O próprio nome do trem já diz o quanto é agradável viajar em seus vagões. Este lendário trem antigamente ligava a cidade de Bauru no interior de São Paulo até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. Se hoje viajar pelo trilhos do trem da morte ainda é uma aventura, imagino à trinta anos atrás.
O trem é dividido em 5 classes. A primeiríssima que se chama Super Pullman, é onde viajam os estrangeiros e ricos. Os vagões são refrigerados por ar condicionado, as poltronas viram quase uma cama, existe serviço das ferro-moças que servem 3 refeições durante a viagem. Além disso, ainda há televisões para que as pessoas não tenham que olhar para a miséria do povo que circula lá fora.
A classe Pullman é menos confortável que a anterior, as cadeiras só reclinam e o espaço para os pés é razoavelmente pequeno. Em seguida, vem a primeira classe, (que é a terceira). Os bancos aí não reclinam e ficam o tempo todo à 90º. Em cada uma das longas poltronas, cabem 4 pessoas. Na segunda classe (que é a quarta), os bancos são virados um para a frente do outro, do modo que o lugar destinado para pôr as pernas de uma pessoa tem que caber 4 pernas. Para piorar, nesta classe, não são mais 4 poltronas postas alinhadas lado a lado, mas sim 5!
Não preciso nem dizer em qual das classes eu viajei nas duas vezes que estive escalando naquele país para aqui estar contido nos piores momentos das viagens. Normalmente, nas duas últimas classes só viajam índios e sacoleiros, além de passageiros ilegais que não tem dinheiro para pagar a passagem, assim, o vagão todo fica ocupado de gente e bagagens. A viagem dura 22 horas, e a cada parada os trens são invadidos por vendedores de frango assado, suco, café e porcarias em geral. O vagão já lotado tem seu espaço então disputado por estes ambulantes que caminham entre as pessoas equilibrando pratos de comida fumegante infestando aquela lata velha com cheiro de fritura. Ao mesmo tempo, contrabandistas atiram seus produtos pela janela toda vez que parávamos nos vilarejos. A pior parte é à noite. Os assentos são muito desconfortáveis da maneira que o chão se torna o local mais valorizado do trem, e todos se deitam lá. É impossível, com o balançar do vagão, conseguir dormir deitado.
Os banheiros, bom, se é que podem ser chamados assim, consistem numa pequena cabine que tem uma porta e um buraco no canto do chão. Pelo buraco se podem ver os trilhos. Ouvi rumores de que ultimamente, o banheiro é lavado mais de uma vez por dia!! Ao parar nas estações, nunca deixo de reparar na longa linha de fezes humanas localizadas um palmo para fora de ambos trilhos.
Antigamente, havia uma classe a menos no trem, o teto. Ali viajavam os clandestinos, o que deu o nome ao trem, pois quando chegava a noite, as pessoas dormiam e não era raro elas caíssem e morressem durante a viagem. Com o trem privatizado, os serviços melhoraram e isto não ocorre mais, assim como o transporte de animais, hoje, também é proibido.