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Piores Momentos
Carregando 2 cadáveres montanha abaixo
8/2/2004 - Maximo

Aconcágua, fevereiro de 2004, após uma longa aclimatação de 2 semanas, várias escaladas verticais e 4 longos dias com 45 kg nas costas, achávamos que nada mais de ruim poderia acontecer. De todos os piores momentos que passamos, acho que o mais bizarro, foi aquele episódio dos cadáveres.

Naquela ocasião, nos encontrávamos no acampamento-base do lado leste do Aconcágua, quando recebemos um chamado de ajuda para ajudar a descer 2 alemães que faleceram no glaciar polonês. Depois de uma longa caminhada ao local, com cautela, me aproximei e a primeira coisa que vi foi a mão de um homem que estava de bruços sobre outro, obviamente congelado. Os dois ainda usavam suas roupas e equipamentos e um deles tinha as botas iguais às minhas. Todos os homens do grupo do resgate estavam descansando quando chegamos, assim, ajudei-os a recolocá-los encima de um tambor plástico cortado pela metade na vertical.

A idéia era que o tambor escorregasse melhor e não teríamos tantos problemas para descê-los montanha abaixo. Usamos as cordas deles mesmos para descê-los. No começo, ficamos todos cautelosos para não danificar os braços e o rosto dos pobres companheiros. Cada pedra que pudesse representar uma superfície cortante, era removida. A cada pedra grande, tínhamos que levantar os 160 kg do chão e passar por cima desta sem danificar muito os cadáveres.

À medida que íamos perdendo altitude e o cansaço ia aumentando, o descaso ia também aumentando. Era impossível mantêr tanto cuidado com a carga naquela altitude. Algumas horas depois que nos juntamos ao grupo, começou entardecer e ainda estávamos longe do acampamento. O braço de um deles estava dobrado para a frente protegendo o rosto e acabou atrapalhando muito na descida. Decidimos quebrar esse braço e acabar com a tortura para todos os que descíamos os corpos. Em vão, tentamos forçar o braço congelado para dentro, mas não conseguimos nem mesmo dobrá-lo. As pernas do cadáver debaixo também atrapalharam muito por estarem separadas demais, mas tampouco houve jeito de quebrá-las. Tentei forçá-las entre o meu peito e coxas, mas aquilo parecia aço. Qualquer pedra era motivo para parar e soltar as pernas do pobre homem.

Por volta das 6 da tarde, ao olhar para trás, eu podia ver uma grande pluma de neve carregada pelo vento que se erguia a centenas de metros acima do glaciar polonês. O sol estava se pondo próximo dali e os ventos brancos receberam um contorno alaranjado. A crista do glaciar leste, a 6200 mt, onde pretendíamos acampar, ficou iluminada, foi lindo! Foi uma merecida cerimônia para aqueles dois que carregávamos.

Todos estavam cansados, alguns exaustos, alguns simplesmente queriam jogar os corpos morro abaixo, mas todos nós sabíamos o que tínhamos que fazer. Naquela mesma silhueta glaciária avistamos dois pequenos pontos que sem explicação estavam se mexendo montanha acima. Eram dois escaladores que mesmo às 6 da tarde, a 6500 metros de altitude e com aqueles fortes ventos, insistiam em chegar ao cume.

Ao ver aquilo, todos sabíamos que eles não teriam chance de chegar ao cume e iriam ter que passar a noite ali mesmo, mas com o que já tínhamos que fazer não havia chance de subir aos 6500 naquele mesmo dia. O problema ficou a cargo dos próprios alpinistas e ninguém sabia ao certo se eles iam passar vivos daquela noite. Mais tarde, ficamos sabendo que eles estiveram à beira da morte e tiveram várias amputações nos dedos dos pés. Obra do acaso ou da irresponsabilidade, o mesmo aconteceu com os alemães, só que estes não tiveram tanta sorte.

O céu se tornou escuro e além do cansaço e altitude, tivemos que descer os corpos no escuro. Num ponto, perto do glaciar que conduz ao acampamento-base, o homem que estava à minha frente, escorregou para trás e esmagou o meu dedo com a piqueta que estava presa à sua mochila. Aquilo espalhou sangue encima dos mortos e complicou mais ainda a situação. Ninguém agüentava mais. A todo momento, alguém deixava escapar palavras de raiva, mas não havia o que fazer. Por rádio, pedimos ao posto central de guardaparques a 2800 mt, para que mandem um helicóptero, mas estes, sem preocupação alguma, nos davam a resposta negativa, alegando que havia muito vento para voar a 4000 naquele dia. Segui na frente, me revesando com um integrante do grupo de resgate. Eram 8:30 e já podíamos ver as lanternas do acampamento-base.

Por volta das 9 da noite, entramos nos limites do acampamento-base exaustos. Um dos guardaparques soltou a corda e simplesmente caiu de tão cansado, ficou lá alguns instantes como se estivesse comemorando a chegada. Haviam poucas pessoas para fora de suas barracas. Evidentemente, todos sabiam o que estava acontecendo, mas não queriam abalar a instável situação psicológica vendo aqueles corpos. Por dias, aquele foi o comentário dos acampamentos do Aconcágua. Guias de expedições grandes, proibiram os integrantes de ficarem olhando os corpos e quase todos tinham ido dormir mais cedo. Dos 4200 mt, ficaria mais fácil para o helicóptero resgatar os corpos na manhã seguinte, então fomos todos descansar.

Uma panela comunitária de sopa de lentilhas com salsichas foi preparada pelos guias e guardaparques que permaneceram no acampamento. Todos estavam famintos e ninguém falou nada por alguns minutos, mas isso não era só por causa da comida que estava boa, mas todos estavam imaginando pelo que tinham acabado de passar. A primeira observação que o médico do acampamento fez quando trouxemos os corpos, foi que estes estavam bastante mutilados e com escoriações: "...A queda foi feia...", disse ele, observando a situação lastimável dos corpos. Cínicos, todos nós concordamos, mas obviamente que fomos nós quem pioramos bastante a aparência dos cadáveres.

Depois da merecida janta, chegara hora de dormir, pois no dia seguinte tínhamos uma longa ascensão. Nem Pedro, nem eu, sabíamos o que pensar sobre a situação que acabáramos de passar. Até que a noite foi boa para um dia tão bizarro.

Antes mesmo de amanhecer, já começamos a escutar o helicóptero se aproximando para resgatar os cadáveres. Imaginava eu como eles iam fazer para encaixar os corpos naquele pequeno helicóptero, decidi ir lá fora para ver. Ao sair, reparei que tínhamos deixado os corpos bem na frente da barraca de uma australiana que acampava ali. Mal sabia ela o presente que ia encontrar na porta da barraca ao acordar. Depois de pousar o helicóptero, o piloto decidiu empacotar os cadáveres e amarrá-los do lado de fora com fitas. O braço de um deles continuava esticado e tiveram que amarrá-lo com fita adesiva à fuselagem. O helicóptero foi embora, e com ele, metade do acampamento-base. Achando que também iríamos embora por estarmos abalados pelo ocorrido, todos nos perguntavam quando é que íamos tentar novamente:

_"Hoje mesmo", respondemos.

Ainda ficamos mais 8 dias na montanha...


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