Notícias Ciriricando (graciosamente) a Serra do Mar 16/11/2009 - Pedro
Esqueça tudo o que você já ouviu falar sobre travessias serranas. Se você acha Petrô-Terê ou Serra Fina difícil, tá na hora de rever conceitos... Muito longe das tradicionais e badaladas travessias do Sudeste, a Travessia Ciririca - Graciosa, na Serra do Mar paranaense, resgata o melhor estilo do montanhismo brasileiro: Mato, campo, frio, calor, solidão e aventura em um lugar onde poucos conseguem ir.
Não se sabe ao certo quando foi a primeira vez que alguém teve a idéia de começar a caminhar na Serra do Ibitiraquire e sair na Serra da Graciosa, no marco 22 da PR 410. Esta pergunta nem nosso querido Paulo Henrique "Vitamina"Schmidlin pôde responder, assim sendo, atribui-se à Élcio Douglas Ferreira, Oséas de Araújo "Black" e Correia em 1997 o pioneirismo em realizar tal travessia.
Até eu vir morar no Paraná, nunca tinha ouvido falar em Serra do Ibitiraquire. Ciririca pra mim não era montanha... Meu primeiro contato com esta travessia foi através dos textos do Júlio Fiori, do site AltaMontanha.com, site que mais tarde fui me tornar colunista por conta de minhas experiências andinas.
Naquele tempo achava estranha a maneira como Júlio reportava suas escaladas, pois em minha cabeça paulista o que valia era as famosas e badaladas travessias como a Serra Fina, Marins - Itaguaré ou Petropolis - Teresópolis. Com o tempo e algumas incursões pela Serra, vim descobrir o Pico Paraná, uma das montanhas mais lindas que já vi, o Camapuã e Tucum. De comum destas montanhas, além do fato de estarem no Ibitiraquire, é a vista para um morro alto, com cume grande e alongado de onde se desponta duas formas retangulares no cume, que são duas placas gigantescas quer serviam para refletir ondas de rádio e fazer a comunicação entre a Usina Parigot de Souza, na baixada e Curitiba, no planalto: O Pico do Ciririca.
Hoje, as placas do Ciririca não têm mais utilidade, ficaram os restos desta antiga estrutura e o mito da montanha com trilhas mais distantes da Serra do Mar, afinal, leva-se em média 8 horas para atingir o cume deste pico, que com 1760 metros é mais alto que o Marumbi.
Minha vontade de subir esta montanha surgiu na primeira vez que eu a avistei e me indaguei sobre o que eram e pra serviam aquelas placas em seu cume. Mais tarde vim saber de sua história e de seu mito, o de ser uma montanha distante e difícil.
Apesar das possibilidades montanhísticas que viver em Curitiba oferece, para mim foi mais sedutor as oportunidades em escalada, sendo assim preferi evoluir na rocha e deixei as trilhas em segundo plano, mas sem nunca esquecer aquelas belas paisagens do Ibitiraquire, principalmente as indagações científicas que tinha sobre aquele local, que foi escalado por grandes geógrafos que eu tenho muita admiração, como Reinhard Maack e João José Bigarella. Não posso deixar de dizer que foi em Curitiba que eu tive um contato maior com teorias clássicas sobre evolução do relevo brasileiro e enxerguei naquela paisagem o modelado geomorfológico que aprendi em sala de aula. As hipóteses de sua evolução, inclusive, é o projeto de meu doutorado.
Tive várias chances de ir para o Ciririca antes, seja com o Júlio, ou com o CPM, chances desperdiçadas por outros compromissos. Eu estava de bobeira em Curitiba, quando em uma reunião do clube, algumas das meninas disseram que iam fazer uma incursão feminina à montanha, incursão esta que logo recebeu outros interessados cuecas.
A caminhada que era para ser só das meninas, acabou sendo invadida e a autora da proposta, original, Rossana Reis, não gostou muito da idéia e foi na sexta feira à noite, dia 30 de Outubro, junto com Ketelin Camargo para o Camapuã com o intuito de fazer o Ciririca por cima, via Morro do Tucum, Cerro Verde, Luar, etc... Só que elas não sabiam o caminho e convidaram o Élcio Douglas, o maior conhecedor destes caminhos serranos, para acompanhá-las.
Eu saí às 4 da manhã cedinho de Curitiba com o Júlio Fiori na manhã seguinte. Após um café rápido na parada do Japonez na BR 116, fomos direto à Fazenda da Bolinha, que recebeu este nome na década de 90 por conta de uma cadelinha, a Bolinha, que seguia o Júlio em suas caminhadas serranas.
Começamos a caminhar um pouco antes das 7 horas. O sol ainda não aparecera por trás das montanhas e dentro da Floresta, ficou ainda mais escuro. O começo desta caminhada se faz pela trilha que leva até os populares morros do Tucum e Camapuã, montanhas de acesso fácil e rápido que começa por um vale florestado e muito belo. Júlio ia me contando a época que caminhava por ali com picada, quando o ibitiraquire ainda não era popular e a estrada era um atoleiro só.
Em passos curtos, mas sem parar, logo chegamos no cruzamento que divide a trilha, de uma lado, uma caminhada rápida até o Camapuã, montanha que em Tupi significa "Peito de índia jovem", uma toponímia muito comum para morros mamelonares brasileiros, mas que recebeu em seu topo recentemente uma santa. Ah, se Maria soubesse Tupi!
Do outro lado, trilha para o Ciririca, a montanha com caminho definido mais distante da Serra do Mar: Dois motivos para não ter uma Santa no seu cume, embora tenha enormes placas montadas por helicópteros. Era pra lá que íamos.
A trilha percorre em quase toda sua extensão, uma floresta Ombrófila densa, uma dádiva frente ao calor que nos assola nesta época do ano. Subimos e descemos encostas o tempo todo, transpondo os diversos riachos que nascem nas vertentes do Tucum e Camapuã e que vão descendo para o planalto. Muito deles encachoeirados e encaixados em pequenos desfiladeiros. São diques de Diabásio, menos resistentes que os Granitos alcalinos descritos por Maack em 1961 e é por lá que os rios incidem seu canal, atenuando e mascarando as feições de relevo antigo, ainda preservados na montante das drenagens. É esse meu maior objetivo: Reconhecer estas formas e identificar material ferruginoso dos paleo solos, que, de acordo com as teorias, tem que estar lá!
O caminho é prazeroso, fazíamos pausas nas orilhas dos riachos para fazer um lanche e beber água. No último destes riachos, chamado de Última Chance, ou melhor, última chance de desistir antes de começar a subir a rampa do Ciririca, do meio do mato surge a figura de um sujeito de óculos, com roupas imundas, usando uma mochila velha e surrada nas costas e na cabeça, um boné igualmente velho do Chicago Bulls. Ninguém daria nada por este sujeito quarentão, entretanto ele é um dos melhores montanhistas do Brasil, um mito vivo da comunidade de montanha de Curitiba: Élcio Douglas Ferreira, que fica feliz em nos ver.
As meninas que estavam com ele passaram mal na noite anterior e desceram. Sorte delas! Elas não sabem que difícil é acompanhar o Élcio. Ele queria chegar naquele dia na Colina Verde, base do Agudo da Cotia, mesmo lugar onde íamos pernoitar. Entretanto, ele queria, no dia seguinte, sair na Estrada da Graciosa antes das quatro da tarde, para poder pegar o bonde pra Curitiba.
_Loucura Élcio! Dizia o Júlio. O Pedro que conhecer a montanha, ele nunca veio pra cá.
_Ah, vocês fazem o que quiserem, eu estarei no Marco 22 antes das quatro. Retrucou nosso insistente amigo. Eu botei na minha cabeça que vou fazer a travessia em dois dias e vou fazer.
Sem combinar nada, começamos a pernada Ciririca acima. Ali começa a temível rampa, uma vertente alongada e inclinada que não dá mole pros montanhistas. É o trecho final da caminhada, quando todos já estão cansados e é justamente o pior. Para piorar ainda mais, já era meio dia e o sol estava forte, não dando trégua, já que ali não há mais floresta, apenas os campos de altitude.
Em compensação ao cansaço, a vista é fabulosa. Dali avista-se o Luar, o Tucum, o Itapiroca e ao Fundo o PP, separado por nós pelo enorme canyon do rio Cacatu, coberto de nuvens.
Vamos caminhando com tranqüilidade e chegamos no cume, para meu deleite, a primeira vista que temos das placas, que estão ali há poucos metros em minha frente. Mas meu deleite maior é ver o canyon do Cacatu por cima. Esta foi uma erosão gigante que partiu do nível do mar e foi comendo a montanha de quase 1900 metros de altitude. A história fisiográfica deste fabuloso canyon envolve a herança do relevo do interior do antigo Gondwana, paleo tectonismo do arco de Ponta Grossa, vulcanismo fissural da Serra Geral e uma erosão terciária gigantesca que removeu todo o basalto existente acima dos granitos, seguido pelo tectonismo isostático e desnudação que exumou antigas superfícies e deformação de outras mais recentes. Uma história de mais de 60 milhões de anos que não cabe nestas linhas, mas que logo conhecerão melhor (daqui uns 4 anos!).
Paramos para descansar nas sombras das placas, comemos uns amendoins, tomamos um suco e após o breve descanso, sacudimos os corpos para voltar a caminhar. _ Beleza, pensei. É só descida mesmo!
E que descida, a encosta Sul do Ciririca é um paredão verde, composto de árvores retorcidas da matinha nebular, penetramos o mato e atravessamos uma pirambeira muitas vezes auxiliados por cordas tão velhas quanto a mania de subir montanhas naquela região. A mão costuma ficar nas cordas, mas os pés patinam no barro e na rocha sebosa. Se não segurar bem a corda, você poderá levar um tombo de centenas de metros, até ser amparado por algum arbusto espinhento e ficar com as mãos todas queimadas. Este trecho é um incentivo para fazer a travessia, pois ninguém gosta de subir tal vertente verde e quiçassenta.
Chego no planalto da base dos Agudos cansado. O calor e a claridade ofuscam minha vista. Eu tenho uma grande sensibilidade à isso e ter dor de cabeça nestas situações é inevitável. Mesmo assim deixamos nossas mochilas para fazer um ataque ao Agudo do Lontra, uma subida fácil, mas apagada pela pouca freqüência de montanhistas por lá. Se o Ciririca já é pouco visitado, imagine então estas montanhas além dele?
Cansado, chego na colina verde com o sol quase se pondo. Fico lá deitado enquanto Júlio e Élcio descem ao rio para tomar um banho de gato. Ao voltarem, preparo um café com minha cafeteira italiana. Élcio, que geralmente não leva nada pras travessias, fica atônito ao luxo da cafeteira, ainda mais com a comida liofilizada, amostra grátis que a Liofoods nos deu por conta de nossa matéria no Altamontanha. Pena que ele não pôde experimentar, vegetariano, ele só ouviu os elogios dos deliciosos lombo canandense, strognoff de Frango, batata com bacon... Pena que era só amostra, enchemos a pança com uma pesada feijoada enlatada.
Fui dormir confortável dentro da barraca do Júlio. Lá fora, Élcio preparou seu mocó, forrando o chão com um isolante fudido, entrando dentro de um saco de dormir velho e se cobrindo com um plástico bolha. Há anos que ele não leva barraca em suas travessias e nem comida. Enquanto nos deleitamos com feijoada enlatada, Élcio teve que se contentar com bolacha água e Sal, mas ele não reclama, é um montanhista decidido e conhecedor de várias situações adversas que transforma um pernoite molhado num hotel cinco estrelas.
No dia seguinte acordei preguiçoso, lá fora, as nuvens encobriam todas as montanhas ao redor. Conhecedor da dinâmica do tempo na Serra, Júlio me advertiu. _ Sol só depois das 10! Sem hesitar, Élcio fez o melhor depois de uma noite "confortável" no mocó, saiu andar para ver a paisagem de cima do Agudo da Cotia. Deixei de ir com a desculpa que não ia ver nada e perdi a montanha e a paisagem.
Enquanto esperava Élcio descer, no entanto, dei uma vasculhada pelo terreno ao redor. Os topos daquele planalto são planos e alongados, estão "coincidentemente" situados à 1350 metros, a mesma altitude da superfície Pd3 de Bigarella, separados por rios que incidem sobre falhas, recobertos por matinhas nebulares que se limitam até a borda das cimeiras planas, estas, com uma vegetação rala de campo e turfeiras.
Descendo estes topos, há vertentes suaves até se chegar num degrau, onde afloram granitos. O que tem acima deste granito é um mistério. Seriam solos? Turfas ou poderia haver ali couraças ferruginosas protegendo o relevo plano de erosão e dificultando a penetração das florestinhas? Só cavando para saber...
Saímos tarde do acampamento, lá pelas 9 horas. A idéia do Élcio era abrir um caminho mais rápido em direção ao rio Forquilha e é isso que a gente faz. Com grande facilidade, atravessamos os campos, mas logo ao perder altitude, adentramos na mata de neblina e caímos em um bromelial terrível que nos cortou todo. Atravessamos esta quiçaça enfrentando também bambus e capim navalha, que o nome já diz o que faz. Logo chegamos em um dique de Diabásio deprimido com um rio ainda fino. Os rios seriam dali em diante nossa trilha.
Descendo o riacho chegamos em um rio tributário ao Forquilha o logo no próprio. Tal rio recebeu este nome por que faz uma curva de 90°. Capricho da natureza? Ora, tudo que for muito reto na natureza chama-se "controle estrutural" e neste local todo fendado, resultado de sua história fisiológica não precisa pensar duas vezes: É uma falha geológica.
Dali por diante o rio fica mais caudaloso. Pedras enormes obstruem o caminho e não obstante temos que sair do rio e ganhar espaço entre árvores e arbustos para continuar a jornada. Mas em um certo local saímos do rio para não mais voltar. Ali é a encosta do Tangará e Cotoxós, dois morros que dividem a bacia do Forquilha com a do Mãe Catira. É o limite entre a Serra do Ibitiraquire e a Serra da Graciosa.
Cortamos o caminho pelo meio do mato. A floresta densa com árvores gigantes produz tantas folhas que caem ao chão que muitas vezes tampam os buracos entre as pedras, formando gretas ocultas de montanhas tropicais. Mas isso é logo superado, pois ganhando altura no Tangará, a vegetação vai ficando mais rala. Com mais luz, os bambus infernais substituem as árvores e dificultam a progressão.
Depois de se bater entre os bambuzais e de se perder na marcação da "trilha" que não existe, conseguimos chegar à chamada "garganta" que é o col entre o Tangará e Cotoxós. Logo estaríamos descendo de novo. Ali nasce o Rio Mãe Catira, nossa trilha até terras mais baixas na Graciosa.
Estamos num dique de Diabásio, por isso a direção retilínea do rio, que corre por baixo das pedras. Logo ele aflora e sob suas sebentas rochas temos que progredir, ainda é difícil.
Em pouco tempo o rio fica perene e vai alargando. Entre uma pedra e outra acabo por escorregar e enfio a bota e a perna inteira dentro do rio. Acaba-se o cuidado para se molhar, mesmo assim vou devagar, pois o solado de minha bota é liso como sabão com o piso molhado.
Neste trecho o rio começa a fazer curvas. Sabendo disso, Élcio resolve sair de nossa "trilha" e cortar caminho indo reto pelo mato. Os escorregões e o sofrimento de andar molhado contribuem para que a gente concorde com ele, só que não pensamos que o rio tem razões por fazer curvas...
Retilinizar o caminho significou subir e descer encostas, atravessando diversos rios tributários do Mãe Catira. Neste corte, atravessamos bambuzais infernais e logo decidimos voltar para o rio, já ao lado de um acampamento clandestino de caçadores e palmiteiros. O único sinal de civilização no meio daquele mato, que diga-se de passagem, não é um sinal civilizado.
Se a Serra fosse mais freqüentada por montanhistas, esses criminosos não estariam ali, ou pelo menos estariam mais dispersos e não teriam tanta cara de pau para montar um acampamento fixo. Ali não pertence a nenhum parque, mas é uma área de proteção ambiental. O certo seria transformar toda a Serra num parque, mas diante da real política de meio ambiente brasileira, totalmente sucateada e sem dinheiro para fiscalização, muito menos para concursos e contratação de mão de obra qualificada, estes parques não saem do papel. Pior do que isso, a falta de recursos e de cérebros e a filosofia de quase que militar de que os parques servem, antes de mais nada, para "controlar " seus visitantes, áreas como esta da travessia seriam consideradas como intangíveis. Intangíveis para visitação, intangíveis para o conhecimento, mas não intangíveis aos palmiteiros, caçadores e outros extrativistas, estes sim, os grandes vilões da Serra do Mar, mas que infelizmente são os "verdadeiros donos" dela.
Continuamos pelo rio e rapidamente chegamos em um canyon cercado por rocha preta e polida. É Diabásio, mas ali, ao contrário do Ibitiraquire, o Dique é uma saliência no relevo e não uma fenda. Certamente não temos na Graciosa o mesmo granito daquele do Ibitiraquire. É por isso que a Graciosa, ao invés de ser uma serra, é um furo entre o Ibitiraquire e a Farinha Seca. Não é por menos que ali passa a estrada e também ali seja o local que mais chove no Paraná, pois como é mais rebaixado, o ar quente do litoral se choca com mais facilidade com o ar frio do planalto.
Atravessando o dique, chegamos em seu limite discordante com a outra formação rochosa regional. Tal discordância provocou uma erosão diferencial e o resultado deste processo erosivo é uma ruptura drástica do relevo, por onde cai o rio Mãe Catira, formando uma grande e bela cachoeira, denominada por Júlio Fiori de "Cachoeira da Santa", mas que para os caboclos da região tem outro nome.
Vencendo o desnível da cachoeira da Santa, voltamos para o rio novamente e já cansadíssimos, vencemos os últimos metros até a marcação que nos indicavam o local para sair dele, a melhor coisa depois de tantas horas de sofrimento entre pedras lisas e água. Ali estávamos em casa.
Entramos na floresta com lanterna na cabeça, o sol já estava se pondo, mas lá dentro já era noite. Dali até a estrada tínhamos que transpor diversos rios, subindo e descendo a trilha que se camufla entre as árvores. Fitas coladas nos troncas delas nos indicavam o caminho, mas nem sempre eram vistas, nos perdemos umas tantas vezes, principalmente por conta de árvores caídas que confundiam o caminho. Estranhamente haviam muitas delas. O inverno foi chuvoso e árvores que já estavam velhas e podres ficaram pesadas com a água retida nas plantas epífitas de seu dossel, logo, elas não tem sustentação e caem.
Fomos caminhando como morinbundos, se alternando na tarefa de nos guiar embaixo da floresta. Já dava para ouvir a estrada quando encontrei uma arapuca, mais uma armadilha deixada por criminosos que, por diversão ou dinheiro destroem o que sobrou de nossas frágeis paisagens.
Em frangalhos, chegamos na curva da Santa, onde o fica o famoso marco 22 da estrada da Graciosa. Ali havia uma santinha, mas o local sempre foi mais freqüentado por pessoas de religiões africanas. Há mais de 9 anos atrás, Élcio e dois amigos chegaram ali depois de fazerem a travessia mais difícil de suas vidas, a "Travessia do Milênio", que consistiu em sair do Bairro Alto de Antonina, na baixada, subir a Serra pela temida crista do Ferraria e fazer a travessia total do Ibitiraquire até chegar ali na Graciosa. Obviamente nem mesmo nesta travessia o Élcio não levou comida e chegou no final da caminhada faminto. Ele devorou os melões da macumba e deixou seus colegas brigarem pela galinha.
Por fim fomos dissuadidas pela gana do Élcio e fizemos a travessia em apenas dois dias, nada mal. Júlio estava contente, era a segunda travessia dele em menos de um mês.
Mas não estávamos no fim, ainda tivemos que caminhar pela estrada até o Recanto Eng. Lacerda, onde paramos para definitivamente descansar. Élcio ainda caminhou um pouco até achar sinal de celular para ligar para a mulher do Fiori, Solange, ir nos resgatar. Foi a 15° travessia do Élcio, Fiori nem teve o trabalho em contar, já esqueceu quantas vezes fez aquele inusitado caminho. Poucas foram as pessoas que fizeram esta travessia sem estar com um destes caminhantes, dentre eles conta-se o grupo "Nas Nuvens" e o Marcelo Brotto, presidente do CPM que começou sua travessia na Serra do Capivari.
A travessia ainda não tinha terminado, faltava ainda resgatar meu carro na Fazenda da Bolinha, fato que não foi difícil desta vez, com estrada seca. Aproveitamos a ocasião para comemorar a travessia comendo um lanche no tradicional Posto Tio Doca às margens da BR, local onde começam e acabam várias aventuras pelo Ibitiraquire, um local que voltarei muitas e muitas vezes a fim de sanar curiosidades sobre sua gênese geomorfológica. No rio que desce o Cotoxós para o Forquilha, achei, numa altitude de 1000 metros, restos rolados de uma pedra enferrujada e outra parecida com um conglomerado, também oxidado. Seria estas pedras uma canga laterítica? Mais tarde saberei. Se for, parte da história evolutiva da Serra do Mar poderá já ser interpretada. Veremos.