Expedições Expedição Kollasuyo 2007 8/7/2007 - Pedro
Kollasuyo é o território Sul do império Inca que equivaleria hoje ao que é a Bolívia, Chile e Argentina. Pois bem, foram estes exatamente os países por onde eu e meu amigo Marcio Carrilho percorremos com uma pick up Corsa com mais de 10 anos de uso por cerca de 10.000 ou mais quilômetros, muitas escaladas e várias descobertas em locais de paisagens incríveis. Este relato, feito em forma de diário, conta a história desta expedição.
Sexta-feira, Julho 06, 2007
Chegamos à fronteira da Argentina. Lugar muito estranho...
São três cidade em uma, mas cada delas em uma unidade politica diferente. Barracão é Estado do Paraná, Dionísio Cerqueira é Santa Catarina e Bernardo de Yrigoyen, Misiones, Argentina. Acordei cedo e enquanto o Marcio ficou cochilando, saí com o carro para agilizar o seguro carta verde que é obrigatório para entrar na Argentina. Foi muito engraçado, pois enquanto eu procurava uma seguradora, de repente, saí de uma avenida chamada 7 de setembro e entrei numa avenida chamada San Martin. Lá já era Argentina.
Acabei comprando o seguro em Santa Catarina e depois voltei para o Paraná para pegar o Marcio e dar inicio a mais um dia de viagem. Tudo caminha tranquilamente. As estradas até agora estavam boas, mesmo dentro da região do Contestado que segundo o que eu havia lido, era a região mais pobre do sul do Brasil. Não vi muita pobreza pelo caminho, pelo contrário, muitas paisagens bonitas onde ainda se preservam muitas Araucárias que são as árvores que dominam as paisagens do Planalto do Paraná e Santa Catarina. Achei interessante que 100 anos atrás estes lugares por onde passamos foram palco de uma das maiores guerras do Brasil, a Guerra do Contestado, onde além de haver uma batalha de territórios entre Santa Catarina e Paraná, houve também uma disputa entre colonos caboclos e uma companhia de estrada de ferro americana. Como resultado desta batalha, algumas cidades foram divididas ao meio e uma metade ficou para o Paraná e outra para Santa Catarina, como foi o caso de União da Vitória e Porto União, que carregam um nome bastante irônico para suas origens.
Daqui para frente vamos cruzar paisagens totalmente diferentes destas que conhecemos. As florestas ficarão para trás... entretanto isto ainda está por vir. Hoje pretendemos ir até Posadas, capital da Provincia de Misiones. Talvez a gente durma lá, ou em Encarnación, que fica do outro lado do rio Paraná no Paraguai. Vamos cruzar a fronteira novamente para comprar umas coisinhas para a viagem. Ontem fizemos o seguinte caminho (se quiser pegue o mapa e acompanhe):
* Curitiba x Mafra * Mafra x União da Vitória * União da Vitória x Palmas * Palmas x Barracão
Segunda-feira, Julho 09, 2007
Salta, noroeste da Argentina.
Chegamos em Salta, no noroeste da Argentina, ontem pela noite. A cidade é conhecida como a mais espanhola das cidades argentinas com uma arquitetura bastante peculiar.
Aqui estamos no sopé da Cordilheira dos Andes, entretanto em uma altitude baixa, cerca de 1200 metros. Salta nao é uma cidade muito fria. No verao as temperaturas sao elevadas e no inverno é bem fresco, pelo menos era quando estive aqui a cinco anos atrás.
Hoje o tempo está bem diferente daquele que conheci a meia década. Ontem uma massa de ar fria avançou pela Argentina e a temperatura despencou. O céu está nublado e bem feio, a temperatura está perto dos 3 graus. No sul está nevando bastante, em Neuquén fez -13 graus e um peao de roça morreu de frio! Em Buenos Aires está nevando e chovendo, assim como também está na província de Cordoba e San Luis, o que nao acontecia a muito tempo.
Hoje é um dos feriados mais importantes da Argentina, a data de independencia. Saí pela rua e pude ver uns festejos com musica e danças típicas daqui. É engraçado que o argentino fala mal o tempo todo de seu país, sempre fazendo um super drama, entretanto, quando tem um feriado nacional, ou a seleçao ganha alguma coisa, todo mundo pega um bandeira e fica todo orgulhoso.
Em alguns dias estaremos indo para a zona montanhosa da provincia. Vamos ficar muito tempo sem comunicaçao, pois vamos estar nos aclimatando na montanha. La Poma, 12 de julho
Puna de Atacama
O Cerro Cachi, de 6300 metros, a maior montanha da regiao do vale do Calchaqui No Noroeste da Argentina, a Cordilheira dos Andes faz parte de um geossistema paisagístico chamado Puna de Atacama, que é a região mais alta e seca da América do Sul, onde existem centenas de montanhas que se elevam a uma altitude superior a seis mil metros, a maioria delas sem neve permanente. Com exceção do Aconcágua, do Huascarán e do Mercedário, as outras sete das dez montanhas mais altas das Américas ficam na Puna de Atacama, e são todas vulcões: Ojos del Salado, Llullallaico, Pissis, Bonete Chico, Tres Cruces, El Muerto e Sajama.
Além destas, há muitas outras com menos de 6.500 metros, como Incahuasi, Cachi, Antofalla, Mulas Muertas e outras de cujos nomes já não lembro o nome. Como o nome sugere, a Puna quer dizer altura, ou seja, é a região mais alta do deserto do Atacama. A razão para a existência deste deserto está na influência da corrente fria de Humboldt, na costa do Chile, e da zona de alta pressão existente nesta latitude próxima ao Trópico de Capricórnio, aliado com a elevação dos Andes, que se comporta como uma eficiente barreira orográfica.
Todos estes fatores fazem da Puna do Atacama a região mais seca do mundo!
O relevo daqui é muito influenciado por eventos vulcânicos, além, claro, do tectonismo, que fez muitas placas se romperem, soerguerem-se ou dobrar-se formando relevos de cristas anticlinais e sinclinais, que veremos mais para frente. Muitas destas dobras deram origem a depressões onde existem lagos periódicos. Na época das chuvas, as águas são drenadas para o interior destas zonas arqueadas e junto com elas são transportados também sais de origem vulcânica.
Na época de seca, como agora, o nível freático destes lagos baixam significativamente e deixam aflorar seu substrato, constituído por sal, formando as chamadas salinas, ou salares, muito comuns por aqui. Apesar da paisagem inóspita, esta região é fácilmente acessível para veículos, isto porque em sua maior extensão a Puna é um grande altiplano, com poucas rupturas do relevo que desenham as chamadas "cuestas" , estas sim bastante escarpadas, como a Cuesta del Obispo, no caminho entre Salta e Cachi, e a Cuesta del Acay, que é a cabeceira do vale do Calchaqui, onde Cachi está situada e que conforma uma paisagem de pré-Puna, pois ali a altitude é mais baixa.
Apesar de toda esta configuração natural, a pré-Puna é habitada pelo homem há quase 10.000 anos, com povos nômades primitivos que eram caçadores e coletores. Até aproximadamente o ano 800 DC, pouco houve de evolução técnica, entretanto, depois do ano 1.000 DC, a região foi habitada por outros povos sedentarizados que já haviam domesticado o milho e a batata (aqui existem centenas de tipos), assim como também já domesticaram a lhama, utilizada tanto para transporte como para a produção de lã. No vale de Calchaqui, estes povos falavam a língua kankan, mas, por volta do ano 1460, eles foram conquistados pelos incas e seu território foi incorporado ao Collasuyo, a região sul do império inca. Os Incas do Collasuyo foram os primeiros a subir as montanhas da Puna. Estes escaladores pré-colombianos tinham motivações religiosas para as ascenções.
No cume de montanhas da região, como o Llullallaico e o Licancabur, foram encontrados muitas mómias incas que indicam rituais de funerais em montanha e deixam claro a motivação não esportiva para sua ascenção. Quase no cume do Llullallaico, que é a sétima montanha mais alta da América, existe o sítio arqueológico mais alto do mundo, de onde foram retiradas três mómias de crianças, que estão hoje no Museu de Arqueología de Alta Montaña, em Salta. O kankan foi logo suprimido pelo quéchua, a língua dos incas, deixando um vácuo para a compreensão das toponímias regionais mais antigas, como, por exemplo, o sufixo "gasta" , existente em diversos nomes de cidades, como Antofagasta, Aimogasta, Nonogasta e Payagasta.
Entretanto, muitas das toponímias regionais são em quéchua, que é um idioma de origem peruana. O próprio nome Cachi é quéchua e significa "sal" . A curiosidade da origem deste nome é que os incas achavam que a neve do cume do nevado Cachi, a montanha mais alta do vale de Calchaqui, na pré-Puna, com 6.300 metros, era sal. Isso mostra que montanhas nevadas por aquí são raridade, enquanto que sal aflorando em grande quantidade é muito comum. Os incas estiveram por cerca de 100 anos na região, tempo suficiente para trazer e introduzir aqui a infraestrutura e técnicas de Cuzco, a capital do império inca. Com isso, construíram muitas estradas, canais de irrigação e terraças para plantio de batata e milho.
Entretanto, esta economia entrou em declínio com chegada dos conquistadores espanhóis, por volta de 1540. Depois disso, a região sofreu uma substituição de sua economia tradicional para a criação e engorda de mulas, que eram usadas no trabalho e no transporte de prata da mina de Potosí, na Bolívia. O vale do Calchaqui tornou-se rota de tropas de mulas vindas das fazendas de Córdoba, Mendoza e San Juan, ao sul, em direção às regiões de extração de prata, na Bolívia e Peru, ao norte. Assim, o vale funcionava como entreposto e a Puna, como passagem.
Por incrível que pareça, a economia arriera, ou seja, da criação e engorda de mulas, foi a atividade principal até a década de 1940, quando o vale do Calchaqui foi pela primeira vez ligado à capital, Salta, por uma estrada. A partir daí, pouco a pouco a mula foi sendo substituído pelo caminhão. Hoje, esta região vive uma fase incipiente de exploração turística, onde o tradicional contrasta com o moderno, e o povo local com o turista internacional.
Mesmo em uma região aparentemente tão remota é possível dormir em um hotel confortável em povoados pitorescos, como La Poma (3.015m), San Antonio de los Cobres (3.775m) e ainda poder acessar internet por banda larga via satélite, além de tomar Coca-Cola e ainda comer uma tradicional salteña, pastelzinho assado típico daqui. Outra coisa que achei muito curiosa por estas bandas, e que traduz bem estas influências naturais no povoamento humano tradicional da região, é que na pré-Puna uma das matérias primas mais usadas na confecção de móveis e construção das casas é a madeira de um cacto, o cardon, que é a espécie vegetal mais abundante da região. Os cardones são cactos enormes e milenares, com indivíduos que chegam a seis metros de altura. Os povos locais cortam estes cactos e os secam, serrando em formato de tábuas, que depois de prontas adquirem um formato peculiar, com furos onde ficavam os espinhos. Além dos cardones, ainda existe um outro cacto, semelhante à palma nordestina, que se chama tunilla.
A família das cactaceas existe apenas no continente americano e está presente em todas as regiões áridas e semi-áridas do continente. O estudo desta família poderá responder questões sobre como os mosaicos vegetais americanos evoluíram. Em um estudo de Guillermo Sarmiento, da década de 1970, botânico argentino que mora na Venezuela, existe uma comparação das cactaceas existentes nas diversas coberturas vegetais secas da América. Ele concluiu que muitos cactos, apesar da proximidade e da semelhança, não guardam parentesco em grau de gênero, ou seja, que estas coberturas vegetais evoluíram paralelamente, mas sem trocas genéticas entre si.
Um exemplo disso é que as cactaceas da província fitogeográfica do Monte e da pré-Puna, ao lado oriental da cordilheira dos Andes, nada têm a ver com as cactaceas do Atacama, no lado ocidental. Da mesma forma, a vegetação seca do Chaco nada tem a ver com a caatinga no Nordeste brasileiro, apesar de suas fisionomias serem semelhantes.
Este estudo revelou também que ambas as formações secas guardam parentesco com as formações secas da Venezuela. Ou seja, lá teria sido a área fonte para a expansão dos cactos pela América do Sul, e provavelmente os desertos de Chihuahua e Sonora, no México e EUA, foram os locais onde surgiram a família das cactaceas.
Aproveitando as ambiguidades do tradicional com o global, usando a internet via satélite que existe aqui no povoado de La Poma, em pleno vale do Calchaqui, na região fitogeográfica da pré-Puna, coalhada de cardones e circundada por vulcões, iremos amanhã dar continuidade ao nosso processo de aclimatação.
Faremos uma rápida ascenção a um vulcão adormecido, em verdade dois pequenos vulcões, conhecidos como Los Gemelos (Os Gêmeos). Depois, vamos subir de carro uma das grandes quebras de relevo existentes na região, a cuesta del Acay, que fica no sopé do vulcão homônimo, de 5.770m, que devemos escalar nos próximos dias. Todos nossos passos serão registrados aqui no Gente de Montanha. Não percam os próximos relatos, com muitas curiosidades e aulas de geografia.
Segunda-feira, Julho 16, 2007
De Cachi a San Pedro de Atacama
Ao saírmos de Cachi, fomos em direção ao norte pela remota Ruta 40, que está toda sem calçamento. A estrada sobe o vale do rio Calchaqui até chegar na Abra del Acay alcançando 4900 metros sobre o nivel do mar, numa altitude que nenhuma estrada da América chega. A estrada tem uma inclinação pequena até o povoado de La Poma, depois ela começa a subir mais bruscamente zig-zagueando as vertentes do vale fazendo curvas muito fechadas e perigosas, que ficam ainda mais se houver gelo na pista, que para nossa sorte, não havia.
O carro ia perdendo potência conforme a altitude aumentava, ao mesmo tempo em que o motor se aquecia. A pouca concentração de oxigênio no ar de altitude dificulta a combustão do motor resultando nisto. A subida ia tudo bem, até que um pneu do carro furou.
Logo quando paramos o carro, ouvimos um barulho vindo do motor e logo vimos a água do radiador se esparramar no chão, o carro havia fervido. Quando tentamos abrir o capô do carro para ver o que havia acontecido, a alavanca que se usa para isto quebrou e não pudemos fazer nada, a não ser continuar a viagem com o que restava de água no radiador, e assim subimos o pouco que faltava para se chegar no Abra del Acay e começar a descer.
Foram cerca de 40 quilômetros em estrada de terra com o carro fervendo até chegar em San Antonio de Los Cobres, um milagre não ter fundido o motor. No dia seguinte fui procurar um mecânico para ver o que havia acontecido. Descobri que havia estourado uma mangueira do radiador. A ónica oficina aberta na cidade era horrível, nunca vi lugar tão sujo e cheio de de sucata, quer dizer, "peças".
Os mecânicos, que deviam ter uma ascendencia direta de Manco Capac, fizeram uma gambiarra para podermos voltar à Salta e assim fomos, tendo que completar o nivel de água do radiador de 20 em 20 quilômetros. Nossa arriscada tentativa valeu a pena e conseguimos chegar na cidade a tempo de poder arrumar o carro. Lá, descobrimos que foram três mangueiras quebradas e não somente uma!
Depois de finalmente consertar o carro, pegamos a estrada novamente em direção à San Salvador de Jujuy, para adiantar nossa viagem. Sem informação, fomos por uma estrada secundário horrorosa, em que a maior parte do tempo tem apenas uma faixa de carro. Para piorar, o motor esquentou denovo e tivemos que completar o nivel de água outras tantas vezes.
Em Jujuy, dormimos em um hotel super luxuoso, novidade para mim. Mesmo assim não pude dormir direito de tanta preocupação com o carro. Acordamos cedo e fomos a busca de outra oficina e assim conseguimos arrumar o carro por definitivo, o mecânico anterior simplesmente não tinha apertado direito as mangueiras.
Sedentos por estrada fomos logo deixando San Salvador para trás indo em direção aos Andes novamente. Subimos pela estrada internacional que cruza o passo de Jama, esta, inteiramente asfaltada, ainda bem!
Dormimos nosso óltima noite na Argentina na óltima cidade deste país e lá encontramos uma família paranaense viajando de Fusca! Sorte deles, pois com um carro que refrigera o motor com o ar, eles nunca iam ter problemas com as mangueiras. Atravessamos a fronteira no dia seguinte, ontém. A divisa entre os dois países fica numa altitude de 4100 metros, entretanto, quando se chega ao Chile, a estrada sobe ainda mais chegando a incriveis 4800 metros de altitude, num lugar onde a paisagem estava coberta de neve. Lá havia algum perigo, por isso a estrada fica fechada das 16:00 ás 10:00.
Não tivemos mais problemas com aquecimento do motor e foi uma agradável viagem pela Puna do Atacama, atravessando salares e paisagens interessantes , como a região de Tara, onde existe uma série de relevos ruiniformes numa altitude de aproximadamente 4700 metros, que é altitude do altiplano da região, provavelmente o mais alto dos Andes.
São mais de 100 quilômetros em que percorremos o altiplano da Puna, até que chegamos à base do vulcão Licancahur. Lá, a estrada mergulha e desce mais de 2000 metros sem ter quase nenhuma curva. A paisagem nevada fica para trás e aos poucos vamos chegando no deserto do Atacama, quase sem cobertura vegetal numa paisagem não muito favorável a habitação humana, a não ser nos Oásis, onde existem rios ou lagoas e a umidade permite a existência de árvores e outras vegetações, um desses oásis é San Pedro de Atacama.
San Pedro é uma cidade muito turística. Ela preserva sua arquitetura típica atacameña, com casas de adobe e chão de terra poerenta. É um lugar bonito com muitos gringos mochileiros. Mas está no Chile, e aqui as coisas são muito caras e os chilenos não sabem tratar bem os turistas, sabem apenas explarar os mesmos. É por este motivo que estamos indo embora daqui.
Já estamos a mais de dez dias de viagem e ainda estamos longe das montanhas que queremos escalar. Vamos apenas conhecer alguns lugares mais famosos e depois vamos pegar a estrada novamente. O objetivo agora é ir até Arica e de lá subir os Andes novamente até chegarmos na Bolívia. Nossa processo de aclimatação não está concluído.
Tínhamos a intensão de aclimatarmos no vulcão Láscar aqui perto, entretanto a estrada para lá está ruim, então por isso já vamos direto à Bolívia que é o que nos interessa.
Terça-feira, 17 Julho, 2007 Deserto
"O Chile não é um país, é um meridiano".
Essa frase do Marcio expressa bem a configuração territorial chilena. Este estreito e longo paisinho sul-americano é dividido politicamente em doze região, sendo que a primeira fica ao norte logo na divisa com o Peru e a óltima fica no extremo sul, englobando a região de Punta Arenas e a Terra do Fogo.
A cidade de San Pedro do Atacama fica na II região. Apesar de muito conhecida pelos brasileiros por causa do turismo, é uma cidade muito pequena e inexpressiva no contexto chileno. No norte do país, as principais cidade são Calama, Antofagasta, Iquique e Arica. Estas cidades têm porte e população consideráveis e são quase que oásis no meio do deserto, pois mesmo importantes, não existe quase nada humano entre entre elas.
A I e a II região do Chile já pertenceram ao Peru e à Bolívia respectivamente. Foram roubadas durante a guerra do pacífico no século XIX, quando estes dois países se aliaram contra o Chile que tinha interesses em tomar as preciosas minas de salitre da região, matéria prima para a fabricação de pólvora e de fertilizantes agrícolas.
O Chile conseguiu o que queria. Ficou com as minas de salitre e deixou a Bolívia sem mar, num momento da história que é até hoje martirizado pelos bolivianos. As vantagens econômicas da guerra, no entanto, não duraram muito, pois anos mais tarde os alemães iam descobrir um salitre artificial e o mundo deixou de comprar este insumo do Chile, transformando as cidades mineiras em verdadeiras cidades fantasmas, das quais a cidade de Humberstone, no meio do deserto, é um grande símbolo.
A Guerra do Pacífico só não foi um fracasso por que sem querer o Chile ficou com uma região riquíssima em Cobre, que na época não era tão valioso, mas que em nosso mundo movido à eletricidade transformou-se na maior fonte de renda do país. Esta mina chama-se Chuquicamata, e fica na cidade de Calama.
Chuquicamata é a maior mina de Cobre do mundo! São três mega crateras que foram abertas para extrair o precioso metal, das quais eu copiei uma imagem do Google Earth só para que tenham uma ideia da dimensão da maior delas.
Esta mega mina foi palco de intrigas e motivo de revolução. Ela pertencia a companhia Anaconda de mineração, empresa multinacional americana, bem retratada no filme diários de motocicleta. Ela foi nacionalizada durante o governo socialista de Salvador Allende e entregue novamente quando Pinochet assumiu o poder depois daquele fatídico 11 de Setembro de 1973, a data do golpe militar que até hoje está presente no Chile.
O Golpe militar que pôs no poder o general Augusto Pinochet foi sem dóvida o mais violento da América latina. Nele foram mortos mais de 200 mil pessoas, um nómero enorme para um país que na época tinha por volta de 10 milhões de habitantes. Desse tanto, foram eliminados os pensadores críticos e os artistas. O ato que representou a limpeza do pensamento chileno foi a morte do cantor e poeta Victor Jara em pleno Estádio Nacional de Santiago, que teve suas mãos decepadas para nunca mais tocar violão.
Dizem que a violência do golpe valeu a pena pelo "progresso" que o Chile vive desde a década de 1990. Entretanto viajando pelo interior do país não encontramos tal "progresso modelo" para a América latina, pelo contrário, vemos um país onde a riqueza se concentra numa minoria e pior, se concentra no espaço, pois fora a cidade de Santiago o Chile é um país rural e atrasado.
Isto se verifica aqui no norte. Para se ter uma ideia, a estrada que liga Iquique à Arica que tem cerca de 250 quilômetros, não tem um posto de gasolina se quer! A cidade onde fica a maior mina de cobre do mundo é feia e cheia de pobreza e desigualdade. Há ainda outra coisa sobre o Chile contida na frase célebre de meu companheiro de viagem que eu negligenciei no principio. "O Chile não é um país, é um meridiano e metido a besta".
Odeio generalizar pois isto sempre cai em redundância e achismos perigosos. No entanto, já conheci o Chile suficientemente bem, nestas 4 viagens que fiz por aqui, em meses de contato com o povo e por todo o país. Em minhas experiências pude constatar que o chileno é um povo racista, machista, pré-conceituoso arrogante de pouquíssima educação, nada de simpatia e acarismático.
"Hola" e "gracias" talvez tenham sido as palavras que eu mais escutei durante minhas viagens pelos Andes, mas no Chile tenho certeza que as palavras que mais ouvir foram na verdade frases: "Hay que pagar!" e "Es prohibido!" Sempre que um chileno se dirige a você, pode ter certeza que ele vem ou para te cobrar ou para te punir.
Em nossa viagem, não ficará marcado o Atacama que atravessamos ontem, saindo de San Pedro, passando por Calama e Iquique e chegando em Arica, na fronteira com o Peru na porta do Pacífico, ficará marcado este Chile deserto de humanidade e que ainda gosta do Pinochet.
Estamos deixando o Chile hoje. Daqui iremos novamente aos Andes. Serão quase 200 quilômetros até a fronteira com a Bolívia, onde iremos escalar o Sajama e Parinacota. Continua na parte 2