GDM em RSS
 


Expedições
Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
1/10/2004 - Maximo

Sherpas, cordas fixas, oxigênio... Eu jamais tinha visto tudo aquilo. Ao mesmo tempo que todos se impressionavam ao encontrar alguém escalando em estilo alpino, eu também me impressionava com todas aquelas novidades.




Como é de costume nos Andes, percorri as trilhas de aproximação com todo o peso. As expedições comercias em contrapartida, transportavam toda carga com yaks e carregadores. Além de mim, somente os sherpas subiam com o próprio peso (e de mais alguém). Sempre com bom humor, todos os eles me cumprimentavam com um caloroso Namastê.
Cruzei dezenas de caravanas de yaks carregadas com mesas, cadeiras, toalhas de mesa, etc, utensílios extremamente “necessários" para o sucesso das expedições. Já começava a ter uma idéia de como é que seriam meus vizinhos no acampamento-base do Ama Dablam.
Cheguei rapidamente à Namche Bazar, a capital dos sherpas. O único acesso terrestre até ali, é por trilha e mesmo assim, Namche recebe caravanas de yaks de praticamente todas as direções, todos com o objetivo de fazer comércio. Até os anos 60, tibetanos costumavam atravessar o Himalaia para vender couro, lã e sal. Hoje em dia, seus filhos seguem o mesmo caminho, mas no lugar dos produtos tradicionais, levam roupas The North Face, Hardwear e outros.
O mercado tibetano de Namche é a alegria dos escaladores da região! Conheci um israelense pechinchando no mercado. Numa rápida troca de palavras, descobri suas intenções de escalar o Ama Dablam. Eyal pensava em se juntar a alguma expedição comercial e pagar por alguns serviços ao chegar ao acampamento-base, mas optou somente por carregadores. Concordamos em dividir as cordas e barracas nos acampamentos altos. Continuamos o trekking juntos de Namche até o acampamento-base. Ainda tínhamos um dia inteiro até lá, mas por causa da aclimatação, passamos uma noite próximos ao Monastério de Tengboche.
O vale khumbu e seus habitantes, lembram muito os Andes bolivianos. O biótipo das pessoas é praticamente o mesmo. A religião é algo muito mais marcado do que no altiplano. No Nepal, todos os atos e hábitos, estão ligados direta ou indiretamente à religião. Às vezes, é um pouco incômodo quando você comete o terrível erro de contornar uma pedra em sentido anti-horário, ou joga uma pedra no chão e todos ficam tentando explicar que aquilo é uma ofensa aos Deuses.

O vale começou a ganhar altitude e a vegetação começou a desaparecer, uma silhueta muito particular começou a surgir no horizonte, era o Ama Dablam, depois do quarto dia de caminhada! Um imenso pilar ocupa a sua totalidade esquerda, como se fosse uma montanha paralela.

O nome Ama Dablam, significa "Caixa de beleza da Deusa Mãe". Segundo a mitologia, a "Ama" (Mãe) seria o cume principal, seus ombros, o pilar oeste e a crista sudeste. Dablam, que é a Caixa de Beleza, é um glaciar retangular, pendurado a 6500 metros de altitude e é assustador! O fato de ser um glaciar mitológico, significa que está ali há muito tempo. Isso traz certo conforto, já que a primeira observação que se faz ao olhar ao cume principal é: "...tomara que aquele glaciar não caia..." Esquecendo a parte mitológica, não existem passagens fáceis entre o topo do crista sudeste a 5500 mts e o cume, com 6850 mts. Depois de meia hora de olhar cirúrgico, destrinchei toda a rota e os possíveis locais de acampamentos e avalanches. Outro imenso glaciar, situado logo abaixo do Dablam, determina o seguro acampamento 3. Não avistei algum lugar seguro entre o topo da crista sudeste e o acampamento 3, precisava chegar mais perto e observar melhor já que não seria fácil vencer 800 metros verticais sem parar para dormir.

A monção tinha recém terminado, vários escaladores de várias nacionalidades se espalharam pelo vale. Chegamos à base, enquanto vários escaladores, ainda estavam em Pangboche participando de uma grande puja, cerimônia budista para desejar boa sorte. Alguns dos líderes das expedições presentes no acampamento-base vieram dar as boas vindas dizendo que ali era perigoso demais para "alguém como eu", entre outras coisas. Respondia dizendo que aquilo era normal lá de onde eu vinha. Assim como qualquer acampamento-base, todo mundo sabe da vida de todo mundo. As fofocas correm soltas! Virei comentário de acampamento-base, toda vez que encontrava alguém, a conversa começava com: "Ah, você é aquele..."

Análise fria ao principal protagonista das escaladas no Himalaia: o Sherpa

Pequenos, mas troncudos em seu biótipo, sherpas sempre viveram na montanha. O fato de terem nascido na altitude e terem uma predisposição genética que lhes permite aclimatar mais rápido que qualquer outro, os torna hábeis a fazer tarefas nas quais qualquer outro ficaria exausto. A primeira sensação que se sente ao ver aqueles homens pesadas mochilas em grandes altitudes, é sentir pena. Refletindo friamente sobre sua história, lembramos que a altitude não supre todas suas necessidades, e o sherpa acaba tendo que cruzar vales ou mesmo descê-los, para conseguir seu sustento. Hoje em dia, em lugar de buscar lenha para a família, o Sherpa carrega peso e guia escaladas para expedições internacionais, ainda assim tirando o sustento disso.

Sherpas têm seu próprio idioma, totalmente diferente do nepalês, que tem origem hindu. Este tem origem tibetana. Isso explica a diferença de fisionomia, religião e tradições para com os habitantes das terras baixas.
Depois das primeiras expedições na década de 20, o sherpa começou a se especializar. Aos poucos, vieram ganhando destreza na escalada, chegando ao ponto de hoje fixarem quilômetros de cordas na totalidade de uma montanha. Infelizmente, a diferença de moedas tornou o preço dos serviços dos sherpas tão banais, que as expedições passaram a contratar o sherpa não somente como carregador ou escalador, mas como verdadeiros mordomos de altitude.

Em qualquer montanha fácil do Nepal, é comum ver pessoas sendo literalmente carregadas montanha acima por um sherpa. Esta nova moda chamada short-rope, ou seja, uma corda une o Sherpa ao cliente, que é puxado. Outra moda é contratar um personal, ou seja, um sherpa que fica com o cliente 24 horas por dia. Ele prepara a comida, monta a barraca, derrete neve e faz todas aquelas tarefas árduas de altitude. Provavelmente, a hora do banheiro, é o único momento que o personal sherpa não está presente. Em conseqüência, o maior número de fatalidades acaba sendo dos próprios sherpas, é claro.

De volta ao Ama Dablam, enquanto os clientes estavam se aclimatando no acampamento-base, os sherpas estariam preparando os acampamentos superiores e instalando cordas fixas. Já durante as caminhadas de aclimatação no Ama Dablam - que para mim eram na verdade caminhadas de transporte de suprimentos aos acampamentos mais altos - acabei conhecendo alguns sherpas e trocando algumas palavras, que geralmente eram a respeito da carga de ambos. Alguns falavam inglês e com estes era possível estabelecer um diálogo. Ficava curioso, pensando porquê eles não se propunham a realizar façanhas no Himalaia, como estabelecer novas rotas ou mesmo novas ascensões. Nenhum deles entendeu o porquê de subir uma montanha sem ser pago por isso. Entendi claramente que aquilo é uma forma de sustento e não necessariamente um esporte que lhes desperta tanto fascínio.

Um assassino chamado Jumar

O estilo alpino está começando a virar lenda. Ninguém mais quer sofrer, passar frio, cozinhar, etc. É raro encontrar pessoas que ainda sigam uma ética ou tenham uma certa linha de companheirismo em alta montanha. Certamente, o pior de tudo, é encontrar escaladores que nem mesmo escalam mais, mas simplesmente empunham o seu jumar montanha acima. De certa forma, acabou assassinando toda aquela magia que é guiar uma escalada. O jumar acabou possibilitando que qualquer um sem experiência prévia, suba uma montanha, desde que existam cordas fixas. E certamente, foram instaladas por sherpas.

Inovações técnicas trazem cada vez mais mordomias aos acampamentos base. Jamais tantas pessoas comeram churrasco, jogaram xadrez e falaram com a mamãe desde o acampamento-base. Até mesmo chuveiros são montados em acampamentos do Himalaia hoje em dia. No Ama Dablam, 5 grandes barracas refeitório se espalhavam pelo acampamento-base, ao redor delas estavam as barracas dormitório, a barraca cozinha e enfermaria de cada expedição. Dali de nossa pequena base de uma barraca só, comendo comida desidratada, Eyal e eu observávamos a cidade de nylon se desenvolvendo. Ao transportar suprimentos ao acampamento-base avançado, tínhamos inevitavelmente que passar por meio de alguns desses bairros. Todos ficavam olhando aqueles dois garotos de roupas velhas e mochilas grandes que ainda achavam que tinham chances de chegas ao cume. Pelo fato de nos identificarmos muito mais com os sherpas, acabamos fazendo amizade com eles.

Nos acampamentos, eles sempre deixavam escapar um pouco de chá, sem que os patrões os vissem. O mesmo fazíamos nós, no base avançado e no acampamento 1, e sempre os convidávamos para entrar na nossa minúscula barraca refeitório/dormitório/enfermaria dividindo o pouco que tínhamos.

Após um pequeno descanso em Pangboche

No final do segundo dia no acampamento 1, muitas nuvens lenticulares começaram a se formar no cume. Após ter visto aquilo dezenas de vezes nos Andes e ter me dado mal, era hora de descer e esperar. Eyal e suas experiências no Cazaquistão, diziam o mesmo. Concordamos em descer até Pangboche, bem mais abaixo do acampamento-base.
Deixamos o acampamento 1 montado a 5700 metros com todos os equipamentos e suprimentos. No caminho, passamos avisando todos os acampamentos sobre a previsão. Poucos nos deram ouvidos. Um dia depois, a 3900 mts, observávamos a grande tempestade de dentro do pequeno lodge de Nawang, um sherpa que conhecemos no acampamento-base. Tomando tsamba, escutávamos toda a tragédia se desenvolvendo na montanha pelo meu VHF.

Aparentemente, todos haviam retornado ao acampamento-base, meio àquela estranha tempestade de pós-monção. A neve chegou até Namche, a 3400 metros de altitude! Nevou todo o dia seguinte. Pela lente da câmera, meio às brechas na tempestade, observávamos várias pessoas abandonando a montanha. Nós não tínhamos escolha, tínhamos que voltar ao acampamento 1, pois havíamos deixado tudo ali. Decidimos fazê-lo no dia 15 de outubro, 2 dias após o começo da tempestade.

De tênis mesmo, começamos a rápida subida. Era absurdo, mas acreditávamos chegar naquele mesmo dia ao acampamento 1, ou seja, sair de Pangboche, chegar até o acampamento-base, continuar até o base avançado e continuar o íngreme caminho ao acampamento 1, tudo no mesmo dia. Ao chegar no base avançado, 5 horas depois, Eyal começou a reclamar de uma dor no peito, provavelmente por causa do ar frio durante tanto tempo. Continuamos e ao anoitecer chegamos exaustos ao acampamento 1. Ainda tivemos que desenterrar minha barraca baixo meio metro de neve. O trabalho durou 2 exaustivas horas, lembro que me enfiei na barraca e não me mexi até a manhã do dia seguinte de tão cansado. Percebi que apenas um grupo de canadenses permanecia no acampamento, mas já estavam de descida pois só estavam se aclimatando. Vimos um imenso rolo de corda estática no seu acampamento. Eyal, digamos... desinibido, foi pedir algumas centenas de metros de corda para fixar na rota. Achei aquilo absurdo, mas um dos líderes teve a fineza de nos ceder a corda. A corda plástica tinha apenas 7mm e era de qualidade bem ruim, mas seria uma grande ajuda mais acima. Além dela, ainda tínhamos a minha corda de 9mm de 60 mts.

Ouvimos pelo VHF que alguns sherpas de uma expedição norte-americana subiriam naquele mesmo dia para fixar cordas até o acampamento 3, mas a rota entupida de neve não estava nada convidativa e acabaram ficando lá embaixo mesmo. A escalada técnica começa um pouco antes do acampamento 1, mas é 100 metros depois dele que a coisa complica. Dali mesmo da barraca, conseguíamos ver 3 trechos bem técnicos. O primeiro foi uma travessia rochosa numa parede totalmente vertical a 6000 mts. O lance consistia em 5 movimentos que não chegavam a atingir um grau técnico muito extremo, mas confesso que 25Kgs nas costas, as botas duplas cobertas de neve e o frio constante, fizeram aquilo parecer bem mais difícil do que realmente é. A dor no peito de Eyal começou a piorar, e ele contraiu uma estranha tosse com fluído. Ficamos preocupados, mas ele concordou em continuar, afinal, não podia perder o que estava por vir.

O segundo trecho consistia em escalar a própria parede vertical por meio a longas chaminés e canaletas até o topo da chamada Torre Amarela. Com polias e muita paciência, tivemos que içar as mochilas mais tarde. Em alguns pontos, encontrei restos de cordas cortadas ou congeladas de talvez outras expedições que passaram ali no passado. Ao chegar ao topo da torre, encontrei outras barracas. O acampamento 2 era ali, mas as barracas estavam desabitadas. Provavelmente foram montadas e esquecidas desde a temporada anterior, ou alguns sherpas haviam subido para fixar cordas.

Eyal já não conseguia ficar um minuto sequer sem ter um horrível ataque de tosse. Depois de uma longa conversa, ele decidiu descer até o acampamento-base para ver se melhorava. Somente com sua roupa, alguns freios e equipamentos para retornar até ali, Eyal começou sua descida. Gastei o resto daquela tarde derretendo neve e me hidratando, afinal já estava a 6000 mts. A noite foi muito fria, era necessário fazer um pouco de contorcionismo antes de dormir já que nada ali era plano. Fiquei muito preocupado com o estado de Eyal, mas um sinal de rádio na manhã seguinte acabou com a preocupação. Meio as tosses, Eyal me disse que estava comendo todo o queijo de yak que tínhamos comprado e deixado no acampamento-base. Ele ficaria ali mais dois ou três dias e decidiria se iria continuar ou não.

Já não tinha mais ninguém para me fazer segurança, continuando a escalada. O rádio estava em silêncio e aqueles sherpas nem apareceram. Como algumas outras escaladas solitárias nos Alpes, improvisei um auto-seguro com meu gri-gri. Há vários poréns neste tipo de escalada, como por exemplo o de ter que voltar a via para resgatar o equipamento. Mas era a único jeito de subir se eu não quisesse esperar. Em boa parte dos trechos acabei fixando a corda plástica mesmo. Usei pontas rochosas e antigas ancoragens para fixar a corda, assim não teria que voltar e resgatar o meu equipamento. Iniciei a escalada por volta das 7 da manhã com o tempo ainda ruim. Somente quando se sai do acampamento 2 continuando a escalada é que se percebe o quanto aquele acampamento é absurdamente exposto. Literalmente, fica no topo de uma torre rochosa de centenas de metros de altura.

Após uma travessia por uma afiada crista de gelo, se chega ao terceiro trecho importante. Desta vez, consiste em escalada mixta e gelo que tecnicamente, não é tão difícil quanto as travessias nas altitudes inferiores, mas a exposição não se compara a qualquer outro trecho na montanha. A escalada passa por uma imensa canaleta com inclinação média de 80 graus com rocha e gelo de boa qualidade. Tinha que voltar e resgatar o meu equipamento na base da cordada, aquilo estava ficando chato no começo. Em alguns trechos, a rocha era bem sólida, mas havia de vencê-la escalando com piqueta e crampons. Às vezes, ancorava para descansar e observar todas aquelas famosas montanhas ao meu redor, nas quais sempre ouvi falar. As nuvens subiram o vale logo às 8 da manhã, e talvez por isso não encontrei mais ninguém naquela altitude. Lembrava das tempestades de raios e vento dos Andes Centrais e aquela modesta tempestade de pós monção nem se comparava.

Depois de passar do meio da grande canaleta ou Grand Couloir - como passou a ser chamada - avistei uma segunda canaleta um pouco mais acima. Desta vez, era uma de gelo e neve. Por causa da neve fofa, o primeiro trecho desta prometia outro desafio. Eu já estava exausto nos primeiros 200 metros de canaleta e ficava pensando como iria enfrentar a base da próxima canaleta.

Numa pequena plataforma no topo do Grand Couloir, parei para descansar e comer biscoitos. Depois de um dia inteiro de silêncio, comecei a escutar barulhos vindos da base da canaleta. Alguém subia a rota, e provavelmente pela minha corda (dos canadenses na verdade). Me contorci um pouco pela curiosidade em ver quem era. Avistei 3 pessoas subindo, e bem mais rápido que o normal, com certeza eram sherpas. Reconheci dois deles, e um deles a mim, pois o primeiro que ouvi foi "Argentina!!". Me alcançaram logo e reparei que todos os três estavam com seus jumares presos à corda de 7mm, pensei comigo mesmo: "...Isso que é confiança!..." Fiquei esperando eles me criticarem pelas pobres ancoragens que montei logo abaixo, mas nem mencionaram. Me trouxeram um parafuso e um camalot que ficaram 10 metros abaixo do ponto que eu estava e teriam que ser resgatados na sequência. Um dos sherpas, com muita habilidade, montou um abalakov à prova de terremotos (dois furos no gelo interligados de forma que se possa passar uma fita ou cordelete para montar uma ancoragem) e os três ficaram ancorados ali. Me ofereceram um pouco de chá com gordura de Yak e sal. Aquilo foi realmente bom para aquela insólita situação a 6150 metros, pois meus olhos quase viraram do avesso após sentir o gosto.

Dali até o acampamento 3, eram 150 metros de desnível, tudo com passagens técnicas e escaladas em 90 graus em gelo. Passei ótimos momentos escalando com os Sherpas. Talvez por causa da hipóxia dos mais de 6000 metros de altitude, caíamos todos na gargalhada por qualquer motivo. Sem entender palavra alguma do que eles diziam, achava muito engraçado em ver como é que eles levavam aquela escalada difícil com tanto humor. Em várias oportunidades quase perdi o equilíbrio tentando lhes explicar as coisas através de gestos. Um deles sabia algumas palavras em inglês, mas tinha muita vergonha.

Finalmente, às 4 da tarde, chegamos ao Mushroom Ridge, que conduz ao acampamento 3. Apesar dos 4 degraus de gelo de 90 graus, não apresenta tantas dificuldades como a canaleta mais abaixo. Em alguns pontos, a crista era incrivelmente afiada e não havia espaço para mais de um pé. A infinita face sul tomou conta do meu panorama esquerdo. Já podia ver quase todos os cumes nevados do pilar oeste, que não passavam de 6000 metros de altitude. Repentinamente, a crista deixou de ser afiada e o chão ficou com apenas alguns graus de inclinação. O acampamento 3 deveria ser montado ali. Já fazia bastante tempo que não caminhava num lugar tão plano e só teria que cavar um palmo para montar minha barraca, me senti muito mais seguro.
Os sherpas com pás de verdade e eu com meu capacete, começamos a cavar na neve.

Sempre às gargalhadas, demoramos quase 1 hora para terminar o serviço. As barracas montadas pelos sherpas seriam para seus clientes que estariam subindo dali a 4 dias e para eles, já era hora de descer. Iniciaram sua jornada de descida pouco antes de escurecer. Contemplei um espetacular pôr do sol antes de me internar dentro da barraca por causa do frio.

Me senti profundamente sozinho naquele acampamento a 6300 metros, queria conversar com alguém. A minha única chance seria o rádio VHF que só tinha uma bateria. Depois de convencer eu mesmo, mandei o racionamento de baterias aos ares e liguei o meu VHF para escutar algumas vozes humanas. Lembrei que havia participado de uma reunião no acampamento-base, na qual foi estabelecida uma freqüência VHF entre as expedições, e também algumas regras de comunicação. A principal era de que naquela freqüência só seriam tratados assuntos de extrema importância.

A primeira coisa que escutei ao entrar na freqüência, foram as fofocas das duas únicas mulheres presentes na montanha, as duas estavam no mesmo acampamento. Enviei minha primeira mensagem me identificando. Meio a uma tempestade que se desenvolvia na base, as pessoas ali presentes imaginavam o pior nos acampamentos altos. Imediatamente, outras pessoas entraram na freqüência, o que indicava que eu não era o único a se sentir sozinho e também que aquela conversa estava sendo ouvida por toda a montanha. Fofocas à parte, todos queriam saber como estavam as condições lá no alto. O fato de eu ter contado que o tempo lá em cima não estava tão ruim e que a rota estava com as partes mais difíceis já protegidas, causou alguns agitos e mudanças de decisões nos acampamentos mais abaixo. Percebi estar incrivelmente cansado naquela noite a 6300 metros de altitude. Acordei várias vezes com falta de ar. A noite foi muito fria, chegando a -20ºC dentro da barraca. Tive que dormir vestindo a jaqueta e as botas. Não tinha alguém pra me dizer o que fazer e me apressar com as coisas, como sempre acontece. A preguiça tomou conta de mim, fui dormir tarde, não derreti neve e não preparei nada para o dia seguinte. Estendendo a preguiça até o dia seguinte, acordei 6:30 da manhã. Preparei um pacote de liofilizados e derreti neve para ter o que beber no caminho ao cume. Por volta das 7 da manhã me obriguei a iniciar a escalada.

Após abrir o zíper e expor o microclima de dentro da minha barraca ao vento e frio lá de fora, quase mudei de idéia. Mas ao olhar para o céu, percebi que estava azul e sem nuvem alguma! Aquilo foi um grande incentivo para continuar. As paredes do pilar oeste estavam à minha esquerda, o Nuptse e o Pumori um pouco mais ao fundo. Acima, o imenso glaciar chamado Dablam continuava pendurado a 200 metros do acampamento. O cume e suas cristas bem definidas pareciam mais um convite.

Deixei o acampamento rapidamente. Os primeiros 10 metros ainda eram quase planos, mas à partir dali, começa uma imensa rampa de neve que conduz a um longo e profundo bergschrund, à esquerda do Dablam. A rampa vai ganhando inclinação até quase ficar vertical e morrer numa crista. Se o Dablam parece assustador visto debaixo, de cima é absurdo! Parece que ele vai cair a qualquer momento! Fazia muito frio! Em certas ocasiões, não conseguia manipular o equipamento pois estava usando minhas luvas. Várias vezes tentei usar a boca, assim como fazemos quando estamos escalando rocha. O que quer que fosse, um mosquetão, um freio, etc, todos acabavam ficando presos nos meus lábios por causa do frio.
Não queria nem pensar como iria atravessar o bergschrund, mas a única coisa que dominava meu panorama frontal, era ele mesmo. Uma ponte quebrada me deu o veredicto, eu tinha que pulá-lo. Sem oportunidade de montar uma ancoragem na neve fofa em sua margem mais baixa, eu apenas não podia cair. Acabei fazendo a tarefa sem pensar e atravessei com ambas piquetas firmadas do outro lado. A partir dali, uma série de rampas de gelo me conduziriam até uma série de linhas chamadas "flautas" que acabavam no próprio cume.
Começou a ventar forte. Toda vez que eu parava para descansar, tinha que ancorar e acabava perdendo muito calor, principalmente nas mãos. Tive que manter o mesmo ritmo sem ancorar em ponto algum até chegar às flautas, a meio caminho do cume.

Fora os ventos brancos, o dia estava realmente impecável. Em algumas oportunidades que tive de olhar para trás sem ter a cara jateada por ventos brancos, consegui avistar os três acampamentos montanha abaixo, além do acampamento-base, dentro do protegido vale entre o pilar oeste e a crista sudeste. Um novo horizonte aparecera ao sul. Centenas de montanhas e cadeias que eu nem sabia o nome, prevaleciam sobre a vista que eu estava acostumado a ver desde os acampamentos inferiores.

O caminho ao cume se tornou monótono, sem gretas ou bergsrhrunds que atravessar. Tinha apenas que me manter de pé naquela afiada linha e continuar. Meu MP3 player parou de funcionar, mas eu não ia me dar ao luxo de tirar as luvas para checar. Sem sequer perceber, acabei não montando nenhuma parada desde que entrei nas flautas, aquilo me deu certo orgulho por progredir mais rápido, mas também peso na consciência ao pensar nas possibilidades se eu tivesse caído.

Fiquei lembrando de todas as vezes que me imaginei ali naquele trecho. Mesmo sendo o mais fácil tecnicamente, na prática não era nada disso. Internado no próprio pensamento, uma hora havia se passado. Não percebi, mas já estava no cume. Uma imensa montanha sugira do nada, e sua cadeia tomara conta do horizonte ao Norte. Indiscutivelmente, era o Everest. Sem entender direito o que tinha acontecido continuei caminhando até o ponto mais alto, a alguns metros dali. Com a face norte do Ama Dablam a meus pés, sentei e contemplei a vista. Foi um tanto que triste olhar ao lado e não ter ninguém que dar uma cotovelada e dizer "Olha! Olha o Everest ali!". Tentei usar a minha câmera e tirei uma foto panorâmica para tentar dividir um pouco daquele momento.



Sem mesmo ter prestado atenção anteriormente, reparei num imenso maciço a sudeste. Muito mais impressionante e diferente que a cadeia do Everest, o Kangchejunga não tem outras montanhas que se aproximam à sua altura, 8600 metros de altitude. Acabei reconhecendo dezenas de outras montanhas que eu somente havia visto em fotos. O Taboche, Shisha Pangma, Cholatse, Malanphulan, Pumori, a face sul do Lhotse, Makalu, Baruntse, Cho Oyu, Chamlang, etc. Todos eles emergiam meio a outros cumes de menor altitude. Podia ver todo o vale Khumbu e os seus afluentes serpenteando profundos vales até desembocarem no rio de maior porte. Foi inacreditável! Não sabia o que sentir, provavelmente, o sentimento viria só à noite.
Como sempre acontece nos cumes, a estadia ali também tinha de ser breve. Eu já estava a mais de meia hora no cume e tinha que descer. Cansado após tantos dias de escaladas, foi difícil tomar a decisão. Ao levantar e dar os primeiros passos, cheguei ao topo da face sul, onde iniciaria a descida. Vento e neve novamente começaram atrapalhar a visão. Aquilo realmente não era convidativo, mas o meu saco de dormir quentinho a 5700 metros de altitude, até que não seria uma má idéia.

Cheguei algumas horas depois ao acampamento 3. Com nuvens se aproximando, desmontei minha barraca e continuei a caminho do acampamento 1, passando pelo 2. Ao rapelar a totalidade da torre amarela, reparei numa pessoa se contorcendo para fazer uma travessia técnica logo abaixo. Observando nas cores do equipamento, percebi que era Eyal. Nos encontramos na base da Torre Amarela.

Comemoramos ancorados em 2 parafusos de gelo. Bebemos chá e comemos queijo, olhando o Ama Dablam com outros olhos. Eyal ainda tinha meia montanha pela frente, mas ganhou muito mais confiança ao saber que a partir do acampamento 3 o caminho era mais fácil. Combinamos em nos encontrar no acampamento-base depois que tudo tivesse terminado. Eyal continuou a escalada e, 2 dias depois, acabou chegando ao cume com um italiano.

Fiz o último rappel até o acampamento 1 ao entardecer, dali o caminho de descida era em terra firme. Estava exausto após 12 horas de esforço físico, não enxergava mais com clareza. Alguns sherpas que conhecia vieram me cumprimentar. Vários líderes de expedições estavam ali sentados, não disseram outra coisa que um simples "oi". Todos estavam no café da tarde quando cheguei, ninguém ofereceu nem sequer um chá, mesmo com seus estoques ilimitados de chá preto com açúcar e leite. Lembrei que uma semana antes, enquanto eu ainda estava no acampamento 1 com Eyal, tínhamos convidado quase todos os escaladores e sherpas que estavam cansados para entrar na nossa barraca para tomar um pouco de chá e conversar.
Estava claro que não existia mais companheirismo ali por parte dos escaladores brancos. Decidi descer um pouco mais para montar minha barraca e ponderar. Ali, derretendo neve, sentado na base da crista sudeste, contemplava os últimos raios de sol sobre o Ama Dablam. Podia ver toda a rota. Nela, alguns pequenos pontos escuros se moviam lentamente montanha abaixo. Eram provavelmente sherpas que desciam depois de um longo dia fixando cordas.

Fiquei com saudades dos Andes, onde passei experiências maravilhosas e testemunhei infinitas ações de companheirismo.

Texto: Maximo Kausch


>> Gostou? Não deixe de comentar!!!
Publicidade:


Veja todas as fotos!

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Yaks a caminho de Pangboche

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Ponte a caminho de Pangboche

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Reserva de esterco de yak em Pangboche

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Primeira vista do Ama Dablam

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O Malaphulan e Shiva Linga

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O espetacular acampamento 2

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Zoom no acampamento 2

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Carregador comercial em Tengboche

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O acampamento-base do Ama Dablam

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Vista do Lhotse desde Pangboche

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O Ama Dablam desde Tengboche

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O mercado tibetano em Namche Bazar

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O mercado tibetano em Namche Bazar

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Aproximação ao acampamento-base do Everest. Primeira vista do Pumori

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O Ama Dablam visto desde Pangboche, Nepal

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Maximo aproximando o Ama Dablam

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O acampamento base avançado do Ama Dablam

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O acampamento 1

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Acampamento base visto desde o acampamento 1

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O acampamento 2

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Mochila de Maximo durante descanso numa canaleta

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Vista desde o acampamento 3

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Vista da rota do Ama Dablam desde o acampamento 1

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
a rota acima do acampamento 2

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Escaladores a caminho do acampamento 2

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
a rota acima do acampamento 2

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
O Acampamento 3

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Maximo no cume

Ama Dablam em Solitário - A saga de um Andinista no Himalaia
Lakpa Khongle a caminho do acampamento 2

        O site GentedeMontanha.com é mantido pelo Portal AltaMontanha.com