acay (5.745 metros, na Argentina). Com todos esses rolês, Parofes já desceu com a neve que derreteu e desaguou em três oceanos!

Durante uma recente expedição que guiei, em 2015, um cliente apareceu em meu quarto de hotel para pegar um equipamento. Ali, entre equipos de escalada, cordas, barracas e comida, estava uma pequena caixa de madeira cheia de cinzas. Em vez daquela fala padrão de “não repara na bagunça”, eu disse:

“Cuidado com o Parofes!”

“Onde?”

“Ali!”

“Ali onde?”

“Naquela caixa!”

“Seu amigo está dentro daquela caixa?”

“Sim, ainda tenho 300 gramas de Parofes,o resto a gente já jogou em 14 montanhas…”

Eu sempre contava para o Parofes sobre como era escalar nos Himalaias e como as paisagens de lá são belas e desafiadoras. Ele sempre quis conhecer a região, então, na primeira chance que tive de voltar para os Himalaias, levei um punhado de Parofes. Fui para um trekking ao campo-base do Annapurna com 18 clientes no fim de maio de 2015.Foi uma viagem de duas semanas até que finalmente, no dia 24 de maio, chegou a hora da pequena despedida, em um remoto glaciar. Ao mostrar as cinzas, tive que escutar algumas críticas dos sherpas, os nepaleses que nos ajudam a carregar equipamentos pelas montanhas. Segundo a crença desse povo, jogar cinzas em montanhas dá muito azar e desagrada os deuses. De fato tive que concordar: apenas um dia depois, passamos por um terremoto de escala 7.8 que destruiu parte do Nepal. Acho que não vou levar mais o Parofes para lá… Na próxima, tentarei alguma montanha no Tibete, e espero que os deuses daquele pedaço do mundo não tenham problemas com isso. Ah, Parofes adoraria saber desse causo!

No início de nossa empreitada, ficamos imaginando onde depositaríamos as cinzas do Parofes em uma data especial, como o primeiro aniversário de sua morte. Finalmente chegou o dia 10 de maio de 2015, quando Pedro e sua namorada, Maria Ulbrich, foram jogar um pouco das cinzas sobre o Camapuã, na Serra do Mar paranaense, a primeira montanha que Pedro e Parofes escalaram juntos. Pouco antes de chegar ao cume, o tempo fechou completamente, e o casal continuou com o gesto simbólico mesmo assim. Aqui veio a primeira vingança do Parofes: com a ventania, as cinzas voltaram na cara da Maria. Parecia até que dava para ouvir as risadas de Parofes ao longe… Nosso amigo sempre quis ir para uma montanha de 8.000 metros e escalar outras tantas no Peru. Acho que o Agulhas Negras vai ter que esperar mais um pouco.

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