Expedições Tronador: Acertando as contas com a montanha 8/3/2003 - Maximo
Situado ao norte da Patagônia argentina, e a oitenta quilômetros da cidade de Bariloche, o Cerro Tronador é uma das montanhas mais impressionantes da Cordilheira dos Andes. A montanha é um antigo vulcão arruinado. Sua última explosão provocou uma completa desfiguração da imagem tradicional cônica de um vulcão, e desta maneira, o Cerro Tronador tem dois cumes que se elevam desde uma plataforma. O cume principal tem 3490 metros de altitude, e faz fronteira entre a Argentina e o Chile, o cume secundário, com 3200 metros pertence inteiramente à Argentina.
A plataforma aplainada de onde eleva-se os dois pontos culminantes formou condições ideais para o acúmulo de gelo, que a estas latitudes nunca param de ser alimentados. Desta maneira, no Cerro Tronador concentraram-se sete grandes glaciares, o que lhe confere o status de ser a montanhas com maior número de geleiras no mundo, e ainda com uma característica peculiar: todas os glaciares do Tronador acumularam-se no "segundo andar" da montanha, acima do platô de onde se erguem os cumes. Desta maneira, todas as línguas de gelo terminam em grandes precipícios com algumas centenas de metros de altura. Isso formou centenas de cachoeiras dos rios de degelo que correm debaixo das geleiras. Junto a elas, também se desprendem inúmeros seracs de gelo que ao cair fazem um estrondoso barulho semelhante a um trovão, daí o nome Tronador (trovejador em castelhano).
A primeira vez que eu e meu amigo Maximo Kausch estivemos no Tronador foi em março de 2000, durante nossa peregrinação de carona pelo fim do mundo. Naquela oportunidade, não pudemos nem sequer tentar uma ascensão. Com poucos equipamentos e saudados pela primeira grande nevasca do ano, bem no dia do aniversário de meu amigo, desistimos. Depois da desistência, ainda percorremos uma longa trilha beirando a montanha até sair no Chile, e continuar nossa Odisséia Austral. As imagens daquela montanha selvagem, encravada entre os lagos mais bonitos que já vira em minha vida e recoberta por densos bosques havia ficado estampada em minha mente por mais 3 anos, nos quais tive uma vida voltada para o montanhismo, escalando em muitos países e ganhando mais experiência. Eu não vira a hora de voltar para aquela montanha que no primeiro contato pareceu ser muito difícil.
A oportunidade surgiu no verão de 2003, após eu e Maximo termos escalado o vulcão Tupungato, mil quilômetros ao norte. Com tempo sobrando em nossas férias, voltamos para Bariloche três anos depois de nossa primeira viagem. Por estar situado entre os bosques da Patagônia, o Tronador apresenta uma aproximação bem mais agradável que as grandes montanhas do norte, em que altitude não permite o desenvolvimento da vegetação. A trilha que temos que percorrer até o acampamento-base serpenteia um contraforte da montanha, elevando-se desde um profundo vale com formato em "U", originado por glaciações. No fundo deste vale corre um rio de águas cristalinas e se desenvolve um rico bosque com árvores que alcançam facilmente 30 metros de altura. Quando ganhamos altitude, esta vegetação vai perdendo altura, até se tornar arbustos e aos pés do glaciar se resumir em pequenos musgos nas rochas. Ali montamos nosso acampamento, ao lado do refúgio Otto Meiling, pertencente ao Clube Andino de Bariloche (CAB). Ao montar nosso acampamento, nos lembramos como as coisas mudaram desde então. Somente nossa barraca atual já custou mais caro que todo nosso orçamento disponível em nossa primeira viagem, e que durou cinco longos meses.
Procuramos o local em que havíamos montado nossa pequena barraca que compramos numa agropecuária na primeira vez e fomos em seguida procurar um local para treinar algo que nem imaginávamos fazer 3 anos antes, escalar em gelo. Como havia nevado nos dias anteriores, o único lugar que encontramos para escalar em gelo próximo ao refúgio foram algumas gretas profundas que não haviam sido engolidas pela neve. Passamos dois dias brincando naquilo que é um dos maiores perigos dos montanhistas naquela montanha. As gretas são grandes fissuras no gelo, que podem conter algumas dezenas ou centenas de metros de profundidades, e normalmente ficam escondidas quando neva. Sem querer, algum montanhista distraído pode cair dentro de uma delas. Eu já lera sobre acidentes em gretas no Tronador. Uma vez, um grupo de argentinos caiu dentro de uma greta numa porção alta da montanha. Eles tiveram sorte de não terem se machucado com a queda, porém não conseguiam sair de dentro dela. A sorte foi que um dos montanhistas tinha um telefone celular, que funcionou lá embaixo. No final, foram resgatados com vida. Muitas vezes os escaladores não tem tanta sorte quanto estes argentinos. Eu já li sobre grandes montanhistas que caíram em gretas e perderam suas vidas. Infelizmente, estas armadilhas escondidas debaixo do gelo são a causa de morte da maioria dos escaladores de alta montanha, seguido por avalanches.
Saímos um dia pela madrugada para atacar o cume do Tronador. Escolhemos o cume argentino que é o mais fácil, e seguimos pela rota normal. Sair pela madrugada para atacar o cume é uma das estratégias mais corretas quando sua ascensão envolve progressão na neve e no gelo, pois ele ainda está duro e é mais seguro. Ao subir uma primeira rampa de gelo pelo glaciar Alerce, fomos presenteados no topo com um lindo nascer do sol. Encordados, tentamos saltar uma greta que iria encurtar nosso caminho. Primeiro foi Maximo, depois eu. Peguei distância e saltei, caindo de barriga do outro lado. O pequeno acidente não resultou em nada além de risos, mas me mostrou que nem sempre o caminho mais curto era o mais prudente.
Com muito mais cuidados continuamos a marcha montanha acima, até alcançar o colo entre os dois cumes da montanha. Ali, observamos os rastros de dois ingleses que dias antes tentaram subir uma parede de gelo do cume argentino que leva até o topo. A neve acumulada forçou eles a desistirem, para nós, que seguiríamos por outra rota mais fácil, isto apenas nos dificultou a progressão, pois nossas pernas se afundavam até a coxa. Continuamos a ascensão, sem dificuldades maiores, até alcançarmos o sopé dos dois cumes, quando de repente, um enorme bloco de neve despencou a menos de 50 metros nas paredes do cume internacional.
O barulho ensurdecedor me fez lembrar de uma lenda mapuche sobre a montanha que estávamos escalando. Esta lenda conta a história do cacique Linco Nahuel, que junto à sua tribo povoava os vales do grande Unon, como chamavam a montanha. Certo dia uma tribo inimiga invadira seu território, e com flechadas certeiras e mortais conquistaram a tribo mapuche e amordaçando os sobreviventes os levaram ao cume do Tronador, de onde os lançavam de um a um ao precipício, quando de repente a montanha se estremeceu e um grande alude levou à morte dos que sobre ela se encontravam, menos os dois caciques inimigos que ficaram eternamente no cume a escutar o trovar que nunca mais se calou.
Naquele momento me assustei com a força da montanha como Linco Nehuel deve ter se assustado na lenda, porém o destino nos reservou um final muito mais feliz. Em breve alcançamos o ponto mais difícil da escalada, um parede de gelo com aproximadamente setenta graus de inclinação. De princípio, deveríamos contornar um rochedo desescalando a parede e em seguida subir, após transpôr este obstáculo. Maximo foi na frente guiando. Aos poucos já não ouvia sua voz, quando pelo rádio ele me avisou que eu poderia ir. Olhando para baixo, havia um precipício de algumas centenas de metros, não era bom pensar muito. Por sorte, a boa qualidade do gelo facilitou a progressão, e ao contornar o rochedo eu já avistava Maximo sorrindo lá em cima.
Quando cheguei até onde Maximo fazia minha segurança, nem dei conta de que havíamos chegado no cume, parecia que havia mais, mas não. A escalada do Tronador fora tão tranqüila que imaginei existir outra parede para subir. No cume, pudemos avistar inúmeras montanhas da região por onde havíamos estado nos aventurando nestes anos. À frente, bem visível, estava o Vulcão Pontiagudo que seu nome já descrevendo como é. Ao fundo, aparece imponente, a mais de cem quilômetros ao norte o Vulcão Lanin, de formato triangular e seu vizinho menor, o nervoso vulcão Villarica. Há ainda outros vulcões como o Casablanca, Puyehue e o Osorno, que também são muito próximos.
A rota normal do Tronador é uma das mais freqüentadas e tradicionais escaladas nos Andes. Esta impressionante montanha, por seu fácil acesso e pela presença de inúmeras rotas com diferentes dificuldades (em que a normal é sem dúvida a mais fácil), se tornou na atualidade um verdadeiro campo escola para novatos e uma prova de técnica dos experientes. Para nós, este acerto de contas com o Tronador foi um encontro nostálgico com o passado e uma prova de que para o futuro, estaríamos prontos para encarar outros desafios e entrar em uma nova era de escaladas nas montanhas.