Notícias Aprendendo a não subestimar a montanha 4/11/2009 - Maximo
Isabel Suppé e Maximo Kausch partiram no último dia 20 de Outubro para tentar escalar a parede sul do Cerro Plata. A dupla se impressionou com as condições extremas da montanha causadas pelo vento. Maximo contou que chegou a ser levantado do chão pelo vento.
Já estive várias vezes no Cordón do Plata, inclusive, estive escalando rotas técnicas ali no começo de Setembro deste ano. Quando surgiu a idéia de escalar a parede sul do Plata, que supostamente é um D+ de 1300 metros, na hora imaginei que o maior desafio seria a caminhada de aproximação e nunca imaginei que alguma coisa pudesse acontecer no trajeto. Como sempre fazemos, acabei subestimando a montanha, afinal, “é só o Plata!”
Não encontrei nenhum livro com com informações de rotas na parede. O que encontrei foram apenas informações de guias locais que já ouviram falar de alguém que tinha ido. Fiz uma rota de aproximação pelo Google Earth usando 2 diferentes vales. O total da aproximação deu 23 quilômetros desde uma vila chamada Piedras Blancas. Junto com Isabel chegamos de ônibus à pequena vila e milagrosamente conseguimos uma carona de 2.5km até a última fazenda do vale. Segundo o único habitante da fazenda, não havia trilha de aproximação que suba dali para a frente.
Passando os 3000 metros não há sinais humanos que não seja as luzes da região de Mendoza à noite. Encontramos diversas trilhas feitas por guanacos. Estas contornavam as encostas das montanhas, se perdiam nas manchas de neve e voltavam a aparecer alguns metros à frente. Espantosamente, os guanacos, de alguma forma, conseguem encontrar a trilha original mesmo com meio metro de neve. Uma destas trilhas na verdade, pode ser vista na foto de satélite. Se não fossem os guanacos, teríamos que seguir o caminho por um profundo vale com um rio muito caudaloso e pedras soltas.
As trilhas de guanacos nos deixaram numa crista rochosa a 3800 metros de altitude. Dali deveríamos seguir à oeste até um colo com 4150 metros de altitude. Supostamente, este colo deveria conter um lago onde poederíamos pegar àgua. Depois de ter montado a barraca, fui pegar àgua ao lago. Achei que teria que quebrar alguns centímetros de gelo, porém acabei cavando 60 centímetros no gelo maciço e não achei água. Tivemos que derreter neve.
O vento soprou muito forte aquela noite e nevou forte. Esperando acordar com a região toda tingida de branco, surpresa! Toda a neve foi carregada pelo vento e foi como se nem tivesse nevado!
Ao levantar acampamento, descobrimos que não só a neve foi carregada pelo vento, mas também o capacete de Isabel.
O lugar onde estávamos era realmente grande e plano. Procuramos por quase 1 hora e nem sinal do capacete laranja fluorescente. Ainda com muito vento, começamos a descer em direção a outro vale, que não tem nem nome e leva à base da parede sul. Ao entrar num corredor de neve que leva ao meio do vale, fomos surpreendidos por rajadas de vento muito fortes.
Eu peso quase 90kg e minha mochila pesava 33kg. Mesmo com mais de 120kg em cada pisada, eu cheguei a ser jogado de lado ou de costas pelo vento que vinha de oeste. Fiquei impressionado, pois só tinha visto algo parecido no Himalaia. A pobre Isabel, com pouco mais de 60kg, foi arremeçada diversas vezes pelo vento e demorou bem mais para chegar onde eu estava.
Mesmo não tendo chegado nem um pouco perto da base da parede sul, decidimos acampar pois não tínhamos condições nem de continuar caminhando. Com muito medo do vento, montamos um acampamento à prova de terremotos. Movi pedras com mais de 40kg, na tentativa de minimizar os problemas com a barraca. Ventou muito à noite, porém o meio dia parecia ser a hora de mais calmaria. Desmontamos o acampamento rapidamente e continuamos em direção à parede.
Mantendo o equilíbrio para não cair no chão empurrado pelas rajadas de vento, chegamos ao fim do vale. Havia um imenso circo glaciário, com glaciares suspensos à oeste e ao norte. Uma língua de gelo gigante cortava o vale no meio. Esta era de uma avalanche glaciária de proporções gigantescas, que provavelmente caira há alguns dias. Ela tinha 1300m X 300m. Não queria ter estado ali para testemunhar o fenômeno...
Tivemos muito trabalho nivelando o chão no lado leste do vale (longe das avalanches). Novamente usei pedras com algumas dezenas de quilos para estabilizar a barraca. Até fizemos uma parede com pedras para parar o vento.
A idéia era sair às duas da manhã e dependendo da sorte, até poderíamos abrir uma rota nova pelo meio da parede. Ao cair da noite porém, o vento começou a soprar cada vez mais forte até o ponto de dobrar a estrutura da barraca. Num intervalo de tempo muito curto, o tempo mudou de céu estrelado para uma tempestade. Ao acordar às duas da manhã e escutar a neve caindo e o vento jogando a barraca para os lados, nem mencionamos a possibilidade de sair da barraca. Nós dois continuamos dormindo sem dizer uma palavra. Assim novemente foi às 3 da manhã.
Já passei muitos dias em barracas esperando o tempo ruim passar, e sem ter absolutamente nada para fazer. Naquela ocasião às duas da manhã, até cheguei a pensar que não teria nada demais ficar ali um dia inteiro esperando o tempo ruim... mal sabia eu o que estava por vir.
Minha barraca é desenhada para suportar muito vento. E eu já confirmei isso usando ela em lugares que venta muito. Me sentindo meio afogado, acordei com o teto da barraca empurrando a minha cara. Incrivelmente, consegui mantêr a calma e não fiz absolutamente nada, pois eu confiava na barraca. Estendi a pregiça por mais 1 hora até que pouco depois do amanhecer, os 2 cordeletes que estavam na minha lateral, estouraram. Coloquei as meias de pluma de ganso e saí para resolver o problema. Por causa da neve e pedras carregadas pelo vento, era impossível abrir os olhos do lado de fora sem usar viseiras de ski.
A primeira coisa que notei, além das cordas que estouraram, foi que as pedras de 30kg que eu tinha usado tinham se movido! Eu estava abaixado na frente da barraca empilhando umas pedras e tentando bloquear um pouco o vento. Uma rajada soprou por trás e levantou a minha jaqueta. Aquilo me deu um frio tremendo, pois jogou neve por dentro da minha roupa. Rapidamente, tentei ficar de pé para fechar a jaqueta. Sem menos esperar, uma rajada me pegou de frente, me levantou do chão e me jogou numa mancha de neve há 3 metros de distância. Pousei com o pé e as duas mãos numas pedras.
Fiquei sem entender o que tinha acontecido ou exatamente onde eu estava. A mesma rajada com mais de 100 km/h, ainda soprou por mais alguns segundos. A lógica veio à minha cabeça e pensei que se o vento levanta um peso de 90kg, com certeza deve ter soprado a barraca aos ares. Rastejei de volta na direção da barraca e cheguei a ficar surpreso em constatar que ela ainda estava lá, com a Isabel do lado de dentro. Voltei à barraca traumatizado e com o pé machucado.
Esperando o pior Isabel começou a empacotar as coisas e vestir toda a sua roupa. Segundo ela, se a barraca voar, não ia querer dicar do lado de fora de meias e blusa. Aquela foi uma boa idéia. Vestimos até a viseiras de neve dentro da barraca. Literalmente, esperávamos que a barraca voasse, assim pegaríamos o que pudéssemos e iríamos embora de algum jeito. O pior não veio em meia hora, nem em uma hora e acabamos dormindo.
Novamente acordei com uma daquelas sensações de sufoco de quando o teto da barraca empurrava a minha cara contra o chão. Desta vez a sensação durou muito mais e por alguma razão o teto não voltou ao seu lugar. A palavra vareta estalou em minha mente!
A vareta do meio da barraca quebrou em dois lugares diferentes, rasgou o teto da barraca e saiu para fora. Esquecendo da preguiça, abri o zíper da barraca para retirar a vareta antes que ela rasgasse o tecido mais ainda. Com o teto da barraca no chão, consegui colocar os pedaços da vareta para dentro antes que algo pior acontecesse. Sem nem pensar, comecei a tentar arrumar a vareta. Ambos sabíamos que eu não tinha chance alguma de arrumar duas varetas quebradas pois eu não tinha nada para a tarefa. No entanto, usando pedras, um canivete e um esqueiro consegui arrumá-la. Usei pedras para lixar, bater e moldar e o canivete para separar a vareta do encaixe interno. Não sei como, mas em 20 minutos consegui produzir uma vareta nova, porém um pouco mais curta do que a original.
Ainda tinha que sair para fora da barraca para colocar a vareta nova. Com o vento menos forte algumas horas antes do meio dia, consegui sair pra fora daquele monte de nylon laranja sem ser arremeçado e começar a trabalhar. Mandando a escalada da parede aos ares, usei fitas e a corda de escalada para manter a barraca no chão. Incrivelmente, antes das 10 da manhã finalmente consegui montá-la e fixá-la ao chão para poder voltar para dentro.
Imensas plumas de neve eram erguidas aos céus pelo vento. Colunas de neve vindas de oeste jateavam a barraca. O vento não melhorou ao meio dia, porém com a barraca bem amarrada ao chão a nossa perspectiva mudou e decidimos tentar a parede novamente no dia seguinte.
Já tínhamos passado o “tanque reserva” da comida pois só tinhamos planejado 4, no máximo 5 dias para aquela escalada. Estávamos indo para o sexto dia na região e com 2 sopas para percorrer 23km de volta. À tarde, o vento acalmou e realmente achávamos ter uma possibilidade de escalar a parede. Ao cair da noite porém, começou a nevar forte e ficamos com muitas dúvidas.
A neve continuou por toda a noite e eu acordei várias vezes escutando o barulho da neve e constatando que era impossível escalar assim. Às 2 da manhã o alarme soou, porém os dois já estávamos acordados. Colocamos o alarme para as 3 da manhã e às 4, ainda na esperança de sair. A neve porém não deu trégua. Às 8 da manhã o vento começou a soprar novamente e também a dobrar a barraca novamente.
Nossa chance de escalar a montanha tinha ido embora com o vento. Comemos o último macarrão que tínhamos e estava guardado para o dia de ataque ao cume. Às 10 da manhã juntamos forças e saímos da barraca para empacotar tudo e desmontar a barraca para irmos embora.
Foi uma odisséia à parte desmontar o acampamento com tanto vento.
Fui embora com certa angústia em olhar para trás e pensar no que podia ter feito. No entanto eu sabia que não havia nada que pudesse ser feito naquelas condições. Isso me conformou. Enquanto estava caminhando e pensava nisso, o chão debaixo de mim desapareceu. Uma greta! Fiquei entalado com a mochila atrás de mim. Continuei afundando e de alguma forma consegui jogar os pés para frente e tirar a mochila para que ela não me impossibilitasse de sair caso eu caísse mais fundo.
Ainda meio sem entender o que tinha acontecido, mas já seguro, sentei do lado de fora da greta. Esta engoliu a minha garrafa de suco e tivemos que dividir 500ml nos próximos 9km.
Achando que o pior já tinha passado, continuamos o caminho até o colo onde estava aquele pequeno lago congelado a 4100 metros. O vento vinha por trás, e de certa forma tornava a caminhada mais fácil. Chegando ao fim do colo, o vento começou a ficar mais forte e uma daquelas rajadas fortes de vento me jogou ao chão. Eu já tinha até acostumado com aquilo e decidi sentar no chão para esperar a rajada.
Demorei alguns minutos ali e a rajada não parou de soprar. Constatei que não era só uma rajada, mas o vento ali soprava àquela velocidade, mais de 100 km/h. Era impossível olhar para trás para ver onde estava Isabel, pois a areia e neve danificaria os meus olhos. Tampouco era possível tirar a mochila para pegar a viseira de ski. Fiquei simplesmente sentado, esperando o vento e Isabel.
Ela apareceu (rastejou) até onde eu estava alguns minutos depois. Por ser mais leve ela não podia se dar ao luxo de sentar e tinha que ficar deitada com a mochila, de costas para o vento.
Dali teríamos que adentrar um vale com neve dura, com uma inclinação de uns 40 graus e assim chegar a um rio para poder sair dali. Caminhar em neve dura porém, estava fora de questão.
Caminhar, aliás, estava fora de questão. Aos gritos, decidimos rastejar até a borda do colo e cruzar uma mancha de neve transversalmente. Demorei alguns minutos em retirar as piquetas da mochila de Isabel e continuamos com uma cada um até chegar na neve.
Fui na frente cavando degraus e mantendo o equilíbrio o mais que eu podia. Isabel vinha atrás cravando sua piqueta e bastão, tentando se manter na neve. Perdemos mais ou menos 50 metros de altitude até um ponto onde o vento não soprava mais como se fosse um tufão e era possível até ficar de pé. Continuamos transversalmente até encontrarmos uma pendente de pedras soltas que nos permitiu descer.
Descemos mais de 1600 metros de desnível por 14km até chegarmos ao entardecer num lugar seguro para acampar aos 3000 metros de altitude. Era um tanto prazeroso poder beber água de um rio e ver plantas verdes. Podíamos até nos dar ao luxo de sair da barraca á noite só com uma blusa e especialmente, sem ser carregados pelo vento!
Dias mais tarde descobrimos que aqueles ventos fortes não foram só na montanha. Os ventos foram causados por um fenômeno local chamado Viento Zonda, similar ao vento Föhn dos Alpes. Aquele foi o Zonda mais forte do ano.