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Expedições
Cordón del Plata no inverno
2/11/2009 - Maximo

A chegada ao Cordón del Plata foi em condições invernais. A segunda e pior nevasca do ano caiu no dia 28 de Setembro, exatamente no dia que chegamos à cadeia. Eu já tinha ido à região de Vallecitos 2 vezes, mas nesta terceira vez, o lugar estava irreconhecível.


Las Veguitas que normalmente é um lindo vale verde irrigado por córregos de água cristalina, era apenas um grande campo nevado sem graça alguma. Um grande boulder era uma das únicas coisas que podiam ser diferenciadas na paisagem.    
 
No refúgio onde passamos a primeira noite, nos disseram que ninguém subira o vale há meses. Tivemos que abrir caminho, com trechos de neve chegando em partes até a minha coxa (e até a cintura de Isabel, que tem 1.65m).

Gastamos os 4 primeiros dias transportando 2 cargas de 50kg até o acampamento-base, onde pretendíamos permanecer pelo menos 10 dias e escalar o que pudéssemos.   

Logo que o tempo limpou, o lugar mais lembrava uma região polar. Após a nevasca, um vento muito forte começou a soprar de oeste e carregar a neve que foi depositada. Mal sabia eu, mas aquele vento iria durar o próximo mês inteiro.

Permanecemos no acampamento alguns dias para podermos aclimatar. Só então começamos a procurar algo que pudéssemos escalar.


A Supercanaleta do Rincón

   
Isabel já tinha tentado aquela rota, mas teve que descer devido ao mau tempo. Segundo ela, podia ser que no final existisse uma parte rochosa. Decidi levar 4 peças de proteção móvel em caso encontrássemos algo assim.

Começamos a subida às 4 da manhã e em apenas meia hora já estávamos na base da Supercanaleta. Ganhamos altitude bem rápido e já avistávamos o “cuello de botella” quando amanheceu.

Estávamos bem confiantes com aquela escalada. Apesar de termos que cavar degraus para cada passo, a neve não estava em condições tão ruins. Passamos várias manchas rochosas, até que as paredes de ambos lados começaram a se fechar, deixando uma pequena faixa de neve entre elas.

Aquele era o “cuello de botella”, que teoricamente era o crux da escalada. Passamos aquele trecho rapidamente e sem problemas. Ao fazer uma curva após este trecho, vimos que o corredor de neve acabava numa parede rochosa.

Várias escarpas rochosas se erguiam de ambos lados, porém a da direita parecia ser a mais alta. Ficava meio difícil em decidir o que era o cume e acabamos optando pela saída da direita.

Esta saída constava num corredor bem empinado de material esbranquiçado que levava a algo que parecia o cume. Já no começo achamos estranho o fato do lugar ser tão inclinado. O material esbranquiçado revelou ser neve bem mole com areia e pedras. A
sustentação tornou-se cada vez mais difícil até o ponto de se tornar impossível progredir. Tive que me contorcer para poder colocar 2 parafusos de gelo numa placa de gelo que milagrosamente estava ali e fazer segurança para Isabel.

Plumas de neve eram lançadas ao ar pelo vento que soprava na encosta acima do lugar que escalávamos. Pedras e neve pó caiam sobre nós constantemente. Às vezes esta caía como uma cachoeira constante e chegava a demorar minutos caindo. Quase congelava a mão toda vez que tentava proteger a parede nestas condições.

Isabel chegou até o ponto onde estávamos e armamos uma reunião. Deixei ela com um só parafuso pois eu iria precisá-los mais acima. Fiz os primeiros movimentos lateralmente usando a neve e uma parede rochosa como apoio. O pouco gelo existente na rota era tão
duro que não oferecia apoio algum. Me esforcei para colocar um Camalot 0.4 na lateral rochosa, mas este estava congelado quando tirei ele da cadeirinha. Lancei muitas palavras rudes ao ar por causa disso.

Usando uma mão só, consegui fazer o Camalot funcionar, o coloquei na rocha e continuei pela mesma saliência rochosa até encontrar uma placa de gelo para colocar um parafuso de gelo. Este entrou até a metade e parou por causa da rocha presente abaixo do gelo,
tive que usar uma fita curta para prender a corda nele.

Percorri os próximos 20 metros sem colocar nenhuma peça de proteção. Minhas mãos quase congelando e a inestabilidade do terreno me fizeram optar em escalar rápido em vez de parar para proteger.

Continuei progredindo pela linha rochosa, fazendo uma oposição no gelo que estava a 60cm de profundidade na neve. Tinha que cavar um poço antecipadamente para cada movimento que eu queria fazer. Isso me dava muita inestabilidade. A rocha estava muito podre e tampouco oferecia boa sustentação.

Avistei uma torre rochosa à minha esquerda e decidi subir por ela. Me esforcei muito para chegar nessa torre pois tive que escalar sexto grau brasileiro usando as piquetas e crampons e ainda mais o peso da mochila. Encontrei uma rachadura rochosa muito boa para apoiar minha piqueta e decidi proteger a parede com algo. Após limpar a parede um pouco, encontrei uma rachadura que poderia aceitar um Camalot 2. Aquilo era bom demais para ser verdade. Mal acreditei quando a peça entrou e ficou encaixada. Senti um grande alívio em ter protegido aqueles vinte e poucos metros.

O resto da escalada na torre rochosa foi buscando apoios com as piquetas na rocha, porém não pude proteger este trecho.

Do topo da torre eu pude entrar em outra canaleta. Um colo dominou meu horizonte norte. Ao sul eu podia ver Mendoza e quase todo o caminho percorrido para chegar ali. Podia ver Isabel se esquivando e pulando o material solto que caía quando eu escalava. Eu já não sentia minhas mãos mas estava muito empolgado pois faltavam menos de 20 metros até o final.
 
O final foi numa pendente de 80 graus de verglass. Confesso que deu muito medo progredir por ali pois meu último Camalot não estava numa posição tão boa para segurar uma queda daquelas. Me concentrei em cada movimento e prestei muita atenção no que eu estava fazendo. Tinha que bater pelo menos 10 vezes no mesmo lugar com crampons e piqueta para conseguir furar aquele verglass duro.

Progredi lentamente até me posicionar a 5 metros do colo. Eu podia ouvir o barulho do vento logo acima soprando a neve e sentia as pedrinhas carregadas pelo vento batendo no capacete. Comecei a ficar preocupado ao pensar na possibilidade de que aquele colo não fosse o cume. Poderia ser que fosse apenas uma escarpa na região e o cume estivesse longe. Fiquei realmente preocupado, mas tive que me concentrar na escalada.

Duvidoso, continuei até a minha cabeça superar o pequeno colo de 2 metros. Tendo a cara jateada de neve e areia, eu mal acreditei quando vi um imenso lugar plano diante dos meus olhos. Fiz o último metro com as piquetas na areia e pedras e rolei com todo meu corpo para uma mancha de neve. Após o último metro, notei que a corda
esticou.

O cume verdadeiro ficava a 30 ou 40 metros de caminhada dali. O Vallecitos e o Plata estavam ao sudoeste, o Aconcágua ficava a noroeste. Uma imensa pluma de neve podia ser vista suspensa no ar, do lado a favor do vento.

Usando minhas piquetas e uma barra de alumínio, montei uma grande acoragem em V no chão. Tive um grande problema de comunicação com Isabel pois eu não conseguia vê-la por causa da parede ou ouví-la por causa do vento.

Na esperança de que ela entendesse o que eu estava fazendo, montei a segurança e comecei a retesar a corda. Notei um progresso muito lento, porém havia progresso. O vento continuava soprando de frente e eu ainda não sentia minha mão direita. Meus pés
também estavam muito frios de duros. Eu chutava a mochila e o chão para ganhar sensibilidade novamente. Fiquei meia hora recolhendo centímetro por centímetro de corda até que o capacete alaranjado de Isabel apareceu na borda do colo.

Comemoramos e tomamos chá nos protegendo do vento. Percebemos o quanto estávamos cansados, afinal foram 1000 metros de escalada até ali. Deixamos as mochilas ancoradas na borda da parede e caminhamos alguns metros até o cume verdadeiro. O vento quase nos jogou de lado no caminho.

Antes de chegar ao cume, decidimos ir à borda da parede para ver a nossa rota. Ao chegar, notamos uma linha muito obvia de neve, que era a continuação original da Supercanaleta. Esta parecia ser bem fácil comparando com a saída que nós escolhemos e nem tinha trechos em rocha ou neve mole.

Desde o cume contemplamos todo o vale que percorrimos dali. Podíamos ver várias outras montanhas e inclusive o nosso acampamento. O vento ficou mais forte e decidimos descer pela rota normal. Chegamos por volta das 6 da tarde ao acampamento.


Leste do Vallecitos




Descansamos um dia inteiro depois da Supercanaleta.Não tínhamos muita idéia do que escalar depois. Ficamos olhando para a parede leste do Vallecitos, mas não decidimos exatamente o que fazer.

Sabíamos que queríamos fazer alguma coisa nela.

2 dias após termos escalado o Rincón, decidimos acordar durante a madrugada e escolher alguma linha no Vallecitos. O tempo porém não cooperou e jateou a barraca de areia e neve durante toda a manhã. Calculávamos que as rajadas chegaram a 90km/h. Tivemos
que ficar um dia inteiro dentro da barraca e isso custou comida e combustível que não tínhamos. Ficamos muito preocupados com o pouco que tínhamos e não teríamos comida para outro dia de mau tempo. Novamente, planejamos sair na próxima madrugada, mas desta vez as rajadas não foram tão fortes assim.

Saímos às 3 da manhã da barraca sem saber exatamente o que escalar. As rajadas de vento me fizeram pensar duas vezes e imaginei se uma daquelas rajadas me pegasse numa parede vertical.

Pensamos muito nisso, porém trocamos poucas palavras durante a subida.

Mais acima do acampamento base, adentramos um imenso vale com morenas glaciárias e grandes boulders. Era meio fantasmagórico andentrar aquela região à noite, tendo apenas as nossas lanternas como foco de luz. Continuamos por grandes manchas de neve com rochas no meio até que a rocha desaparecera completamente e a mancha se tornara uma
rampa.

Já estávamos ali há 12 dias e não tínhamos muita vontade de escalar algo extremo. A rampa tinha 45 graus e era um tanto confortável continuar ascendendo uma rota monótona como aquela.

A luz do sol começou a aparecer no horizonte e começou a iluminar todos os cumes de montanhas antes de chegar onde estávamos. Um belo amanhecer revelou uma boa plataforma para descansar, comer e beber chá quente. Estávamos a pouco mais de 100 metros de desnível do topo de onde acreditávamos ser a crista norte-sul do Vallecitos. Estávamos muito confiantes disso e eu até parei para dizer que fácil tinha sido aquela escalada.

Ainda muito confiantes, mas desta vez com muito calor, chegamos ao colo que desembocaria na tão esperada crista. Ao chegar, surpresa, um abismo! A parede sul surgira do nada, totalmente fora da nossa previsão. Tudo fez sentido. Tive que olhar no GPS para confirmar, aquilo era mesmo a parede sul. O colo levava apenas a uma
crista entre a parede sul e leste. A crista onde queríamos chegar estava bem a leste dali.

Parado ali na crista eu pude observar uma exposta travessia em rocha e gelo duro. O fato de não termos ali nenhuma peça móvel para rocha deu o veredito: teríamos que voltar para tentar nossa sorte na próxima rampa de neve, senão, abandonaríamos a escalada.

Descemos 40 metros na exposta rampa para entrar em outra de 65 graus de inclinação. Esta levava a um outro colo, atrás da torre rochosa que chegáramos antes. Eu já estava conformado em descer pois o colo também chegaria na mesma crista. Ao chegar, surpresa! Uma rampa conduzia a algo que parecia ser uma crista transitável.

Nosso estado de ânimo mudou totalmente. Chegamos até a ir mais rápido. Teríamos que ter nos encordado, mas na empolgação e preguiça de ter pego a corda, nem pensamos nisso.

Chegamos à borda de uma crista que acabou se revelando intransitável pelo sul e novamente veio à cabeça aquela dúvida. Para continuar teríamos que escalar um trecho mixto bem exposto, contornar uma torre rochosa, subir nela e aí sim tentar achar
outro caminho pela crista.

A rocha estava totalmente solta e havia que testar cada rocha antes de se agarrar nela com a piqueta. Tivemos que optar em ignorar totalmente a possível queda ao sudeste caso algo desse errado.

Após a travessia, havia um outro trecho mixto a ser conquistado e outro logo a seguir, algo parecido com gelo. Muito apreensivos continuamos por cristas, corredores de neve e torres rochosas até chegar a uma rampa de neve que se dividia em 2. Optamos pela rampa da esquerda e já meio sem esperanças, continuamos até 5100 metros de altitude na direção a um colo.
 
Antes de chegar, decidi checar o GPS e constatei que a crista norte-sul estava a menos de 200 metros de nós. Aquele colo teria que levar á desejada crista. Ao vencer os últimos metros da crista avistamos uma barreira de cornisas um tanto longe. Esperávamos
que a crista estivesse atrás delas.

Sem perceber adentramos a parede sul, e sem corda começamos a fazer uma travessia diagonal em direção às cornisas. Também sem perceber, a inclinação tinha ficado com 75 graus. Em alguns pontos era impossível se sustentar e acabávamos nos afundando na neve sem conseguir subir. Não havia como tirar a mochila ou perder a paciência.
Havia que permanecer ali tentando.

Achando uma alternativa por baixo de bloco rochoso e por cima de outro, consegui chegar a uma parte menos instável no terreno e progredir relativamente rápido, abrindo fundas pegadas na parede. Minha mão entrava quase que totalmente na parede levando a piqueta inteira, além da minha luva e parte do braço para dentro da neve. Comecei a congelar a mão direita, mas eu estava muito perto da crista e tinha muita adrenalina para poder parar, tirar a mochila, achar os mitons, colocá-los e ainda por cima, não cair.

Já eram quase 2 da tarde e já estávamos há poucos metros das cornisas. Escolhemos uma delas e continuamos subindo. O terreno ficou mais inclinado ainda. Olhando para baixo entre os meus braços eu já quase não via a parede de tão inclinada. Eu apenas
enxergava os meus pés e o vulto de Isabel seguindo os buracos que cavei. Era preciso muita concentração no que se estava fazendo sem perder a atenção para o abismo, as mãos congelando e a empolgação de saber se aquilo era ou não era o final da parede. Os últimos 2 metros eram em neve bem dura e a parte de baixo das cornisas era oca. Isto tornava a escalada ainda mais assustadora. Fiz os últimos movimentos e subi na crista para finalmente avistar terra firme (quer dizer, brita) do outro lado. Tinha até uma trilha que é a rota normal de ascensão ao Vallecitos. Ao colocar a cabeça para fora da parede, senti o vento fortíssimo vindo do Chile.

Foi uma alegria imensa em chegar ali. Não só porquê foi a conclusão de uma escalada um tanto complicada, mas porquê a parede acabava mesmo ali, ao contrário das frustrações que tivemos anteriormente naquele dia.

Filmei Isabel escalando os últimos metros da parede. Comemoramos muito a chegada na crista e decidimos caminhar os últimos 300 metros de trilha até o cume do Vallecitos. Após chegarmos ao cume da montanha, lembrei que minhas mãos estavam quase congeladas. Desta vez me dei ao luxo de tirar a mochila e colocar os mitons.

Bebemos chá, tiramos fotos e contemplamos a paisagem por alguns minutos antes de começar a descida sob ventos fortíssimos do Chile. Descemos pela rota normal e chegamos relativamente rápido ao acampamento.

Dias mais tarde descobrimos que aqueles ventos fortes não foram só na montanha. Os ventos foram causados por um fenômeno local chamado Viento Zonda, similar ao vento Föhn dos Alpes. Aquele foi o segundo Zonda mais forte do ano.



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Cordón del Plata no inverno
Isabel durante tempestade

Cordón del Plata no inverno
Maximo durante tempestade

Cordón del Plata no inverno
Primeiro acampamento durante aproximação

Cordón del Plata no inverno
Fim da tempestade durante aproximação

Cordón del Plata no inverno
Isabel aproximando o vale

Cordón del Plata no inverno
Isabel aproximando o vale

Cordón del Plata no inverno
Vista de Salto

Cordón del Plata no inverno
Um rodamoinho de vento branco na crista do Rincón

Cordón del Plata no inverno
O caminho ao Vallecitos no Inverno

Cordón del Plata no inverno
Neve sendo carregada durante aproximação

Cordón del Plata no inverno
Nascer do sol desde Salto

Cordón del Plata no inverno
Avião cruzando o céu em Vallecitos

Cordón del Plata no inverno
Nascer do sol desde Salto

Cordón del Plata no inverno
Maximo durante subida ao colo Vallecitos-Plata

Cordón del Plata no inverno
Isabel de madrugada durante a subida

Cordón del Plata no inverno
Isabel durante a subida à Supercanaleta

Cordón del Plata no inverno
Isabel na Supercanaleta

Cordón del Plata no inverno
A parte alta da Supercanaleta

Cordón del Plata no inverno
Isabel e Maximo na Supercanaleta

Cordón del Plata no inverno
Maximo se hidratando pela manhã

Cordón del Plata no inverno
Nascer do sol durante a escalada da Supercanaleta

Cordón del Plata no inverno
Isabel no final da variante da Supercanaleta

Cordón del Plata no inverno
Maximo e Isabel no cume do Rincón

Cordón del Plata no inverno
Vista da rota escalada pela dupla desde o cume do Rincón

Cordón del Plata no inverno
Vista do vale desde o acampamento-base

Cordón del Plata no inverno
Isabel no acampamento base durante ventania

Cordón del Plata no inverno
Nascer do sol durante a escalada da Leste

Cordón del Plata no inverno
Isabel durante nascer do sol na Leste do Vallecitos

Cordón del Plata no inverno
Maximo no começo da subida da leste

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