Expedições
Atacama a pé
19/3/2001 - Maximo
Leia um pouco do fantástico relato de Maximo que teve que se virar com 17 dólares em sua travessia de 320 km a pé, pelo selvagem deserto do Atacama, no Norte do Chile.
Leia um pouco do fantástico relato de Maximo que teve que se virar com 17 dólares em sua travessia de 320 km a pé, pelo selvagem deserto do Atacama, no Norte do Chile. O objetivo da travessia, no princípio, era o de escalar o maior vulcão do mundo, com 6908 metros de altitude. No fim, acabou se tornando o de se manter vivo diante das adversidades que o selvagem mundo do deserto colocou em sua frente, mas nunca tirando aquele vulcão de suamente.
Chegara a hora, era hora de nos separarmos depois de um mês viajando juntos e eu seguir sozinho ao sul. Já após haver atravessado toda a Bolívia e o sul do Peru, teria pelo menos mais um mês sozinho para percorrer todo meu caminho. Pedro e Fábio tinham que voltar às pressas para o Brasil, pois as aulas das universidades de ambos já haviam começado já fazia mais de uma semana. Eles teriam todo o infernal Chaco Boreal pela frente. O trem da morte talvez seja o pior, mas o único meio para atravessar toda aquela região quente e úmida. A idéia de subir na segunda classe daquele trem novamente, reforçou minha idéia de querer atravessar o deserto sozinho para chegar ao meu objetivo. O escolhido foi escalar o Ojos del Salado, o maior vulcão do mundo, distante 1800 quilômetros dali. Para chegar lá, teria toda uma odisséia através do Atacama, o deserto mais seco do mundo.
Após uma rápida despedida, num hotel barato de La Paz, fui à rodoviária da cidade, pegar um ônibus que me levaria a Oruro, onde eu pegaria um trem para Uyuni e finalmente atravessar a fronteira do Chile. Após algumas horas de viagem num ônibus comum, eu já estava na estação de trem de Oruro, perguntando os horários de saídas de trens para Uyuni. Esperando ouvir uma resposta tal como “o próximo trem sai em uma hora”, a resposta foi totalmente oposta.
_“O próximo trem sai em dois dias”.
Aquilo foi como uma conclusão à todas as informações que obtive desde La Paz a respeito daquele trem: O pior lugar possível para se obter informações, é a Bolívia. Saí com muita raiva daquela estação, afrontando todas as pessoas na rua e não queria aceitar o fato de que teria que ficar naquela cidade mais dois dias. Fui logo às aforas da cidade, para encontrar um bom lugar para pelo menos ficar longe do centro da cidade. Encontrei um belo lugar em umas colinas ao norte, de onde eu teria vista para toda a horrível cidade de Oruro. Comecei a montar minha barraca ao lado de uma árvore, quando vi uma chola se aproximar. Antes de eu dizer qualquer palavra, ela começou a me atirar pedras e gritar uma série de coisas em aymará. Tive que sair às pressas e procurar outro lugar para dormir, dentro da cidade, infelizmente.
Encontrei um luxuoso hotel chamado Alojamiento Ferroviário, frente à estação de trem. Considerando a limpeza, o lugar parecia ter várias centenas de anos. Tentando economizar, pedi para o dono do hotel me fazer um “desconto especial”, pois eu ficaria dois dias ali. Sorrindo, o homem disse para não me preocupar, pois ele tinha um quarto especial para mim.
_”Vamos ver o quarto”, disse ele, mostrado aquele lugar no fim de um corredor sem luz elétrica, baixo umas escadas, onde havia uma porta escura, que parecia levar a um depósito de ferramentas.
_“Vou te fazer um preço especial”, disse o homem abrindo a porta e sorrindo com seus dentes podres. Entendendo claramente o trocadilho que ele fez com a palavra “especial”, me conformei. Concordamos em 70 centavos de dólar por noite.
Dormir naquela cama cheia de pulgas era quase impossível e era inevitável gastar outros 70 centavos de dólar por noite com a gasolina que eu jogava no colchão de palha. Com excessão da cama explosiva, o único móvel no quarto, era uma cadeira velha, onde eu colocava minha mochila, assim os ratos não conseguiriam alcançá-la. O vão entre a porta e o chão desprovido de qualquer tipo de cimento era tão grande, que os ratos passeavam livremente, sem nenhum obstáculo. Havia momentos que eles me acordavam durante as tentativas de escalar a cadeira, assim, tive que pegar o meu saco de comida e dormir com ele. Talvez o cheiro de gasolina manteve os ratos e todos os habitantes temporários daquele hotel, afastados de mim e de minha preciosa comida.
21/02/01 - Luta para sair de Oruro
Na manhã seguinte, fui até a estação de trem, reservar minha passagem para Uyuni. A impressão não foi muito boa quando vi centenas de pessoas que se acumulavam na frente das grades daquele lugar sujo, esperando ser o primeiro a pegar a senha para a fila. Alguns deles já estavam ali desde o dia anterior, pois tinham cobertores e colchões para dormir ali mesmo. Meio ao tumulto, encontrei um casal de alemães com o mesmo destino que eu. Ficamos ali na frente, esperando abrirem a estação e aproveitando para criticar como as coisas funcionavam por lá. Já era o segundo dia que eles pegavam aquela longa fila para comprar as passagens sem sucesso algum, mesmo já tendo as senhas para comprar as passagens. Organizando a fila a pauladas, os policiais bolivianos começaram a distribuir as senhas por ordem de chegada. Ao pegar minha senha, e comparar com a dos alemães, notei uma pequena diferença de 100 pessoas entre nós. Os números começaram ser chamados por volta das 7 da manhã. Após 4 horas esperando, vi os alemães conseguirem comprar as passagens e darem um discreto adeus. Aquele inferno de pessoas empurrando umas as outras, foi esquentando cada vez mais, brigas saíam a todo momento, enquanto vendedores de frango frito e traficantes de senhas passeavam no meio de todo mundo. O mercado negro de senhas desaparecia quando os policiais se aproximavam com longos paus de madeira. Por volta do meio dia, com apenas 20 pessoas na minha frente, eles simplesmente pararam de chamar os números, alegando que o trem estava cheio. Muitas pessoas sacrificavam suas economias e compravam passagens na segunda classe e mesmo assim, não sobraram passagens de qualquer classe que seja.
A terceira classe e a clase salón (uma espécie de quarta classe), eram as mais procuradas por serem as mais baratas. A vantagem da primeira classe sobre as outras, era que cada um tinha seu lugar para sentar e dormir, ou seja, animais, bagagens e crianças iam no bagageiro, é claro!.
Uma pequena rebelião de centenas de pessoas se armou frente aquela estação, todos querendo um lugar num trem de apenas três vagões. Mas os policias com seus pedaços de pau convenceram todo mundo de que três vagões eram suficientes e que todos deveriam voltar no dia seguinte para tentar mais passagens para o próximo trem que chegava em três dias. Um dos policiais falou para procurar o ônibus, mas todos abaixaram a cabeça quando ele falou isso.
Sem entender nada, resolvi checar logo o tal ônibus para Uyuni. Após atravessar todo o centro de Oruro, meio aos preparativos do carnaval, cheguei ao decadente terminal rodoviário, onde encontrei uma única empresa que se dedicava a fazer o serviço. Já conformado em ter que esperar dois dias ou três, perguntei se eles tinham passagens para Uyuni. Fiquei surpreso ao ouvir que havia lugares para aquela mesma tarde. Comprei minha passagem, e fui correndo ao “hotel”, pegar minhas coisas para sair logo de Oruro. Ao sair daquele quarto, fiquei com muita vontade de pôr fogo naquela cama de uma vez por todas, mostrando um pouco de amor ao próximo, mas aquilo foi por um preço especial e decidi não cometer o crime. Enquanto acertava minhas dívidas, o dono do hotel, talvez percebendo minha alegria, perguntou.
_“Porque você está feliz?, gostou do quarto?”.
Contei a ele que estava feliz porque estava indo EMBORA do quarto e que iria pegar meu ônibus direto para Uyuni. O homem sorriu e me advertiu sobre aquele ônibus, como se seus quartos fossem grande coisa.
22/02/01 - Um rally de 400 quilômetros até Uyuni... de ônibus
O Expreso Predilecto, me deixaria em Uyuni em apenas 12 horas segundo a amável vendedora de passagens. Sem informação alguma e com apenas 100 dólares para percorrer mais de 5000 quilômetros de volta para casa, subi naquele ônibus estranho, rumo ao deserto de sal. Logo ao entrar no ônibus, comecei a perceber o porquê de tantas advertências a respeito daquele transporte. Pequenos detalhes, como uma camada de terra no chão, me diziam que a viagem não ia ser nada boa, mas relaxei comigo mesmo: “o que pode ser pior que a segunda classe do trem da morte?”.
A própria passagem, já era um pouco fora do comum, era uma fotocópia de um manuscrito que dizia Los hombres tienen que ayudar, além do preço de 6 dólares para turistas. O ônibus 4x4 - que mais parecia um caminhão modificado para correr o Paris-Dacar - chamava a atenção meio aos outros transportes convencionais. A bagagem era colocada no teto do veículo, para evitar que tudo molhasse ao atravessar rios. Várias barras de ferro saiam do chão do ônibus e atravessavam o teto para suportar a bagagem, evitando assim, que o teto afundasse.
Após encontrar um espaço físico para sentar, descobri que as janelas eram seladas com uma espécie de cola e não existia qualquer tipo de ventilação. Fiquei meia hora no ônibus esperando ele sair, acho que seriam mais ou menos três da tarde e o lugar virou uma sauna. Após a partida, descobri que a ventilação vinha da porta que ficava aberta o tempo todo. As janelas amareladas não permitiam ver a paisagem com clareza do lado de fora, apenas alguns vultos amarelados que talvez fossem caminhões leves. Todos ultrapassavam nosso transporte, que estaria no máximo a 50 km/h. A estrada não tinha mais que 5 metros de lado a lado, não tinha nenhum trecho asfaltado e pelo incrível que pareça, tinha pedágio, com direito a policiais armados.
O cheiro insuportável dos outros passageiros, os vultos amarelos e o barulho do escapamento sem silenciador, tornavam tudo muito monótono e qualquer coisa, por simples que seja, era motivo de atenção para todos. Eu era o único forasteiro, denunciado pelas minhas roupas, altura e cabelo. Por isso, era observado e comentado em aymará durante toda a viagem.
Já era noite quando uma parada quebrou toda a monotonia: o ônibus estava atolado. O piloto falou alguma coisa em aymará que não entendi e saiu do ônibus. Só fui sair uns 10 minutos depois porque percebi que metade dos passageiros já estavam para fora. Fazia muito frio. Havia vários homens cavando e pegando pedras na estepe enquanto as mulheres se dividiam entre as que ficavam no ônibus e algumas do lado de fora, observando. Percebi também que todos portavam pás e piquetas, também não imaginava de onde eles tiraram tudo aquilo. Não demorou muito para desatolar aquele imenso veículo e partirmos.
Novamente, a velocidade de cruzeiro (de 50 km/h) foi reduzida drásticamente e o barulho do motor foi interrompido pelo silêncio: o ônibus atolou de novo. Desta vez o piloto traduziu a misteriosa palavra que ele gritava em aymará quando o ônibus atolava: “Hombres!”. Também entendi de onde vinham todas aquelas ferramentas para cavar, vinham de um compartimento na traseira do ônibus, onde também encontrei vários metros de corda.
Não tivemos muito trabalho para calçar as rodas do ônibus com pedras e cavar uma estrada paralela para partir. Todos caíram na gargalhada quando me viram cavando com a pá: ...Olha o gringo que trabalhador..., achando que eu não falasse espanhol.
Eu já estava acostumando ao barulho musical que vinha da caixa de marchas do ônibus quando escutei algo diferente, como se estivéssemos derrapando e resolvi ir à cabine do piloto para checar. Havia um co-piloto que limpava o vapor da janela a todo o momento e servia frango frito ao piloto. Reparei que ele dirigia com o ônibus cruzado na estrada, ou seja, não havia sustentação alguma naquele barro. O ônibus literalmente dançava de um lado ao outro e algumas vezes, claro, atolava. O piloto era muito respeitado pelos passageiros e tratado como autoridade, tudo o que ele falava era lei. Muitos vendedores de comida que viajavam conosco, ofereciam sua comida ao piloto, sem cobrar.
Conheci um contrabandista peruano que ia para Iquique no Chile, mas não troquei mais do que algumas palavras com ele. Após a quinta vez que atolamos, eu já fazia parte da equipe projetista, que decidia que procedimentos iríamos tomar para desatolar. Éramos nós: Daniel (o contrabandista), o piloto e eu.
Na sétima vez que atolamos, eu não suportava mais a presença de barro em todo o espaço físico do ônibus. Eu mesmo e a minha aparência marrom, já tinha um cheiro similar aos outros: uma mistura de esterco com terra e suor. Influenciado pela possibilidade daquela ser a última vez, saí lá fora para ajudar. Desta vez, estávamos no meio de uma grande lagoa de lodo e havia outras pessoas de outros veículos pelo lugar. Também haviam 3 bois grandes e velhos puxando uma camionete da década de 60. Isso explicava a presença daquelas cordas no compartimento. Seria totalmente desumano empurrar aquele ônibus já estando na lagoa, aí entravam os bois. Após amarrar os bois e dar um pequeno incentivo para eles andarem (um longo chicote de couro), eles nem responderam ao meu sinal. Daniel e o piloto também tentaram, mas nem sinal. Claro que tudo aquilo custava dinheiro, o uso dos bois custava um peso boliviano por pessoa (15 centavos de dólar).
Tive a idéia de usar açúcar para tirar os bois dali. Talvez os bois estivessem com um pouco de fome, pois eles arrancaram ônibus do atoleiro em alguns segundos, só para consumir o açúcar e, por pouco, uma parte da minha mão. Ganhei prestígio e respeito por ter aquela idéia e com certeza estaria na equipe pelo resto da viagem. O gringo já fazia parte de toda a turma e recebia tapas nas costas, mas ainda continuava sendo comentado em aymará. Alguns dias mais tarde, durante a minha travessia a pé pelo deserto do Atacama, me arrependi muito em ter dividido todo aquele açúcar com os bois.
Supostamente estaríamos perto de Uyuni e já estávamos quase comemorando e parabenizando todos os membros da equipe pelo feito. Mas o piloto estava em silêncio, como se algo grande estivesse por vir. Ele só abriu a boca para falar duas palavras: Rio Moreno!. Daniel, talvez, lembrando suas tentativas frustradas de atravessar a fronteira, sentou e calou-se. Seus olhos ficaram esbugalhados e ele começou a dobrar a calça até a coxa e tirar os sapatos. Levando em conta a minha vasta experiência em desatolar ônibus no altiplano boliviano, pensei comigo mesmo: o que pode ser pior do que última vez?....
Eram mais ou menos 4 da manhã e fazia mais frio ainda, a luz da lua se encarregou de ajudar os faróis fracos do ônibus a iluminar uma descida que conduzia a um rio. O Rio Moreno é realmente grande quando se tenta atravessá-lo de ônibus na estação chuvosa. Mal consegui avistar a outra margem. Não acreditei quando, sem espanto nenhum, o piloto dirigiu aquela grande lata para dentro do rio. Como se fosse alguma coisa normal, as pessoas conversavam entre elas e comiam seus milhos e pedaços de frango.
Para acalmar o meu olhar de espanto, um velho me disse que o rio estava baixo e que não vamos ter que esperar...muito. Mas a água já estava na altura da canela, dentro do ônibus. Isso significava mais de um metro já no começo do rio. Assim como todo mundo fez, sentei numa poltrona e contemplei a paisagem amarela com os pés levantados. Aquela tortura não durou muito, pois, outra ainda pior começou, quando o motor do ônibus morreu.
Estávamos um pouco além da metade do rio, onde a inclinação começava ser para cima. O desespero e a incapacidade tomou conta das mulheres. Não acreditava que teríamos que fazer aquilo, mas foi Daniel quem falou: Em mais ou menos 14 homens vai ser fácil. Isso significaria pular no rio de cueca e empurrar aquele monstro de lata para fora do rio, claro que com todas as mulheres obesas do lado de dentro.
Em mais ou menos 30 minutos, já tínhamos andado uns dez metros. As tentativas restantes foram frustradas, pois além de cansados, não conseguiríamos fazer o ônibus subir tudo aquilo. Pensava comigo mesmo e já tinha excluído a possibilidade, de falar para o piloto tentar a partida novamente. Alguém com tanta experiência não poderia ser tão estúpido ao ponto de não tentar isso. Mas foi Daniel quem falou.
_“Tente a partida novamente, vamos ver”
O piloto aceitou aquilo como uma grande idéia, e tentou algumas vezes até conseguir ligar aquele velho motor e dirigir para fora do rio. Aqueles 45 minutos na água congelante e o fato de descobrir que a maioria dos homens não usa cuecas na Bolívia, me fizeram subir no ônibus em poucos segundos. Um belo e desfocado amanhecer amarelo, me fez esquecer a tragédia e dormir.
Acordei horas mais tarde com o sol já forte e um calor insuportável. Desta vez não havia sinal de água, e ao contrário da noite anterior, desejei atravessar outro daqueles rios. Chegamos a Uyuni, mais ou menos às duas da tarde. Inacreditáveis 20 horas de rally para andar aqueles 400 quilômetros de rotas no meio do altiplano.
Ao sair do ônibus, todos cumprimentamos o piloto. Os idosos lhe prometeram orações outras coisas que não entendi, pois falaram em aymará. Encontrei com vários turistas que iam para La Paz, mas não queriam esperar o trem. Tentei convencer todo mundo: não peguem o ônibus! Esperem o trem!.
23/02/01 - Uma tarde no deserto de sal
Fui diretamente à estação de trem para perguntar os horários disponíveis para Calama, no Chile. Já era fim de tarde, quando recebi a triste notícia de que teria que passar mais dois dias naquela cidade, pois é quanto o trem demoraria em chegar. O preço da passagem, salgado como o salar de Uyuni, me fez economizar ao máximo naquele lugar. Fui procurar um hotel nas aforas da cidade, já que chovia muito e seria difícil acampar. Encontrei um alojamento por 1 dólar e 50 centavos por noite onde a qualidade das camas e o tamanho dos quartos, era diretamente proporcional ao preço. Não havia camas de palha, nem muitos ratos e todos os bolivianos que viajavam ao Chile, passavam as noites necessárias até a chegada do trem, naquele lugar barato. Muitas vezes, ao passar na frente dos quartos e olhar para dentro, percebia famílias de 12 pessoas, espremidas naqueles minúsculos quartos de 2 X 3 metros, tudo para economizar. Decidi fazer o mesmo.
Junto comigo, estava Daniel e sua tonelada de fitas de música que contrabandeava para o Chile. Decidimos dividir um quarto de hotel para que não fique tão caro e ter alguém para conversar durante os dois dias. Aprendi muito sobre a vida dura que ele levava, sempre tentando atravessar aquela famosa fronteira e ganhar dez vezes mais dinheiro do que ele ganhava no Peru. Qualquer peruano, boliviano ou equatoriano, deve mostrar 2700 dólares para poder provar que tem recursos suficientes para se sustentar e não roubará o trabalho dos chilenos.
Sempre que eu precisava comprar alguma coisa na cidade, pedia para Daniel ir no meu lugar e usar a sua destreza para conseguir os melhores preços, pois só o fato de eu ser gringo era um agravante para qualquer preço. Numa das vezes que fomos à praça central para pechinchar na comida, encontrei aquele casal de alemães na praça da cidade gastando dinheiro em porcarias e lembranças para aumentar ainda mais o peso da mochila. Estavam num hotel (barato, segundo eles) na saída da cidade e me convidaram para ir lá a noite. Decidi ir e talvez, com um pouco de sorte, até conseguir algo de comida. O lugar era grande e só havia gringos hospedados, até conheci um italiano que tinha um telescópio e sempre ia ao deserto de sal a pé, para observar a única coisa limpa daquele lugar, o céu. Aquela foi uma boa idéia para gastar o dia seguinte, e economizar dinheiro. Nem Daniel, nem os alemães quiseram me acompanhar nos quase 15 km de caminhada até o sal.
Acordei bem cedo com os gritos das crianças chorando e os pais batendo nelas. Fui logo ao salar para passar o tempo e pegar o trem na mesma noite. Ao sair, percebi que tinha esquecido um pequeno detalhe: não perguntei a ninguém onde ficava o Salar de Uyuni. Fui para à praça central onde havia muita gente devido ao mercado que abre cedo. Perguntei a direção do salar para 15 pessoas, e quase todas as 15 opiniões foram diferentes umas das outras. Pelo menos, consegui extrair uma maioria de opiniões e concluir que eu tinha que ir na direção de uma cidade chamada Cochani e de lá ir para o salar. Ninguém soube me dizer se Cochani ficava ao norte ou ao sul e ninguém soube me dizer também, o que era norte ou sul. Tive que recorrer ao mapa para tirar a minha dúvida e voltar todo o caminho até o pequeno e barulhento hotel do outro lado da cidade. Prometi a mim mesmo, que a próxima vez que eu fosse á Bolívia, conseguiria todas as informações que eu precisasse, com antecedência e por conta própria.
Cochani ficava ao norte e eu tinha que me mover rápido pois já eram 8 da manhã. Saí dos limites da cidade já com o sol forte e comecei a perceber outro detalhe que esquecera, o protetor solar. Quanto mais eu caminhava, mais queimado eu ficava, tive que cobrir a cabeça com minha blusa. Algumas pessoas da zona rural ficavam horas olhando aquele curioso gringo que caminhava rápido e levava um turbante na cabeça.
Não demorei muito para avistar um pequeno agrupamento de casas que talvez fosse Cochani, mas demorei muito para poder me aproximar. Um imenso lago começou a tomar conta de todo o lado esquerdo daquelas casas, isso me fez duvidar daquelas informações que consegui na cidade de Uyuni, pois não constava lago algum no meu mapa. Eu estava mais perto daquelas casas do que a cidade de Uyuni, e decidi continuar, para pelo menos saber se eu estava na direção certa. Caminhando um pouco mais, percebi que o lago era imenso, muito maior do que eu pensava.
O mistério todo foi resolvido quando vi uma camionete andando sobre a água. Aquele fato inexplicável no começo, se tornou rotina depois, pois o Salar de Uyuni era ali mesmo, porém eu estava com tanta sorte que ele estava inundado pelo excesso de chuvas do verão. Fiquei muito decepcionado no momento, mas depois de chegar mais perto, percebi o quanto aquele imenso campo de sal fica bonito quando está inundado. Deixei meus sapatos numa pedra e comecei a caminhar naquele solo estranho com 20 cm de água.
Pelo fato de haver pouca água, o vento não produzia muitas ondas e a água ficava quase que estática. Aquilo gerava um imenso espelho d’água, tão perfeito, que era difícil perceber onde terminava a água e começava o céu. Ver aquelas pessoas todas caminhando na superfície da água fez parecer que todos estavam flutuando no céu. Peguei a máquina fotográfica para registrar aquele momento maravilhoso, mas percebi que ela não funcionava mais.
Eu tinha todos os 15 quilômetros de volta e decidi sair rápido dali para pegar o meu trem na noite do mesmo dia. Já bem queimado pelo sol, iniciei minha caminhada de volta para Uyuni. Foi muito duro caminhar todos aqueles quilômetros já sem água ou comida. Mal sabia eu que aquela tortura me serviria como treinamento para o que estava por vir na próxima semana, mas até então, eu achava que tudo iria correr dentro do planejado e nada pior do que eu já havia passado iria acontecer.
Daniel ficou surpreso ao me ver tão vermelho e declarou-se sortudo por não haver ido. Naquele momento achei aquilo absurdo, mas algumas horas mais tarde, já sentindo as queimaduras, me arrependi de cada instante que estive ali. Meu trem saía na noite daquele mesmo dia, na verdade, às três da madrugada. Junto com Daniel, fomos para a estação de trem e dormimos lá mesmo. Acordamos com toda a movimentação que o trem causou quando chegou, enquanto as pessoas ficavam impressionadas ao ver um “gringo” ali, dormindo no meio de todo mundo. Como se eu fosse um total estúpido, eles comentavam bem alto: “OLHA O GRINGO DORMINDO NO CHÃO!”, bem do lado da minha orelha.
24/02/01 - Autoridades bolivianas, um novo desafio
As queimaduras não foram nada agradáveis enquanto estive sentado naquelas cadeiras de plástico. A viagem de trem foi longa e demorada, somente acordei quando paramos na fronteira do Chile. Eu imaginava que teríamos que descer por alguns minutos, carimbar os passaportes e continuar viagem. Mas pelo que Daniel me contou, deixaríamos aquele lugar, somente na manhã seguinte.
O hilário controle boliviano estava lá, apenas, para chantagear as pessoas, pois só carimbo de saída da Bolívia, custava 5 pesos bolivianos. Quando perguntei ao policial porquê eu deveria pagar aqueles 5 pesos, a resposta foi muito simples.
_“Porque senão, eu não carimbo o seu passaporte!”.
Uma tabela de preços, era fixada no interior do recinto.
Carimbo...........................................................5 pesos Extensão de estadia......................................40 pesos Quem não tem certificado de vacina.............25 dólares Quem tem........................................................5 pesos
O controle migratório e sanitário do lado chileno, por outro lado, era muito rigoroso e não deixava escapar nada. Para tentar ajudar Daniel, todos os gringos que o conhecíamos, juntamos mais de 500 dólares em papel e lhe emprestamos tudo. Mesmo assim, não deixaram ele passar porque o dinheiro não era suficiente. Daniel voltou para se despedir e devolver o dinheiro, teria que iniciar uma outra jornada através do norte da Argentina, para novamente, tentar chegar ao Chile.
O controle sanitário chileno, talvez por causa de minha nacionalidade, pegou quase toda minha comida. Segundo eles, aquela comida podia trazer algum tipo de praga às suas colheitas e animais. Deixaram apenas 1/2 kg de arroz, algum tempero, um pouco de açúcar e um pouco de chocolate em pó. Na verdade, o lugar com terra fértil mais próximo dali, fica a pelo menos 1000 quilômetros, mas não adiantou nada explicar. Fiquei irado, mas não podia fazer nada se quisesse chegar logo ao Chile. Me conformei, pois logo que eu chegasse a Calama, compraria todos os suprimentos necessários para minha escalada. Gastei o resto daquela tarde criticando as autoridades chilenas e esperando o trem que supostamente chegaria ás 10 da noite.
A única locomotiva que fazia aquele trajeto, chegou no fim na noite, mas antes de pegar os três vagões de passageiros, deveria levar uma carga de minérios para Calama. Obviamente, os minérios eram mais importantes que os passageiros e precisavam ser levados primeiro. Aquilo deixou todos impacientes e com mais raiva das autoridades chilenas.
Assim com contava a professia de Daniel, a locomotiva voltou só na manhã seguinte para pegar aqueles três vagões inúteis cheios de passageiros e finalmente, nos levou para Calama. Desmaiado de sono, viajei durante as 8 horas naquele trem e só chegamos no fim da tarde a Calama.
25/02/01 - Minha boa sorte acabou
Ao chegar em Calama, fui junto com os alemães procurar um lugar para comer, mas ao ver que os preços eram 7 vezes mais caros que a Bolívia, fui procurar um lugar com água para acampar e comer sozinho.
Na saída da cidade, perto de um grande cruzamento, encontrei um lugar para acampar na beira de um rio. O lugar tinha até árvores e sinais que que várias pessoas acamparam ali antes. A vizinhança não parecia muito amigável, mas me senti seguro. Aquilo era raro meio a desértica paisagem do Atacama. A água do rio não era da melhor qualidade, mas pelo menos, minha comida e suco não ficaram com gosto estranho. Eu já estava nutrido, tinha água e a única coisa que precisava era dormir para, no dia seguinte, tentar carona para o sul.
Já eram mais ou menos 11 horas da noite quando eu saí da barraca para usar o urinal por última vez, localizado numa árvore próxima à barraca. Ao me virar, para voltar para a barraca, vi dois elementos mexendo nas minhas coisas. Por azar, a primeira coisa que eles encontraram, foi meu diário com meus documentos e quase todo o dinheiro. Levaram o dinheiro e deixaram o resto. Desesperado, eu não queria acreditar que minhas finanças haviam ido embora com aqueles dois ladrões. O que encontrei, foram apenas algumas moedas dentro do saco que eu levava o dinheiro. Por sorte, eu ainda tinha um pouco de dinheiro no bolso, totalizando 17 dólares e 75 centavos. Contei a quantia várias vezes, até entender o que aconteceu.
Muito abalado e sem saber o que fazer, desmontei meu acampamento e fui para a estrada. Caminhei e caminhei muito, tentando encontrar uma explicação do porquê de minha sorte. Eu já estava a mais de um mês viajando e tinha conseguido a proeza de perder tudo. Eu estava com tanta sorte, que quando estive em La Paz, após uma semana de viagem, peguei febre tifóide e me salvei por pouco. Não entendia mais como as coisas funcionavam, eu não tinha mais a liberdade de sair daquele lugar quando eu quisesse. Ficaria preso naquele deserto e dependeria da vontade dos outros para poder sair.
Voltei a mim mesmo quando já estava quase amanhecendo e vi uma placa que dizia “Cerritos Bayos”. Aquele amanhecer no deserto foi um dos mais bonitos que vi na vida. Pude contemplar cada movimento que o sol fazia, desde as dunas de areia na beira da estrada. Comecei a reagir aos carros que passavam e ver oportunidades de chegar ao sul de carona.
O objetivo da travessia, no princípio, era o de escalar o maior vulcão do mundo, com 6908 metros de altitude. No fim, acabou se tornou o de me manter vivo diante das adversidades que o selvagem mundo do deserto colocou em minha frente, mas nunca tirando aquele vulcão de minha mente.
26/02/01 - Primeiro dia perdido - Em busca da Ruta 5
Após uma única carona com um caminhoneiro que me pegou em Cerritos Bayos, cheguei ao centro de Antofagasta. Aquela bela e árida cidade do norte do Chile, me trouxe esperanças. Logo na entrada da cidade, havia uma placa que dizia: “Antofagasta, puerta del desierto y entrada al mar”. Fui conhecer as longas praias da cidade para logo pegar a Ruta 5 novamente (a rota Panamericana, chamada 5, no Chile). Fiquei sentado num rochedo, filosofando sobre minha sorte e contemplando todo aquele oceano de possibilidades. Uma nuvem escura, que estava a horas no mar, começou a se aproximar. Inacreditavelmente, começou a chover na água, enquanto o deserto continuava seco. Talvez aquilo fosse normal, por causa da corrente de água fria que passa naquela região. Mas seguindo a linha de sorte que eu levava desde então, a nuvem continuou e literalmente, começou a chover no deserto. As pessoas que estavam na região, agradeciam a deus pelo feito e eu, após um mês seguido de chuvas, não sabia em quem botar a culpa. Tudo ficou um caos em minutos, pois ao não existir qualquer tipo de vegetação em Antofagasta, a água carregava a areia e a depositava nas zonas baixas do lugar. Comecei andar às pressas para o sul, onde encontrei um desvio que indicava 2000 km até Santiago. Aquela chuva não durou mais que meia hora e, pelo que me contaram, a última chuva antes daquela, tinha sido 300 anos atrás. Incontestavelmente, eu estava com sorte!
A estrada tinha muitas curvas e subia uma grande plataforma que seguia toda a linha do litoral. Seria impossível pegar alguma carona ali meio a tantas curvas, então decidi seguir adiante para encontrar algum lugar plano para parar e testar minha sorte novamente. A subida com longas curvas, me fez optar por outro caminho e tentar fazer uma linha reta até o topo de uma colina. Provavelmente, lá de cima eu poderia avistar todo o caminho e optar pelo melhor. O calor insuportável de pelo menos 40°C, me fez beber um litro da preciosa água que consegui num posto de gasolina Copec na saída de Antofagasta. O desespero me fez andar mais e mais rápido até o topo daquela colina. Como tudo no deserto, a colina era mais longe do que eu achava e demorei mais do que planejei. Quando eu estava um pouco além da metade, a incessante brisa do mar começou a ficar forte ao ponto de carregar a areia. Em 10 minutos tudo ficou escuro e cometi um grande erro, que foi o de não parar.
A ventania continuou por duas longas horas. Isso me fez ir na direção que o vento soprava, caso contrário eu não enxergaria nada. Cheguei rapidamente ao topo, seguindo para sudoeste. O vento não era tão forte lá encima e a medida que eu ia me afastando do topo da colina, mais fraco ele ia ficando. Enquanto o sol estava se pondo, fui logo procurar um lugar para acampar. Aproveitei os últimos minutos de luz, para observar. A hora de maior nitidez do dia, me possibilitou ver uma luz a sudeste. Eu achava não estava muito longe da Ruta 5, pois não andei mais do que 15 quilômetros. Talvez a estrada não continuasse até o topo da colina, mas rumasse ao sul em algum ponto que eu não sei, pois não consegui avistar sinal algum da Ruta 5. Seria uma má idéia voltar todas aquelas horas até a colina para tentar achar a estrada. Estava escurecendo e avistei uma luz, parecia estar muito mais perto que as colinas e a estrada. Acampei num grande buraco ao lado de uma pedra, com a esperança de acordar e ir direto àquela luz no dia seguinte.
27/02/01 - Segundo dia perdido - O último humano
Como se fosse de propósito, os malditos raios de sol invadiram minha barraca através de uma brecha no zíper e estragaram meus sonhos de mesas repletas de comida. Logo ao acordar, tive uma surpresa ao ver que a luz, ou a casa de onde vinha a luz, não estava mais lá, mas eu tinha marcado mais ou menos a direção de onde ela vinha. Comecei a me mover cedo, sem saber exatamente onde eu estava indo. Havia um grande vale ao sul e outro seguindo como um grande corredor a sudoeste.
Custou muita água sair daquele vale, onde corria um pequeno fio de água salgada. Pelo menos, do topo da outra margem do vale, consegui avistar algo parecido a uma estrada que vinha do oeste. A brisa do oceano próximo me poupou alguns litros de água e me permitiu prosseguir com certa rapidez pela areia. Consegui chegar na estrada pouco antes do meio dia e comecei a andar em direção oeste. Na febre de voltar logo à Ruta 5, peguei o primeiro desvio a sul que encontrei.
Poucos quilômetros à continuação daquela estrada, avistei uma casa, de onde talvez vinha a luz. Aquele não era o melhor lugar do mundo para se morar, não havia qualquer rio ou casa, durante os últimos 20 km. Havia uma pessoa do lado de fora de casa, que provavelmente me viu muito antes que eu vi ela, pois ficou parada até eu chegar. Milagrosamente, consegui tirar uma foto alguns quilômetros antes de chegar lá.
Encontrei um velho com um grande chapéu que me deu todos os 7 litros de água que eu precisava para encher minhas garrafas e seguir com rapidez. Aquela figura típica, com a pele muito curtida pelo sol, talvez vivesse ali para criar llamas. Sua expressão de curiosidade denunciou que eu talvez fosse o primeiro a passar por ali durante muito tempo. Perguntei ao velho se aquela estrada me levaria ao sul, ou se eu teria a possibilidade de pegar alguma carona. Ele me respondeu sim às duas perguntas e falou que tinha bastante movimento naquela estrada. Segundo ele: hay harto movimiento en la ruta!!. Me contou que o pequeno povoado de Los Vientos não era muito longe, seguindo aquele caminho. Ele não soube me explicar no meu mapa de escala 500.000:1, onde estávamos exatamente. O homem não era muito comunicativo e só respondia ao que eu perguntava. Ele também não gostou muito quando lhe pedi 7 litros de água.
Confiando na palavra daquele velho, comecei a me mover novamente por volta das 13 hs. Haviam muitos desvios naquela estrada que mais parecia uma marca de carro. Optei pelos desvios ao sul e acabei perdendo a marca das rodas, mas segui na mesma direção que elas me tinham dado.
Pouco adiante, encontrei um tambor de lata, que inexplicavelmente estava lá. Era um tambor vermelho escuro com uma linha amarela na lateral, tinha um pouco de areia dentro. Fiquei descansando na sombra de 10 cm que aquele tambor produzia. Tive várias idéias para aproveitar sua sombra, mas nenhuma se encaixava com a prática, pois eu sempre me queimava com o metal quente. A insignificante sombra que o sol produzia nos objetos naquele começo de tarde, me fez tomar atitudes e usar meu cérebro mal nutrido.
Perdi toda a esperança em produzir sombra com minha barraca, pois se tornaria uma sauna antes mesmo que eu entrasse nela. Tentei levantar o tambor e colocá-lo apoiado a minha mochila. Ao levantá-lo, reparei na figura imóvel de um escorpião logo abaixo do tambor. Talvez eu tivesse destruído sua casa. Fiquei esperando ele se mexer enquanto eu tentava produzir sombra. Tentei fazer sombra com minhas roupas, estendendo-as sobre o tambor, mas o vento as derrubava e fazia tudo se tornar um inferno.
O escorpião continuava imóvel e eu continuava sem sombra. O fato de olhar para ele, imóvel daquele jeito no sol escaldante, me fez querer ir embora logo. Mas eu não consegui achar uma razão para aquele tambor estar lá. Por volta das 15 hs, achei outro tambor, com as mesmas cores. Avistei outro ao sul, e o que eu já tinha passado ficou ao norte. Tive várias idéias a respeito de refúgios feitos de tambores de lata. Talvez eles estivessem lá para as pessoas que estivessem perdidas no deserto construírem abrigos. Não tive, até aquele momento, uma idéia mais brilhante que aquela. Dediquei aquela tarde a pensar nos tambores enquanto me movia.
Depois de uma sucessão de idéias estúpidas naquele calor de 40°C, tive um lapso que me fez entender tudo! Me senti, naquele momento brilhante, ao ponto de explicar todas as coisas inexplicáveis. O óbvio andava comigo desde o primeiro tambor. Os tambores estavam lá, simplesmente para sinalizar uma direção! Talvez naquele lugar ventasse muito a noite e as marcas desaparecessem rapidamente na areia. Mais tarde ainda descobri que eles estavam a 1km de distancia um do outro, pois eu demorava mais ou menos 20 minutos entre dois deles. Fiquei muito orgulhoso, mas não pude dividir aquilo com alguém. Me imaginei sentado em algum lugar frio, tomando yogurt com todas as pessoas que amo. Mas o momento brilhante evaporou como água de minha mente quando voltei a mim mesmo e lembrei onde eu estava. Isso me deu uma certa vontade de continuar e chegar logo a algum lugar.
A brisa que vinha do mar persistia, mas a temperatura aumentava cada vez mais. Depois do oitavo tambor, avistei um trilho de trem brilhante. Andei alguns quilômetros, fugindo da direção que os tambores me deram e logo cheguei aos trilhos. Alguns minutos andando pelos trilhos, encontrei uma casa, atrás de uma colina.
A casa tinha a lateral oeste revestida com tambores de lata, abertos, talvez para parar um pouco as tempestades de areia. A maioria dos tambores estavam sem tinta, mas dava para ver que eles eram dos mesmos que eu vi. A porta era voltada para leste e tinha uma cadeira velha lá dentro. Procurei por alguma coisa útil, que não fosse a própria sombra que a casa me dava. Havia sinais de fogo e na porta tinha umas inscrições em alemão, que não entendi. Me arrependi de não ter aprendido alemão quando criança, na escola alemã onde estudei. Talvez estivessem me avisando para onde ficava o ponto de habitação humana mais próximo, ou simplesmente contando para que serviam os tambores.
Comecei a perceber a presença de cacto na região, fiquei pouco tempo na casa abandonada, pois tinha que chegar logo até Los Vientos. O trilhos começaram a pegar a direção oeste e isso começou a me perturbar, talvez eu tivesse pego o caminho errado em algum lugar, pois o povoado ficava ao sul. Achei uma estrada de terra ao lado dos trilhos, talvez ela levasse até Los Vientos mais depressa. Comecei a duvidar da palavra do velho que encontrei naquele insólito lugar ao norte, mas já era tarde. Avistei um grande vale alguns quilômetros mais adiante. Talvez eu encontrasse água e isso significaria água, desperdício, lavar os pés... água!. Mas ao chegar mais perto, percebi o óbvio: era um rio salgado, com uma linha branca de sal nas margens.
Desejei muito voltar e perguntar para o velho novamente sobre o caminho. Mas sua palavra me transmitiu confiança no momento que perguntei. Acampei ao lado de uma pedra, perto do rio salgado. Preparei o meu primeiro arroz desde que saí de Antofagasta e desta vez, usei água salgada. Dormi profundamente. Sonhei com velhos de chapéu, tambores e casas revestidas com tambores.
28/02/01 - Terceiro dia perdido - Fazendo água
Acordei com o sol já muito forte. Relembrando os meus sonhos, prometi a mim mesmo que voltarei algum dia para matar aquele velho estúpido por ter me dado aquela informação.
Meu pequeno lar de nylon prateado começou esquentar rapidamente. Aquele dia estava realmente quente, eu não tinha termômetro, mas calculei a temperatura em torno 45°C! Enquanto eu desmontava o acampamento, quase derreti com o sol forte. Com alguns pedaços de carne de cacto, hidratava a pele já bem queimada e de certa forma, após aquela baba do cacto secar, a pele ficava protegida um pouco do sol. Mas o cheiro era insuportável!
Tentei manter aquela mesma direção que o rio me deu para saber como eu faria para voltar. O vale do rio era fundo e isso me dava várias oportunidades de sombra, mas tornava tudo um inferno quente por não deixar o vento circular. O dia já estava quente, mas se tornou muito pior quando o sol atingiu o meio do céu. O fato de andar com minha mochila de uns 32 kg nas costas, me fez parar para descansar muitas vezes. Minha urina já estava bem escura, e sentia uma incessante dor no estômago, típica de fome.
No segundo dia após ter me perdido, bebi apenas três litros daqueles sete que o velho me deu. No terceiro, também foram três litros, só que em apenas duas horas de caminhada! O calor extremo tornara tudo impossível. A estrada tinha apenas um par de marcas de rodas e me levava cada vez mais a sudeste.
Na inútil esperança de que passe algum carro, coloquei a mochila na beira da estrada e sentei à sua sombra. Para piorar, um escorpião idiota decidiu parar bem na frente de onde eu estava. Foi só mexer o pé, que ele parou e ficou imóvel como aquele outro, um dias antes. Surgiu uma pequena luta de perseverança entre eu e o escorpião. Quem iria se mexer ou atacar primeiro? Claro que seria eu, e talvez ele soubesse disso. Após alguns minutos ficando com o meu braço na mesma posição, o sol queimou uma listra vermelha no exato ponto onde batia a sombra da mochila. Aquilo foi ridículo! A estupidez e falta de honra tomaram conta de mim, esmaguei o inimigo entre uma pedra e minha bota.
Aquela situação era ridícula! O que eu estava fazendo? Onde eu estava com a cabeça? Eu estava a três dias perdido, só tinha um litro de água e iria morrer se não fizesse nada. A solidão e todas aquelas desgraças me fizeram pensar muito no culpado de de todas as desgraças que eu passara naquele lugar inóspito. Obviamente, o culpado era o velho, pois naqueles momentos de raiva, eu jamais reconheceria nem pra mim mesmo, que foi uma má idéia subir aquela colina em Antofagasta. Aquilo me trouxe uma grande satisfação e dúvida ao mesmo tempo, pois não havia ninguém além de mim mesmo para confirmar a história.
Saí do meu refúgio por alguns minutos para cortar alguns cactos e tentar extrair um pouco d’água. Nos filmes é muito fácil pegar água de cacto, pois você apenas corta eles e bebe a água. Nos filmes também, os mocinhos não encontram velhos de chapéu que dão informações erradas. A primeira grande diferença dos cactos de filmes, é que os do Atacama são duríssimos e alguns deles são secos por dentro. Outra grande diferença são os espinhos, pois até o momento, eu não havia encontrado um espinho que seja naquelas folhas. O resultado veio depois, quando descobri que na verdade, os espinhos eram minúsculos chegando ao ponto de eu não poder vê-los. Aqueles malditos permaneceram sob minha pele durante o resto dos meus dias no deserto. Me arrependi profundamente daquele momento cada vez que usava as mãos. Gastei pelo menos mais uma hora para retirar os espinhos maiores e mais visíveis.
Utilizando minha vasta experiência em produzir água com cactos, que até então vinha dos filmes, comecei fazer água com as folhas. Espetei uma extremidade com um garfo e segurei a outra entre as botas. O primeiro passo foi retirar a grossa casca com uma faca de cozinha. Várias vezes o garfo escapou e espetou minha própria perna. Isso me fazia gritar várias sucessões de palavras rudes ao céu. Várias folhas de cacto, semi-descascadas, foram lançadas a vários metros de distância para aliviar a dor causada pelas espetadas do garfo nas pernas.
O segundo passo era raspar a folha e coletar a água no fundo de uma panela. Após duas horas de trabalho e vários furos nas pernas, eu já tinha um copo de água quente, verde e horrível. Mas era água, e eu não tinha gasto o meu precioso litro de água de verdade. Depois de tentar várias vezes, acabei aperfeiçoando minha técnica. Comecei fazer o uso de um plástico para evitar a evaporação e uma velha bandeira de tecido bem poroso para filtrar a água. Aquela técnica foi bem eficiente, me rendeu bem menos furos nas pernas que a vez anterior. Produzi pouco mais que um litro de água em apenas uma hora de trabalho. Guardei todos os restos de geléia de cacto numa sacola que passei a levar em minha cintura. Todas as vezes que fazia muito calor eu usava aquela geléia verde para proteger o rosto, braços e nuca.
Eram aproximadamente duas horas da tarde, quando comecei a caminhar novamente. Minha situação melhorou um pouco, mas comecei sentir os sinais das queimaduras toda vez que me mexia muito. Tive que parar novamente, pois comecei ter alucinações. O sol estava muito castigante, então decidi parar e aproveitá-lo para algo útil: evaporar água do rio salgado e ter água doce.
Como se fosse uma grande idéia que ninguém jamais teve antes, corri para pegar um pouco daquela água quente e densa com a panela. Inicialmente, coloquei a panela com um pouco dágua no fundo de um buraco no chão e com outra panela menor dentro. Tudo foi coberto com um plástico e uma grande dose de paciência foi dada.
Dediquei a espera a pensar sobre os erros que cometi. Aquilo foi realmente triste, então tive que mudar a minha linha de pensamento para o yogurt e pessoas queridas. Não me agüentei de curiosidade e fui logo ver quanto eu já havia produzido com aquele engenhoso sistema durante a meia hora de espera. Por desgraça, apenas algumas gotas estavam depositadas no fundo da panela e eram ainda salgadas. Talvez fosse por causa do sal que já estivesse depositado no fundo da panela.
Me senti derrotado e fui forçado a começar a beber parte daquele litro dágua de verdade. Não resisti á idéia de colocar um pouco de chocolate em pó que carregava comigo desde o Brasil. Negociava comigo mesmo, o quanto dos meus 250 gr. de chocolate em pó eu deveria usar. Argumentei a mim mesmo, que talvez aquele momento sublime não fosse motivo de tanta comemoração. Acabei, depois de muita resistência, poupando o chocolate em pó para o futuro.
Passei o resto daquela tarde no mesmo lugar, sem poder me mexer. Não pensei nada construtivo para agilizar a produção de água com aquela engenhoca. Não consegui mais que um copo de água até o fim da tarde. Pensei muito e voltei várias vezes atrás, antes de beber aquela água. Eu temia à possibilidade daquela água ser salgada e nada daquilo ter sentido. Mas a lógica física tinha que estar correta e acabei bebendo. Senti o gosto salgado da caneca, mas a água era realmente doce. Comemorei com muita alegria! Bebi o resto do copo com 100% do chocolate em pó, mandando o racionamento aos ares.
Antes do sol se pôr, consegui avistar uma grande montanha a leste1 e uma montanha não muito alta ao sudeste2. E, ao sul, depois de muita expectativa de chegar lá, consegui ver o que eu esperava ver desde o começo da viagem: o maior vulcão do mundo, o Ojos del Salado3.
Acampei ali mesmo tranqüilamente, como se eu soubesse onde eu estava. Aquela noite foi brilhante! Influenciado pelo chocolate e por ter ingerido mais que 5 litros de água tive duas idéias clássicas.
Primeira: “Estou num deserto, fazem 45°C no dia, por tanto, deverei andar durante a noite.” (óbvio!) Segunda: “Tenho muito combustível, posso usar ele para agilizar o sistema para evaporar a água e cobrir grandes distâncias a noite.” Dormi tranqüilo, pois sabia onde estava, sabia como chegar ao meu objetivo e tinha tudo o que eu precisava (menos comida) para chegar lá. Acordei de madrugada, talvez pela ansiedade de continuar. Até que fazia frio, pelo menos 10°C. O céu estava totalmente escuro com tantas estrelas que parecia impossível. Desmontei meu acampamento rapidamente e segui na direção estabelecida durante o dia, acompanhando o rio durante todo o momento pela margem esquerda. Mais tarde, mudei para a margem direita, pois o caminho daquele lado estava menos acidentado. A super-nutrição do dia anterior, com o aditivo da quase total escuridão, me fizeram passar desapercebido pelas marcas que eu vinha seguindo a vários dias.
Não conseguia enxergar realmente nada, as pilhas da minha lanterna já estavam fracas faziam dois dias. Várias vezes, tropecei nas pedras, mas esse era o preço a se pagar pelo frio. Minha marcha na escuridão continuou por seis longas horas até que o sol começou dar sinais novamente.
01/03/01 - Quarto dia perdido - Tempestade de areia
Fiquei muito feliz por ter rendido tão bem na noite anterior. Era realmente impressionante como meu corpo rendia naquelas condições. O nascer do sol foi muito diferente dos outros. O sol nasceu detrás de uma grande montanha a nordeste1 e toda sua silhueta ficou iluminada pelo sol. Comecei a ver as coisas com outros olhos.
Junto com o sol veio a desgraça do calor, mas as primeiras horas da manhã me permitiram enxergar o horizonte com clareza. Descobri que aquela montanha a sudeste2 ficava mais perto que pensava e consegui identificar uma cúpula nevada em seu cume. Logo atrás dela, ficava o Ojos del Salado3. Havia uma linha que vinha perto da base daquela montanha que jamais descobri o nome2, poderia ser uma estrada.
Traumatizado com a experiência que tive o dia anterior, fiquei esperando o sol ficar forte durante horas. Mais tarde, mesmo com o sol no meio do céu e sem a presença daquela brisa oceânica, não senti tanto calor assim. Provavelmente, eu tinha ganhado um pouco de altitude durante a noite e isso fez a temperatura daquela região cair um pouco. Confiante por poder caminhar durante o dia, queria chegar logo àquela linha a sudoeste. Não muito tempo depois de sair, percebi que estava mais queimado que o normal. Com a altitude, o filtro de ar ficou mais fraco, tornando minha aparência ainda mais vermelha.
Guiado apenas pela esperança, esperava encontrar algum sinal humano após cada uma das colinas ou vales à minha frente. Programava eu mesmo para chegar só até ali no topo daquelas colinas, mesmo sabendo da imensidão dos vales e das vastas planícies que eu tinha pela frente.
Como se fosse algo proposital, ou algum tipo de teste, aquele maldito deserto colocou um grande vale profundo e salgado a minha frente. Após vários escorregões, pedras no sapato e muito calor, consegui chegar ao outro lado do vale em forma de canyon. Fiquei muito bravo ao descobrir que um segundo vale surgira do nada, logo atrás do primeiro. De alguma forma, aquele lugar estava conspirando contra mim.
Avistei uma vicuña dentro do segundo vale. Ela ingeria o pouco de vegetação rasteira que havia na parte central do vale seco. Ficou parada, olhando aquela figura ridícula que cruzava o vale (ou seja, eu!). Ficou me olhando como se eu fosse um intruso, como se eu estivesse sujando a paisagem.
Já a minha visão a ela, era bem diferente. Ficava imaginando como seria melhor assar uma vicuña. Talvez um churrasco seria uma boa idéia, mas não havia algum tipo de lenha ali. Não seria uma boa idéia usar o fogareiro, pois deixaria gosto de gasolina na carne. No fim, foi só eu mexer o braço para espantar uma mosca, que ela disparou para o outro lado do vale. Fiquei me matutando, pois eu estaria muito débil para matar um animal de um metro e meio de altura com uma faquinha de cozinha. Pelo menos, eu tinha me distraído e passei um vale bem difícil (para não dizer que eu deixei escapar a melhor oportunidade que tive durante toda a viagem).
Novamente na planície, consegui enxergar aquela estrada. Não demorei muito para chegar, pois aquilo tudo era uma grande descida. Usei muita geléia de cacto para aliviar as queimaduras do sol. O cheiro que o cacto seco produzia era tão bom, que atraía todas as possíveis moscas que vasculhavam aquela vasta região em busca de alimento.
Já eram mais ou menos 17:00 hs quando cheguei naquela estrada que levava a sudoeste, já no fim da planície. Aquela montanha já estava realmente perto2, e quanto mais eu andava, mais cumes nevados emergiam ao sul. Pensava comigo mesmo que se eu precisasse chegar ao Ojos del Salado através daquela cordilheira toda, seria realmente difícil.
Ventos muito fortes, vindos do mar começaram a soprar naquele fim de tarde. As rajadas de vento, modificavam o topo das colinas de areia, criando uma longa pena amarelada suspensa no ar. O barulho produzido parecia um aviso, que eu ignorei novamente, assim como em Antofagasta. Após alguns minutos, tornou-se impossível continuar, pois eu não conseguia enxergar à frente.
Por volta das 18:00 hs, procurei algum refúgio para passar a tempestade de areia. Encontrei um rochedo onde pude passar alguns minutos até o vento ficar mais fraco. Ainda havia areia carregada pelo vento, cruzando o céu. A rocha de 1,2 metros de altura, não era o melhor lugar do mundo para esperar uma tempestade de areia passar, mas suficiente para apoiar a mochila e montar a barraca. Após uma pequena luta contra o vento, consegui montar a barraca, mas ela já estava cheia de areia quando entrei.
Parecia que minha presença irritava aquela região. Pensei muito e não encontrei razão para um ser-humano ir para aquele lugar por vontade própria. Aquele deserto era realmente cruel e fazia com que todas as tarefas se tornassem exaustivas e dolorosas. O som ensurdecedor da lona da barraca batendo, tornava até mesmo pensar, uma tarefa desagradável. Fiquei me torturando psicologicamente o resto daquela tarde.
O vento continuou por duas longas horas até pouco antes de escurecer. O pôr do sol foi lindo, muito vermelho e cheio de poeira suspensa. Havia areia acumulada em cada centímetro cúbico de meu acampamento. Deitei pensando se deveria caminhar à noite e talvez comer algo mais substancioso, mas dormi de tão cansado que estava.
02/03/01 - Quinto dia perdido - O vento continua
Acordei pouco antes do amanhecer naquele lugar caótico e cheio de areia. Andei alguns metros para usar o urinal, atrás do rochedo e descobri algo muito interessante: Havia um vale, relativamente grande, com vegetação rasteira no centro. Tinha até trevos e mato ralo, mas não havia água na superfície. A palavra água estalou em meus pensamentos. O fim dos dias de sede e má alimentação foram resumidos em apenas alguns passos até aquele vale. Com as mãos, cavei 30 cm naquela terra úmida e cheia de pedrinhas. Minhas mãos ficaram apenas molhadas, mas após 50 cm, havia água!
Cavei um pequeno buraco e o isolei com pedras para evitar que a areia voltasse para dentro de minha obra. Momentos depois, explodindo de impaciência, enfiei minha caneca no fundo daquele buraco e coletei um pouco do líquido que eu tinha represado.
Independente do gosto daquele líquido marrom, aquilo era água DOCE!. O vale vinha do nordeste, daquelas montanhas nevadas, mas a estrada se perdia do vale logo adiante. Não teria sentido seguir a leste, sem água, então, segui a sudeste, beirando o pequeno rio subterrâneo. Reparei ter deixado a montanha que vinha acompanhando a dias, para trás2. Mas ganhei um novo amigo ao sudeste, o próprio Ojos del Salado3.
Coletei o máximo possível daquele líquido marrom, desmontei o acampamento e iniciei minha marcha a sudoeste. O vale ia ficando cada vez mais largo e a estepe já predominava, mas eu ainda estava num deserto, longe de ser uma área fértil.
Encontrei uma grande rocha poucas horas ao sul dali. Era um belo lugar para uma refeição, tinha até uma pedra que me serviria de mesa e outras para cadeiras. Eu tinha tudo para uma boa e divertida refeição, só faltavam alguns detalhes: comida para pôr na mesa, pessoas para sentarem nas cadeiras e água para encher minha caneca. Mas pelo menos, panelas eu já tinha. Preparei deliciosos 100 gr de arroz, com muito sal e cominho. Até temperei o arroz com geléia, mas não foi tão delicioso quanto eu esperava.
Ao cavar um buraco no vale para obter um pouco dágua, tive uma grande surpresa ao descobrir que a água já era salgada, mesmo abaixo do solo. Tive que usar meu método revolucionário para obter água de rios salgados. Após duas horas, com comida e bebida na mesa, comecei almoçar. No fim, não foi tão triste assim. O único problema que tive, foi que derrubei o copo dágua na mesa, deixando ela evaporar em segundos. Pelo menos, eu já tinha acabado o arroz. Fiquei irado!, iniciei agressões contra as pedras e minha própria mochila. Concluí que a culpa foi da pedra, por ser tão irregular.
Exatamente como no dia anterior, os ventos começaram a soprar quando o sol já havia percorrido um terço do céu. Desta vez, segui os sinais do tempo e acampei para evitar problemas com a areia. Assim como previsto, o vento soprou cada vez mais forte, ao ponto de carregar areia. Dentro da barraca confortável, eu observava às gargalhadas, toda a cena se desenvolvendo do lado de fora, tudo através de uma pequena brecha no zíper.
Aquele dia não foi produtivo, pensei nisso enquanto conseguia água. O resto do dia foi triste, pois senti muita falta de alguém para conversar. Não sei exatamente quantos litros de água eu consegui, mas bebi vários antes de encher as garrafas. Aquele foi o dia em que mais me hidratei. Dormi cedo, logo após o sol se pôr.
03/03/01 - Sexto dia perdido - Cactos
O vento continuou durante toda a noite, acordei com rajadas de vento envergando a armação da minha barraca. Por volta das 8:00, o vento diminuiu a intensidade e com isso, veio o calor. Me senti melhor naquela manhã, mas tive muita fome.
Minha visão e pensamentos, começaram a ficar estranhos, possivelmente pela falta de vitaminas. As queimaduras tinham inflamado muito e as do nariz e orelhas se transformaram em feridas abertas. Ardia muito usar a geléia de cacto nessas regiões.
Encontrei uns cactos curiosos nas proximidades do acampamento, tinham a ponta das folhas ovaladas. Pareciam brotos, mas na verdade, eram uma espécie de fruta. Algumas delas eram brancas no interior, mas a maioria tinha uma cor alaranjada. Experimentei aquela estranha fruta com muita cautela. As brancas eram horríveis e deixavam gosto muito ruim na boca, mas as alaranjadas eram muito boas e até um pouco doces.
Após mais ou menos uma hora e meia, não existiam mais brotos na parte superior dos cactos da região. Muitos deles tinham buracos e estavam meio podres, talvez por causa dos pássaros. Não vi nenhum pássaro morto naquela planície e aquilo foi um bom sinal. Não vou dizer que matei minha fome, mas comi tantos daqueles brotos, que cheguei a um ponto de olhá-los com desprezo.
Desmontei meu acampamento e por volta das 10 da manhã, comecei a caminhar. Me sentia bem melhor com toda aquela água e alimento no estômago. Não muito longe do meu acampamento, entre duas colinas, avistei uma estrada norte-sul. Parecia ter mais marcas de pneu do que o normal. Apenas dois quilômetros ao sul dali, achei um cruzamento e uma nova estrada seguia a sudoeste. O Ojos del Salado3 começou a ficar a sudeste, mas eu sabia que ali, em qualquer lugar, passava uma estrada de asfalto, que vinha de Copiapó4. O vulcão estava realmente longe, por isso eu teria que ir à cidade para conseguir comida e aliviar as queimaduras. Algumas horas de caminhada depois, percebi estar no topo de uma colina, meio a dois grandes vales. Aquilo me permitiu ter visão á base do Ojos del Salado. Desfiladeiros sem fim surgiram além de minha previsão até a base da montanha. Concluí que seria realmente suicídio, continuar direto até o vulcão, pois ele estava bem mais longe do que eu pensava.
A estrada cruzava um profundo vale e seguia a oeste, longe de onde eu queria chegar. Decidi seguir pelo vale que eu acompanhava a dois dias, assim pelo menos, eu seguiria a sudoeste, onde supostamente ficava Copiapó. Fiquei maluco com aquela rede de estradas inexplicáveis que não levavam a lugar nenhum, pois jamais achei uma lógica. Não teria sentido continuar seguindo aqueles caminhos nos quais me perdera seis dias atrás. Acampei no topo daquele longo vale com vista para todo o horizonte. O entardecer foi nítido e sem vento nenhum. Aquela foi uma das primeiras vezes em minha vida que escutei o silêncio total. Tive idéias e conceitos que jamais tinha tido antes diante daquilo, mas a preocupação e a falta de controle da minha situação prevaleciam sobre essas coisas. Era muito difícil se concentrar nas tarefas, tudo acabava me lembrando do fato que eu não fazia a mínima idéia de onde eu estava. Ao entrar na barraca e fechar os olhos, desabava naquele mundo de dúvidas e coisas ilógicas que tinham me acontecido. Descobri que o melhor remédio para aquilo tudo era dormir, e tentar ver com outros olhos ao acordar.
04/03/01 - Sétimo dia perdido - Sinais humanos, finalmente
Acordei com um pensamento radical, não queria saber mais de caminhos ou estradas. O Ojos del Salado3 estava a leste, se eu andasse ao sul, com certeza, encontraria o asfalto que me levaria a Copiapó.
Era muito difícil ter idéias e criar estratégias com minha miserável nutrição. De certa forma, aquelas idéias radicais me aliviaram, pois eram muito simples. Qualquer um, com um pouco mais de energia para gastar, teria idéias melhores e não se perderia naquela rede de estradas, mas meu cérebro não deu para mais do que isso. Evaporei o máximo possível de água, coletei alguns frutos de cacto e iniciei minha caminhada radical.
Cruzei um grande vale cheio de pedras no centro, mas sem água alguma. Encontrei uma pequena lagoa mais à frente, salgada é claro, com dois flamingos. Foi muito bonito ver como aqueles dois almoços, quero dizer, flamingos, se mexiam na água. Os arbustos já eram altos e produziam sombra suficiente para sentar perto deles. Contemplei aqueles dois animais engraçados em sua busca incessante por comida. Imaginei comigo mesmo: ...eu sei como é, eu sei...
Avistei um avião que ia para o norte. Fiquei muito contente ao ver que mais pessoas cruzavam aquele deserto cruel, talvez de modo mais rápido, mas de fato, o cruzavam. Provavelmente eles não conseguiam me ver, pois estariam ocupados em comer suas refeições de avião com laranjas de verdade e tudo mais.
Parei muitas vezes para comer minhas frutas alaranjadas, hidratar a pele e beber água. Eu tinha perdido totalmente a esperança, que normalmente eu teria, em ver algum sinal humano atrás das colinas. Nada estranho após 6 dias de decepções. Assim como qualquer vale, cheguei à outra margem do que eu estava cruzando e sentei no topo da colina para descansar. Molhei a boca com um pouco dágua e enquanto eu rosqueava a tampa do cantil, olhando o horizonte, vi simplesmente, uma cidade enorme!! (para os padrões que eu tinha naquele momento). Não lembro de ter colocado o cantil na cintura. Não me lembro de ter levantado e não me lembro de ter descido toda aquela colina até o próximo vale. Apenas lembro de ser conduzido por uma força estranha e inconsciente para aquelas casas. Não havia mais sede ou fome, havia apenas uma cidade, que me daria tudo o que eu precisava. Após três horas caminhando, no sol escaldante, começaram haver sede e fome, e talvez a cidade não me desse tudo o que eu precisava. A imagem estática e deformada pelo calor, não havia mudado nada em três horas. Uma grande mancha que parecia água, ficou entre minha vista e a cidade.
Aquele lugar não me enganava mais. Eu sabia que era uma miragem. Vários dias de pensamentos estúpidos, visões de lagos cristalinos no horizonte e corridas para chegar logo a eles, seguidos de decepções, me convenceram que aquela miragem fajuta iria logo desaparecer.
Continua...
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