Escalar o Aconcágua fazia parte de meus planos há muito tempo. A primeira vez que planejei escalar a montanha foi em 99 quando junto com meu grande amigo Maximo, nos preparávamos para nossa primeira grande viagem.
Mal havia acabado o segundo grau e já embarquei num ônibus com destino à Argentina, terra natal de meu amigo. Naquela época ainda não dispúnhamos de bons equipamentos e menos ainda de dinheiro, necessário para pagar os salgados 160 dólares de permissão para escalar a montanha (na época!).
Tão pouco tínhamos experiência em alta montanha, o que nos levou a desistir da escalada antes mesmo dela começar. Em compensação à frustrada tentativa de atingir o Aconcágua, escalamos uma montanha quase tão alta quanto ela, o Cerro Plata, com 6300 metros de altitude (na verdade 5950, mas aumentado pelos hermanos), contra os 6962 metros do Sentinela de Pedra.
Escalamos o Plata com uma velha e remendada barraca Doyte para duas pessoas, pela qual pagamos 100 reais em uma agropecuária alguns anos atrás. Nossos equipamentos eram uma verdadeira gambiarra: luvas de lã cobertas com outra de motoqueiro, calças de tecido de guarda-chuva recheado com fibra de filtro de aquário, botas de couro comum, etc... (ver o relato da odisséia austral)
Mesmo estando perigosamente mal equipados, conquistamos nossa primeira montanha com relativa facilidade e inclusive superamos muitos gringos que duvidaram de nós. Provamos que com força de vontade era possível chegar lá. Durante nossa estadia na montanha, fomos os únicos a chegar ao cume. O Aconcágua ficou para trás, e mesmo sem dinheiro, fizemos uma viagem que ficará para sempre em nossas vidas. Com menos de 800 dólares cruzamos toda a Argentina e Chile, chegando a lugares remotos como Ushuaia, a Cidade mais Austral do mundo, na Terra do Fogo, Percorrendo 17.000 Quilômetros na Patagônia de carona. E ainda escalamos mais quatro montanhas, entre elas um vulcão em atividade.
Após cinco meses na Patagônia voltamos para casa, mas ainda não havíamos escalado a maior montanha da América, e estivemos tão perto! Como ainda não estávamos contentes, marcamos mais uma viagem para a Argentina, com a intenção de escalar o Aconcágua. Novamente corremos atrás de patrocínios e ficamos mais um ano economizando e engordando o porquinho, mas não foi o suficiente, o dinheiro que arrecadamos não dava nem para pagar os equipamentos que são caríssimos.
Como não havia meios para voltar à Argentina, na época dolarizada, decidimos ir a Bolívia e ao Peru que são países mais baratos. Nesta viagem ganhamos mais um companheiro, Fabio Fontana Rogério. Na Bolívia tentamos escalar o Cerro Huayna Potosi, de 6050 metros, em vão, já que ainda não dispúnhamos de equipamentos para suportar o frio extremo e a neve, que cobria o solo com uma altura de mais de dois metros do chão. Nesta viagem tivemos que nos contentar com a trilha de Machu-Pichu, e que foi uma maravilhosa experiência.
Cansado desta situação, ter que vender o almoço para comprar a janta, no sentido de ter de escolher entre escalar ou comprar os equipamentos de escalada, Maximo decide deixar o Brasil rumo à Inglaterra onde em apenas um mês de trabalho resolve o problema. Enquanto isso no Brasil, ficamos conhecendo Fábio Dellalio, um excelente escalador de rocha, que ao saber de nossas intenções de escalar o Aconcágua topou na hora o desafio. Fabio foi também o principal articulador na hora de conseguir o sonhado patrocínio, fechado com o Anglo-Campinas e Oxbrigde, que acreditaram em nosso potencial, e que se não fossem eles não teríamos conseguido esta grande conquista. Obrigado!!!
A Montanha
Chegamos na Argentina sob as agitações da deposição do ex-presidente Fernando de La Rua. No entanto o clima era até tranqüilo nas maravilhosas ruas de Mendoza, cidade planejada com ares europeus, de onde se faz o acesso ao Aconcágua, mesmo assim, eram constantes os panelaços.
A impressão da cidade não poderia ser a melhor, mesmo com as manifestações. Mendoza é limpa, com praças e avenidas arborizadas e bem cuidadas, um parque que é do tamanho da cidade, (parque San Martin) e é justamente neste parque onde se retira a permissão para escalar o Aconcágua. O preço é um assalto, 200 dólares para estrangeiros, e ainda quiseram nos roubar mais, inventando taxas, como por exemplo, a utilização de banheiro na montanha, um absurdo que não concordamos.
Nosso plano era escalar a montanha em no máximo 15 dias. Subir utilizando a rota noroeste, considerada normal e menos técnica e que é a mais utilizada. Nosso maior mérito seria escalar a montanha por nós mesmos, isso por que muitas pessoas contratam serviços de expedições comerciais que oferecem guias, refeições barracas, chuveiro, mulas para transportar as mochilas e outras comodidades que custam caro.
Desembarcamos na montanha no dia 18 de janeiro, chegando lá por volta das duas horas da tarde, e após alguns ajustes na mochila começamos a caminhada até o primeiro acampamento, 400 metros verticais de onde começava a trilha. A primeira etapa da ascensãoé a aproximação até Confluência, a 3200 mt. O motorista do albergue da juventude nos deixou na estrada de terra, à frente da oficina dos guardaparques, onde é preciso mostrar os permissos concebidos em Mendoza.
Ainda há vegetação no início da trilha, na quebrada de Horcones, onde há um lago com o mesmo nome. A trilha é larga no início, o suficiente para passar um Jipe, porém, ao passar a ponte pênsil sobre o barrento rio Horcones, ela se torna estreita e inclinada. De lá, se pode avistar o primeiro sinal de gelo da montanha, um pequeno bloco de uma antiga língua de glaciar ainda resiste sobre o rio, embora esteja muito sujo e coberto de barro. Neste início de trilha há uma visão frontal do imponente maciço montanhoso que é Aconcágua.
Logo no começo percebo que cometemos um erro em tentar chegar no primeiro acampamento naquele mesmo dia. Havíamos demorado meio dia para ir de Mendoza até lá, não havíamos almoçado, as mochilas estavam muito mal organizadas e já era tarde demais para tentar uma aproximação naquele lugar e àquela altitude.
No verão, é comum na cordilheira central, que o dia amanheça ensolarado e mude bruscamente depois do meio dia. Foi exatamente isso o que aconteceu. Após meia hora de uma penosa caminhada, começou a chover e a nevar, o que nos obrigou a usar o anorak. Porém, o tempo instável mudava constantemente e abria o sol novamente o que nos forçava a guardar as blusas, desorganizando a mochila ainda mais e nos atrasar, o que não era bom.
O resultado de nossa falta de estratégia foi terrível. Chegamos a Confluência (primeiro acampamento, a 3200 mt) às nove da noite e mal tínhamos força para armar acampamento, nem mesmo para preparar a comida. Pior ainda, foi que não havíamos dado tempo suficiente para deixar nosso corpo se acomodar com a altitude, culminando em fortes dores de cabeça em Maximo e Fabinho.
O trágico primeiro dia na montanha serviu de exemplo para o que não pode ser feito lá, mesmo assim, não aprendemos a lição. No dia seguinte fizemos um trekking de aclimatação, subimos até próximo dos 3400 metros de altitude sem peso, apenas para reconhecer o terreno e deixar o corpo acostumar. Esta caminhada acabou não rendendo muito, pois ainda não havíamos nos recuperados do dia anterior e novamente havíamos saído tarde demais. Além disso, pegamos um princípio de mau tempo.
Nossa experiência nos levou à conclusão de que não ia ser fácil subir os outros mil metros verticais que faltavam para chegar ao acampamento-base carregando todo nosso peso. Nesta hora, invejamos um pouco as mulas que carregavam os equipamentos. Como não somos mulas, resolvemos bancar os espertos e carregar as mochilas com metade dos equipamentos e as levamos até a metade do caminho, esperando que assim poupássemos energia. Porém, chegamos no local desejado completamente acabados chegando à conclusão de que o peso da mochila era apenas um fator a mais que dificultaria a escalada. A própria caminhada era o que mais cansava e ainda estávamos na metade do caminho do acampamento-base, que fica só a 4200 metros faltando ainda mais 2762 metros verticais para que nosso objetivo fosse cumprido.
Após confluência, logo após que se cruza o rio Horcones, há uma íngreme mas não muito alta vertente. No alto desta, começa a chamada Plaza Ancha, que é um fundo de vale largo e plano, que dá uma impressão que a partir daí o caminho ficaria mais suave. De fato, em Plaza Ancha o caminho se torna mais tranqüilo, porém, aí há que caminhar muito, até além de onde a vista alcança. Mesmo com o relevo a favor, nos cansamos muito e fizemos muitas bolhas nos pés, devido a grande quantidade de cascalho na trilha. Aliando estes fatores com a altitude e o cansaço do dia anterior, não conseguimos ter sucesso nesta tentativa de aproximação.
Guardamos nossos equipamentos em um amontoado de cascalho junto da trilha e voltamos no dia seguinte. Desta vez, sentimos algum progresso na caminhada e fizemos o percurso na metade de tempo que havíamos feito em dias anteriores, embora o fato de estar carregando só 20 quilos nos ajudou bastante. Porém, não eram todos que estavam bem, Fabio Fontana fez várias bolhas no pé e demorou muito para nos alcançar, e enquanto o esperávamos descobrimos o verdadeiro vilão que deixava a mochila um chumbo. Estávamos levando uma quantidade absurda de cereais.
Muitas pessoas acham que granola, müsli e outros cereais são bons alimentos para refeição em montanha. Particularmente não gosto muito de cereais, prefiro macarrão e outras coisas mais substanciosas e que tenham mais carboidratos. Em altitude, todos nós nos tornamos frescos em comida, é difícil fazer alguma coisa descer bem, por isso acho que o cardápio ideal é levar aquilo que você gosta. Isso nos levou a tomar uma decisão drástica, abandonar comida. Cada um de nós deixou pelo menos 5 quilos de cereais estocados num monte de pedras, para serem recolhidos na descida.
Naquela tarde, Fabio Fontana demorou demais, e o tempo não perdoou. Uma forte nevasca nos obrigou a pernoitar no meio do caminho. Foi impressionante a maneira rápida com que a paisagem mudou: em uma hora, o ambiente que era todo cinza e desértico, de repente ficou branco parecendo uma tundra e a temperatura caiu bruscamente. A tempestade só parou ao anoitecer, o céu ficou claro e estrelado, no vale se viam as sombras dos cumes gelados - um espetáculo deslumbrante, mas devido ao frio, só podia ser apreciado por alguns minutos.
Ao amanhecer, conhecemos a realidade da montanha. Tudo estava congelado, a garrafa de água, a bota que ficou fora da barraca e o próprio tecido dela. A urina vira floquinhos de gelo antes mesmo de chegar no chão. E para piorar, as montanhas barram os raios solares que demoram até invadirem o vale.
Para quem queria escalar a montanha em apenas 15 dias, estávamos muito atrasados, pois ainda nem havíamos chegado em Plaza de Mulas, que é o acampamento-base do Aconcágua. Por isso, decidimos carregar todo o peso para não atrasar ainda mais. Carreguei por volta de 40 quilos, mas minha mochila não era a mais pesada, a de Maximo pesava no mínimo 50, e pior, faltava metade do caminho até Plaza de Mulas, justo a pior parte em que teríamos que fazer uma ascensão de 600 metros verticais.
Havíamos acampado no fim de Plaza Ancha, ali a planície se estreitava, o rio fica mais turbulento com suas margens escarpadas. O progresso daí é feito pelo contraforte da margem esquerda do rio, ou seja, de um lado da trilha havia um barranco pra cima e de ouro para baixo. Neste trecho, é inevitável o conflito com as mulas, que empurram as pessoas da trilha, ameaçando jogá-las para dentro do rio. A nossa raiva com as mulas cresceu muito nesta parte da ascensão.
As mulas possibilitam que pessoas sem condições físicas tentem escalar a montanha. Para piorar, a maioria dessas mulas são partes de pacotes fechados de expedições comerciais, é ainda pior. As expedições, que tem apenas o intuito de ganhar dinheiro, cobram muito, mas fazem tudo para você. O resultado é que quando você chega em Nido de Condores ou em outros acampamentos avançados você vê uma quantidade imensa de pessoas que nem sabem armar uma barraca, isso sem falar que são estas pessoas aquelas que no final tem que ser resgatadas pelo helicóptero com edemas e congelamentos. Isto pode ser lucrativo para as empresas, mas trágico para a história da montanha.
A última parte do caminho antes de Plaza de Mulas é a terrível Cuesta Brava, que é uma íngreme encosta e tem que ser vencida com muito esforço, subindo em zig-zag. Lá cima está o acampamento-base. Contrariando as expectativas, conseguimos chegar em Plaza de Mulas com relativa facilidade, com destaque para Maximo, que chegou lá antes mesmo das mulas, e das pessoas que levam suas mochilas nelas.
Plaza de mulas fica nos pés de um círculo de montanhas. Lá é praticamente onde surgem os rios, não por afloramento, mas sim pelo degelo do imenso glaciar do Cuerno, que é uma bela montanha com formato de triângulo, vizinha do grande maciço do Aconcágua. Aquele era o último lugar com água na montanha. O acampamento é grande, talvez só perca em número de pessoas para o base do Everest, assim dá pra imaginar a muvuca que é lá. Barracas para todo lado, com destaque para as de restaurante das expedições comerciais. Lá existe um tipo de mercado negro, vendem de tudo, desde equipamentos usados até tomates, ovos e carne para uma parrilla desde que você tenha alguns dólares para desembolsar. Tem internet, telefone, até chuveiro quente, que custa 10 dólares por cinco minutos.
Maximo, que até então estava um animal para carregar sua sutil mochila não conseguia acostumar com a baixa pressão atmosférica e a falta de ar. Ele teve dores de cabeça e tivemos que esperar para que sua cabeça parasse de latejar. Quando as dores de Maximo deram sinais de melhora fizemos nossa primeira investida na montanha. Partimos para o Cerro Bonete, uma montanha de 5500 metros de altitude, de frente ao Aconcágua que vencemos com grande facilidade. Foi o batismo de alta montanha - primeiro cume dos dois Fabios.
De volta a Plaza de Mulas nos sentimos confiantes em dar continuidade à progressão de acampamentos e subimos até Plaza Canadá a 5000 metros de altitude. O tempo estava anormal, e a rota estava toda coberta de neve, nos obrigando a usar crampons e botas duplas. Novamente Maximo demonstrou um show de resistência na ascensão ao Canadá, mas novamente foi traído pela altitude e passou mal o resto da noite. De Canadá em diante não havia mais água, teríamos que derreter neve para beber e cozinhar, isso levava tempo e combustível, o fogareiro passou a ser um dos principais equipamentos daí em diante. Mesmo assim, ainda tinha gente sem ele, foi o que aconteceu com um carioca que conhecemos lá e que se viu obrigado a abandonar a escalada. Daí começamos a entender por que o Aconcágua matava tanta gente.
No dia seguinte, subimos mais 500 metros verticais até o acampamento Nido de Condores. A caminhada foi cansativa e demorada, novamente chegamos depois do meio dia e fomos traídos pelo tempo. Uma forte tempestade de neve nos agarrou antes mesmo de armarmos a barraca. Fabio Dellalio que estava nos ajudando a montar acampamento teve um principio de congelamento nas mãos.
A tempestade não cessou tão rápido quanto as anteriores. Ao todo, foram três dias sem parar de nevar e ventando muito forte, mal podíamos sair das barracas, a neve era tanta que quando olhávamos para fora não conseguíamos enxergar as barracas ao redor, ir ao banheiro era uma verdadeira fria. As noites, no entanto, pareciam acalmar a fúria do tempo. As nuvens cessavam e o vento também, entretanto a temperatura caia demais, se de dia fazia um calor de -10ºC, à noite chegou a fazer -20ºC dentro da barraca. Pior era dentro da barraca de Maximo, que não tinha uma boa circulação de ar interna e que fazia com que sua respiração condensasse na parede da barraca e depois congelasse, formando cristais de gelo por toda parede e sobre o saco de dormir.
Após cinco dias de instabilidades, já estávamos ultrapassando nosso tempo estabelecido para escalar a montanha. Resolvemos fazer um ataque noturno ao cume partindo de Nido de Condores à meia noite. Um Ataque ao cume a a partir de lá, costuma demorar no mínimo 12 horas. Se obtivéssemos sucesso, chegaríamos ao cume depois do meio dia, ou seja, no limite do horário em que o tempo costumava mudar. Parecia ser a estratégia mais segura.
Após um dia de preparação, partimos de Nido de Condores à meia noite. A lua estava cheia e iluminava toda aquela superfície branca de neve, nem precisávamos de lanternas para iluminar o caminho, era uma noite perfeita. Porém, algo estranho aconteceu logo na saída de Nido de Condores. Fabio Dellalio inexplicavelmente começa a passar mal, sentia tonturas e perda do controle do corpo, a escalada chegava ao fim para ele. Um pouco mais tarde, abalado pelo mal de Fabio Dellalio, Fabio Fontana desiste, considerando o que havia acontecido com o amigo como um sinal, que deveria ser seguido por todos, mas não foi.
Prosseguimos eu e Maximo, em ritmos diferentes, pois eu ainda sentia grandes dificuldades em respirar, várias vezes tinha que parar para encher os pulmões, mesmo assim não conseguia parar de ofegar. Passamos por Berlim, que é o último e mais alto acampamento da montanha por volta das 3 horas, o frio era intenso, marcava -25ºC no termômetro que levava junto ao Anorak.
Após mais duas horas de ascensão, chegamos em um portesuelo a 6200 metros de altitude, onde ficamos muito expostos ao vento, que não nos deixava caminhar. O vento era tão forte que carregava neve do chão penetrando por dentro do anorak, o que tornou impossível qualquer progressão tamanho era o frio. Nesta hora procuramos um lugar um pouco mais seguro para descansar. Estávamos tão desgastados que o corpo não conseguia se manter aquecido, o resultado Maximo me contou depois: já não sentia mais os pés, que começaram a congelar.
Com o congelamento dos pés de Maximo fomos obrigados a abandonar a tentativa. Ainda assistimos um maravilhoso nascer do sol acima das nuvens. Uma tempestade assolava as zonas mais baixas e era possível ter uma visão dos relâmpagos que iluminavam os vales onde o sol ainda não havia nascido.
Chegamos no acampamento quase mortos, Maximo não sentia mais os pés. Depois desta tentativa, os Fabios tiveram que deixar a montanha para retomar seus compromissos no Brasil, mas eu e Maximo ainda não desistimos. Desmontamos o acampamento e subimos até Berlim, a 6000 metros de altitude, tão alto que o corpo humano não consegue se reabilitar, daí por diante o corpo começa a se auto consumir. Era arriscado, mas acampando na zona da morte teríamos mais chances de chegar ao cume mais cedo e para isso não precisaríamos passar ao relento o frio da madrugada.
Ao chegar em Berlim agarramos a tempestade que havia assolado Nido de Condores alguns dias antes, e acabamos ficando ilhados. Os ventos batiam tão forte na barraca que o teto encostava-se ao chão, e dava a impressão que ela não ia agüentar. Pior foi a dor de cabeça que atacou Maximo provocando-lhe delírios, e eu assistindo com angustia seu sofrimento sem ter o que fazer para socorrê-lo. Foram três dias no limite, chegamos a pensar em desistir, porém os ventos cessaram e a tempestade parou, foi a oportunidade perfeita para deixarmos a montanha com chave de ouro.
Ataque ao cume
Acordamos bem cedo no dia primeiro de fevereiro, a dor de cabeça de Maximo havia milagrosamente passado, era um dia perfeito para se lançar um ataque ao cume. Não foram apenas nós que tivemos a mesma idéia, parece que a montanha inteira acordou animada, e a rota normal ficou cheia de gente que estava esperando uma oportunidade como aquela para chegar ao cume.
Começamos tarde nosso ataque, às sete da manhã, mas logo fomos ultrapassando os outros montanhistas na trilha, quando percebemos já estávamos no portesuelo onde havíamos desistido na primeira tentativa e estávamos com toda a força.
Em menos de duas horas já havíamos chegado na Canaleta, que é um pequeno vale íngreme, de difícil progressão. Na Canaleta é comum acontecerem acidentes, pois há muitas pedras soltas e a neve é escorregadia. Na base desta acabamos ultrapassando todos os outros montanhistas que estavam em nossa frente e ao chegarmos em sua parte mais alta que é a crista ligando o cume norte com o sul, tivemos uma visão privilegiada da parede sul do Aconcágua - uma parede relativamente difícil, que levou a vida de um dos melhores alpinistas Brasileiros, Mozart Catão, em uma tragédia em 1998.
Na crista do alto da canaleta só havia um lugar mais alto que era um rochedo somente alcançável por um filo de rochas bastante exposta, que havia levado a vida de um alemão algumas semanas antes. Subimos por este pequeno filo e tivemos a surpresa de não encontrar nada mais alto: Ali não havia duvida, estávamos no cume do Aconcágua, a 6962 metros de altitude, mais alto que qualquer montanha na América, África, Europa, Oceania e Antártida, ainda assim foi difícil dar conta da conquista. Lá de cima as montanhas nevadas que fazia parte da paisagem durante toda a escalada pareciam ser brinquedos, a altura era impressionante. Havia, nada mais nada menos que quatro mil metros entre nós e o chão, ou seja, algo como um prédio de 1300 andares.
Tiramos muitas fotos no cume, sacamos a bandeira do Brasil e posamos juntos para mais outra foto do cume. Para quem ainda tem esta idéia ridícula de inimizade com a Argentina estávamos juntos, um brasileiro e um argentino, na mais alta montanha deles, na mão com a nossa bandeira, numa prova concreta que é uma verdadeira bestialidade esta rivalidade que apenas nos desfavorece.
Ainda não havíamos chegado no fim, ainda precisávamos voltar tudo aquilo. Na descida geralmente ocorrem a maioria dos acidentes, pois geralmente estamos esgotados após toda a maratona para se chegar no cume, lá, qualquer descuido pode ocasionar numa queda. Precisávamos de muita atenção. Enquanto descíamos, cruzamos muitas pessoas que ainda tentavam chegar no cume. Muitas conseguiram, pois realmente aquele dia foi ideal, já eram quase 4 da tarde e o céu estava limpo, sem sombras de nuvens. Esgotados, nos atiramos dentro da barraca quando chegamos em Berlim, nem sequer tiramos as botas, só fomos acordar à noite, na hora de dormir. Descemos o resto do caminho até a quebrada de Horcones em dois dias, o que havíamos demorado 18 para subir.
Ao contrário do que acreditávamos, a descida por Plaza Ancha foi muito mais cruel. Meu pé virou uma só bolha, não via a hora de chegar em Mendoza, comer uma hamburguesa e um super pancho. Acho que nunca desejei tanto não estar em uma montanha. Porém, quando cheguei na oficina dos guardaparques e vi a topic do albergue nos esperando tive uma explosão de alegria por ter chegado ao fim com sucesso e alegria em ver tudo aquilo que havia largado para trás.
A rota normal não apresenta realmente dificuldades técnicas, porém, as maiores dificuldades enfrentadas são as psicológicas, o sofrimento do cansaço, da dor, o desespero de ficar dias e dias dentro de uma barraca esperando o tempo melhorar, dias e dias sem tomar banho sem ter nada o que conversar com o seu companheiro de cara barbuda e descascada ao seu lado. Porém não sei porque na montanha existe uma magia que encanta os homens e torna impossível não gostar daquilo que esta fazendo. Tivemos sorte com o tempo, talvez se não fosse por isso não teríamos chegado lá, mas com certeza só chegamos, pois não deixamos que a angustia nos vencesse só que a magia da montanha tomasse conta de nós.