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Piores Momentos
Um rally de 400 quilômetros, de ônibus
1/3/2001 - Maximo

Com objetivo de pegar um trem para Uyuni, fui parar em Oruro no meio do altiplano boliviano, pois tinham me falado em La Paz, que um trem partia todos os dias para Uyuni. Mas como quase toda a informação na Bolívia, não era verdadeira.

O suposto trem só saía 2 vezes por semana e isso me fez buscar outro meio de atravessar a árida paisagem até o deserto de sal. Acabei encontrando um ônibus que fazia o trajeto, que por sinal era um pouco acidentado. Todos já me alertavam para não fazer essa viagem. Só fui entender o porquê, durante a viagem... Ao chegar à rodoviária, acabei entendendo o motivo das advertências.

A própria passagem, já era um pouco fora do comum, era uma fotocópia de um manuscrito que dizia "Los hombres tienen que ayudar", além do preço de 6 dólares para turistas. O ônibus 4x4 - que mais parecia um caminhão modificado para correr o Paris-Dacar - chamava a atenção meio aos outros transportes convencionais. A bagagem era colocada no teto do veículo, para evitar que tudo molhasse ao atravessar rios. Várias barras de ferro saiam do chão do ônibus e atravessavam o teto para suportar a bagagem, evitando assim, que o teto afundasse.

Após encontrar um espaço físico para sentar, descobri que as janelas eram seladas com uma espécie de cola e não existia qualquer tipo de ventilação. Fiquei meia hora no ônibus esperando ele sair, acho que seriam mais ou menos três da tarde e o lugar virou uma sauna. Após a partida, descobri que a ventilação vinha da porta que ficava aberta o tempo todo. As janelas amareladas não permitiam ver a paisagem com clareza do lado de fora, apenas alguns vultos amarelados que talvez fossem caminhões leves. Todos ultrapassavam nosso transporte, que estaria no máximo a 50 km/h. A estrada não tinha mais que 5 metros de lado a lado, não tinha nenhum trecho asfaltado e pelo incrível que pareça, tinha pedágio, com direito a policiais armados.

O cheiro insuportável dos outros passageiros, os vultos amarelos e o barulho do escapamento sem silenciador, tornavam tudo muito monótono e qualquer coisa, por simples que seja, era motivo de atenção para todos. Eu era o único forasteiro, denunciado pelas minhas roupas, altura e cabelo. Por isso, era observado e comentado em aymará durante toda a viagem.

Já era noite quando uma parada quebrou toda a monotonia: o ônibus estava atolado. O piloto falou alguma coisa em aymará que não entendi e saiu do ônibus. Só fui sair uns 10 minutos depois porque percebi que metade dos passageiros já estavam para fora. Fazia muito frio. Havia vários homens cavando e pegando pedras na estepe enquanto as mulheres se dividiam entre as que ficavam no ônibus e algumas do lado de fora, observando. Percebi também que todos portavam pás e piquetas, também não imaginava de onde eles tiraram tudo aquilo. Não demorou muito para desatolar aquele imenso veículo e partirmos.

Novamente, a velocidade de cruzeiro (de 50 km/h) foi reduzida drásticamente e o barulho do motor foi interrompido pelo silêncio: o ônibus atolou de novo. Desta vez o piloto traduziu a misteriosa palavra que ele gritava em aymará quando o ônibus atolava: “Hombres!”. Também entendi de onde vinham todas aquelas ferramentas para cavar, vinham de um compartimento na traseira do ônibus, onde também encontrei vários metros de corda.

Não tivemos muito trabalho para calçar as rodas do ônibus com pedras e cavar uma estrada paralela para partir. Todos caíram na gargalhada quando me viram cavando com a pá: "...Olha o gringo que trabalhador...", achando que eu não falasse espanhol.

Eu já estava acostumando ao barulho musical que vinha da caixa de marchas do ônibus quando escutei algo diferente, como se estivéssemos derrapando e resolvi ir à cabine do piloto para checar. Havia um co-piloto que limpava o vapor da janela a todo o momento e servia frango frito ao piloto. Reparei que ele dirigia com o ônibus cruzado na estrada, ou seja, não havia sustentação alguma naquele barro. O ônibus literalmente dançava de um lado ao outro e algumas vezes, claro, atolava. O piloto era muito respeitado pelos passageiros e tratado como autoridade, tudo o que ele falava era lei. Muitos vendedores de comida que viajavam conosco, ofereciam sua comida ao piloto, sem cobrar.

Conheci um contrabandista peruano que ia para Iquique no Chile, mas não troquei mais do que algumas palavras com ele. Após a quinta vez que atolamos, eu já fazia parte da equipe projetista, que decidia que procedimentos iríamos tomar para desatolar. Éramos nós: Daniel (o contrabandista), o piloto e eu.

Na sétima vez que atolamos, eu não suportava mais a presença de barro em todo o espaço físico do ônibus. Eu mesmo e a minha aparência marrom, já tinha um cheiro similar aos outros: uma mistura de esterco com terra e suor. Influenciado pela possibilidade daquela ser a última vez, saí lá fora para ajudar. Desta vez, estávamos no meio de uma grande lagoa de lodo e havia outras pessoas de outros veículos pelo lugar. Também haviam 3 bois grandes e velhos puxando uma camionete da década de 60. Isso explicava a presença daquelas cordas no compartimento. Seria totalmente desumano empurrar aquele ônibus já estando na lagoa, aí entravam os bois. Após amarrar os bois e dar um pequeno incentivo para eles andarem (um longo chicote de couro), eles nem responderam ao meu sinal. Daniel e o piloto também tentaram, mas nem sinal. Claro que tudo aquilo custava dinheiro, o uso dos bois custava um peso boliviano por pessoa (15 centavos de dólar).

Tive a idéia de usar açúcar para tirar os bois dali. Talvez os bois estivessem com um pouco de fome, pois eles arrancaram ônibus do atoleiro em alguns segundos, só para consumir o açúcar e, por pouco, uma parte da minha mão. Ganhei prestígio e respeito por ter aquela idéia e com certeza estaria na equipe pelo resto da viagem. O gringo já fazia parte de toda a turma e recebia tapas nas costas, mas ainda continuava sendo comentado em aymará. Alguns dias mais tarde, durante a minha travessia a pé pelo deserto do Atacama, me arrependi muito em ter dividido todo aquele açúcar com os bois.

Supostamente estaríamos perto de Uyuni e já estávamos quase comemorando e parabenizando todos os membros da equipe pelo feito. Mas o piloto estava em silêncio, como se algo grande estivesse por vir. Ele só abriu a boca para falar duas palavras: "Rio Moreno!". Daniel, talvez, lembrando suas tentativas frustradas de atravessar a fronteira, sentou e calou-se. Seus olhos ficaram esbugalhados e ele começou a dobrar a calça até a coxa e tirar os sapatos. Levando em conta a minha vasta experiência em desatolar ônibus no altiplano boliviano, pensei comigo mesmo: "o que pode ser pior do que última vez?...".

Eram mais ou menos 4 da manhã e fazia mais frio ainda, a luz da lua se encarregou de ajudar os faróis fracos do ônibus a iluminar uma descida que conduzia a um rio. O Rio Moreno é realmente grande quando se tenta atravessá-lo de ônibus na estação chuvosa. Mal consegui avistar a outra margem. Não acreditei quando, sem espanto nenhum, o piloto dirigiu aquela grande lata para dentro do rio. Como se fosse alguma coisa normal, as pessoas conversavam entre elas e comiam seus milhos e pedaços de frango.

Para acalmar o meu olhar de espanto, um velho me disse que o rio estava baixo e que não vamos ter que esperar...muito. Mas a água já estava na altura da canela, dentro do ônibus. Isso significava mais de um metro já no começo do rio. Assim como todo mundo fez, sentei numa poltrona e contemplei a paisagem amarela com os pés levantados. Aquela tortura não durou muito, pois, outra ainda pior começou, quando o motor do ônibus morreu.

Estávamos um pouco além da metade do rio, onde a inclinação começava ser para cima. O desespero e a incapacidade tomou conta das mulheres. Não acreditava que teríamos que fazer aquilo, mas foi Daniel quem falou: "Em mais ou menos 14 homens vai ser fácil". Isso significaria pular no rio de cueca e empurrar aquele monstro de lata para fora do rio, claro que com todas as mulheres obesas do lado de dentro.

Em mais ou menos 30 minutos, já tínhamos andado uns dez metros. As tentativas restantes foram frustradas, pois além de cansados, não conseguiríamos fazer o ônibus subir tudo aquilo. Pensava comigo mesmo e já tinha excluído a possibilidade, de falar para o piloto tentar a partida novamente. Alguém com tanta experiência não poderia ser tão estúpido ao ponto de não tentar isso. Mas foi Daniel quem falou.

_“Tente a partida novamente, vamos ver”

O piloto aceitou aquilo como uma grande idéia, e tentou algumas vezes até conseguir ligar aquele velho motor e dirigir para fora do rio. Aqueles 45 minutos na água congelante e o fato de descobrir que a maioria dos homens não usa cuecas na Bolívia, me fizeram subir no ônibus em poucos segundos. Um belo e desfocado amanhecer amarelo, me fez esquecer a tragédia e dormir.

Acordei horas mais tarde com o sol já forte e um calor insuportável. Desta vez não havia sinal de água, e ao contrário da noite anterior, desejei atravessar outro daqueles rios. Chegamos a Uyuni, mais ou menos às duas da tarde. Inacreditáveis 20 horas de rally para andar aqueles 400 quilômetros de rotas no meio do altiplano.

Ao sair do ônibus, todos cumprimentamos o piloto. Os idosos lhe prometeram orações outras coisas que não entendi, pois falaram em aymará. Encontrei com vários turistas que iam para La Paz, mas não queriam esperar o trem. Tentei convencer todo mundo: "não peguem o ônibus! Esperem o trem!".

Hoje em dia, foi construída uma estrada paralela, claro que sem asfalto. Mas pelo menos, os veículos conseguem ultrapassar os 80 km/h. Após minha viagem, passei recomendar às pessoas irem visitar o deserto de sal no INVERNO!!! 


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Um rally de 400 quilômetros, de ônibus
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