Expedições
Machu Picchu
19/2/2001 - Maximo
Alguns meses após a Odisséia Austral já estávamos planejando outra viagem. Entre muitos outros, o projeto mais viável de acordo com o tempo e dinheiro disponível foi o que planejávamos há muito tempo, mas não tínhamos data para ir: Machu Picchu.
Alguns meses após a Odisséia Austral já estávamos planejando outra viagem. Entre muitos outros, o projeto mais viável de acordo com o tempo e dinheiro disponível foi o que planejávamos há muito tempo, mas não tínhamos data para ir: Machu Picchu.
A primeira idéia era conhecer apenas a cidade perdida, mas depois de estudar um pouco os mapas, acabamos ampliando bastante a rota. Como se não bastasse, incluímos algumas montanhas no roteiro. Desta vez contamos com Fábio Fontana Rogério, que nos acompanhava há algum tempo por viagens pelo Brasil.
Saímos de São Paulo passando por Campo Grande e Corumbá, onde atravessamos o Pantanal até chegar à fronteira com a Bolívia, em Puerto Quijarro. Lá iniciam-se o trilhos do "Trem da Morte"que nos levou até Santa Cruz de La Sierra, no meio do Chaco Boliviano. Não foi nada agradável ficar 22 horas dentro daquele trem, dividindo espaço com contrabandistas e suas muambas, além de ambulantes que vendiam comida bastante suspeita.
Os ônibus e os hotéis na Bolívia são tão baratos que nem valia a pena tentar pegar carona e acampar como fazíamos nas viagens anteriores. Passamos por Santa Cruz e Cochabamba, chegando ao altiplano boliviano. Lá estivemos em contato com a miséria do homem do altiplano, e passamos a dar valor a coisas que jamais havíamos dado. Água potável, por exemplo, valia ouro!
Seguimos para La Paz, com 1,2 milhões de habitantes, onde ficamos alguns dias conhecendo a capital dos bolivianos e as ruínas ali próximas. Conhecemos o lago Titicaca, a alguns quilômetros da fronteira com o Peru. Beiramos as ancestrais margens deste lago que dos lagos navegáveis, é o mais alto do mundo. Chegamos a Cuzco, no país vizinho, onde conseguimos a permissão para percorrer a trilha Inca.
Tínhamos a errada impressão de que a trilha seria selvagem como outras que já havíamos percorrido, mas a trilha Inca, particularmente, não tem nada de selvagem. Até o primeiro acampamento fomos acordados de manhã por vendedores de pão e café quente. Praticamente em nenhum lugar da trilha onde paramos, ficamos sem encontrar algum turista, vendedor ou carregador. Em Wiñaywayna, que é o último acampamento antes de chegar na cidade sagrada, existe até um hotel. Ao chegar em Machu Picchu nos deparamos com centenas de pessoas que vinham de ônibus desde Águas Calientes, 10 Km mais abaixo. Também encontramos barraquinhas que vendem refrigerantes e salgadinhos. Existe um horário de entrada e saída para permanecer nas ruínas, mas pelo menos, pudemos conhecer um pouco do que foi a cultura Inca.
Enquanto passeávamos pelas ruínas, alguns guardas apitavam cada vez que nos afastássemos dos locais de visitação. Talvez, a trilha Inca tenha perdido toda aquela magia e ilusão de ser uma cidade realmente perdida. Ao encontrar toda aquela gente, acabamos esquecendo que estamos caminhando no passado dos povos pré-colombianos, que viveram ali há 600 anos atrás. Em contrapartida, a beleza das paisagens e imponência das ruínas ainda não foi perdida. Em Águas Calientes, existe um trem que leva até Cuzco, mas assim como a permissão da trilha Inca, o trem é caríssimo e o preço é cobrado em dólares.
15 dias: Muito tempo longe das montanhas
De volta a Cuzco, conhecemos algumas das inúmeras ruínas que se encontram distribuídas numa das cidades mais antigas das Américas. Numa delas, Sacsaywaman, é realizada a festa anual do sol, onde centenas de peruanos ensaiam danças e cultos da época dos Incas.
Voltamos a La Paz para tentarmos escalar o Huayna Potosi, com 6088 metros de altitude. Já quando chegamos na base da montanha, percebemos que estávamos na época errada para escalar. Metros de neve se acumulavam sem parar e dificultaram bastante nossa subida para acampamento avançado. Quando já estávamos com neve até a cintura e a temperatura piorando, decidimos parar e montar um acampamento a 5000 metros de altitude. Tivemos que cavar muito e amassar a neve para termos uma base firme para a barraca. Por apenas cinco minutos, o tempo melhorou e conseguimos ver o cume da montanha coberto de neve. O resto do tempo, nevou sem parar, o que piorou muito as condições da escalada para uma possível ascensão.
No segundo dia, após percebermos que seria inútil nossa espera pela melhoria do tempo começamos a descida. Enfrentamos novamente toda aquela neve que ia até a cintura, tudo isso com 40kg nas costas. Nossa experiência frustada na Cordilheira Real nos fez perceber que as escaladas na Bolívia devem ser feitas no inverno, onde quase não há precipitações.
Programa de Índio
De volta a La Paz, me separei de Pedro e Fábio, que tiveram que voltar ao Brasil para iniciar o ano letivo nas suas universidades. Assim, parti sozinho para Uyuni, onde fica o famoso deserto de sal com o mesmo nome. Ao atravessar a cordilheira ocidental e chegar ao Atacama, conheci o que é aperto de verdade. Logo que cheguei ao Chile, fui assaltado e só me sobraram quinze dólares no bolso, com isso, tive que cruzar o deserto mais árido do mundo. Pedindo carona de dia, me encolhia na pequena sombra que minha mochila fazia, para não desidratar com o sol escaldante. À noite, caminhava aquilo que não conseguia fazer de dia, no total, foram 420 Km. Sem dinheiro para comida, racionava o pouco que já possuía na mochila, isso quando conseguia água para cozinhar. Várias vezes, na falta do que de beber, comia cactos.
Desta maneira, cheguei ao passo San Francisco, na fronteira com a Argentina, onde fica o Ojos del Salado, o maior vulcão do mundo. Minha intenção era de escalá-lo, mas por desrespeitar os policiais que me pediram uma autorização para a escalada, acabei sendo preso no Chile. Após dois dias de cárcere, tentei escalar o Cerro Incahuasi (6615 metros), na Argentina. Cheguei aos 6400 metros de altitude, com fome e sofrendo com os terríveis ventos brancos que não me permitiam enxergar nada. Tive que voltar ao acampamento. Na manhã que antecedeu o ataque ao cume, testemunhei uma avalanche que passou a apenas quinze metros da minha barraca.
Ao todo, percorri 2500 Km com os meus quinze dólares. Trabalhando no interior de Córdoba, minha terra natal, consegui dinheiro para voltar ao Brasil e reencontrar Fábio e Pedro. Trocamos muitas histórias e planejamos novas viagens.
Isto é apenas um resumo desta fantástica experiência de vida que tive e que só viajando se consegue ter. No fim de qualquer viagem, acabamos conhecendo nós mesmos, encontrando nossos limites, vencendo nossos medos e descobrindo que qualquer viagem, é uma viagem interior.
Veja: Fotos da "Viagem Interior" Leia também: Artigos: Macchu Pichu mais cara, conheça alternativas para economizar Leia também: Revanche ao Huayna Potosi em 2002 Leia também: Atacama em solitário, a pé
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