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Piores Momentos
Cego no Tadjiquistão
8/9/2006 - Maximo

De todos os piores momentos, acho que este foi o mais confuso... Montes Pamires, agosto de 2006, terceira semana de escaladas. Juntamente à um grupo de escaladores de várias nacionalidades, finalmente tínhamos conseguido montar o nosso sexto acampamento durante a escalada de um pico de 7000 metros.

Todos estavam extremamente cansados e com a adição de mau tempo, o resto dos meus companheiros decidiram descer até o segundo acampamento e esperar ali. Insistente, decidi ficar e esperar o mau tempo passar, assim como sempre fiz. Acabei permanecendo 4 noites acima de 6000 metros. Como muitas outras vezes, o meu plano de aclimatação ali foi péssimo e pouco comi e bebi no tempo que fiquei ali. A falta de combustível e comida adicionados à temperatura de -30ºC durante o dia, fizeram que minhas tarefas fossem muito limitadas. As poucas vezes que saí da barraca foi para desenterrar a própria e usar o banheiro. Gastei boa parte do meu tempo aprendendo o alfabeto russo.

Um dia antes do tempo melhorar, os meus companheiros decidiram tentar novamente e todos seguimos juntos até o cume. Mesmo desidratado, mal nutrido e extremamente cansado, continuei ao cume. Demoramos muitas horas para vencer as afiadas cristas até o cume meio a ventos cortantes. Foi uma escalada um tanto sofrida e pouco lembro do trecho que antecedeu o cume. Ficamos ali apenas 10 minutos, pois a temperatura oscilava ao redor dos -45ºC e ventos bidirecionais de 60 km/h, acabavam com qualquer possibilidade de descanso.

Durante a descida o meu único pensamento era chegar até o paradisíaco acampamento 3, situado num imenso glaciar, a 5700 metros de altitude. Ali eu me hidrataria e recuperaria as energias perdidas. Meio à descida encontramos um amigo russo a caminho de montar o seu quarto acampamento. 18 horas depois de termos saído, ainda estávamos descendo e eu ainda tinha aquele pensamento fixo de chegar ao terceiro acampamento.

Ainda tinha o russo em vista quando um imenso bloco de gelo se desprendeu de uma geleira, iniciando uma avalanche de gelo e neve. Incapazes de fazer qualquer coisa, podíamos ver aquele pequeno ponto escuro se movendo rapidamente, tentando escapar. A imensa massa desviou a uma centena de metros do lugar que estávamos, mas o russo fora levado embora. Decidimos subir, para pelo menos tentar encontrar o corpo e descobrir o seu sobrenome.

Meu plano foi aos ares. Aquelas poucas calorias restantes no meu corpo foram gastas na subida de 200 metros meio à torres instáveis de gelo e neve fofa. Quase 2 horas depois alcançamos o ponto onde ocorrera a fatalidade e não encontramos nada. Um tranqüilo chamado a 50 metros dali, revelou nosso amigo russo acenando desde o topo de um serac. Ao me aproximar percebi que algo estava errado. Ele esmigalhou o cotovelo e quebrou algumas costelas. Fumando com o outro braço, o pobre russo explicou o que aconteceu.

Tivemos muito trabalho em descê-lo até o acampamento 3. Apenas 1 hora antes de escurecer, meus companheiros continuaram e levaram o ferido até o acampamento 1 para continuar até o acampamento-base ao dia seguinte. De pouco adiantaria a minha ajuda por eu estar tão exausto. Decidi ficar ali e seguir o meu plano original.

Ao terminar a exaustiva tarefa de montar a barraca e quase desmaiar de cansaço, não lembro de mais nada até acordar no dia seguinte. Não derreti neve e não me hidratei naquela noite. A desidratação era tanta, que a minha língua chegava a colar no céu da minha boca, que mal produzia saliva. Incentivado por algo que parecia a luz do dia, decidi sair do meu saco de dormir.

Percebi imensos pontos obstruindo a minha visão. O meu olho esquerdo estava quase que totalmente obstruído e o direito ainda tinha um vão central, por onde eu enxergava e conseguia focar não mais que 1 metro de distância.

Tentei manter a calma e realizar algumas tarefas rotineiras para ascender o meu fogareiro e derreter um pouco de neve. Tive sucesso na minha segunda tentativa. Primeiramente, lembro ter associado a cegueira com a minha desidratação. Segundo minha teoria eu estaria tão desidratado, que os meus olhos secaram e eu precisava rehidratá-los. Ainda com a estúpida teoria em mente, hidratei eles com um pouco de água que acumulei na minha garrafa.

Quase congelei com o excesso de água que derramei nas minhas roupas e não obtive sucesso em rehidratar os meu olhos. Passei a associar a cegueira à mais popular das causas de cegueira em montanha, a luz solar. Decidi usar óculos e uma viseira de ski, para proteger "o que sobrava" dos meus olhos.

Tentei comunicar com os meus amigos no acampamento-base, mas uma imensa montanha chamada Pik Chapayev atrapalhou o sinal VHF do meu rádio. Um tanto quanto desesperado, tomei a decisão de descer.

Desmontar o acampamento foi uma odisséia a parte. Usando apenas o tato, consegui identificar algumas barras de cereal que encontrei misturadas com a minha corda e equipamento. Comi uma e guardei a outra para viagem. Sem entender exatamente o que estava fazendo, enfiei tudo o que encontrei dentro da minha mochila e iniciei a descida.

Inicialmente, foi bem difícil entender que caminho seguir. Com muito peso na consciência, tive que tirar viseira e os óculos, para usar o minúsculo campo de visão do meu olho direito e identificar linhas. Felizmente, 4 pessoas carregando um ferido deixam muitas pegadas na neve e obtive sucesso na segunda ou terceira tentativa em achar pegadas. À cada passagem técnica eu tinha um trabalhão em reencontrar o caminho e seguir.

Após um dia inteiro, eu não fazia idéia de onde estava, pois não conseguia identificar as montanhas no horizonte. Era bem assustador quando eu escutava pequenas avalanches, ou pedras caindo, assobiando bem na frente do meu rosto. Ao acabar de montar a barraca, percebi que eu não tinha mais esqueiro. Meus fósforos estavam molhados e eu não teria sucesso em fazer fogo com as faíscas elétricas da bateria do rádio, pois estava quase cego. Eu tinha um pacote de mousse de chocolate e sonhava e consumí-lo já faziam alguns dias. Na falta de água, acabei consumindo o pó seco de dentro do pacote. Isso me deshidratou mais ainda.

Tentei usar o rádio sucessivamente e numa das vezes consegui obter uma resposta de um dos meus companheiros presentes no acampamento-base. A voz apareceu bem clara, sem interferências, achei que eu teria estabelecido um sinal bom e comecei a minha conversa:
_"Você não acreditaria!!!"
_"O que?"
...interferência...
Perdi completamente o sinal e me arrependi em não ter começado a conversa com algo como "Estou cego" ou "Preciso de ajuda".

Mais uma noite quase desidratado, acordei com luminosidade do lado de fora. Fazia calor e até tirei a jaqueta. O altímetro do meu GPS acusava 5300 metros de altitude. Como eu não tinha marcado nenhuma coordenada que não seja o acampamento-base e os acampamentos superiores, não consegui me guiar. De pouco adiantaria seguir a direção até o base, pois pelo que eu lembrava o caminho era bem sinuoso e cheio de curvas. Comi um pouco de neve e consumi a segunda barra de cereal.

Novamente comecei a descer. Consegui sair da geleira e alcançar morenas glaciares. De alguma forma, pulei o segundo acampamento e talvez o primeiro. Jamais soube o que aconteceu com eles. Tive muita sorte pois nevou pouco ali embaixo e as pegadas eram facilmente identificadas. Quase no final do dia, escutei barulho de água e me guiei por este até a borda de um glaciar.

Várias rochas e pedaços de gelo se desprendiam do próprio e explodiam no chão próximos ao local. A água valia o risco! Bebi um litro inteiro quase sem parar e quase congelei a garganta de tão fria que a água estava.

Tentei o rádio novamente e desta vez consegui contactar Eyal, um grande amigo meu que tinha descido o ferido 2 dias atrás. Combinamos em nos encontrar no meio do caminho. Lembrava que um trecho do caminho até o base era através de uma cachoeira de gelo, que tinha gretas e seracs. Eu seria incapaz de me guiar sozinho por ali e precisaria ajuda. Pouco antes de chegar na cachoeira, escutei um grito, e só consegui identificar a cara do meu amigo, quando ele estava a 2 metros de distância.

Ao chegar no tão sonhado acampamento-base, comi e me hidratei bastante, antes de desmaiar de sono. Meus amigos providenciaram alguns colírios, que pareceram ter ajudado. No terceiro dia, eu podia ver bem melhor com o olho direito, mas meu olho esquerdo permanecia parcialmente obstruído. Tratamos o caso como queimadura de córnea e tampei os olhos durante 36 horas, sem obter quase nenhuma melhora.

Após o tratamento, evitei ao máximo a exposição à luz, pois o diagnóstico mudou para queimadura de retina que é muito mais grave. Eu não sabia ao certo o que fazer e mesmo após 5 dias, meus olhos continuavam obstruídos.

Grande parte dos escaladores presentes ali no acampamento-base era da Polônia, integrantes de uma grande expedição de 12 pessoas. Vários deles já estavam no acampamento-base há dias, tentando se recuperar de congelamentos de primeiro e segundo grau. O lugar parecia mais um circo de horrores: congelados, fraturados e cegos...

Foi uma odisséia de mais de 1 semana, mas acabei conseguindo sair dos Pamires para finalmente encontrar um oftamologista e tentar entender o que aconteceu.

O meu olho direito estava muito melhor, mas o esquerdo continuava obstruído com um grande ponto alaranjado no centro da visão. Foi extremamente difícil explicar ao médico em Dushanbe, capital do Tadjiquistão, o que aconteceu. Ele receitou colírios e tratou o caso como queima de córnea. Teoricamente eu estaria melhor dali há 2 ou 3 dias.

10 dias depois eu estava na Turquia, e também fui tratado como tendo a córnea queimada, desta vez não acreditei e continuei o meu caminho de volta à casa, na Inglaterra. Uma semana depois, quase 1 mês após eu ter sofrido o danos nos olhos, eu finalmente consegui sentar na frente de um oftamologista que falasse uma língua que eu entendesse e explicar o que aconteceu. Após algumas observações básicas, o médico conseguiu identificar inúmeras hemorragias em ambas retinas. Algumas das hemorragias estavam quase no centro da minha visão, o que explicava as obstruções. Eu jamais teria ido ao médico se as hemorragias não fossem no centro da visão. Os médicos me informaram que eu tive retinopatia de altitude. Acabei perdendo 2 expedições no Himalaia por causa disso. O dano no meu olho esquerdo parece ser irreversível, até hoje tenho problemas com ele. 


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Cego no Tadjiquistão

Cego no Tadjiquistão
Quinto acampamento no Korjenevskoya, 6100 metros de altitude.

Cego no Tadjiquistão
Maximo à caminho do primeiro acampamento do Korjenevskoya. Glaciar Moshkvin e Pik Vorobjeva ao fundo.

Cego no Tadjiquistão
Mustafa no trecho final, perto do cume do Korjenevskoya.

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Pôr do sol visto do terceiro acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Mustafa, Maximo e um dos poloneses à caminho do quinto acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Final do trecho glaciário, entre o terceiro e quarto acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Caminho ao primeiro acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Um dos poloneses levando a última carga ao quinto acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Barracas espremidas no topo de um glaciar. Quarto acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Barracas espremidas no topo de um glaciar. Quarto acampamento do Korjenevskoya.

Cego no Tadjiquistão
Eyal no acampamento-base, proximo ao glaciar Moshkvin.

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